Sultana Levy Rosenblatt (1910-2007) Escritora judaica brasileira/Brazilian Jewish Writer-“Como viemos parar na Amazônia”/”How We Ended Up in the Amazon Region”/

Sultana Levy Rosenblatt

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Sultana Levy Rosenblatt nasceu, em Belém do Pará, no dia 10 de julho de 1910. Filha do renomado político amazonense Eliezer Levy, fundador do sionismo no Pará e do jornal Kol Israel, a escritora vem de uma tradicional família, oriunda de Tanger, no Marrocos. Casou-se com o norte-americano Martin Rosenblatt com quem teve três filhos. Em razão das atividades do marido como meteorologista, a serviço dos Estados Unidos, o casal morou em Honduras e Porto Rico. Com vasta produção literária, Sultana Levy Rosenblatt publicou o seu primeiro romance Uma grande mancha de sol, em 1951, e Chavito Prieto, publicado em 1957, escrito quando morava em Porto Rico, foi o seu segundo romance. Escreveu ainda os romances Barracão (1959), Reviravolta (1978), e As virgens de Ipujucama (1978), a peça A visita a sua alteza: o Sr. Príncipe (1999) e vários contos, crônicas e ensaios críticos. Em Papéis (1999), estão reunidos crônicas e ensaios publicados anteriormente no jornal O liberal. Há, entretanto, contos e crônicas publicadas na revista Morashá, como a crônica “Como viemos parar na Amazônia” (2000). Sultana Levy Rosenblatt faleceu em 2007, na Virgínia, Estados Unidos.

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Sultana Levy Rosenblatt was born in Belém do Pará, in 1910, the daughter of the renowned Amazonian politician Eliezer Levy, founder of Zionism in Pará and the newspaper Kol Israel. She comes from a traditional family, originally from Tanger, in Morocco. She married the American Martin Rosenblatt with whom she had three children. Due to her husband’s activities as a meteorologist, working for the United States, the couple lived in Honduras and Puerto Rico. With a vast literary production, Sultana Levy Rosenblatt published her first novel Uma grande mancha de sol, , in 1951, and Chavito Prieto, published in 1957, written while living in Puerto Rico, was her second novel. She also wrote the novels Barracão (1959), Reviravolta (1978), and As virgens de Ipujucama (1978), the play A Visita a Sua Alteza: o Sr. Príncipe (1999) and several short stories, chronicles and critical essays. In Papéis (1999), chronicles and essays previously published in the newspaper O liberal are collected. There are, however, short stories and chronicles published in the magazine Morashá, such as the chronicle “How We Came to Stop in the Amazon” (2000). Sultana Levy Rosenblatt passed away in 2007, in Virginia, United States.

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Como viemos parar na Amazônia

Por: Sultana Levy Rosenblatt

Publicado na revista Morasha – Edição 30

Parece incrível que pelo meio do século XIX meu bisavô materno fosse proprietário de canaviais situados na grande Ilha de Marajó, no norte do Brasil.

Parece incrível por vários motivos. Primeiro que tudo, ele era um jovem judeu e os judeus não gozam fama de aventureiros. Atribui-se à extremosa mãe judia o poder de impedir que os filhos se exponham a perigos…

Casamento em Belém do Pará-Noivos: Isaac Benchimol-Orduenha Cohen. Rabino David Benoliel Lendo a Ketubá.

Em segundo lugar, supõe-se que os judeus preferissem estabelecer-se nas cidades, perto de sinagogas, escolas, bibliotecas. Mas esse lugar a que meu bisavô entregou as primícias da sua vida não tinha sinagoga, nem biblioteca, nem sequer livraria. Era uma cidadezinha onde as facilidades, como condições sanitárias e assistência médica, ainda hoje são precárias.

Então, pergunta-se, como se explica que um moço judeu, educado, nascido em Tânger, no Marrocos, apareça feito senhor de escravos no coração de uma ilha amazônica? … que por esse tempo, os rapazes judeus eram encorajados pelos próprios pais a procurar nova vida, fosse onde fosse. Qualquer lugar seria melhor do que a existência em guetos rodeados de mouros inimigos.

O Brasil, a essa altura, era uma espécie de Terra Prometida. Um país com imensas áreas e pouca população, atraindo imigrantes com promessas liberais por uma lei que não levava em conta credo ou nacionalidade, contanto que a raça fosse branca. Assim, os judeus marroquinos, considerados imigrantes brancos, zarparam para a região amazônica esperando lá encontrar o “El Dorado”. Liberdade, acima de tudo liberdade religiosa, e, quem sabe, ouro jorrando do solo. Cedo esse fascinante sonho se desfez quando eles compreenderam que apenas haviam-se mudado do purgatório para o inferno. (A floresta amazônica é poeticamente cognominada “Inferno Verde”).

Mas, esqueçamos a história e voltemos ao meu… devo chamá-lo “meu querido” bisavô? Nunca vi sequer um retrato seu, pois os judeus marroquinos da época não tinham o costume de se fazer fotografar. Apenas posso imaginá-lo parecido com qualquer homem marroquino.

Pelo que ouvi contar, meu bisavô era moreno, esguio, um homem fino, muito querido pelos seus escravos por sua bondade, educação e maneiras polidas, atributos que o tornaram respeitado pela população local. Mas tenho a impressão de que, com o fim de se manter no mesmo nível social dos seus vizinhos, todos ricos fazendeiros, ele se teria mais ou menos ou aparentemente assimilado, pois era conhecido como “José Luiz”. Seu filho mais velho, Samuel, ingressou no exército brasileiro, na Guarda Nacional. Quanto à minha bisavó, com a beleza combinava bem o seu nome, Graça. O casal veio para o Brasil já com três filhos, dois meninos, Samuel e José, e uma menina, Belízia, de apelido Vida.

Os judeus marroquinos costumam dar às suas filhas nomes expressivos em espanhol, como Luna, Reina, Perla e, mesmo no Brasil, não os traduzem. Além do espanhol, esses judeus usavam na intimidade da família, o dialeto chamado haketía. Mas Belízia só falava português. Ela negava haver nascido em Tânger e afiançava ser brasileira. “Mãe Vida”, como os netos a chamavam, era pequenina, cútis cor de canela, vivaz; tinha os gestos, as maneiras, os hábitos e as expressões de um paraense nato. Poderia muito bem passar por uma graciosa nativa. Seus companheiros de infância, filhos de vizinhos fazendeiros, tratavam-na por “Mana Vida”.

Pelos padrões monetários da época, meu bisavô era rico. Senhor de próspera fazenda, chefe de família elegante, um homem realizado, enfim. Súbito tudo ruiu quando adoeceu gravemente, vítima de béri-béri. Sem recursos médicos onde vivia, foi levado para Londres e nunca mais voltou. Morreu em viagem e seu corpo foi atirado ao mar.

Ficou a viúva muito jovem, inexperiente, para arcar com a responsabilidade de dirigir o engenho. Os “jotabs”, corretores de casamentos, movimentaram-se e, mais que depressa, arranjaram-lhe o segundo marido. Esse homem, chamado Nahmias, veio a ser o destruidor dos negócios e da família. Para começar, os escravos, não se sujeitando às suas crueldades, fugiram. Os dois enteados, Samuel e José, cedo deixaram a casa, casaram-se premidos por circunstâncias especiais, e ficaram afastados de parentes e correligionários. Ambos morreram muito jovens. A única coisa que minha bisavó Graça sabia fazer na sua desgraça era chorar. Chorou, chorou, até não ter mais lágrimas. E cegou. Sempre a imaginei como uma dessas antigas bonecas francesas, rosto alvo de porcelana, olhos verdes brilhando, parados.

Em realidade ela não era mais do que uma boneca. Era apenas uma doce, ingênua, submissa mulher. A pequena Belízia não herdara a beleza materna, mas era inteligente, viva, decidida. Seu padrasto era ríspido e continuava a desbaratar em viagens e jogatinas a fortuna da família. A fim de escapar do seu domínio e poder legalmente tomar posse da herança que lhe cabia – tinha apenas 13 anos – ela jurou casar-se com o primeiro homem que lhe pedisse a mão, fosse ele embora um “Zé ninguém”. Mas teve sorte. Em vez de um “Zé ninguém”, apareceu-lhe como num conto de fadas uma espécie de príncipe.

Ele tinha 23 anos, era bonito, face rosada, olhos escuros, alto elegante. Era romântico. Falava vários idiomas e era versado no judaísmo. Além do mais, sabia cantar. O Kol Nidrei soava, na sua voz, com estranha e sentimental melodia. Chamava-se David Benoliel. Veio de Tânger, pertencia a uma geração de grandes rabinos e só devia casar-se com quem tivesse semelhantes raízes. Belízia Levy era a perfeita noiva para ele. David era sobrinho do grande Rabino Shemtob e Belízia descendia do Chacham Haim Pinto. Provavelmente o encontro de ambos foi dos meio dos jotabs, pois ela vivia em Muaná, no Marajó, e ele, na área do Tocantins, para onde veio reunir-se à sua irmã mais velha, Paloma, aí estabelecida com o esposo, Maximiliano Bensimon, e um filho, Abraham.

… neste ponto que se inicia a saga da minha família. David Benoliel, seu cunhado Maximiliano Bensimon e um primo, Abraham Larrat, estavam incluídos entre as dezenas de rapazes vindos de Marrocos, durante a segunda metade do século XIX, para a região amazônica. Aí eles aprenderam nova língua, ajustaram-se a uma vida diferente, aí se enraizaram. Aí tiveram e criaram seus filhos. Como sobreviveram às hostilidades do clima, às dificuldades do ambiente, como puderam manter, preservar, transmitir o mesmo judaísmo trazido do lar paterno aos seus descendentes, só pode ser explicado pelo fato de que eles estavam atados de alma e coração à “Árvore da Vida”, a Torá. Poderiam ter assimilado e esquecido tudo, se assim o desejassem.

A vida ao longo do Rio Amazonas é isolada. Quilômetros e quilômetros de água separam uma casa da outra. No entanto, na intimidade do lar, eles mantinham a religião, com todos os seus requisitos. Antes do pôr-do-sol, às sextas-feiras, tudo parava. Não se podia tocar música (em geral, tocavam pequenos instrumentos como violino, flauta, bandolim), não se podia remar nem nadar, enquanto durasse o sábado sagrado. Casamentos e cerimônias fúnebres eram realizados severamente de acordo com as tradições e rituais, alguns místicos. Quando os livros de leitura religiosa escasseavam, eles os copiavam manuscritos, de modo que nada fosse esquecido ou omitido. Durante os dias sagrados, reuniam-se na cidade mais próxima, numa sinagoga improvisada. Nessa ocasião aproveitavam a oportunidade para circuncidar os meninos nascidos nesse ano. Nem todos, porém, tinham possibilidades para tomar parte nessas reuniões. Desse modo, o menino seria circuncidado com qualquer idade, dependendo do momento oportuno que se apresentasse.

Eu própria, por acaso, testemunhei um emocionante acontecimento em Belém. Estava de compras com uma prima de nome Piedade (o anjo benfeitor da nossa família), quando de repente ela lembrou-se que devia ir à sinagoga para assistir, no salão de recepções, à circuncisão dos sobrinhos de uma sua amiga, vindos do interior do Estado. A família vivia num lugar distante e só então tinham conseguido meios para trazer os meninos a Belém com o fim especial de os circuncidar, tornando-os parte de nosso pacto ancestral, desde Abraham Avinu. Para minha surpresa, tratavam-se de garotos entre 8 e 12 anos de idade. Eram três, e o trio mantinha-se unido em silêncio e pavor. Quando um velho contou o número de homens e anunciou – “Já temos minian, podemos começar” – imediatamente travou-se uma espécie de tourada.

