Eliezer Levin
Eliezer Levin é autor de livros de contos, crônicas e romances. O seu primeiro romance. Bom Retiro, publicado em 1972, constituiu-se por assim dizer, em sua temática regionalista, um marco solitário no panorama de nossa um livro sobre o bairro judaico de São Paulo. Até então nenhum romance se ocupara especificamente do assunto. Conforme crítica da época, o autor estreava em plano alto, o nível de realização literária que sugeria maturidade. Dono de estilo simples, claro, fluente, havia escrito “um livro envolvente, de evocativa beleza, digno dos escritores de raça”
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Eliezer Levin es autor de libros de cuentos, crónicas y novelas. Tu primera novela. Bom Retiro, publicado en 1972, constituyó, por así decirlo, en su temática regionalista, un hito solitario en el panorama de nuestro libro sobre el barrio judío de São Paulo. Hasta entonces, ninguna novela había tratado específicamente el tema. Según la crítica de la época, el autor debutó en un nivel alto, el nivel de realización literaria que sugería madurez. Dueño de un estilo sencillo, claro y fluido, había escrito “un libro cautivador, de belleza evocadora, digno de escritores de raza”.
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Eliezer Levin is the author of books of short stories, chronicles and novels. Your first novel. Bom Retiro, published in 1972, constituted, so to speak, in its regionalist theme, a solitary landmark in the panorama of our book on the Jewish neighborhood of São Paulo. Until then, no novel had specifically dealt with the subject. According to the critics of the time, the author debuted at a high level, the level of literary achievement that suggested maturity. Owner of a simple, clear and fluid style, he had written “a captivating book, of evocative beauty, worthy of writers of his ethnicity.”
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São Paulo em 1943


O retrato
O retrato ficava bern no meio da parede da nossa sala de jantar, en frente da mesa. Tratava-se de um desenho anti go, feito a lápis-crayon, corn urna armação de vidro e urna grande moldura dourada de estilo. Nele, o meu avo aparecia exibindo a sua longa barba preta e um par de óculos sem aro; os olhos, grandes e luminosos, dominavam o rosto. Algumas rugas na testa emprestavam-lhe um ar mais sério, em contras te com a expressão da boca, que continha um meio-sorriso.
Desde que me conhecia por gente, o retrato esteve sempre lá. Tão acostumados estávamos com ele, que passava des percebido, corno qualquer outra coisa comum da sala. Mas, no meu caso, nao era bem assim.
A grande mesa da sala era normalmente a mesa em que costumava fazer as Iições. Diariamente, punha os livros e cadernos sobre ela, ficando ali debruçado por várias horas, até a conclusão do trabalho. Por vezes, meio distraído, olhava para o retrato, dando, então, com seus grandes olhos, que me fitavam seriamente atrás das lentes. Tinha a impressão de que es tavam interessados em tudo o que eu fizesse; nao me deixavam por um instante. Como eu tivesse o hábito de repetir os Ao observar os pontos andando de um lado para o outro da sala, eu conseguia até sentir como eles me seguiam; não apenas os olhos, mas o rosto inteiro. Eles se viravam em minha direção e praticamente me seguiam. Eu sentia tanto a presença do meu avô que, com o tempo, comecei a ter, por assim dizer, um diálogo silencioso com ele. Eu lhe contava minhas dúvidas, sugeria meus problemas, confiava meus planos e aventuras. Às vezes, na véspera de provas, eu ficava acordado estudando até tarde da noite. A casa ficava muito silenciosa. Todos dormiam. Sozinho com meus livros, eu tentava rever os últimos pontos. Quando, exausto e cochilando, eu parava por um breve momento, pegava aqueles grandes olhos fixos em mim, como se me olhassem com curiosidade. Acho que poucas pessoas na casa se importavam com o retrato. De minha parte, eu o conhecia tão bem que conseguia reproduzi-lo nos mínimos detalhes. Eu podia dizer de cor o número de rugas em sua testa, o corte de seu cabelo e barba, o estilo de seus óculos, a luz em seus olhos, o formato de suas orelhas e nariz. No entanto, de vez em quando eu podia jurar que ele havia passado por algumas mudanças. As rugas às vezes pareciam mais profundas, às vezes menos; o meio sorriso nos cantos de seus lábios foi substituído por uma expressão diferente, quase triste; os óculos montados em seu nariz tinham mudado ligeiramente de posição. Mas essas eram diferenças tão insignificantes que fiquei em dúvida. De uma coisa, no entanto, eu tinha certeza absoluta: sua barba. Eu sempre pensei que fosse preta; a barba preta de um profeta. Eu não tinha dúvidas sobre isso. E foi um verdadeiro choque para mim quando, uma noite, enquanto olhava para o retrato, particularmente para a barba, descobri alguns reflexos. Fui até lá e examinei seu rosto. Com certeza, havia alguns cabelos grisalhos. Eu não os tinha notado antes?
