Sultana Levy Rosenblatt (1910-2007) Escritora judaica brasileira/Brazilian Jewish Writer-“Como viemos parar na Amazônia”/”How We Ended Up in the Amazon Region”/

Sultana Levy Rosenblatt

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Sultana Levy Rosenblatt nasceu, em Belém do Pará, no dia 10 de julho de 1910. Filha do renomado político amazonense Eliezer Levy, fundador do sionismo no Pará e do jornal Kol Israel, a escritora vem de uma tradicional família, oriunda de Tanger, no Marrocos. Casou-se com o norte-americano Martin Rosenblatt com quem teve três filhos. Em razão das atividades do marido como meteorologista, a serviço dos Estados Unidos, o casal morou em Honduras e Porto Rico. Com vasta produção literária, Sultana Levy Rosenblatt publicou o seu primeiro romance Uma grande mancha de sol, em 1951, e Chavito Prieto, publicado em 1957, escrito quando morava em Porto Rico, foi o seu segundo romance. Escreveu ainda os romances Barracão (1959), Reviravolta (1978), e As virgens de Ipujucama (1978), a peça A visita a sua alteza: o Sr. Príncipe (1999) e vários contos, crônicas e ensaios críticos. Em Papéis (1999), estão reunidos crônicas e ensaios publicados anteriormente no jornal O liberal. Há, entretanto, contos e crônicas publicadas na revista Morashá, como a crônica “Como viemos parar na Amazônia” (2000). Sultana Levy Rosenblatt faleceu em 2007, na Virgínia, Estados Unidos.

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Sultana Levy Rosenblatt was born in Belém do Pará, in 1910, the daughter of the renowned Amazonian politician Eliezer Levy, founder of Zionism in Pará and the newspaper Kol Israel. She comes from a traditional family, originally from Tanger, in Morocco. She married the American Martin Rosenblatt with whom she had three children. Due to her husband’s activities as a meteorologist, working for the United States, the couple lived in Honduras and Puerto Rico. With a vast literary production, Sultana Levy Rosenblatt published her first novel Uma grande mancha de sol, , in 1951, and Chavito Prieto, published in 1957, written while living in Puerto Rico, was her second novel. She also wrote the novels Barracão (1959), Reviravolta (1978), and As virgens de Ipujucama (1978), the play A Visita a Sua Alteza: o Sr. Príncipe (1999) and several short stories, chronicles and critical essays. In Papéis (1999), chronicles and essays previously published in the newspaper O liberal are collected. There are, however, short stories and chronicles published in the magazine Morashá, such as the chronicle “How We Came to Stop in the Amazon” (2000). Sultana Levy Rosenblatt passed away in 2007, in Virginia, United States.

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Como viemos parar na Amazônia

Por: Sultana Levy Rosenblatt

Publicado na revista Morasha – Edição 30

Parece incrível que pelo meio do século XIX meu bisavô materno fosse proprietário de canaviais situados na grande Ilha de Marajó, no norte do Brasil.

Parece incrível por vários motivos. Primeiro que tudo, ele era um jovem judeu e os judeus não gozam fama de aventureiros. Atribui-se à extremosa mãe judia o poder de impedir que os filhos se exponham a perigos…

Casamento em Belém do Pará-Noivos: Isaac Benchimol-Orduenha Cohen. Rabino David Benoliel Lendo a Ketubá.

Em segundo lugar, supõe-se que os judeus preferissem estabelecer-se nas cidades, perto de sinagogas, escolas, bibliotecas. Mas esse lugar a que meu bisavô entregou as primícias da sua vida não tinha sinagoga, nem biblioteca, nem sequer livraria. Era uma cidadezinha onde as facilidades, como condições sanitárias e assistência médica, ainda hoje são precárias.

Então, pergunta-se, como se explica que um moço judeu, educado, nascido em Tânger, no Marrocos, apareça feito senhor de escravos no coração de uma ilha amazônica? … que por esse tempo, os rapazes judeus eram encorajados pelos próprios pais a procurar nova vida, fosse onde fosse. Qualquer lugar seria melhor do que a existência em guetos rodeados de mouros inimigos.