Os meninos corriam, gritando, proferindo palavrões, defendendo com as mãos a parte do corpo que devia ser operada, repetindo: “Não me capem!” – e os homens rindo, correndo atrás deles, cercando-os, até que conseguiram aprisionar os três. De pés amarrados, sem anestesia, em presença de todos, um a um foram circuncidados por perito Mohel. Minha prima Piedade era uma verdadeira Tzadiká. Muito religiosa, descendente de Rabi Eliezer Dabela, de quem herdou poderes sobrenaturais, sua presença era requerida porque tinha o dom de abrandar dores e curar certas lesões. Quanto a mim, escondi-me em outra sala, assustada. Mas não ouvi gritos e em um momento, quando as rezas silenciaram, compreendi que tudo havia acabado. Quando fui convidada para tomar parte na festa, fiquei surpreendida ao encontrar os meninos entre os convidados, comendo e bebendo refrigerantes. Já então eles sorriam. Embora vivendo nas brenhas do Amazonas, eles desejavam aquela operação, desejavam ser parte do Brit Milá. Sentiam-se orgulhosos de ser judeus.

Este orgulho, no entanto, não proveio da liberdade com que os imigrantes sonhavam. Eles tinham que lutar para manter o seu judaísmo. O estigma judeu seguia-os até as profundezas da selva. Meu avô e seus amigos eram comerciantes e suas lojas ficavam às margens dos rios, mas cercadas pela mata. E nesses lugares escondidos eles eram alcançados por pogroms.

Assim acontecia. Esses armazéns forneciam comestíveis, roupas, remédios, utensílios, em troca de borracha, castanha, sementes oleaginosas, artigos que eram trazidos pelos nativos. Durante a estação chuvosa, o negócio declinava para ambas as partes. Os contemporâneos do meu avô David sempre lembravam, entre suas anedotas espirituosas, uma que se relacio-nava a essa situação. No tempo do movimento comercial, ele costumava ir freqüentemente a Belém para fazer transações com exportadores e bancos. Um amigo estranhou vê-lo na capital em pleno inverno e perguntou a que viera. “Vim fugindo da safra do ‘me ceda”. “Safra de que, nesta época?”. “Safra do ‘me ceda’, já disse, “me ceda um alqueire de farinha’, ‘me ceda um rolo de tabaco’, ‘me ceda uma manta de pirarucu”…. A verdade é que ele deixara sua casa não somente para escapar à “safra do me ceda”, mas sobretudo para livrar sua família de algum provável pogrom, ocorrido mais nessa época, e chamado pelo povo de “mata judeu”.

Embora não fossem atacados fisicamente, as crianças e mulheres ficavam em tal estado de pavor que geralmente adoeciam. O pânico começava de manhã bem cedo, quando se suspeitava, pelo mutismo do ambiente, ausência de canoas, silêncio absoluto, que algo terrível estava para acontecer. Então às carreiras, a família escondia seus bens mais valiosos. As mulheres e as crianças trancavam-se no dormitório. O dono do armazém abria o Sidur e se concentrava em orações. Quando o cão ladrava anunciando aproximação de estranhos, o homem preparava-se para o confronto. O pogrom, isto é, homens exaltados, invadiam o estabelecimento e procediam à pilhagem. O judeu fingia estar lendo e não se aperceber do que acontecia. Tão pronto os assaltantes se retiravam, a família reunia-se dando “graças a D’s por tudo”, que o mais importante era a vida, e procurava-se esquecer o incidente.

Quando os amigos encontravam-se novamente, discutiam o ocorrido, já em gargalhadas. Cada qual exagerava o montante de sua perda e se jactava do modo como reagira, levando a ridículo uns aos outros. Outras anedotas surgiam dessa fonte nova. Uma das mais conhecidas era sobre um tal Issacar que teria decidido amedrontar os intrusos, recebendo-os de rifle em punho. Quando os ladrões chegaram ele os fez recuar, gritando-lhes – “Aquele que der um passo a frente é homem morto”. Os homens se acovardaram e já iam retirando-se, quando Issacar, explodindo de raiva, falou para si mesmo, mas em tom bastante alto: “Ah, mamzerim! … pena não ter uma bala, senão acabava com todos vocês!”. … de se imaginar o que aconteceu depois dessa confissão…

Pois bem. Apesar de todas as adversidades, estes jovens judeus decidiram ganhar a batalha contra a natureza e contra os homens. Permaneceram no mesmo lugar, trabucando no mesmo negócio durante anos, até haver poupado bastante dinheiro para se mudar para a capital, poder educar seus filhos e abrir caminho para gerações mais afortunadas. Na primeira década do século XX muitos deles já se encontravam em situação econômica folgada e pertenciam à alta camada da sociedade de Belém. Ituquara, Marariá, Cariri e outros “furos” cujos nomes nem aparecem no mapa do Pará eram só lembranças dos tempos idos.

Meus avós paternos, Moysés Levy e Hália Dabela Levy, vieram respectivamente de Rabat e Casablanca. Eram imigrantes também – não de origem espanhola e, por isso, falavam harbía. Eram muito respeitados pelos outros judeus porque minha avó Hália era nobre. Do ponto de vista dos judeus marroquinos, a nobreza é baseada no número ou magnitude de rabinos entre os ancestrais. Minha avó, Hália Dabela, era descendente de Rebi Eliezer Dabela, um rabino a quem se atribuíam milagres. Um deles foi fazer parar uma enchente, marcando com o seu bastão até onde as águas deviam chegar. Usava sempre esse bastão, que se encontra entre seus descendentes em Casablanca, e um colar de âmbar que minha avó Hália herdou e é conservado na nossa família. Esse colar era pendurado na cama dos enfermos e das parturientes pelos seus efeitos milagrosos.

Eu não estaria aqui, agora, se não fosse pela decisão de minha avó, Belízia, de casar, aos 13 anos, com David Benoliel. Foi uma união feliz que ultrapassou as bodas de ouro e da qual houve vários filhos, inclusive Esther, minha mãe. Em sua juventude, Esther era considerada uma das mais belas moças de Belém. Tinha 18 anos quando se casou com Eliezer, único filho de Moysés e Hália Levy, o mais atraente e desejado solteirão (aos 24 anos!) da cidade de Belém. Casaram-se na cidade de Cametá, a 21 de março de 1900.

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Judeus de Amazonas/Jews of the Amazon Region

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Sultana Levy Rosenblatt

Published in

Morasha magazine – Issue 30

It seems incredible that in the middle of the 19th century my maternal cousin became the owner of sugarcane fields located on the great island of Marajó, in the north of Brazil .

It seems incredible for several reasons. In the first place, he was a young Jew, and the Jews did not enjoy a reputation as adventurers. Extreme Jewish power was attributed to preventing children from being exposed to danger…

Marriage in Belém do Pará-Engaged: Isaac Benchimol-Orduenha Cohen. Rabbi David Benoliel Reading the Ketubah.

Secondly, it is assumed that Jews prefer to establish themselves in cities, including synagogues, schools and libraries. But that place where I discovered the first things of my life didn’t have the synagogue, the library, the books. It was a city where the facilities, sanitary conditions and medical assistance, were still deficient.

Then, the questions asked, how do you explain that a very Jewish man, educated, born in Tangier, not in Morocco, appears as a master of slaves in the heart of an Amazonian island?… that for that time, the rapacious Jews were encouraged for his own country to seek a new life, wherever it was. Any place would be better than living in ghettos surrounded by hostile neighborhoods.

Brazil, at that moment, was a kind of Promised Land. A country with enormous extensions and low population, which attracted immigrants with liberal promises by a law that did not apply to creeds or nationalities, whenever the race was white. So, the Moroccan Jews, considered white immigrants, set sail for the Amazon region with the hope of finding “El Dorado”. Freedom, above all religious freedom, and, you know, we are playing solo. I renounce this fascinating sueño that happens years ago when you realize that you have just passed from purgatory to hell. (The Amazon jungle is poetically known as “Infierno Verde”).

But, let’s summarize the story and get back to me… Should I call him “my dear” great-grandfather? I never saw a portrait of myself, because Moroccan Jews from the Tenian era had nothing to do with being photographed. I can only imagine what any Moroccan man looks like.

From what I have decided, my friend was dark, he is a good man, very dear to his slaves for his kindness, education and polished ways, attributes that are highly respected by the local population. But it struck me that, because he maintained the same social level as his neighbors, all rich farmers, he was at least apparently assimilated, because he was known as “José Luiz”. His young mayor, Samuel, joined the Brazilian Army, the National Guard. How much did you know, how beautifully it matched your name, Gracias. The last home for Brazil has three sons, two sons, Samuel and José, and a girl, Belízia, with the surname Vida.

Moroccan Jews are accustomed to giving their films expressive names in Spanish, such as Luna, Reina, Perla and, even in Brazil, they are not translated. In addition to Spanish, these Jews used the dialect called haketía within the family. But Belízia spoke Portuguese. She denied being born in Tangier and claimed to be Brazilian. “Mother Life”, as we called her, was small, with cinnamon skin, vivacious; It has the gestures, the modalities, the habits and the expressions of a native from Pará. It could well pass for a graceful native. Your childhood friends, your family friends, say “Mana Vida”.

With the monetary standards of the time, he was rich. Señor of a prosperous hacienda, chief of an elegant family, an accomplished man, in short. There was a sudden tumult when he was seriously suffering from beri-beri. Without medical resources where we lived, he was taken to London and never returned. He died while traveling and his body was thrown to the sea.

She was very young, without experience, to have the responsibility of running the mill. The “jotabs”, los casamenteros, moved and, as quickly as possible, took away her second husband. This man, called Nahmias, found himself destroying his business and his family. To undertake, we are not slaves, we are not subject to their cruelties, we are. If you inform them, Samuel and José, the bosses left the house, their families were rewarded by special circumstances, and they were deprived of parents and supporters. Both were very young. The only thing that Graça supposed to do in her misfortune was to cry. Sg\he cried, she cried, until there are no more tears. and she went blind. I always imagined myself as one with those bright French hues, a face made of white porcelain, bright green eyes, motionless.

In reality, she was nothing more than a doll. She was only a few years old, she was a naive and distant woman. Little Belízia did not inherit maternal beauty, but she was intelligent, vivacious, determined. His stepfather was severe and continued to disturb the family’s trips and fun times. To escape your domains and podThe immigrants dreamed. They had to fight to maintain their Judaism. The Jewish stigma followed them deep into the jungle. My grandfather and his friends were merchants and their shops were located on the banks of rivers, but surrounded by forest. And in these hidden places they were caught by pogroms.

That’s what happened. These stores provided food, clothes, medicines, utensils, in exchange for rubber, nuts, oilseeds, and articles that were brought by the natives. During the rainy season, business declined for both parties. My grandfather David’s contemporaries always recalled, among their witty anecdotes, one that related to this situation. During the time of the commercial movement, he used to go to Belém frequently to do business with exporters and banks. A friend found it strange to see him in the capital in the middle of winter and asked why he had come. “I came to escape the ‘me cededa’ harvest.” “What harvest, at this time?” “The harvest of ‘give me’, I’ve already said, ‘give me a bushel of flour’, ‘give me a roll of tobacco’, ‘give me a blanket of pirarucu’…. The truth is that he had left his home not only to escape the “harvest of ‘give me’”, but above all to save his family from some probable pogrom, which occurred more at that time, and which the people called the “Jewish slaughter”.