–Você não percebeu nada no retrato?
–Que retrato?
–Do vovô.
–O que eu temo retrato?
–Você não acha que a barba está um pouco diferente?
–Diferente? Como?!
Ela levantou a cabeça, olhou para mim e depois olhou para o retrato.
–O que você vê de diferente?
–Você não acha que estão aparecendo alguns cabelos grisalhos?
–Ah, isso! Esses fios sempre foram brancos.
–Mas, mãe, a barba do vovô era preta. Mamãe riu alto; Eu não insisti mais.
Outra noite, abordei meu pai. No momento em que ele largou o jornal, entrei na conversa. Inicialmente perguntei quem havia desenhado o retrato e quando o trouxeram. Quando pensei que papai estava suficientemente preparado, fui direto ao assunto:
–Você não percebe nenhuma diferença nele?
–Assim?
–A barba possui fios brancos; não existia antes.
–Você deve estar maluco, sempre haverá cabelos grisalhos.
Dizendo isso, deu uma rápida olhada no retrato e pegou novamente o jornal. Suas palavras foram incisivas, não deixando margem para dúvidas.
Mas não desisti das investigações. Eu fui em frente. Eu tinha acabado de desistir do meu pai. E então passei para outro membro da família.
É verdade que, com este, não tive nada a temer; Por outro lado, não parecia que eu iria conseguir muito. Meu irmão Srulic.
–Srulic – disse a ele, quando estávamos sozinhos -, preste atenção no que vou dizer. Dê uma boa olhada no retrato do vovô e me diga qual era a cor da barba dele.
Os olhos de Srulic brilharam, ele ficou orgulhoso por eu estar me dirigindo a ele de forma tão educada.
–A cor?!
–Sim, a cor.
–Cor?!
–Então você não sabe qual é a cor? Branco, preto, azul, vermelho, roxo. Você entende?
Imediatamente vi que não, desisti dele.
Continuei minha investigação com as outras pessoas que costumavam entrar na casa. Falei com todos, sem exceção, e todos, além de mostrarem uma expressão de surpresa, estranhando a pergunta, foram unânimes em dizer que eu estava enganado. É claro que, a essa altura, minhas convicções já davam sinais de abalar e comecei a aceitar a ideia de que estava enganado. E o pior de tudo é que o fato passou a ser de domínio público, obrigando-me a aceitar ironias de ambos os lados.
–Descobriu mais algum cabelo grisalho? – perguntou meu pai.
Decidi esquecer o assunto.
Quando passei no vestibular para o Ginásio Estadual, esse fato despertou muita alegria em casa; Naquela época não era fácil conseguir uma vaga no ensino médio. Portanto, minha conquista teve sabor de vitória e me proporcionou uma verdadeira consagração da minha família. A notícia se espalhou rapidamente.
Dai a pouco, nossa casa ficou completamente cheia. Os vizinhos estavam chegando, cumprimentando meu pai, que estava um eufórico. Mamãe preparou os copos, estendeu a toalha branca na estava na mesa e não parava de trazer cupcakes da cozinha. Bu, que era o herói, naturalmente se divertiu com tudo. Mas no local, entre o grupo que me cercava, olhei casualmente para o retrato. Os olhos me olharam felizes. Você tive e novamente aquela estranha impressão de que a barba parecia mais grisalha. Um bom número de cabelos grisalhos se somaria aos que eu já pensava conhecer. Eu cheguei mais perto.
–Parabéns – meu avô sussurrou para mim.
Alguns meses se passaram. Fizemos uma pequena reforma, trocamos alguns móveis, mamãe pintou a sala e trocou as cortinas.
Durante a pintura, o vidro do retrato quebrou. Papai teve que levá-lo ao vidraceiro; Enquanto isso, mamãe guardou no armário. Depois, passou um bom tempo sem que tivéssemos notícias dele. Só fui vê-lo novamente depois de vários meses, casualmente. Um dia (isso foi por volta dos meses finais da guerra), ao vasculhar o pequeno depósito, encontrei-o encostado num canto, um pouco empoeirado, junto com algumas bugigangas. Limpei o vidro, que ainda estava quebrado, com um pano e aproximei-o da janela para ver melhor à luz.