O Brasil, a essa altura, era uma espécie de Terra Prometida. Um país com imensas áreas e pouca população, atraindo imigrantes com promessas liberais por uma lei que não levava em conta credo ou nacionalidade, contanto que a raça fosse branca. Assim, os judeus marroquinos, considerados imigrantes brancos, zarparam para a região amazônica esperando lá encontrar o “El Dorado”. Liberdade, acima de tudo liberdade religiosa, e, quem sabe, ouro jorrando do solo. Cedo esse fascinante sonho se desfez quando eles compreenderam que apenas haviam-se mudado do purgatório para o inferno. (A floresta amazônica é poeticamente cognominada “Inferno Verde”).

Mas, esqueçamos a história e voltemos ao meu… devo chamá-lo “meu querido” bisavô? Nunca vi sequer um retrato seu, pois os judeus marroquinos da época não tinham o costume de se fazer fotografar. Apenas posso imaginá-lo parecido com qualquer homem marroquino.

Pelo que ouvi contar, meu bisavô era moreno, esguio, um homem fino, muito querido pelos seus escravos por sua bondade, educação e maneiras polidas, atributos que o tornaram respeitado pela população local. Mas tenho a impressão de que, com o fim de se manter no mesmo nível social dos seus vizinhos, todos ricos fazendeiros, ele se teria mais ou menos ou aparentemente assimilado, pois era conhecido como “José Luiz”. Seu filho mais velho, Samuel, ingressou no exército brasileiro, na Guarda Nacional. Quanto à minha bisavó, com a beleza combinava bem o seu nome, Graça. O casal veio para o Brasil já com três filhos, dois meninos, Samuel e José, e uma menina, Belízia, de apelido Vida.

Os judeus marroquinos costumam dar às suas filhas nomes expressivos em espanhol, como Luna, Reina, Perla e, mesmo no Brasil, não os traduzem. Além do espanhol, esses judeus usavam na intimidade da família, o dialeto chamado haketía. Mas Belízia só falava português. Ela negava haver nascido em Tânger e afiançava ser brasileira. “Mãe Vida”, como os netos a chamavam, era pequenina, cútis cor de canela, vivaz; tinha os gestos, as maneiras, os hábitos e as expressões de um paraense nato. Poderia muito bem passar por uma graciosa nativa. Seus companheiros de infância, filhos de vizinhos fazendeiros, tratavam-na por “Mana Vida”.

Pelos padrões monetários da época, meu bisavô era rico. Senhor de próspera fazenda, chefe de família elegante, um homem realizado, enfim. Súbito tudo ruiu quando adoeceu gravemente, vítima de béri-béri. Sem recursos médicos onde vivia, foi levado para Londres e nunca mais voltou. Morreu em viagem e seu corpo foi atirado ao mar.

Ficou a viúva muito jovem, inexperiente, para arcar com a responsabilidade de dirigir o engenho. Os “jotabs”, corretores de casamentos, movimentaram-se e, mais que depressa, arranjaram-lhe o segundo marido. Esse homem, chamado Nahmias, veio a ser o destruidor dos negócios e da família. Para começar, os escravos, não se sujeitando às suas crueldades, fugiram. Os dois enteados, Samuel e José, cedo deixaram a casa, casaram-se premidos por circunstâncias especiais, e ficaram afastados de parentes e correligionários. Ambos morreram muito jovens. A única coisa que minha bisavó Graça sabia fazer na sua desgraça era chorar. Chorou, chorou, até não ter mais lágrimas. E cegou. Sempre a imaginei como uma dessas antigas bonecas francesas, rosto alvo de porcelana, olhos verdes brilhando, parados.

Em realidade ela não era mais do que uma boneca. Era apenas uma doce, ingênua, submissa mulher. A pequena Belízia não herdara a beleza materna, mas era inteligente, viva, decidida. Seu padrasto era ríspido e continuava a desbaratar em viagens e jogatinas a fortuna da família. A fim de escapar do seu domínio e poder legalmente tomar posse da herança que lhe cabia – tinha apenas 13 anos – ela jurou casar-se com o primeiro homem que lhe pedisse a mão, fosse ele embora um “Zé ninguém”. Mas teve sorte. Em vez de um “Zé ninguém”, apareceu-lhe como num conto de fadas uma espécie de príncipe.

Ele tinha 23 anos, era bonito, face rosada, olhos escuros, alto elegante. Era romântico. Falava vários idiomas e era versado no judaísmo. Além do mais, sabia cantar. O Kol Nidrei soava, na sua voz, com estranha e sentimental melodia. Chamava-se David Benoliel. Veio de Tânger, pertencia a uma geração de grandes rabinos e só devia casar-se com quem tivesse semelhantes raízes. Belízia Levy era a perfeita noiva para ele. David era sobrinho do grande Rabino Shemtob e Belízia descendia do Chacham Haim Pinto. Provavelmente o encontro de ambos foi dos meio dos jotabs, pois ela vivia em Muaná, no Marajó, e ele, na área do Tocantins, para onde veio reunir-se à sua irmã mais velha, Paloma, aí estabelecida com o esposo, Maximiliano Bensimon, e um filho, Abraham.