Although they were not physically attacked, the children and women were in such a state of terror that they often fell ill. The panic began very early in the morning, when it was suspected, by the silence of the environment, the absence of canoes, the absolute silence, that something terrible was about to happen. Then, in a hurry, the family hid their most valuable possessions. The women and children locked themselves in the bedroom. The owner of the store opened the Sidur and concentrated on prayers. When the dog barked announcing the approach of strangers, the man prepared for the confrontation. The pogrom, that is, excited men, invaded the establishment and proceeded to loot. The Jew pretended to be reading and not to notice what was happening. As soon as the robbers left, the family gathered together, giving “thanks to God for everything”, that the most important thing was life, and tried to forget the incident.

When the friends met again, they discussed what had happened, already laughing. Each exaggerated the amount of their loss and boasted about how they had reacted, making each other look ridiculous. Other anecdotes emerged from this new source. One of the best known was about a certain Issachar who decided to frighten the intruders by receiving them with a rifle in hand. When the robbers arrived, he made them retreat, shouting at them – “Whoever takes one step forward is a dead man”. The men became cowardly and were about to leave when Issachar, bursting with rage, said to himself, but in a very loud voice: “Oh, mamzerim! … too bad I don’t have a bullet, otherwise I would finish you all off!” … one can only imagine what happened after this confession…

Well then. Despite all the adversities, these young Jews decided to win the battle against nature and against men. They remained in the same place, working in the same business for years, until they had saved enough money to move to the capital, to be able to educate their children and pave the way for more fortunate generations. In the first decade of the 20th century, many of them were already in a comfortable economic situation and belonged to the upper class of Belém society. Ituquara, Marariá, Cariri and other “holes” whose names do not even appear on the map of Pará were just memories of times gone by.

My paternal grandparents, Moysés Levy and Hália Dabela Levy, came from Rabat and Casablanca, respectively. They were also immigrants – not of Spanish origin, and so they spoke Harbía. They were highly respected by other Jews because my grandmother Hália was a noblewoman. From the point of view of Moroccan Jews, nobility is based on the number or magnitude of rabbis among the ancestors. My grandmother, Hália Dabela, was a descendant of Rebi Eliezer Dabela, a rabbi who was credited with performing miracles. One of them was stopping a flood by marking with his staff how far the waters should reach. She always wore this staff, which is found among her descendants in Casablanca, and an amber necklace that my grandmother Hália inherited and is kept in our family. This necklace was hung on the beds of the sick and women in labor because of its miraculous effects.

I wouldn’t be here now if it weren’t for my grandmother Belízia’s decision to marry David Benoliel at the age of 13. It was a happy union that lasted beyond its golden wedding anniversary and produced several children, including Esther, my mother. In her youth, Esther was considered one of the most beautiful girls in Belém. She was 18 when she married Eliezer, the only son of Moysés and Hália Levy, the most attractive and sought-after bachelor (at the age of 24!) in the city of Belém. They were married in the city of Cametá, the 21st of March, 1910.

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Elisa Lispector (1911-1989)–Romancista judea brasileira/Brazilian Jewish novelist–“O exilio”/”The Exile” — fragmento do romance/except from the novel

Eiisa Lispector

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Nascida em 1911, em Ucrânia, Elisa Lispector passou por uma longa jornada antes de publicar seu primeiro ro­mance, Além da fronteira (1945). Ainda criança, vagou pela terra natal destruída pela guerrilha, de aldeia em aldeia, com a família, que fugia da perseguição antissemita instaurada após a Revolução Comunista de 1917. Aos nove anos, chega ao Brasil com pai, mãe e duas ir­mãs: Ethel, de três anos, e Clarice, recém-nascida. Depois de cinco duros anos em Maceió, a família se muda para Recife, onde consegue uma situação econômica mais estável. Lá, fica até 1937, quando segue para o Rio de Janeiro. Essa penosa odisseia familiar é retratada em No exílio (1948). Aos 26 anos, Elisa Lispector chega ao Rio de Janeiro, tendo se formado na Escola Normal, estudado no conservatório musical e lecionado para crianças em Recife. Entra concursada no serviço público federal e desempenha funções importantes, inclusive no exterior, secretariando delegações governamentais. Chegou a representar o Brasil em uma reunião da Organização Internacional do Trabalho, no Peru, para estudar os problemas da mão-de-obra feminina na América Latina. No Rio, ainda estuda sociologia na Escola Nacional de Filosofia e crítica de arte na Fundação Brasileira de Teatro. Sua aparição na literatura se dá nos anos 1940, em momento de maturidade intelectual e sob influência do existencialismo. Sua obra trata do enigma do ser. Refugia-se e se descobre na solidão e na comunicação impossível com o outro. Aspira à vida, sabendo que esta se encaminha inevitavelmente para a morte. Seus personagens descobrem corajosamente que é em seu íntimo e não no mundo das relações humanas que se deve procurar respostas para indagações sobre a vida. Elisa Lispector foi a primeira pessoa a receber, com o romance O muro de pedras (1963), o prêmio José Lins do Rego, destinado a autores de romances inéditos. Com o mesmo romance, ganhou o prêmio Coelho Neto da Academia Brasileira de Letras em 1964. Já reconhecida pela crítica como romancista de talento, estreia como contista e publica Sangue no sol (1970), lnven­tdrio (1977) e O tigre de bengala (1985), com o qual recebeu o prêmio Luísa Cláudio de Souza, do Pen Clube. A autora ainda colaborou com jornais e revistas literárias e publicou os romances Ronda solitária (1954), A última porta (1975) e Corpo a corpo (1983).

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Born in 1911, in Ukraine, Elisa Lispector went through a long journey before publishing her first novel, Além da Fronteira (1945). As a child, he wandered around his homeland destroyed by the guerrillas, from village to village, with his family, who were fleeing the anti-Semitic persecution following the 1917 Communist Revolution. At the age of nine, he arrived in Brazil with his father, mother and two sisters: Ethel, three years old, and Clarice, newborn. After five hard years in Maceió, the family moved to Recife, where they achieve a more stable economic situation. There, he stayed until 1937, when he went to Rio de Janeiro. This painful family odyssey is portrayed in O Exilio (1948). At the age of 26, Elisa Lispector arrives in Rio de Janeiro, having graduated from the Teachers School, studied at the music conservatory and taught children in Recife. She entered the federal public service and performed important functions, including abroad, serving as secretary to government delegations. She represented Brazil at a meeting of the International Labor Organization, in Peru, to study the problems of female labor in Latin America. In Rio, he studied sociology at the National School of Philosophy and art criticism at the Brazilian Theater Foundation. Her first writings took place in the 1940s, at a time of intellectual maturity and under the influence of existentialism. Her work deals with the enigma of being. She takes refuge and discovers himself in solitude and in impossible communication with others. She aspires to life, knowing that it inevitably leads to death. Her characters courageously discover that it is within themselves and not in the world of human relationships that one must look for answers to questions about life. Elisa Lispector was the first person to receive, with her novel O muro de pedras (1963), the José Lins do Rego award, intended for authors of unpublished novels. With the same novel, she won the Coelho Neto prize from the Brazilian Academy of Letters in 1964. Already recognized by critics as a talented novelist, he debuted as a short story writer and published Sangue no sol (1970), lnventdrio (1977) and O tigre de bengala (1985 ), with which he received the Luísa Cláudio de Souza award, from Pen Club. The author also collaborated with newspapers and literary magazines and published the novels Ronda solitaria (1954), A última porta (1975) and Corpo a corpo (1983).

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69-71

Hagada shel Pésach

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69-71

“(…) Este dia vos será por memória, e celebrá-lo-eis por festa a Jehovah; entre vossas gerações o celebrareis por estatu­to perpétuo…

Marim estendeu uma toalha branca sobre a mesinha re­donda colocada no centro do quarto, dispôs sobre a mesa copos, pires, um prato de matzot e outro com batatas cozidas, sal e um pouco de raiz amarga.

Pinkhas, sentado a um canto, aguardava, absorto, vendo a mulher ir e vir sem entusiasmo, sem harmonia nos movimentos.

– Não pude arranjar nada que servisse de korbanot nem de kharosset. Só consegui raiz amarga para o maror. Aves, vinho, nozes … penso que ninguém mais se lembra o que isso vem a ser. Falava com voz arrastada.

– Chega o que obtiveste – respondeu Pinkhas, levantando-se e dirigindo-se para o lavatório. -Korbanot há mui­to, já, deveriam ter sido abolidos. Há milênios os judeus não mais imolam animais em oferenda a Deus. Hoje – acrescentou sombrio -, homens matam homens, para alegria do negro Satã. E se não há kharosset, também não faz mal. Maror por si só lembrará toda a amargura do cativeiro. Sentemo-nos à mesa. Comecemos o seder. – Dizendo isso, pôs na ca­beça o solidéu, subitamente tomado de ira. Marim fitava-o calada, os movimentos cortados. Então ele dominou-se, e à raiva sobreveio uma lassidão muito grande. Agora também ele sentia-se como um seixo ao sabor da corrente, sem vonta­de, sem impulso. Aproximou-se da mesa, ajeitou dois traves­seiros pequenos ao encosto da cadeira, à guisa de almofadas, sentou-se e começou a folhear a Hagadá.

– Papá, por que você se senta sobre os travesseiros? – perguntou Lizza.

Ele ergueu-se a meio, parecendo só então haver percebido o que tinha feito. Olhou, em seguida, serenamente para a menina e respondeu com voz lenta e segura:

– Os reis sentam-se sobre almofadas, e nós somos um povo de reis. Um povo livre. Um dia fomos escravizados pelo faraó, no Egito, mas nos libertamos. Um judeu não é escravo, e não escraviza a outrem.

– Papá, conta como foi no Egito.

Ternura branda invadiu o coração de Pinkhas, ante o olhar suplicante da filha. Tornou a ajeitar o barrete num gesto de quem está com o pensamento longe, e começou:

– Por longos anos viveram os judeus no Egito. Cresceram e se multiplicaram. Então, os egípcios temeram que o povo estranho se multiplicasse mais ainda, e porque o temeu, escravizou-o. É sempre assim -prosseguiu falando agora consigo mesmo. – Porque não nos conhecem suficientemente, temem-nos, e porque nos temem, hostilizam-nos. Assim foi no Egito, e assim tem sido em todos os Egitos por onde temos andado. Lá, aproveitaram-nos para o pastoreio – tarefa que um egípcio considerava indigna para si. Mas, quando aprendeu o ofício e viu que não lhe maculava as mãos, come­çou a perseguir-nos. Assim tem continuado a ser. Aqui exploram o nosso tino para os negócios, ali tomam-nos o ouro ganho com o nosso labor; acolá tiram partido de nosso amor ao saber. Depois acusam-nos de que “ameaçamos”, “açambarcamos”. Esta a maneira pela qual o mundo se conduz.

Lizza ouvia, confusa. Não compreendia o sentido de certas palavras, mas contristou-a o semblante do pai, repentina­mente tão grave e compungido. Fitava-o nos olhos, e uma angústia tão funda estampou-se-lhe na fisionomia que Pinkhas afastou os negros pensamentos, e, para aliviar a tensão, procurou mostrar-se alegre. Até antecipou as perguntas e respostas do Ma Nischtana, as quatro perguntas rituais sobre a significação da Páscoa, de que a menina tanto gostava.

O pai lia, agora, a Hagadá, e a mãe fixava a chama da vela com o pensamento distante. Ethel continha-se para fechar a boca, com medo de que seu hálito apagasse a vela, compri­mindo bem as mãozinhas contra o rosto. Lizza olhava de um para outro, e para dentro de si mesma, e sentia pesarem sobre eles as penas do cativeiro no Egito, a ira do rei mau. E numa retrospectiva desde o Egito longínquo e tenebroso até o quar­tinho frio e escuro no qual eles estavam encerrados, como numa prisão, deparava com um mundo temível e estranho. Pogroms, assassínios, medo, fugas, crueldades. Sua mente infantil estava conturbada.