Lá estava meu avô: os óculos sem aro, as rugas na testa, o meio sorriso no canto dos lábios. Os olhos me olharam com curiosidade. A barba estava completamente branca.
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El retrato
El retrato estaba ubicado en medio de la pared de nuestro comedor, frente a la mesa. Era un dibujo antiguo, hecho con crayones, con un marco de cristal y un marco dorado grande y elegante. En él aparecía mi abuelo luciendo su larga barba negra y unas gafas sin montura; los ojos, grandes y luminosos, dominaban el rostro. Algunas arrugas en su frente le daban un aspecto más serio, en contraste con la expresión de su boca, que contenía una media sonrisa.
Desde que tengo uso de razón, el retrato siempre ha estado ahí. Estábamos tan acostumbrados que pasó desapercibido, como cualquier otra cosa común en la habitación. Pero en mi caso no fue así.
La mesa grande de la sala era normalmente la mesa donde solía dar mis lecciones. Todos los días colocaba allí sus libros y cuadernos, permaneciendo allí durante varias horas, hasta completar el trabajo. A veces, un poco distraído, miraba el retrato y luego, con sus grandes ojos, me miraba seriamente detrás del objetivo. Tuve la impresión de que les interesaba todo lo que hacía; No me dejarían ni por un momento. Como tenía la costumbre de repetir los puntos al observar los puntos moviéndose de un lado a otro de la habitación, incluso podía sentir como me seguían; no sólo los ojos, sino todo el rostro. Se volvieron hacia mí y prácticamente me siguieron. Sentí tanto la presencia de mi abuelo que, con el tiempo, comencé a tener, por así decirlo, un diálogo silencioso con él. Le conté mis dudas, le sugerí mis problemas, me confié mis planes y aventuras. A veces, el día antes de los exámenes, me quedaba estudiando hasta altas horas de la noche. La casa estaba muy silenciosa. Todos durmieron. A solas con mis libros, intenté repasar los últimos puntos. Cuando, exhausto y adormecido, me detuve por un breve momento, vi esos grandes ojos mirándome fijamente, como si me miraran con curiosidad. Creo que a pocas personas en la casa les importaba el retrato. Por mi parte, lo conocía tan bien que podía reproducirlo hasta el más mínimo detalle. Podía saber de memoria el número de arrugas de su frente, el corte de su cabello y barba, el estilo de sus gafas, la luz de sus ojos, la forma de sus orejas y nariz. Sin embargo, de vez en cuando podría jurar que había pasado por algunos cambios. Las arrugas a veces parecían más profundas, a veces menos; la media sonrisa en las comisuras de sus labios fue reemplazada por una expresión diferente, casi triste; Las gafas montadas en su nariz habían cambiado ligeramente de posición. Pero eran diferencias tan insignificantes que tenía dudas. Sin embargo, de una cosa estaba absolutamente seguro: de su barba. Siempre pensé que era negro; la barba negra de un profeta. No tenía dudas sobre eso. Y fue un verdadero shock para mí cuando, una noche, mirando el retrato, especialmente la barba, descubrí algunos reflejos. Fui allí y examiné su rostro. Efectivamente, había algunas canas. ¿No los había notado antes?
–¿No notaste nada en el retrato?
–¿Qué retrato?
–Del abuelo.
–¿A qué le temo al retrato?
–¿No crees que la barba se ve un poco diferente?
–¿Diferente? ¡¿Como?!
Levantó la cabeza, me miró y luego miró el retrato.
–¿Qué ves diferente?
–¿No crees que te están saliendo algunas canas?
–¡Ah, eso! Estos cables siempre han sido blancos.
–Pero mamá, la barba del abuelo era negra. Mamá se rió a carcajadas; No insistí más.
La otra noche me acerqué a mi padre. En el momento en que dejó el periódico, me uní a la conversación. Al principio pregunté quién había dibujado el retrato y cuándo lo habían traído. Cuando pensé que papá estaba lo suficientemente preparado, fui directo al grano:
–¿No notas ninguna diferencia en él?
–¿Como esto?
–La barba tiene hilos blancos; antes no existía.
–Debes estar loco, siempre habrá canas.
Dicho esto, echó un rápido vistazo al retrato y volvió a coger el periódico. Sus palabras fueron incisivas y no dejaron lugar a dudas.
Pero no abandoné las investigaciones. Seguí adelante. Acababa de renunciar a mi padre. Y luego se lo pasé a otro miembro de la familia.