… neste ponto que se inicia a saga da minha família. David Benoliel, seu cunhado Maximiliano Bensimon e um primo, Abraham Larrat, estavam incluídos entre as dezenas de rapazes vindos de Marrocos, durante a segunda metade do século XIX, para a região amazônica. Aí eles aprenderam nova língua, ajustaram-se a uma vida diferente, aí se enraizaram. Aí tiveram e criaram seus filhos. Como sobreviveram às hostilidades do clima, às dificuldades do ambiente, como puderam manter, preservar, transmitir o mesmo judaísmo trazido do lar paterno aos seus descendentes, só pode ser explicado pelo fato de que eles estavam atados de alma e coração à “Árvore da Vida”, a Torá. Poderiam ter assimilado e esquecido tudo, se assim o desejassem.

A vida ao longo do Rio Amazonas é isolada. Quilômetros e quilômetros de água separam uma casa da outra. No entanto, na intimidade do lar, eles mantinham a religião, com todos os seus requisitos. Antes do pôr-do-sol, às sextas-feiras, tudo parava. Não se podia tocar música (em geral, tocavam pequenos instrumentos como violino, flauta, bandolim), não se podia remar nem nadar, enquanto durasse o sábado sagrado. Casamentos e cerimônias fúnebres eram realizados severamente de acordo com as tradições e rituais, alguns místicos. Quando os livros de leitura religiosa escasseavam, eles os copiavam manuscritos, de modo que nada fosse esquecido ou omitido. Durante os dias sagrados, reuniam-se na cidade mais próxima, numa sinagoga improvisada. Nessa ocasião aproveitavam a oportunidade para circuncidar os meninos nascidos nesse ano. Nem todos, porém, tinham possibilidades para tomar parte nessas reuniões. Desse modo, o menino seria circuncidado com qualquer idade, dependendo do momento oportuno que se apresentasse.

Eu própria, por acaso, testemunhei um emocionante acontecimento em Belém. Estava de compras com uma prima de nome Piedade (o anjo benfeitor da nossa família), quando de repente ela lembrou-se que devia ir à sinagoga para assistir, no salão de recepções, à circuncisão dos sobrinhos de uma sua amiga, vindos do interior do Estado. A família vivia num lugar distante e só então tinham conseguido meios para trazer os meninos a Belém com o fim especial de os circuncidar, tornando-os parte de nosso pacto ancestral, desde Abraham Avinu. Para minha surpresa, tratavam-se de garotos entre 8 e 12 anos de idade. Eram três, e o trio mantinha-se unido em silêncio e pavor. Quando um velho contou o número de homens e anunciou – “Já temos minian, podemos começar” – imediatamente travou-se uma espécie de tourada.

Os meninos corriam, gritando, proferindo palavrões, defendendo com as mãos a parte do corpo que devia ser operada, repetindo: “Não me capem!” – e os homens rindo, correndo atrás deles, cercando-os, até que conseguiram aprisionar os três. De pés amarrados, sem anestesia, em presença de todos, um a um foram circuncidados por perito Mohel. Minha prima Piedade era uma verdadeira Tzadiká. Muito religiosa, descendente de Rabi Eliezer Dabela, de quem herdou poderes sobrenaturais, sua presença era requerida porque tinha o dom de abrandar dores e curar certas lesões. Quanto a mim, escondi-me em outra sala, assustada. Mas não ouvi gritos e em um momento, quando as rezas silenciaram, compreendi que tudo havia acabado. Quando fui convidada para tomar parte na festa, fiquei surpreendida ao encontrar os meninos entre os convidados, comendo e bebendo refrigerantes. Já então eles sorriam. Embora vivendo nas brenhas do Amazonas, eles desejavam aquela operação, desejavam ser parte do Brit Milá. Sentiam-se orgulhosos de ser judeus.

Este orgulho, no entanto, não proveio da liberdade com que os imigrantes sonhavam. Eles tinham que lutar para manter o seu judaísmo. O estigma judeu seguia-os até as profundezas da selva. Meu avô e seus amigos eram comerciantes e suas lojas ficavam às margens dos rios, mas cercadas pela mata. E nesses lugares escondidos eles eram alcançados por pogroms.