Marim continuava concentrada em seus pensamentos, enquanto Pinkhas orava, e embora a cerimónia fosse de júbi­lo, o menear da cabeça e a entonação de sua voz diziam que as penas do povo de Israel não haviam acabado. O cativeiro

não terminara com a fuga do Egito, não. Os judeus continua­vam a fugir de toda parte. Em toda parte, subsistiam os grilhões e se derramava sangue. Toda a história dos judeus, através dos séculos, vinha tinta de sangue.

A chama tremulou debilmente, prestes a extinguir-se; então Pinkhas guardou, pressuroso, o livro de oração, murmu­rou o tradicional “Leschaná Habaá Biruschalayim” -no ano próximo em Jerusalém -dividiu os matzot, repartiu as batatas, já frias, molhando cada porção em água e sal, e eles comeram em silêncio e sem fome. Depois deitaram-se, todos, sobre o mesmo estrado armado sobre caixotes de querosene e dormiram mais uma noite. sem sonhos.

Só Ethel acordou no dia seguinte maravilhada, dizendo que o pai havia comprado um kalatshi muito, muito grande, mostrou abrindo os bracinhos quanto pôde.

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93-95

O navio apoximava-se dos trópicos. A temperatura, ame­na; as noites, homp1das, estreladas.

Pmkhas não tinha sono. Subia ao tombadilho, cruzava as mãos atrás e passeava da popa à proa, e desta àquela. Às vezes parava, debruçava-se sobre a amurada do navio, perscrutava as águas profundas e negras do mar e experimentava uma sensação até então desconhecida. Diante da amplidão do céu e do mar a perder de vista, sentia-se integrado num plano mais extenso e imponderável da vida.

No porão, o calor e o ar viciado sufocavam. Marim dor­mitava, após um dia de náuseas e mal-estar. Ethel e Nina tam­bém dormiam. Só Lizza não conseguia conciliar o sono. Virava-se constantemente de um lado para outro, cansada, enervada. Pressentia o navio cortando as águas escuras, seu trajeto marcado pelo balançar cadenciado com que o navio se inclinava para um lado e outro, como o carpir de uma mulher velha, sem forças nem conseqüências, num ermo sem fim. E quando uma ratazana enorme e lerda, os pequeninos olhos fuzilando por entre o pêlo cinzento e repelente, passou sobre o travesseiro, roçando-lhe o rosto, toda a sua tensão nervosa explodiu em asco e revolta.  

tou do leito e galgou a escada para fora do porão. Sabia o pai lá fora, procurou-o e, reunindo-se-lhe, com ele deu de andar acima e abaixo, ensimesmada como Pinkhas.

A brisa fresca, lavando-lhe a face, foi-lhe restituindo, gra­dativamente, a serenidade. Aos poucos, começou a tomar in­teresse pelo que lhe ia à volta.

Da primeira classe vinham os sons da Viúva alegre, de Lehar. Como era bonito. Deteve-se junto à escada, fascinada pelo deslumbramento das luzes, dos sons e a beleza e o en­canto das damas e cavalheiros que passeavam, conversando, rindo, e fumando de delgadas e brilhantes piteiras.

Pinkhas também havia parado, e olhavam, ambos, para aquele mundo tão diferente do porão da terceira classe, um mundo feliz e descuidado, onde os adultos recreavam-se como crianças despreocupadas.

A um dado momento, alta e loura, trajando decotado ves­tido de lantejoulas, longos braços à mostra, a mulher reparou na menina, voltou e reapareceu com as mãos cheias de bom­bons. Estendeu-os a Lizza, sorrindo muito e proferindo pala­vras untuosas. Devia estar dizendo amabilidades, pensou a menina, e fitava-a com espanto e admiração, não querendo aproximar-se e não tendo ânimo para retroceder. A dama in­sistia, sorria sempre e estendia ainda mais os braços nus, lon­gos e finos. Então Lizza subiu alguns degraus até a dama alta e esguia e colheu seu sorriso arqueado bem de perto e o punha­do de bombons raros e tentadores. Mas no momento em que fazia, olhou de esguelha para o pai, e viu-lhe olhar triste, os lábios crispados. Agradeceu, confusamente, desceu a escada, e agora não sabia que fazer com aquilo. Sentia haver interposto uma barreira entre ela e o pai. Num movimento brusco, cor­reu até o parapeito do navio e jogou os bombons no mar. fazia, olhou de esguelha para o pai, e viu-lhe olhar triste, os lábios crispados. Agradeceu, confusamente, desceu a escada, e agora não sabia que fazer com aquilo. Sentia haver interposto uma barreira entre ela e o pai. Num movimento brusco, cor­reu até o parapeito do navio e jogou os bombons no mar.

“Agora”, pensou, “tão simples aproximar-me do pai.” En­tretanto, permanecia atoleimada, os pés fincados no mesmo lugar, sentindo haver algo errado, mas não sabendo o quê. Aliás, era tão difícil compreender uma porção de tantas ou­tras coisas. Muitas pessoas não estavam em seus devidos lu­gares, e sempre aconteciam coisas que não deveriam suceder. Dentro de si mesma esbarrava constantemente numa quanti­dade de obstáculos e contradições. Olhar para dentro de si própria era como perder-se numa caverna sem fim.

A esses pensamentos, sentiu um desamparo muito gran­de, um nó a a-Vamos, Lizzutschka, já é tarde. É hora de dormir. Desceram.

O navio virava rumo à aurora, as estrelas, esmaecendo; operar-lhe a garganta, e uma vontade tão grande, mas tão grande de chorar, ou de morrer.

Saiu de sua abstração ao sentir a mão do pai sobre a sua cabeça.               

Frio, e um silêncio desolador sobre o oceano inteiro.    

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69-71

“(…) This day will be a memorial to you, and you will celebrate it as a feast to Jehovah; among your generations you will celebrate it as a perpetual statute…

Marim spread a white tablecloth over the small round table placed in the center of the room, placed glasses, saucers, a plate of matzot and another with boiled potatoes, salt and a little bitter root on the table.

Pinkhas, sitting in a corner, waited, absorbed, watching the woman come and go without enthusiasm, without harmony in her movements.

– I couldn’t find anything that would serve as a korbanot or a kharosset. I only got bitter root for maror. Birds, wine, nuts… I don’t think anyone remembers what that is anymore. He spoke in a slurred voice.

– Enough what you got – Pinkhas replied, getting up and heading towards the washbasin. -Korbanot should have been abolished a long time ago. For millennia, Jews have no longer sacrificed animals as an offering to God. Today – he added gloomily -, men kill men, to the joy of the black Satan. And if there is no kharosset, it doesn’t hurt either. Maror alone will remind you of all the bitterness of captivity. Let’s sit at the table. Let’s begin the seder. – Saying this, he put the skullcap on his head, suddenly overcome with anger. Marim stared at him silently, her movements slow. Then he controlled himself, and a great lassitude came over his anger. Now he too felt like a pebble in the current, without will, without impulse. He approached the table, placed two small pillows on the back of the chair as cushions, sat down and began leafing through the Haggadah.

– Daddy, why do you sit on the pillows? – Lizza asked.

He stood up halfway, only then seeming to have realized what he had done. He then looked serenely at the girl and replied in a slow and confident voice:

– Kings sit on cushions, and we are a people of kings. A free people. One day we were enslaved by Pharaoh, in Egypt, but we freed ourselves. A Jew is not a slave, and does not enslave others.

– Daddy, tell me what it was like in Egypt.

Soft tenderness invaded Pinkhas’s heart, at his daughter’s pleading look. He adjusted his cap again in a gesture of someone who is thinking far away, and began:

– For many years the Jews lived in Egypt. They grew and multiplied. Then, the Egyptians feared that the strange people would multiply even more, and because they feared them, they enslaved them. It’s always like this – he continued talking to himself now. – Because they don’t know us well enough, they fear us, and because they fear us, they antagonize us. So it was in Egypt, and so it has been in all the Egypts where we have been. There, they used them for herding – a task that an Egyptian considered unworthy for him. But when he learned the trade and saw that it didn’t stain his hands, he began to persecute us. This is how it has continued to be. Here they exploit our business acumen, there they take the gold gained from our labor; there they take advantage of our love of knowledge. Then they accuse us of “threatening”, “stealing”. This is the way the world leads itself.

Lizza listened, confused. She didn’t understand the meaning of certain words, but her father’s face, suddenly so serious and sad, saddened her. He looked into his eyes, and such deep anguish spread across his face that Pinkhas pushed away his dark thoughts and, to relieve the tension, tried to appear happy. She even anticipated the questions and answers of Ma Nischtana, the four ritual questions about the meaning of Easter, which the girl loved so much.

The father was now reading the Haggadah, and the mother was staring at the candle flame with distant thoughts. Ethel stopped herself from closing her mouth, afraid that her breath would blow out the candle, pressing her little hands tightly against her face. Lizza looked from one to the other, and within herself, and felt the pains of captivity in Egypt, the wrath of the evil king, weighing on them. And looking back from distant, dark Egypt to the cold, dark little room in which they were locked up, as if in a prison, I came across a fearsome and strange world. Pogroms, murders, fear, escapes, cruelty. His childish mind was troubled.

Marim continued to concentrate on her thoughts, while Pinkhas prayed, and although the ceremony was one of joy, the shaking of her head and the intonation of her voice said that the sufferings of the people of Israel were not over. The captivity

it didn’t end with the escape from Egypt, no. Jews continued to flee everywhere. Everywhere, shackles remained and blood was spilled. The entire history of the Jews, throughout the centuries, was stained with blood.

The flame flickered weakly, about to go out; then Pinkhas hurriedly put away the prayer book, muttered the traditional “Leschaná Habaá Biruschalayim” -next year in Jerusalem -divided the matzot, divided the potatoes, already cold, dipping each portion in water and salt, and they ate in silence and not hungry. Then they all lay down on the same platform built on crates of kerosene and slept another night. no dreams.

Only Ethel woke up the next day amazed, saying that her father had bought a very, very big  kalatshi, showing it by opening her little arms as much as she could.

Only Ethel woke up the next day amazed, saying that her father had bought a very, very large kalatshi, showing it by opening her little arms as much as she could.

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93-95

The ship was approaching the tropics. The temperature, love at; the nights, blessed, starry.

Pmkhas was not sleepy. He went up to the deck, folded his hands behind him and walked from stern to bow, and from there to that. Sometimes he would stop, lean over the ship’s rail, peer into the deep, black waters of the sea and experience a previously unknown sensation. Faced with the vastness of the sky and the sea as far as the eye could see, he felt integrated into a more extensive and imponderable plan of life.

In the basement, the heat and stale air suffocated. Marim was dozing after a day of nausea and discomfort. Ethel and Nina were also asleep. Only Lizza couldn’t sleep. She constantly turned from side to side, tired, nervous. I could feel the ship cutting through the dark waters, its path marked by the rhythmic swaying with which the ship tilted from one side to the other, like the mourning of an old woman, without strength or consequences, in an endless wilderness. And when a huge, sluggish rat, its tiny eyes glaring through its gray, repellent fur, passed over his pillow, brushing his face, all his nervous tension exploded into disgust and revolt.  

I got out of bed and climbed the stairs out of the basement. She knew her father was out there, she looked for him and, joining him, walked up and down with him, as self-absorbed as Pinkhas.

The cool breeze, washing his face, gradually restored his serenity. Little by little, he began to take interest in what was going on around him.

From first class came the sounds of Lehar’s Merry Widow. How beautiful it was. She stopped by the stairs, fascinated by the dazzling lights, the sounds and the beauty and charm of the ladies and gentlemen who strolled around, talking, laughing, and smoking from thin, shiny cigarette holders.