Es cierto que con éste no tenía nada que temer; Por otro lado, no parecía que fuera a conseguir mucho. Mi hermano Srulic.
–Srulic – le dije, cuando estábamos solos –, presta atención a lo que voy a decir. Mira bien el retrato del abuelo y dime de qué color era su barba.
Los ojos de Srulic se iluminaron, estaba orgulloso de que me dirigiera a él con tanta educación.
–¡¿El color?!
–Sí, el color.
–¡¿Color?!
–¿Entonces no sabes de qué color es? Blanco, negro, azul, rojo, morado. ¿Lo entiendes?
Inmediatamente vi que no, lo abandoné.
Continué mi investigación con las otras personas que solían entrar a la casa. Hablé con todos, sin excepción, y todos, además de mostrar una expresión de sorpresa, encontrando extraña la pregunta, fueron unánimes en decir que me había equivocado. Por supuesto, en este punto, mis convicciones
Ya daban señales de temblar y comencé a aceptar la idea de que estaba equivocado. Y lo peor de todo es que el hecho pasó a ser de dominio público, obligándome a aceptar la ironía de ambas partes.
–¿Descubriste más canas? – preguntó mi padre.
Decidí olvidarme del asunto.
Cuando aprobé el examen de ingreso al Gimnasio del Estado, este hecho provocó mucha alegría en casa; En aquella época no era fácil conseguir una plaza en el bachillerato. Por eso, mi logro tuvo sabor a victoria y me dio una verdadera consagración de mi familia. La noticia se difundió rápidamente.
Pronto nuestra casa estuvo completamente llena. Los vecinos iban llegando, saludando a mi padre, quien estaba eufórico. Mamá preparó los vasos, extendió el mantel blanco sobre la mesa y siguió trayendo pastelitos de la cocina. A Bu, que era el héroe, naturalmente le divertía todo. Pero allí, entre el grupo que me rodeaba, miré casualmente el retrato. Los ojos me miraron felices. Una vez más tuviste esa extraña impresión de que tu barba parecía más gris. Un buen número de canas se sumarían a las que ya creía conocer. Me acerqué.
–Felicidades – me susurró mi abuelo.
Pasaron unos meses. Hicimos una pequeña renovación, cambiamos algunos muebles, mamá pintó la sala y cambió las cortinas.
Durante la pintura, el cristal del retrato se rompió. Papá tuvo que llevarlo al vidriero; Mientras tanto, mamá lo guardó en el armario. Después pasó mucho tiempo sin que supiéramos nada de él. Sólo volví a verlo después de varios meses, de manera casual. Un día (esto fue en los últimos meses de la guerra), mientras buscaba en el pequeño almacén, lo encontré recostado en un rincón, un poco polvoriento, junto con algunas chucherías. Limpié el cristal, que aún estaba roto, con un paño y lo acerqué a la ventana para ver mejor con la luz.
Allí estaba mi abuelo: las gafas sin montura, las arrugas en la frente, la media sonrisa en las comisuras de los labios. Los ojos me miraron con curiosidad. La barba estaba completamente blanca.
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The Portrait
The portrait was located in the middle of the wall in our dining room, opposite the table. It was an old drawing, made in crayon, with a glass structure and a large, stylish gold frame. In it, my grandfather appeared sporting his long black beard and a pair of rimless glasses; The eyes, large and luminous, dominated the face. Some wrinkles on his forehead gave him a more serious appearance, in contrast to the expression on his mouth, which contained a half smile.
Ever since I met, the portrait has always been there. We were so used to it that it went unnoticed, like everything else in the room. But in my case, it wasn’t quite like that.
The large table in the room was usually the table where I did the exercises. Every day, he placed the books and notebooks in it, remaining there for several hours, until the work was completed. Sometimes, a little distracted, he would look at the portrait, then, with his big eyes, he would look at me seriously through the lens. I had the impression that they were interested in everything I did; don’t let me go for a moment. As I watched the dots walking from one side of the room to the other, I could even feel how they were following me; not only their eyes, but their entire faces. They turned in my direction and virtually followed me. I felt my grandfather’s presence so much that, over time, I began to have, so to speak, a silent dialogue with him. I would tell him my doubts, suggest my problems to him, confide in him my plans and adventures. Sometimes, on the eve of exams, I would stay up studying until late at night. The house would be very quiet. Everyone was asleep. Alone with my books, I would try to review the last points. When, exhausted and nodding off from sleep, I would pause for a brief moment, I would catch those big eyes fixed on me, as if looking at me curiously. I think that few people in the house cared about the portrait. For my part, I knew him so well that I could reproduce him in the smallest detail. I could tell by heart the number of wrinkles on his forehead, the cut of his hair and beard, the style of his glasses, the light in his eyes, the shape of his ears and nose. However, from time to time I could swear that he had undergone some changes. The wrinkles sometimes seemed deeper, sometimes less so; the half-smile at the corners of his lips was replaced by a different, almost sad expression; the spectacles mounted on his nose had changed slightly in position. But these were such insignificant differences that I was left in doubt. Of one thing, however, I felt absolutely certain: his beard. I had always thought it was black; the black beard of a prophet. I had no doubt about that. And it was a real shock for me when, one evening, as I looked at the portrait, particularly at the beard, I discovered some reflections. I went over and examined her face. Sure enough, there were some gray hairs. Hadn’t I noticed them before?