Assim acontecia. Esses armazéns forneciam comestíveis, roupas, remédios, utensílios, em troca de borracha, castanha, sementes oleaginosas, artigos que eram trazidos pelos nativos. Durante a estação chuvosa, o negócio declinava para ambas as partes. Os contemporâneos do meu avô David sempre lembravam, entre suas anedotas espirituosas, uma que se relacio-nava a essa situação. No tempo do movimento comercial, ele costumava ir freqüentemente a Belém para fazer transações com exportadores e bancos. Um amigo estranhou vê-lo na capital em pleno inverno e perguntou a que viera. “Vim fugindo da safra do ‘me ceda”. “Safra de que, nesta época?”. “Safra do ‘me ceda’, já disse, “me ceda um alqueire de farinha’, ‘me ceda um rolo de tabaco’, ‘me ceda uma manta de pirarucu”…. A verdade é que ele deixara sua casa não somente para escapar à “safra do me ceda”, mas sobretudo para livrar sua família de algum provável pogrom, ocorrido mais nessa época, e chamado pelo povo de “mata judeu”.

Embora não fossem atacados fisicamente, as crianças e mulheres ficavam em tal estado de pavor que geralmente adoeciam. O pânico começava de manhã bem cedo, quando se suspeitava, pelo mutismo do ambiente, ausência de canoas, silêncio absoluto, que algo terrível estava para acontecer. Então às carreiras, a família escondia seus bens mais valiosos. As mulheres e as crianças trancavam-se no dormitório. O dono do armazém abria o Sidur e se concentrava em orações. Quando o cão ladrava anunciando aproximação de estranhos, o homem preparava-se para o confronto. O pogrom, isto é, homens exaltados, invadiam o estabelecimento e procediam à pilhagem. O judeu fingia estar lendo e não se aperceber do que acontecia. Tão pronto os assaltantes se retiravam, a família reunia-se dando “graças a D’s por tudo”, que o mais importante era a vida, e procurava-se esquecer o incidente.

Quando os amigos encontravam-se novamente, discutiam o ocorrido, já em gargalhadas. Cada qual exagerava o montante de sua perda e se jactava do modo como reagira, levando a ridículo uns aos outros. Outras anedotas surgiam dessa fonte nova. Uma das mais conhecidas era sobre um tal Issacar que teria decidido amedrontar os intrusos, recebendo-os de rifle em punho. Quando os ladrões chegaram ele os fez recuar, gritando-lhes – “Aquele que der um passo a frente é homem morto”. Os homens se acovardaram e já iam retirando-se, quando Issacar, explodindo de raiva, falou para si mesmo, mas em tom bastante alto: “Ah, mamzerim! … pena não ter uma bala, senão acabava com todos vocês!”. … de se imaginar o que aconteceu depois dessa confissão…

Pois bem. Apesar de todas as adversidades, estes jovens judeus decidiram ganhar a batalha contra a natureza e contra os homens. Permaneceram no mesmo lugar, trabucando no mesmo negócio durante anos, até haver poupado bastante dinheiro para se mudar para a capital, poder educar seus filhos e abrir caminho para gerações mais afortunadas. Na primeira década do século XX muitos deles já se encontravam em situação econômica folgada e pertenciam à alta camada da sociedade de Belém. Ituquara, Marariá, Cariri e outros “furos” cujos nomes nem aparecem no mapa do Pará eram só lembranças dos tempos idos.

Meus avós paternos, Moysés Levy e Hália Dabela Levy, vieram respectivamente de Rabat e Casablanca. Eram imigrantes também – não de origem espanhola e, por isso, falavam harbía. Eram muito respeitados pelos outros judeus porque minha avó Hália era nobre. Do ponto de vista dos judeus marroquinos, a nobreza é baseada no número ou magnitude de rabinos entre os ancestrais. Minha avó, Hália Dabela, era descendente de Rebi Eliezer Dabela, um rabino a quem se atribuíam milagres. Um deles foi fazer parar uma enchente, marcando com o seu bastão até onde as águas deviam chegar. Usava sempre esse bastão, que se encontra entre seus descendentes em Casablanca, e um colar de âmbar que minha avó Hália herdou e é conservado na nossa família. Esse colar era pendurado na cama dos enfermos e das parturientes pelos seus efeitos milagrosos.