Pinkhas had also stopped, and they were both looking at that world so different from the third class hold, a happy and careless world, where adults enjoyed themselves like carefree children.

At a given moment, tall and blonde, wearing a low-cut sequin dress, long arms exposed, the woman noticed the girl, came back and reappeared with her hands full of chocolates. He handed them to Lizza, smiling a lot and saying unctuous words. She must have been saying pleasantries, the girl thought, and she was looking at her with astonishment and admiration, not wanting to get any closer and not having the courage to back away. The lady insisted, always smiling and extending her long, thin, naked arms even further. Then Lizza climbed a few steps to the tall, slender lady and took a close look at her arching smile and a handful of rare and tempting chocolates. But as she did so, she glanced at his father, and saw him looking sad, his lips pursed. She thanked her, confused, went down the stairs, and now she didn’t know what to do with it. She felt that a barrier had been placed between her and her father. In a sudden movement, she ran to the ship’s railing and threw the sweets into the sea.

“Now”, she thought, “it’s so simple to get closer to my father.” However, she remained numb, her feet planted in the same place, feeling something was wrong, but not knowing what. In fact, it was so difficult to understand a lot of other things. Many people were not in their proper places, and things always happened that should not have happened. Within herself, she constantly encountered a number of obstacles and contradictions. Looking inside herself was like getting lost in an endless cave.

At these thoughts, he felt a great helplessness, a knot a-Come on, Lizzutschka, it’s already late. It’s time to sleep. They went down.

The ship turned toward dawn, the stars fading; operate on his throat, and such a great, great desire to cry, or to die.

She came out of her thoughts when she felt her father’s hand on his head.               

Cold, and a desolate silence covered the entire ocean.

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Livros de Elisa Lispector/Books by Elisa Lispector

Natalia Timerman–Romancista judaica brasileira/Brazilian Jewish Novelist –“As pequenas chances”/”The Little Chances” — fragmento de a romance sobre a morte de seu pai/excerpt from the novel about her father’s death

Natalia Timerman

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Natalia Timerman (São Paulo, 1981) is a Brazilian psychiatrist, psychotherapist, literary critic, researcher and writer. He has a degree in medicine from the Federal University of São Paulo, a master’s degree in clinical psychology from the University of São Paulo and a specialization in writing from the Vera Cruz Institute. He worked as a psychiatrist at the Penitentiary System Hospital Center for more than a decade. She is a columnist for UNIVERSA and a contributor to the magazines Quatro Cinco Um and CULT. Her debut book was Desterros, praised for humanizing São Paulo’s prison system. The work brought to the public the experience of employees and inmates who passed through the Hospital Center of the Penitentiary System. His second book is a collection of fiction short stories, Rachaduras, a finalist for the 62nd Jabuti Prize, published by Quelônio. In the book, the author observes the city and everyday neuroses in the urban environment. Rachaduras deals with motherhood and the contradictions of being a mother. In 2021, she published her first novel with Todavia, Copo Vazio, one of the best sellers of 2021, a book that deals with the difficulty of establishing true emotional relationships in the era of apps and social networks. In 2022, she published, alongside psychoanalyst Bel Tatit, her first book of children’s literature Os óculos de Lucas, under the Brinque-Book label. In 2023, she published the novel, As Pequenas Chances, with Todavia. The work was inspired by the author’s experience with the death of her father, the infectious disease doctor and writer Artur Timerman, the grief she experienced and her relationship with Judaism.

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Artur e Natalia Timerman

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Demoro alguns segundos para entender de onde aquele rosto me é familiar, em um contexto tão diferente, o aeroporto, e já passados tantos anos de quando o havia visto pela última vez, no hospital, um dia antes da morte do meu pai. Devo ter sorrido; ele também sorri e se aproxima de mim um pouco mais, um tanto mudado, mas só depois penso que ele me reconheceu mais rápido, o que é estranho, ou deveria ser, pois os médicos têm milhares de pacientes, e os pacientes e seus familiares, apenas um médico em cada situação. Ainda que meu pai fosse médico e eu também; durante aqueles dias, éramos pacientes, ou melhor, meu pai era o paciente do dr. Felipe, médico de cuidados paliativos, e eu, apenas a filha de um homem com uma doença terminal.

É claro que ele não se lembra do meu nome, penso, postada diante dele na fila do café, surpresa com aquele encontro; penso em dizê-lo eu mesma, evitando algum constrangimento, se é que seria constrangedor um médico se esquecer do nome da filha do seu paciente tantos anos depois. Mas não digo nada; sorrio de volta — ou antes, ou ao mesmo tempo —, um sorriso triste, porque esse encontro, essa presença, remete de imediato àqueles dias, já passados faz tanto tempo, mas a morte não passa, ela continua, continua, continua.

O contato com o dr. Felipe nas últimas semanas de vida do meu pai foi tão constante que, nos dias seguintes à sua morte, tive diversas vezes o ímpeto de ligar para ele de novo, como se seu paciente ainda existisse, ou como se falar com o médico pudesse fazer que o paciente continuasse ou voltasse a existir, resolvesse o engano, porque no início (e até hoje, em alguns momentos, quando olho com atenção alguma foto do meu pai, seu rosto tão conhecido, o gesto congelado na imagem, que poderia do lado de fora da foto continuar a se mover, falar, viver) tive a forte impressão de que aquilo era algum tipo de equívoco — morrer, meu pai morrer, palavras que não combinam, que até hoje tenho dificuldade de ver juntas.

Ou como se o dr. Felipe pudesse agora cuidar não da dor do meu pai, que já não existia, mas da minha, da minha dor de não haver mais a dor e a vida do meu pai. Alô, Felipe (eu o chamava pelo nome, nunca consegui chamá-lo de doutor, talvez porque eu mesma odeie ser chamada de doutora), aqui é a Natalia, filha do Artur, bom dia, tudo bem?; então, Felipe, o Artur já não existe, mas eu ainda existo, você poderia me ajudar?; aliás, por acaso ainda sou filha dele?; como é ser filha de alguém que já não está?; não sinto dor, ou melhor, sinto muita, mas não aquela dor insuportável que meu pai sentiu nos últimos meses, aquela para a qual você prescreveu morfina e pregabalina e doses impensáveis de dipirona e depois, como nada disso adiantasse, patches de fentanil; não, minha dor é outra, também insuportável, mas vem em ondas, e, quando vem, é como se me estrangulasse, tirasse meu prumo, e tomo consciência da aberração do meu corpo, de ter um corpo, em um mundo no qual meu pai não existe mais, e percebo meus braços vazios, que o calor do abraço do meu pai já não está, nunca mais estará, e meus braços pendem, murchos, levando meus ombros para baixo, e minha cabeça olha para o chão, onde alguns dias atrás enterramos meu pai, eu ajudei a enterrá-lo, joguei três pás de terra por sobre seu caixão e depois finquei a pá na terra revolvida para que outra pessoa a tomasse e cumprisse o mesmo ritual, como manda o judaísmo, e eu, que nunca fui judia, quer dizer, que desde a adolescência ignorei a religião da minha família, me vi de repente cumprindo cada ritual com um alívio impensável alguns meses antes, como se tudo que eu quisesse ou precisasse naquele momento fosse que simplesmente me dissessem como me portar ou o que fazer, que me dessem uma lista de tarefas para existir.

Meu pai morreu num sábado de manhã, às 9h43, no Shabat. E então fomos para casa enquanto o corpo dele ficava na morgue do hospital, esperando ser levado para o cemitério na manhã do dia seguinte, pois durante o Shabat se deve descansar, esta é uma das leis máximas do judaísmo: não fazer esforços, não dirigir carros, não velar corpos ou transportar caixões.

Foi um dia estranho. Meu pai havia morrido, e cada coisa continuava no lugar. Na rua, na praça cheia de árvores na frente de casa, onde os meninos brincam, tudo permanecia do mesmo jeito, se movimentando, as árvores, os pássaros, os barulhos, os carros no asfalto, tudo igual, mas havia um silêncio por trás das coisas. A morte é um silêncio, atrás de cada som há esse silêncio, o telefone que nunca mais vai tocar, sua voz calada, nunca mais a singela mensagem Na/Posso ligar?, e eu nunca mais vou poder ligar direto em vez de responder que sim, pode, pai, porque você não pode mais ligar, eu não posso mais falar com você, e no entanto, tudo como se continuasse.

Gabi veio para minha casa. Minha irmã é engenheira naval, uma profissão que precisa de mar para ser exercida, e há muitos anos não mora mais em São Paulo. Ela sempre ficava na casa do nosso pai quando estava na cidade, mas agora não, agora não mais, não há mais casa do nosso pai, aliás, ainda havia, naquele dia, mas sem nosso pai, que é o mesmo que não haver mais casa dele. Minha irmã passou o dia deitada em silêncio, mal comeu, mal bebeu, mal podia andar.

Ao sairmos do hospital, deixando para trás o corpo, pegamos suas malas. Gabi tinha vindo direto de viagem e, desde que chegara, não arredara pé do quarto do nosso pai, que número era?, já não me lembro, nem em que andar, décimo, sexto? Ela não tinha forças para carregar as malas, ela quase não tinha forças para carregar a si mesma.

Tinha sido assim no enterro e na cerimônia um pouco antes. Minha irmã não conseguia ficar de pé. Alguém veio me perguntar se ela havia tomado algum remédio, já não lembro quem, algum amigo dela. Não havia, simplesmente a força se esvaíra do seu corpo. Ao lado do meu pai até o último instante — Gabi estava com ele quando o coração parou de bater; foi ela quem, de pé junto do leito, enquanto uma enfermeira lhe dava banho, percebeu que ele havia parado de respirar —, ao lado do meu pai ela estava firme. E nos telefonou com uma voz doce, calma, papai descansou, mas assim que saímos de perto dele, assim que nos pediram que levássemos todas as coisas do quarto do hospital pois viriam retirar o corpo, ela desmoronou. 

Gabi também cumpriu os rituais judaicos. Não sei quanto ao meu irmão; ela e eu, tudo que nos orientavam a seguir, seguíamos. E aquilo fazia sentido, pela primeira vez me senti amparada pela religião, não por Deus, mas pelos meus antepassados, que conheciam a dor que eu sentia e haviam inventado rituais que tentavam acolhê-la, amenizá-la, circunscrevê-la. O mero fato de que havia regras para a Shivá, a primeira semana de luto, que se inicia depois do enterro, parecia me dizer que a dor, por mais excruciante que fosse, por mais que bagunçasse o sentido de tudo, era conhecida e, de alguma forma, natural. 

Foi necessário segurar minha irmã pelo braço para que ela conseguisse ficar de pé diante do rabino, na pequena reza antes do enterro. Havia tanta gente no espaço que o caixão do meu pai ficou no salão de rezas (era uma sinagoga? Não sei, essas horas passadas no cemitério estão todas um pouco borradas), e não nas salinhas do cemitério judaico destinadas aos velórios. Ficamos sentados nas cadeiras da frente — minha irmã, eu, meu irmão, a mulher do meu pai, a filha dela. Um terrível privilégio, esse lugar da frente: bem diante da dor, o lugar da dor. Gabi ficou sentada quase o tempo todo; eu me levantava, ia beber água, sentia uma sede terrível, pegava água para minha irmã, ou alguém aparecia com um copo cheio para cada uma, e eu andava para lá e para cá, perdida.