–Didn’t you notice anything in the portrait?
–What portrait?
–Grandpa’s.
–What do I fear portrait?
–Don’t you think the beard looks a little different?
–Different? As?!
She raised her head, looked at me, and then looked at the portrait.
–What do you see different?
–Don’t you think some gray hairs are appearing?
–Oh, that! These wires have always been white.
–But, mom, grandpa’s beard was black. Mom laughed loudly; I didn’t insist anymore.
The other night, I approached my father. The moment he put down the newspaper, I joined the conversation. Initially I asked who had drawn the portrait and when they brought it. When I thought Dad was sufficiently prepared, I got straight to the point:
–You don’t notice any difference in him?
–Like this?
–The beard has white strands; it didn’t exist before. You must be crazy, there will always be gray hair.
Saying this, she took a quick look at the portrait and picked up the newspaper again. Her words were incisive, leaving no room for doubt.
But I didn’t give up on the investigations. I went ahead. I had just given up on my father. And then I passed it on to another family member.
It’s true that, with this one, I had nothing to fear; On the other hand, it didn’t seem like I was going to achieve much. My brother Srulic.
It’s true that, with this one, I had nothing to fear; On the other hand, it didn’t seem like I was going to achieve much. My brother Srulic.
–Srulic – I said to him, when we were alone -, pay attention to what I’m going to say. Take a good look at Grandpa’s portrait and tell me what the color of his beard was.
Srulic’s eyes shone, he felt proud that I was addressing him so politely.
–The color?!
–Yes, the color.
–Color?!
–So, you don’t know what color is? White, black, blue, red, purple. Do you understand?
I immediately saw that no, I gave up on him.
I continued my investigation with the other people who usually entered the house. I spoke to them all, without any exception, and all of them, in addition to showing a look of surprise, finding the question strange, were unanimous in saying that I was mistaken. Of course, by this time my convictions were already showing signs of shaking and I began to come to terms with the idea that I was mistaken. And the worst of all is that the fact had become public domain, forcing me to accept irony from both sides.
–Did you discover any more gray hairs? – asked my father.
I decided to forget the matter.
When I passed the entrance exams to the State Gymnasium, that aroused great joy at home; it wasn’t easy in those times to get a place in high school. Therefore, my achievement had the flavor of a victory and gave me true consecration from my family. The news spread quickly.
Bit by bit, our house became completely full. The neighbors were arriving, greeting my father, who was euphoric. Mom prepared the glasses, laid out the white tablecloth on the table and didn’t stop bringing cupcakes from the kitchen. But, he who was the hero, naturally reveled in everything. But at the scene, among the group that surrounded me, I looked casually
at the portrait. The eyes looked at me happily. I once again had that strange impression that the beard appeared grayer. A good number of gray hairs would be added to those I already thought I knew. I got closer.
–Congratulations – my grandfather whispered to me.
A few months passed. We had a small renovation, moved some furniture, mom painted the living room and changed the curtains.
During the painting, the glass of the portrait broke. Dad had to take him to the glazier; Meanwhile, Mom put it in the closet. Afterwards, a good period of time passed without us hearing from him. I only went to see it again after several months, casually. One day (this was around the final months of the war), when rummaging through the little storage room, I found it leaning in a corner, a bit dusty, along with some trinkets. I wiped the glass, which was still broken, with a cloth and brought it closer to the window to see it better in the light.
There was my grandfather: the rimless glasses, the wrinkles on his forehead, the half-smile at the corner of his lips. The eyes looked at me curiously. The beard was completely white.
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O Bar-Mitzva
– O nosso hornero está no ponto? – perguntou ma mãe a meu pai, que estava lendo o jornal.