Eu não estaria aqui, agora, se não fosse pela decisão de minha avó, Belízia, de casar, aos 13 anos, com David Benoliel. Foi uma união feliz que ultrapassou as bodas de ouro e da qual houve vários filhos, inclusive Esther, minha mãe. Em sua juventude, Esther era considerada uma das mais belas moças de Belém. Tinha 18 anos quando se casou com Eliezer, único filho de Moysés e Hália Levy, o mais atraente e desejado solteirão (aos 24 anos!) da cidade de Belém. Casaram-se na cidade de Cametá, a 21 de março de 1900.

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Judeus de Amazonas/Jews of the Amazon Region

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Sultana Levy Rosenblatt

Published in

Morasha magazine – Issue 30

It seems incredible that in the middle of the 19th century my maternal cousin became the owner of sugarcane fields located on the great island of Marajó, in the north of Brazil .

It seems incredible for several reasons. In the first place, he was a young Jew, and the Jews did not enjoy a reputation as adventurers. Extreme Jewish power was attributed to preventing children from being exposed to danger…

Marriage in Belém do Pará-Engaged: Isaac Benchimol-Orduenha Cohen. Rabbi David Benoliel Reading the Ketubah.

Secondly, it is assumed that Jews prefer to establish themselves in cities, including synagogues, schools and libraries. But that place where I discovered the first things of my life didn’t have the synagogue, the library, the books. It was a city where the facilities, sanitary conditions and medical assistance, were still deficient.

Then, the questions asked, how do you explain that a very Jewish man, educated, born in Tangier, not in Morocco, appears as a master of slaves in the heart of an Amazonian island?… that for that time, the rapacious Jews were encouraged for his own country to seek a new life, wherever it was. Any place would be better than living in ghettos surrounded by hostile neighborhoods.

Brazil, at that moment, was a kind of Promised Land. A country with enormous extensions and low population, which attracted immigrants with liberal promises by a law that did not apply to creeds or nationalities, whenever the race was white. So, the Moroccan Jews, considered white immigrants, set sail for the Amazon region with the hope of finding “El Dorado”. Freedom, above all religious freedom, and, you know, we are playing solo. I renounce this fascinating sueño that happens years ago when you realize that you have just passed from purgatory to hell. (The Amazon jungle is poetically known as “Infierno Verde”).

But, let’s summarize the story and get back to me… Should I call him “my dear” great-grandfather? I never saw a portrait of myself, because Moroccan Jews from the Tenian era had nothing to do with being photographed. I can only imagine what any Moroccan man looks like.

From what I have decided, my friend was dark, he is a good man, very dear to his slaves for his kindness, education and polished ways, attributes that are highly respected by the local population. But it struck me that, because he maintained the same social level as his neighbors, all rich farmers, he was at least apparently assimilated, because he was known as “José Luiz”. His young mayor, Samuel, joined the Brazilian Army, the National Guard. How much did you know, how beautifully it matched your name, Gracias. The last home for Brazil has three sons, two sons, Samuel and José, and a girl, Belízia, with the surname Vida.

Moroccan Jews are accustomed to giving their films expressive names in Spanish, such as Luna, Reina, Perla and, even in Brazil, they are not translated. In addition to Spanish, these Jews used the dialect called haketía within the family. But Belízia spoke Portuguese. She denied being born in Tangier and claimed to be Brazilian. “Mother Life”, as we called her, was small, with cinnamon skin, vivacious; It has the gestures, the modalities, the habits and the expressions of a native from Pará. It could well pass for a graceful native. Your childhood friends, your family friends, say “Mana Vida”.

With the monetary standards of the time, he was rich. Señor of a prosperous hacienda, chief of an elegant family, an accomplished man, in short. There was a sudden tumult when he was seriously suffering from beri-beri. Without medical resources where we lived, he was taken to London and never returned. He died while traveling and his body was thrown to the sea.

She was very young, without experience, to have the responsibility of running the mill. The “jotabs”, los casamenteros, moved and, as quickly as possible, took away her second husband. This man, called Nahmias, found himself destroying his business and his family. To undertake, we are not slaves, we are not subject to their cruelties, we are. If you inform them, Samuel and José, the bosses left the house, their families were rewarded by special circumstances, and they were deprived of parents and supporters. Both were very young. The only thing that Graça supposed to do in her misfortune was to cry. Sg\he cried, she cried, until there are no more tears. and she went blind. I always imagined myself as one with those bright French hues, a face made of white porcelain, bright green eyes, motionless.