Eu recebia abraços e, tonta de um cansaço antigo, descobria só depois de separados os troncos quem havia abraçado. Às vezes os rostos eram desconhecidos, mas os abraços me pareciam bons, quentes, um lugar onde eu queria simplesmente dormir. Ou via o rosto de alguém que me lembrava de uma época da minha vida, da vida do meu pai, o cara com quem ele trabalhou durante toda a minha infância, mais magro, muito mais velho, menor que a imagem que eu tinha dele, e então, ao abraçá-lo, chorava de novo, e mais, enquanto o sentia triste, porém rijo, como se estivesse me segurando e amparando meu choro. 

Havia quem começasse a chorar já ao me ver, algumas amigas que gostavam muito do meu pai e que misturavam seu choro ao meu quando nos abraçávamos. Esses eram os melhores abraços, eu me sentia um pouco fora de mim, como se parte minha estivesse com elas, e isso me proporcionava algum tipo de alívio, elas sentindo no meu lugar, me oferecendo um descanso do insuportável.

Havia também os abraços protocolares. Não eram ruins; cumpriam seu papel, e cumprir papéis preenche espaços vazios, em geral um pouco estranhos, tanto mais naquela situação.  Havia quem abraçasse demais, não sei por quê, e isso não tinha a ver com a intimidade prévia nem com algum critério, se pudessem existir critérios de abraço; eram abraços que pediam mais do que davam, e naquela hora eu simplesmente não tinha nada a oferecer. Havia quem me abraçasse com os olhos, de longe, por não conseguir se aproximar muito, seja pela falta de espaço, seja porque não houvesse caminho. Havia tantas partes da minha vida ali, no enterro do meu pai, na presença de tanta gente e do tempo espalhado naquelas pessoas, mas aquilo era um absurdo, havia algo que não se encaixava, tantos amigos de épocas diferentes da vida do meu pai, seria tão óbvio que justo ele estivesse ali, mas não: aquilo estava acontecendo justo porque ele não estava mais.

2

Ari, o mais velho dos cinco filhos de Jacó e Feyga (mais conhecida como Fani) — dos quais Artur, meu pai, era o terceiro —, veio me perguntar se eu queria discursar na cerimônia. Algum dos familiares próximos teria de dizer algo sobre o morto, fazer um pequeno discurso sobre a vida e as ações de quem morreu, da mesma forma que o patriarca Abraão fez pela esposa Sara, vim a saber bem depois. Percebi que não, eu não queria falar nada, mas disse que sim, pois é o que meu pai faria. Meu pai falaria. Não me lembro da ordem da cerimônia, não me lembro exatamente do que eu disse para as pessoas que lotavam o recinto sentadas e em pé — nunca vi um enterro tão cheio, comentou o rabino, talvez tentando nos consolar de alguma maneira; lembro-me, já de pé, diante de todo mundo, de respirar fundo algumas vezes e ser invadida pela sensação de que não conseguiria; de que, se abrisse a boca, só poderia ser para chorar. Mas então meus irmãos, ambos, se levantaram ao mesmo tempo — Gabi se ergueu sozinha nesse momento — e se postaram um de cada lado meu, sem dizer nada, sem que isso tivesse sido combinado. Assim, com eles junto a mim, foi possível falar. Eu disse algo como: se meu pai pudesse escolher qualquer coisa, escolheria a vida dele, a própria vida que ele tinha levado, enquanto escutava os narizes fungando no salão.

O enterro e a cerimônia que o antecede são um teatro. Eu sabia que as pessoas me observavam, observavam a mim, meu irmão e minha irmã chorando, observavam a companheira do meu pai atônita, e isso me dava certa sensação de farsa, a dor que eu comunicava não era a mesma que eu sentia, há um abismo entre ambas, mas as cerimônias são um teatro necessário, pois por trás delas não há nada, é isto a morte, nada, e isso não é possível suportar.

Timerman, Natalia. As pequenas chances.Todavia. Kindle Edition.

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It takes me a few seconds to realize where I know that face, in such a different context, the airport, and so many years since I’d last seen it, at the hospital, the day before my father’s death. I must have smiled; he smiles too and comes a bit closer, somewhat changed, but it’s only later that I think he recognized me first, which is odd, or should be, because doctors see thousands of patients, but patients and their families, just one doctor for each situation. Even though my dad was a doctor and so am I, during that time we were patients, or rather my dad was Dr. Felipe’s patient, his palliative care physician, and I, just the daughter of a terminally ill man. 

Of course he won’t remember my name, I think, standing in front of him in line for coffee, surprised to have run into him; I think about just going ahead and saying it, to avoid any embarrassment, if a doctor forgetting the name of his patient’s daughter after all those years could be embarrassing. But I don’t say anything; I smile back—or first, or at the same time—a sad smile, because this meeting, this presence, brings me right back to that time, so long ago. But death doesn’t pass, it continues, on and on and on. 

My contact with Dr. Felipe during the final weeks of my father’s life was so constant that, in the days following his death, several times I had the urge to call him up, as if his patient still existed, or as if talking to his doctor could make a patient keep on living or come back to life, to figure out this misunderstanding, because in the beginning (and even today, at times, when I look closely at pictures of my dad, his face so familiar, his gestures frozen in time, like someone who, outside that photo, might carry on moving, speaking, living) I had the strong feeling that this was all some kind of mistake—dying, my dad dying, words that don’t go together, that I struggle to see together to this day. 

Or as if Dr. Felipe might now treat not my father’s pain, which no longer existed, but mine, my own pain because my father’s pain and life no longer existed. Hello, Felipe (I called him by his first name, I could never call him doctor, maybe because I hate when people call me doctor), it’s Natalia, Artur’s daughter, hello, how are you?; well, Felipe, Artur is no longer alive, but I am, do you think you could help me out? actually, am I even still his daughter? what’s it like being the daughter of someone who’s no longer here? I don’t feel pain, or rather I feel a lot of pain, but not the unbearable pain my father felt those last few months, the one you prescribed morphine and pregabalin for, and unthinkable doses of dipyrone and then, when none of that worked, fentanyl patches; no, my pain is different, it’s also unbearable, but it comes in waves, and when it comes, it’s like it’s strangling me, it robs me of my wits, and I become aware of the absurdity of my body, of having a body, in a world where my father is no more, and I realize my arms are empty, that the warmth of my father’s embrace is gone, it will never be there again, and my arms hang, withered, bringing my shoulders down with them, and my head looks to the ground, where we buried my dad days ago, I helped bury him, I tossed three shovelfuls of earth on his coffin and then stuck the shovel in the turned earth so that someone else could take it and perform the same ritual, as required by Judaism, and I, who was never Jewish, I mean, who’d ignored my family’s religion since I was a teenager, suddenly I found myself performing each ritual with a relief that was unthinkable a few months ago, as if all I wanted or needed at that moment was to simply be told how to behave or what to do, to be given a list of tasks in order to exist. 

My father died on a Saturday morning at 9:43 am, on Shabbat. And then we went home while his body lay in the hospital morgue, waiting to be taken to the cemetery the next morning, because during Shabbat one must rest, this is one of the highest laws of Judaism: no exerting yourself, no driving cars, no mourning or transporting coffins. 

It was a strange day. My father had died, but everything was still in its place. Out on the street, in the leafy square in front of my house where the boys play, everything remained the same, in motion, the trees, the birds, the noises, the cars on the asphalt, everything the same, but there was a silence behind everything. Death is a silence, behind every sound there is this silence, the telephone that will never ring again, his silenced voice, never again the simple message Na, Can I call you?, and I will never be able to just call him instead of answering Yes, Dad, you can call, because you can’t call anymore, I can’t talk to you anymore, and yet, everything continues as if we still could.

Gabi came over to my place. My sister is a naval engineer, a profession that requires the sea, and she hasn’t lived in São Paulo for many years. She would always stay at our dad’s house when she was in town, but not now, not anymore, our dad’s house no longer exists, well, it still does, actually, but without our dad, which is the same as it no longer being his house. My sister spent the day lying down, in silence, she barely ate, she barely drank, she could barely walk. 

When we left the hospital, leaving the body behind, we went to pick up her suitcases. Gabi had come straight to the hospital from a trip and since she’d arrived, she hadn’t left our father’s room, what number was it? I don’t remember, not even which floor, tenth, sixth? She didn’t have the strength to carry her suitcases, she almost didn’t have the strength to carry herself. 

She was like that at the burial and at the ceremony shortly before. My sister was unable to stand. Someone came up to ask me if she’d taken anything, I don’t remember who, a friend of hers. She hadn’t, the strength had simply drained from her body. By my father’s side until the last moment—Gabi was the one with him when his heart stopped beating; she was the one who, standing at his bedside, while a nurse bathed him, noticed he’d stopped breathing—she stood firm beside my father. And she called us and said, in a sweet, calm voice, Dad’s gone, but as soon as we left his side, as soon as they asked us to take all his things from the hospital room because they were going to come and remove the body, she collapsed. 

Gabi also performed Jewish rites. I don’t know about my brother, but Gabi and I, everything we were told to do, we did. And it all made sense, for the first time I felt bolstered by religion, not by God, but by my ancestors, who knew the pain I felt and had come up with rituals that attempted to embrace it, alleviate it, circumscribe it. The mere fact that there were rules for Shiva, the first week of mourning that begins after burial, seemed to tell me that the pain, no matter how excruciating, no matter how much it messed up the meaning of everything, was familiar and, somehow, natural. 

I had to hold my sister up by the arm so she could stand in front of the rabbi, during the small prayer service before the burial. There were so many people inside that space that my father’s coffin was left in the prayer room (was it a synagogue? I don’t know, those hours spent at the cemetery are all a bit blurry), and not in the small rooms at the Jewish cemetery intended for funerals. We sat in the front row—my sister, me, my brother, my father’s wife, her daughter. A terrible privilege, a place at the front: right in front of the pain, at the place of pain. Gabi stayed seated almost the whole time; I would get up, go get a drink of water, I was terribly thirsty, getwater for my sister, or someone would come with a full glass for each of us, and I paced back and forth, lost. 

People came up to hug me and, dazed from an old tiredness, I’d only realize who it was after I took a step back. Sometimes the faces were unfamiliar, but the hugs felt good, warm, a place where I just wanted to curl up and sleep. Or I would see the face of somebody who reminded me of a certain time in my life, in my father’s life, the guy he worked with throughout my childhood, thinner, much older now, smaller than the image I had of him, and then, when I embraced him, I cried again, and harder, and I could feel that he was sad, but tough, like he was holding me up and sustaining my tears. 

There were the ones who burst into tears when they saw me, some friends who really liked my dad and whose tears mixed with mine when we hugged. Those were the best hugs, I felt a little outside of myself, as if part of me was with them, and that provided me with some relief, they were feeling in my place, offering me a break from the unbearable. 

There were also ceremonial hugs. They weren’t bad; they served their purpose, and serving purposes fills empty spaces, generally a little strange, especially in that situation. There were the ones who hugged too much, I don’t know why, and this had nothing to do with prior intimacy or any criteria, if there could be criteria for hugging; They were hugs that asked for more than they gave, and at that time I simply had nothing to offer. There were those who hugged me with their eyes, from afar, because they couldn’t come any closer, either because there wasn’t enough room or because there was no way to get to me. There were so many parts of my life there, at my father’s funeral, in the presence of so many people and time spent on those people, but that was absurd, there was something that didn’t sit right, so many friends from different times of my father’s life, it would be so obvious for him to be there himself, but no: this was taking place because he was no longer with us.