Lá do meu canto, levantei as orelhas, porque era de mim que se falava. Faltava pouco para o dia do meu Bar-Mitzva e eu me encontrava preocupado, tanto quanto ela.
Afinal de contas, quem iría fazer no templo as brachot da Torá e o longo discurso com citações do Talmud era eu. Também me pesava a idéia de que, com treze anos, conforme me tinham dito, eu completava a maioridade, me tornava um “hornero” e assumia urna carga de responsabilidades, para o que, em sa consciencia, nao me sentia com nenhum preparo.
Dava tratos a bola: como é que um “homem” como eu podía, por exemplo, ganhar a vida e sustentar-se, se fosse o ca so? Deus me livre se tivesse de ocupar a cadeira do chefe da família, tomar as rédeas da casa e de tudo o mais.
Ter de enfrentar, nesse sábado, os vizinhos, o rabino, os chachomim do Bom Retiro, que viriam em peso ao templo só para assistir ao meu Bar-Mitzva, isso me deixava bem desassossegado. Nao ligar para a piscada de olhos dos garotos, que tudo fariam para rir de rnim, eis outro pesadelo, nada fá cil de engolir.
Quanto ao meu irmão, felizmente com esse nao tive problemas, pois, antes que ele começasse com as suas, eu já lhe lera a entender que queria o máximo respeito, nao deixaria passar em nuvens brancas nenhuma brincadeira de mau gos to. Mas, como controlar meus amigos? Como resistir aos seus olhares, cheios de ironia e de gozação?
Papai abaixou o jornal, tirou os óculos e olhou para mim.
–O nosso homem está muito bem.
Mamãe deu um suspiro e voltou para a cozinha, onde andava preparando, com a ajuda de Dona Paulina, os pratos especiais da festa, essa parte a que ela proclamava como “a minha parte”.
Ao que me pareceu, o único que nao demonstrava nenhuma preocupação com a tempestade que vinha aí era o meu pai. Ele andava sorridente, cantarolava a meia voz, esfregava satisfeito as mãos, e os seus ares eram de um hornero feliz que encara o amanha como urna benc,:ao dos céus e se sente bem neste mundo de Deus. la de um quarto para outro, a procura nao sei bem do que; metia-se na cozinha para dar alguns pal pites, o que, aliás, nao era do seu feitio. Voltava ao seu jornal, interrompia a leitura e gritava para a cozinha:
–Estou as ordens. Nao vo precisar de alguma coisa?
O pessoal da cozinha queria paz e sossego, nada mais do que isso, e tempo para trabalhar.–Que cada um cuide da sua parte – era o que mamãe vivia dizendo. – Eu sei qual é a minha parte, meu Deus.
Com todo esse movimento, imagina-se o meu estado de espírito. Duma hora para outra, eu virava o centro da casa, chamavam-me de “o nosso homem”, me davarn urna aten c,:ao que nunca tive, nem sonhei ter. Queriarn saber se eu esta va passando bern e corno ia a rninha voz. Mamae me trazia oe-dac;:os de pifo com gordura de galinha. Papai puxava prosa co migo num tom diferente, cheio de brandura, cheio de respeito.
–Ei, o senhor aí! Que tal uma “liçãozinha”? – perguntava-me, cantarolando.
E, pela milésima vez, eu repetia as brachot da Torá, usando a melodia que ele me ensinara. Depois, repetia o dis curso com todas aquelas citac;:oes do Talmud. Pelos seus olhos, que nao escondiam nada, eu sabia que estava indo bem.
—Koi ornar Adoshem.
–Ó-ti-mo de no-vo – repetia meu pai, no mesmo diapasão, e lá ia eu, outra vez.
Na manha do sábado, a sinagoga estava cheia. O talis de seda, que papai me comprara, cobria-me os ombros e me rocava as faces afogueadas. Fizeram-me sentar ao lado dora bino, esse mesmo que permutava jornais idish com meu pai. Do lado do balção, as mulheres nao tiravam os olhos de mim, lá estavam como seus vestidos de Shabat, as cabeças cobertas por xales brancos. Dava para ver mãmae e Dona Paulina rezando pelo mesmo livro.
O hazan Avrum, em frente do Aron-Acodesch, entoa va, com sua voz de “baixo”, as dezoito orações.
Tendo chegado a minha vez, encaminhei-me junto com meu pai em direcção da grande mesa onde estavam abertos os rolos da Torá. E, no devido tempo, em meio ao silencio que se fizera na pequena sinagoga, comecei a cantar:
—Koi omar Adoshem.