In reality, she was nothing more than a doll. She was only a few years old, she was a naive and distant woman. Little Belízia did not inherit maternal beauty, but she was intelligent, vivacious, determined. His stepfather was severe and continued to disturb the family’s trips and fun times. To escape your domains and podThe immigrants dreamed. They had to fight to maintain their Judaism. The Jewish stigma followed them deep into the jungle. My grandfather and his friends were merchants and their shops were located on the banks of rivers, but surrounded by forest. And in these hidden places they were caught by pogroms.

That’s what happened. These stores provided food, clothes, medicines, utensils, in exchange for rubber, nuts, oilseeds, and articles that were brought by the natives. During the rainy season, business declined for both parties. My grandfather David’s contemporaries always recalled, among their witty anecdotes, one that related to this situation. During the time of the commercial movement, he used to go to Belém frequently to do business with exporters and banks. A friend found it strange to see him in the capital in the middle of winter and asked why he had come. “I came to escape the ‘me cededa’ harvest.” “What harvest, at this time?” “The harvest of ‘give me’, I’ve already said, ‘give me a bushel of flour’, ‘give me a roll of tobacco’, ‘give me a blanket of pirarucu’…. The truth is that he had left his home not only to escape the “harvest of ‘give me’”, but above all to save his family from some probable pogrom, which occurred more at that time, and which the people called the “Jewish slaughter”.

Although they were not physically attacked, the children and women were in such a state of terror that they often fell ill. The panic began very early in the morning, when it was suspected, by the silence of the environment, the absence of canoes, the absolute silence, that something terrible was about to happen. Then, in a hurry, the family hid their most valuable possessions. The women and children locked themselves in the bedroom. The owner of the store opened the Sidur and concentrated on prayers. When the dog barked announcing the approach of strangers, the man prepared for the confrontation. The pogrom, that is, excited men, invaded the establishment and proceeded to loot. The Jew pretended to be reading and not to notice what was happening. As soon as the robbers left, the family gathered together, giving “thanks to God for everything”, that the most important thing was life, and tried to forget the incident.

When the friends met again, they discussed what had happened, already laughing. Each exaggerated the amount of their loss and boasted about how they had reacted, making each other look ridiculous. Other anecdotes emerged from this new source. One of the best known was about a certain Issachar who decided to frighten the intruders by receiving them with a rifle in hand. When the robbers arrived, he made them retreat, shouting at them – “Whoever takes one step forward is a dead man”. The men became cowardly and were about to leave when Issachar, bursting with rage, said to himself, but in a very loud voice: “Oh, mamzerim! … too bad I don’t have a bullet, otherwise I would finish you all off!” … one can only imagine what happened after this confession…

Well then. Despite all the adversities, these young Jews decided to win the battle against nature and against men. They remained in the same place, working in the same business for years, until they had saved enough money to move to the capital, to be able to educate their children and pave the way for more fortunate generations. In the first decade of the 20th century, many of them were already in a comfortable economic situation and belonged to the upper class of Belém society. Ituquara, Marariá, Cariri and other “holes” whose names do not even appear on the map of Pará were just memories of times gone by.

My paternal grandparents, Moysés Levy and Hália Dabela Levy, came from Rabat and Casablanca, respectively. They were also immigrants – not of Spanish origin, and so they spoke Harbía. They were highly respected by other Jews because my grandmother Hália was a noblewoman. From the point of view of Moroccan Jews, nobility is based on the number or magnitude of rabbis among the ancestors. My grandmother, Hália Dabela, was a descendant of Rebi Eliezer Dabela, a rabbi who was credited with performing miracles. One of them was stopping a flood by marking with his staff how far the waters should reach. She always wore this staff, which is found among her descendants in Casablanca, and an amber necklace that my grandmother Hália inherited and is kept in our family. This necklace was hung on the beds of the sick and women in labor because of its miraculous effects.

I wouldn’t be here now if it weren’t for my grandmother Belízia’s decision to marry David Benoliel at the age of 13. It was a happy union that lasted beyond its golden wedding anniversary and produced several children, including Esther, my mother. In her youth, Esther was considered one of the most beautiful girls in Belém. She was 18 when she married Eliezer, the only son of Moysés and Hália Levy, the most attractive and sought-after bachelor (at the age of 24!) in the city of Belém. They were married in the city of Cametá, the 21st of March, 1910.

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