Ari, the eldest of the five children of Jacob and Feyga (better known as Fani)—of whom Artur, my father, was the third—came to ask me if I wanted to speak. One of the immediate family members would have to say something about the deceased, give a short speech about the life and actions of the person who died, the same way the patriarch Abraham did for his wife Sara, I found out much later. I realized that no, I didn’t want to say anything, but I said yes, because that’s what my father would have done. My father would have spoken. I don’t remember the order of the ceremony, I don’t remember exactly what I said to the people who filled the room, sitting and standing—I’ve never seen such a crowded funeral, said the rabbi, perhaps in an attempt to console us in some way; I remember, standing there in front of everybody, taking a few deep breaths and being overcome by the feeling that I wasn’t going to make it; that if I opened my mouth only tears would come. But then my siblings, both of them, got up at the same time—Gabi got up on her own then—and stood on either side of me, without saying a word, without it having been arranged beforehand. And then, with them standing next to me, I was able to speak. I said something like: if my father could have chosen anything, he would have chosen life, the very life he led, as I heard sniffling noses fill the room. 

The burial and the ceremony that precedes it are a theater. I knew people were watching me, they were watching me, my brother and my sister crying, they were watching my father’s partner, paralyzed, and that gave a certain feeling of farce, the pain I was communicating wasn’t the same as what I was feeling, there’s an abyss between the two, but ceremonies are a necessary theater, because behind them there’s nothing, that is death, nothing, and that’s something impossible to bear.

Timerman, Natalia. As pequenas chances. Todavia. Kindle Edition.

Translated by Zoe Perry

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Deborah Leipziger–Consultora y poeta brasileña-judaica, vivendo en Estado Unidos/Brazilian Jewish consultant and poet, living in the United States–“Lobo”/”Wolf”and other poems/”Lobo” e outros poema/”Lobo” y otros poemas

Deborah Leipziger

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Deborah Leipziger (Brasil) é poetisa, autora e consultora de sustentabilidade. Ela atualmente reside em Boston, Estados Unidos. É autora da coleção de poemas Flower Map, publicada pela Finishing Line Press (2013). quatro de seus poemas foram indicados ao prêmio Pushcart. Seus poemas foram publicados no Reino Unido, Estados Unidos, Israel, Canadá e Holanda, e em revistas e jornais como Salamander, Lily Poetry Review e POESY. Ela é co-fundadora da Soul-Lit, uma revista online de poesia. E autor de vários livros sobre sustentabilidade e direitos humanos, alguns dos quais traduzidos para chinês, coreano e português. Ela está trabalhando em um projeto sobre “a linguagem da sustentabilidade”, onde combina seu amor pela linguagem e pela natureza.

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Deborah Leipziger (Brasil) es poeta, autora y asesora en Sostenibilidad. En la actualidad, reside en Boston, Estados Unidos. Es autora del poemario Flower Map, publicado por Finishing Line Press (2013). Cuatro de sus poemas han sido nominados al premio Pushcart. Sus poemas se han publicado en el Reino Unido, Estados Unidos, Israel, Canadá y los Países Bajos, y en revistas y periódicos como Salamander, Lily Poetry Review y POESY. Es cofundadora de Soul-Lit, una revista virtual de poesía. Y autora de varios libros sobre sostenibilidad y derechos humanos, algunos de los cuales han sido traducidos al chino, coreano y portugués. Está trabajando en un proyecto sobre “el lenguaje de la sostenibilidad”, donde combina su amor por el lenguaje y la naturaleza.

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Deborah Leipziger (Brazil) is a poet, author and consultant on Sustainability. He currently resides in Boston, United States. She is the author of the Flower Map collection of poems, published by Finishing Line Press (2013). Four of her poems have been nominated for the Pushcart Prize. Her poems have been published in the UK, USA, Israel, Canada and the Netherlands, and in magazines and newspapers such as Salamander, Lily Poetry Review and POESY. She is co-founder of Soul-Lit, an online poetry magazine. And author of several books on sustainability and human rights, some of which have been translated into Chinese, Korean and Portuguese. He is working on a project about “the language of sustainability”, where she combines her love for language and nature.

Book on Amazon:Story and Bones

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Deborah Leipziger escreveu seus poemas em inglês/ Deborah Leipziger escribió sus poemas en inglés/Deborah Leipziger wrote her poems in English

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Lobo

For Paulo Paulino Guajajara, known as “Lobo”, who was a “Guardian of the Amazon”, killed by illegal loggers  

I guard the forest
its canopy of reflected stars
the morpho butterflies   the blue moons
bromeliads   the fish
the roots of trees
drinking in the river

I guard the forest
the children of the tribe

I guard the canopy with its toucans   parakeets 
emerald
I guard the forest floor   with its snakes
I guard the mating jaguars 

I knew 
they would kill me.
I could not have imagined
that it would be a shot to the
face    that my body would be 
left in the forest

Now 
You guard the forest
its canopy of reflected stars
the morpho butterflies   the blue moons
bromeliads   the fish 
the roots of trees 
   drinking in the river 

You guard the forest
the children of the tribe

You guard the canopy with its toucans    parakeets 
emerald 
You guard the forest floor   with its snakes
You guard the mating jaguars 
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Lobo

Escrito em homenagem à Paulo Paulinho Guajajara, que era um “Guardião da Amazônia”, morto por madeireiros ilegais 

Sou sentinela da floresta
da sua copa de estrelas espelhadas
suas borboletas, das luas azuis
dos piriquitos, das bromélias, dos peixes
das raízes das árvores
bebendo do rio.
 
Sou sentinela da selva 
das crianças gujajara.
Protejo a copa da floresta,
os tucanos, os beija flores.
Protejo a mata, suas cobras.
Sou guarda 
dos jaguares se juntando.
 
Sempre soube 
que iriam me matar,
porém nunca imaginaria 
que iriam me balear
no rosto,
que deixariam o meu corpo 
na selva. 
 
Agora você
serà a sentinela da selva 
sua copa de estrelas espelhadas
suas borboletas, das luas azuis
dos piriquitos, das bromelias, dos peixes
das raízes das árvores
bebendo do rio.
 
Sou sentinela da selva 
das crianças guajajara.
Protejo a copa da floresta,
os tucanos, os beija flores.
Protejo a mata, suas cobras.
Sou guarda 
dos jaguares se juntando.

Tradução de Deborah Leipziger
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The Green Ravine

In the ravaged city the Green Ravine
cools you
after the heat island.

The dragonflies intertwine their bodies in the shape of infinity.

You hear the heat
lift the cenzontle birds.

You sense the lizards.

You feel the water lifted into air. This is where water is born.

Inspired by a virtual field trip with Lucrecia Masaya, of the Green Ravine in Guatemala City at the Nature of Cities Conference, 2021, during the COVID-19 pandemic.

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A ravina verde 

Na cidade devastada a ravina verde

te  refresca 
depois da ilha de calor 

As libélulas se entrelaçam criando o símbolo do infinito. 

Escuto o calor 
levantando os pássaros centzotles 

Você sente a presença das lagartas. 

Você sente a água levantando no ar.  É aqui que a água nasce. 

Inspirado por uma viagem de campo virtual com Lucrecia Masaya, do Green Ravine na Cidade da Guatemala na Nature of Cities Conference, 2021, durante a pandemia de COVID-19.

Tradução de Deborah Leipziger

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Written on Skin

In cursive and script your kiss
is indelibly written on skin. 

Even now, the cut from your birth
echoing the rain is written on skin.

The numbers from a time of horror
are held written on skin.

Just as the rings record the age of the tree
my ages and phases are written on skin.

The wood from the forest for the violin
its music etched in wood, written on skin.

The umbilical cord coiled around my neck
is still there, pulsating purple, written on skin.

The parchment of history of storied sacrifice
is written on hides, written on skin.

In ink and dust, blood and bruise
my history is written on skin.

The newspaper stories of massacre 
collapse and famine are written on skin.

Gems with facets etched by stone 
hidden in garments, written on skin.

Your touch on my earlobe, fingerprints on my face
words and deeds unbidden, written on skin. 
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Escrito en la piel 

En letra cursiva y guion tu beso
está escrito indeleble en la piel 


incluso ahora, el corte de su nacimiento 
que hace eco de la lluvia está escrito en la piel 

Los números de una época de horror
se llevan escritos en la piel 

Así como los anillos registran la edad del árbol 
mis edades y fases están escritas en la piel 

La madera del bosque para el violín 
su eco grabada en la madera, escrito en la piel 

El cordón umbilical enrolladlo alrededor de mi cuello
sigue ahí, pulsante de color púrpura, escrito en la piel 

El pergamino de la historia del sacrificio histórico 
está escrito en pieles, escrito en la piel

En tinta y polvo, sangre y magulladura
mi historia está escrita en la piel 

Las noticas sobre masacres
el colapso y el hambre están escritos en la piel 

Gemas con facetas grabadas por piedra
escondidas en prendas, grabadas en la piel 

Tu caricia en mi lóbulo de la oreja, huellas dactilares en mi rostro 
las palabras y acciones espontáneas, escritas en la piel
                                                          
                                                           Translated by María Del Castillo Sucerquia

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Sugaring
                                               After Safia Elhillo

i was made of almonds and sugar
of giving and receiving
of coast lines dug deep with departure
and arrival, of boats and boundaries   seeking refuge

for my Nonna, all desserts     began
with grating almonds and sugar    recreating home
with latticework in marizipan

i was born under dictatorship   under the light 
of the southern cross   
tasting of sugar dissolving into coconut   and clove     tangled 
in the umbilical cord 

my mother told me    no one
would ever love me
like she did.   now I know
she was right   and wrong

my daughters born of gingerbread     
under a coup d’ivorce
hold the light, the dark
of my countries
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Azucarada 

                                                         Después de Safia Elhillo 

Yo estaba hecha de almendras y azúcar 
de dar y recibir 
de literales excavadas hondas con partida
y llegada de barcos y fronteras     en busca de refugio
 
para mi Nonna, todos los postres ⠀⠀empezaban 
con ralladura de almendras y azúcar ⠀⠀ recreando el hogar 
con celosías en el mazapán

nací bajo la dictadura    bajo la luz 
de la cruz del sur 
saboreando el azúcar que se disuelve en el coco y    el clavo de     enredado
en el cordón umbilical 

mi madre dijo que     nadie 
me amaría 
como ella lo hizo   ahora yo 
 sé que tenía razón        y no

mis hijas nacieron de pan de jengibre 
bajo el coup d’ivorce  
sostienen la luz, la oscuridad 
de mis países 



                                        Translation by María Del Castillo Sucerquia
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You as a forest

I listen to the shelter of you 

the sweeping canopy 

cradling the day and night of me t

he moon rising in your branches 

the stars falling into the sweep of your hair. 

I see the feet of your forest the fingers, 

the limbs the concave and convex of you, 

the light that falls around us. 

I smell your maple, fern, ivy. 

The light serpentine falling through the rings of redwoods 

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Tú, un bosque

Escucho el refugio de ti

el amplio toldo que acuna el día

y la noche de mí

la luna asomándose en tus ramas

las estrellas cayendo

en la silueta de tu pelo

veo los pies de tu bosque

los dedos, los muslos

lo cóncavo y convexo de ti

huelo tu aroma de arce

helecho, hiedra

la luz serpentina cayendo

entre los anillos de la roja se secuoya

                                          Translated by María Del Castillo Sucerquia
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Honeycomb 

I fell asleep inside the honeycomb


the bees called to me humming, thrumming 

I fell asleep inside the honeycomb 


the hive alive the singing, the stinging 

all night the bees taught me the language 

of pollen, 

the scent of stamen

the ringing, 

the brimming 


And the sun rose inside the honeycomb 


and I awoke inside the honeycomb the dripping, the sipping 

I awoke inside the honeycomb with the stunning, the becoming 

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Panal

Me dormí dentro del panal

me llamaron las abejas, tarareando, tamborileando 

Me dormí dentro del panal

la colmena viva el canto, el picor
toda la noche las abejas me enseñaron el idioma del polen
el olor del estambre
el zumbido, el rebosante

el sol se levantó dentro del panal

y me desperté dentro del panal el goteo, los sorbos

me desperté dentro del panal con el asombro, el definir

                                                              Translated by María Del Castillo Sucerquia
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The Creation of Turquoise 

it didn’t happen all at once
the elders would say later
then again, it seldom does
every creation is intentional
even destruction can take its time,
rather it was the inexorable
chipping away of the sky
one kernel at a time
small fragments of
rupture, rapture
and when the sky touched the earth
the impact created 
veins in the stone
so each turquoise would tell a story
of sky and earth, colliding
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La creación de la turquesa

no sucedió
dirían los ancianos más tarde
por otra parte, rara vez sucede
toda creación es intencional
incluso la destrucción requiere de tiempo
más bien, fue le inexorable
astillamiento del cielo
un grano a la vez
pequeños fragmentos de ruptura, éxtasis
la caricia del cielo a la tierra
ahora, la turquesa
cuenta la historia del cielo y la tierra, aquel impacto

                                                  Translated by María Del Castillo Sucerquia
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Blue Fugue

When you were born, the Room turned Blue.
I became Blue cold veins frozen.
The Blue became a Room.