Coma voz ecoando por todo o salao, ainda que meio embargada, e com o corac;:ao palpitante, eu sentia que estava encerrando nesse momento um ciclo de minha vida.
Ao me virar para o público, que esperava o tradicional discurso, olhei para o meu pai, a poucos passos de mim, e pro curei mã
mae, no alto do balçao. Depois, abrindo os brãços, comecei:
Meu povo…
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El Bar Mitzvá
–¿Está nuestro homem en punto? – preguntó mi madre a mi padre, que estaba leyendo el periódico.
Desde mi esquina levanté el oído, porque era de mí de quien se hablaba. No pasó mucho tiempo antes de que mi Bar Mitzva y yo estuviéramos preocupados, tanto como ella.
Después de todo, yo era quien iba a dar las berajot de la Torá y el largo discurso con citas del Talmud en el templo. También me pesaba la idea de que, a los trece años, como me habían dicho, alcanzaría la mayoría de edad, me convertiría en hornero y asumiría un montón de responsabilidades, para las cuales, en conciencia, me No me sentí preparado de ninguna manera.
Era un gran problema: ¿cómo podría un “hombre” como yo, por ejemplo, ganarse la vida y mantenerse, si ese fuera el caso? Dios no lo quiera si tuviera que ocupar el puesto de cabeza de familia, encargarme de la casa y de todo lo demás.
Tener que enfrentarme ese sábado a los vecinos, al rabino y a los jajomim de Bom Retiro, que vendrían en masa al templo sólo para asistir a mi Bar-Mitzvá, me inquietó mucho. No prestar atención a los ojos guiñantes de los chicos, que harían cualquier cosa por reírse de ti, es otra pesadilla, no fácil de tragar.
En cuanto a mi hermano, afortunadamente no tuve ningún problema con él, porque antes de que empezara con el suyo ya lo había leído para entender que quería el máximo respeto, no dejaría pasar ninguna broma de mal gusto en nubes blancas. ¿Pero cómo controlo a mis amigos? ¿Cómo resistirme a sus miradas, llenas de ironía y burla?
Papá dejó el periódico, se quitó las gafas y me miró.
–Nuestro hombre está muy bien.
Mamá suspiró y regresó a la cocina, donde estaba preparando, con ayuda de doña Paulina, los platos especiales para la fiesta, esa parte de la que proclamó como “mi parte”.
Me pareció que el único que no mostró ninguna preocupación por la tormenta que se avecinaba era mi padre. Caminaba sonriendo, tarareando en voz baja, frotándose las manos con satisfacción, y su aire era el de un hombre feliz que ve el mañana como una bendición del cielo y se siente a gusto en el mundo de Dios. De una habitación a otra, busco, no sé exactamente qué; Fue a la cocina para hacer algunas conjeturas, lo cual, por cierto, no era propio de él. Volvió al periódico, dejó de leer y gritó en la cocina:
–Estoy bajo órdenes. ¿No necesitas nada?
El personal de la cocina quería paz y tranquilidad, nada más que eso, y tiempo para trabajar. -Que cada uno haga su parte -eso decía mamá. – Sé cuál es mi parte, Dios mío.
Con todo este movimiento, os podéis imaginar mi estado de ánimo. De un momento a otro me convertí en el centro de la casa, me llamaban “nuestro hombre”, me brindaban una atención que nunca tuve, ni soñé tener. Quería saber si estaba bien y cómo estaba la vocecita. Mamá solía traerme oe-dac;:os hechos con grasa de pollo. Papá me habló en un tono diferente, lleno de dulzura, lleno de respeto.
–¡Oye, estás ahí! ¿Qué tal una “pequeña lección”? – me preguntó tarareando.
Y, por milésima vez, repetí las berajot de la Torá, usando la melodía que él me había enseñado. Luego repitió el discurso con todas esas citas del Talmud. Por sus ojos, que no ocultaban nada, supe que estaba bien.
–Los koi adornan a Adoshem.
–O-tú otra vez – repitió mi padre, en el mismo tono, y ahí fui, otra vez.
El sábado por la mañana la sinagoga estaba llena. Los tallis de seda que me había comprado mi padre cubrían mis hombros y tocaban mis mejillas sonrojadas. Me hicieron sentar al lado de Bino, la misma persona que intercambiaba periódicos en yiddish con mi padre. Al lado del mostrador, las mujeres no me quitaban los ojos de encima, estaban allí con sus vestidos de Shabat y sus cabezas cubiertas con chales blancos. Se podía ver a mamá y a doña Paulina orando por el mismo libro.
Hazan Avrum, delante del Aron-Acodesch, cantó, con su voz de “bajo”, las dieciocho oraciones.
Cuando llegó mi turno, caminé con mi padre hacia la gran mesa donde estaban abiertos los rollos de la Torá. Y, a su debido tiempo, en medio del silencio que reinó en la pequeña sinagoga, comencé a cantar:
–Koi omar Adoshem.
Con mi voz resonando por toda la habitación, aunque un poco entrecortada, y con el corazón latiendo con fuerza, sentí que estaba cerrando un ciclo de mi vida en ese momento.
Mientras me volvía hacia el público que esperaba el tradicional discurso, miré a mi padre, a unos pasos de mí, y busqué a mi madre.
madre, en lo alto del balcón. Entonces, abriendo los brazos, comencé:
Mi gente…
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El Bar Mitzvah –
–Are is our man ready? – my mother asked my father , who was reading the newspaper.
From my corner I raised my ear, because it was my place to speak. There was a lot of time before my Bar Mitzva and we were worried, just as much as she was.
After all, I was able to give the speeches of the Torah and the long speech with quotes from the Talmud in the temple. I was also weighed down by the idea that, in the last three years, as I said, I would reach the majority of the age, I would become a man and take on a lot of responsibilities, for which, in conscience, I didn’t feel prepared in any way .
It was a big problem: how could a “man” like you, for example, gain life and maintain it, if that were the case? God didn’t want to if he had to occupy the family head post, take charge of the house and everything else.
Having to face myself this Saturday at the vecinos, the rabbi and the jajomim from Bom Retiro, who came to the temple alone to attend my Bar Mitzvah, made me very worried. Don’t pay attention to the guiñante eyes of children, who will do anything to get rid of you, it’s another nightmare, not easy to swallow.
As for my brother, luckily I didn’t have any problems with him, because before I started with him I had read him to understand that he wanted maximum respect, I wouldn’t have to pass anyone a bad taste in white clouds. But how do I control my friends? How can I resist his looks, full of irony and mockery?
Dad left the newspaper, he left the glasses and looked at me.
–Our man is very good.
Mom sighed and returned to the kitchen, where she was preparing, with the help of Doña Paulina, the special dishes for the fiesta, that part of which she proclaimed as “my part”.
It seemed to me that the only one who showed no concern about the storm that arose was my father. He walked smiling, chatting in a low voice, frotting his hands with satisfaction, and his air was that of a happy man who sees the morning as a blessing of the sky and feels like it in the world of God. From one room to another, I look for exactly what; I went to the kitchen to make some conjectures, which, of course, was not appropriate for him. He turned to the newspaper, stopped reading and shouted in the kitchen: –I’m under orders. Don’t you need anything?
The kitchen staff wanted peace and tranquility, nothing more than that, and time to work.
–That each one has their own part of it -that’s what Mom says. – – I know my part, dear Lord,
With all this movement, you can imagine my state of mind. From one moment to another I became the center of the house, they called me “our man”, they gave me attention that I never had, never had. I wanted to know if he was okay and how he was with you. Mama solía traerme oe-dac;:os hechos con grasa de pollo. Daddy spoke to me in a different tone, full of sweetness, full of respect.
–¡Oye, you’re there! How about a “small lesson”? – he asked me, gossiping.
And, for the thousandth time, I repeated the words of the Torah, using the melody that was taught to me. Then he repeated the speech with all these quotes from the Talmud. By his eyes, which didn’t hide anything, she assumes he’s fine.
—Koi adorn Adoshem.
–O-you again – my to my father repeated in the same tone, and then I went once more.
On Saturday morning the synagogue was full. The silk tallis that my father had bought me covered my shoulders and wore my dreamy bags. It made me sit next to the rabbi, the same person who exchanged periodicals in Yiddish with my father. From the balcony, the women didn’t leave their eyes from me, they were there with their Shabbat dresses and their heads covered with white shawls. You could see mom and doña Paulina praying for the same book.
Hazan Avrum, before Aron-Acodesch, sang, with his “low” voice, the prayers.
When I left my turn, I walked with my father to the big table where the Torah scrolls were open. And, at the right time, in the midst of the silence that reigned in the small synagogue, he began to sing: —Koi omar Adoshem.
With my voice resonating throughout the room, even a little choppy, and with my heart barking with strength, I felt like I was closing a cycle of my life at that moment.
As I turned towards the public that was waiting for the traditional speech, I went to my father, a few steps away from me, and looked for my mother on top of the balcony. Then, opening my arms, I begin:
My people…
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shana Tova Umetuka
Y a vos, también.