Both of you Blue whisked Away
I, cut open.
When you were born, the Room turned Blue.

In a Blue gown,
My mouth, unable to form ice words.
The Blue became a Room.

When I was born, I was Blue.
The womb was Blue, the Blue cord around my neck.
When you were born, the Room turned Blue.

Alone, waiting, warming, 
Until they brought you back.
The Blue sky becomes a Room. 
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La fuga azul

cuando naciste
se tornó Azul la habitación
mis venas se tomaron Azul y álgidas
el Azul se volvió una Habitación

los dos Azules se alejaron pronto
yo, un corte abierto
cuando naciste
se tornó Azul la Habitación

con una bata Azul
mi boca es incapaz de formar 
palabras de hielo
el Azul se volvió una Habitación

cuando nací, era Azul
el útero, Azul
un cordón Azul   rodeando mi nuca
cuando naciste se tornó Azul la Habitación

sola
	esperaba
		calentarme
te trajeron de suelto
el Cielo Azul se tornó
el Cielo Azul de Vuelta
                                         Translated by María Del Castillo Sucerquia

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Leandro Sarmatz–Escritor e editor brasileiro-judaico/Brazilian Jewish Writer and Editor– “Ariel, Quixote do Holocausto”/”Ariel, Quixote of the Holocausto”– do um conto/Excerpts from a short-Story

Leandro Sarmatz

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Porto-alegrense radicado em São Paulo há quase uma década, Leandro Sarmatz é jornalista e Mestre em Letras. Depois de já ter integrado antologias coletivas, seu primeiro livro de poesias, Logocausto, lançado em 2009, foi recebido pela crítica com elogios. Agora Leandro faz sua estréia na prosa com o livro de contos UMA FOME, uma obra madura e segura, que traz relatos em que o autor enfoca, entre outros temas, a vida de judeus durante a Segunda Guerra, assim como de seus descendentes.Neto de imigrantes judeus do leste europeu que se estabeleceram no Sul do Brasil no finalzinho da década de 20, o autor conta que a cultura judaica sempre foi uma presença importante em sua formação. A mesma cultura que impregnou autores tão diferentes entre si como Kafka e Bashevis Singer, Philip Roth e Aaron Appelfeld, que fazem parte de sua formação de leitor.Dono de “uma sabedoria artística raríssima entre escritores jovens” e de “estilo sóbrio, mas jamais de mera transparência”, como declara o escritor João Gilberto Noll no texto de orelha do livro, Leandro oscila entre o humor sutil, refinado, quase cerebral e uma indissolúvel melancolia.

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Born in Porto Alegre and living in São Paulo for almost a decade, Leandro Sarmatz is a journalist and Master in Letters. After having already integrated collective anthologies, his first poetry book, Logocausto, launched in 2009, was received by critics with praise. Now Leandro makes his debut in prose with the book of short stories UMA FOME, a mature and confident work, which brings stories in which the author focuses, among other themes, on the lives of Jews during the Second World War, as well as their descendants. Jewish immigrants from Eastern Europe who settled in southern Brazil at the end of the 1920s, the author says that Jewish culture has always been an important part of his upbringing. The same culture that permeated authors as different from each other as Kafka and Bashevis Singer, Philip Roth and Aaron Appelfeld, who form part of his reader training. of mere transparency”, as the writer João Gilberto Noll declares in the text of the ear of the book, Leandro oscillates between subtle, refined, almost cerebral humor and an indissoluble melancholy.

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Então alguém disse, ao ver que tais livros constituíamA minha dieta, que eu poderia ser

tomado por uma espécie                                 

de Dom Quixote do Holocausto       

…..  

Morreu Zamler, que ficou conhecido—não sem alguma ironia, é custoso observar—como o “Dom Quixote do Holocausto … Deixou-se morrer. . .  

Zamler – nascido em Israel de pais brasileiros que militavam no movimento sionista – ganhou notoriedade ainda quanto era um estudante de pós-graduação nos Estados Unidos que mergulhara em toda uma bibliografia do Holocausto. Anne Frank, Primo Levi, Victor Klemperer, Aharon Appelfeld, a infinidade de diários, registros e cartas que testemunham a longa noite de vida da vida judaica na Europa de Hitler. Saiu-se com uma tese a um só tempo e enciclopédia, cobrindo um vasto escopo….  

Foi então que tudo começou. O primeiro artigo apareceu nas páginas de um velo jornal iídish em Nova York (desde os anos 70 editado em língua inglesa) …Assinado apenas como “Ariel”, seu autor dizia, em suma, que um novo Holocausto judaica estava em curso naqueles dias, e que era preciso denunciá-lo, antes que os primeiros comboios partissem em direção os campos de concentração. Houve quem tomasse o texto como uma peça de humor negro, outros enxergaram apenas mau-gosto, mas também houve quem, alarmado por tais predições, levasse a conversa de Ariel a sério. Todo Quixote tem seu próprio Sancho, e Phil Glukman, recém-saído de uma adolescência problemática em Little Odessa, logo iria se aproximar do autor da denúncia. Havia agora duas vozes a alardear a grande tragédia à vista.  

Porém o artigo, que poderia ter ficado restrito ao gueto intelectual judaico, ganhou ressonâncias quando o repórter de um grande jornal doa cidade o descobriu algumas semanas depois durante uma visita à casa de seus pais, num subúrbio elegante. Aquilo lhe pareceu um desses achados que fazem a sorte de um jornalista, catapultando-o para degraus mais altos na carreira. Quem quer que fosse, Ariel era um personagem singular.

Valia uma entrevista…   Como entrevistado, Ariel foi entrevistado, Ariel foi eloquente, inflamado e- por mais estapafúrdia que se seja a hipótese – convincente. Ele parecia realmente acreditar no que dizia, anotou o repórter, e no domingo seguinte a matéria ganhou diversas páginas do jornal. Havia ali muito da habitual comédia jornalista, que suas simplificações e atribuições errôneas, porém alguém com pouco senso de humor junto às autoridades policiais começou a monitorar os passos de Ariel…  

Não foi difícil encontrá-lo. Morava no pequeno apartamento alugado nos confins do Brooklyn….  

Como entrevistado, Ariel foi eloquente, articulado, inflamado e—por mais estapafúrdia q seja hipótese—convincente. Ele parecia realmente acreditar no que dizia, anotou o repórter, e no domingo seguinte matéria ganhou diversas páginas do jornal. Havia ali muito da habitual comédia jornalística, com suas simplificações e atribuições errôneas, porém alguém com pouco senso de humor junto às autoridades policiais começou a monitorar os passos de Ariel.  

Durante pelo menos dois anos, antes de ser emigrar para Brasil, Ariel, percorreu boa parte do território americano a denunciar o Holocausto que estava próximo. Deixou de ser uma figura algo folclórico da comunidade judaica e passou a dar palestras, oferecer palestras, oferecer testemunhos e encabeçar enormes eventos nos mais diversos lugares. Universidades do Meio-Oeste. A sede de uma milionária igreja coreana…Era imitado por atores em programas humorísticos. Convertera-se numa personalidade.

Até que foi preciso fugar. A polícia federal não o deixara em paz…

Doente, cansado de bradar pelo novo fim do povo judeu, com a moral combalida e acreditando realmente que o Brasil, que antes recebera Zweig e outros, realmente poderia ser um porto seguro, refugiu-se na casa de seus pais. Já era tarde, contudo. Tendo desistido de se cuidar, logo seu corpo iria se ressentir disso, e Ariel Zamler, “o Quixote de Holocausto”, mergulharia em um sono sem fin. Seu pesadelo havia acabado.

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Then someone said, seeing that such books constituted my diet, that I could be taken

for a type of Don Quixote

of the Holocaust.  

…..  

Zamler died, he who had become known—not without some irony, it is difficult to observe—as the “Don Quixote of the Holocaust… He let himself die. . .  

Zamler – born in Israel to Brazilian parents who were active in the Zionist movement – ​​gained notoriety even as a graduate student in the United States who delved into an entire bibliography of the Holocaust. Anne Frank, Primo Levi, Victor Klemperer, Aharon Appelfeld, the multitude of diaries, records and letters that testify to the long night of Jewish life in Hitler’s Europe. He came out with both a thesis and an encyclopedia, covering a vast scope….

It was then that it all started. The first article appeared on the pages of a Yiddish newspaper in New York (published in English since the 1970s) … Signed only as “Ariel”, its author said, in short, that a new Jewish Holocaust was under way in those days. days, and that it was necessary to denounce it before the first convoys left for the concentration camps. There were those who took the text as a piece of black humor, others saw it as just bad taste, but there were also those who, alarmed by such predictions, took Ariel’s conversation seriously. Every Quixote has his own Sancho, and Phil Gluckman, fresh out of a troubled teen years in Little Odessa, would soon get close to the whistleblower. There were now two voices trumpeting the great tragedy in sight.

Worth an interview…

It wasn’t difficult to find him. He lived in the small, rented apartment in the wilds of Brooklyn….

But the article, which could have been confined to the Jewish intellectual ghetto, gained resonance when a reporter for a major city newspaper discovered it a few weeks later during a visit to his parents’ home in an upscale suburb. It struck him as one of those finds that make a journalist lucky, catapulting him to higher career ladders.

Whoever he was, Ariel was a singular character. As an interviewee, Ariel was eloquent, articulate, fiery, and—as far-fetched as it may be—convincing. He seemed to really believe what he was saying, noted the reporter, and the following Sunday, the article made several pages in the newspaper. There was much of the usual journalistic comedy there, with its simplifications and misattributions, but someone with little sense of humor among the police authorities began to monitor Ariel’s steps.

For at least two years, before emigrating to Brazil, Ariel traveled through much of the American territory to denounce the Holocaust that was at hand. He ceased to be something of a folk figure in the Jewish community and started to give lectures, offer lectures, offer testimonies, and head huge events in the most diverse places. Midwest Universities. The headquarters of a millionaire Korean church… He was imitated by actors in comedy programs. He had become a personality.

Until it was necessary to escape. The federal police would not leave him alone…

Sick, tired of crying about the new end of the Jewish people, with shaky morale and truly believing that Brazil, which had previously received Zweig and others, could really be a safe haven, he took refuge. if at your parents’ house. It was too late, however. Having given up on taking care of herself, soon his body would resent it, and Ariel Zamler, “the Quixote of Holocaust”, would sink into an endless sleep. Her nightmare was over.

Translation by Stephen A. Sadow

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Jacques Fux — Escritor y novelista brasileiro judaico/Brazilian-Jewish-Writer and Novelist–“No lembro”/”I Don’t Remember” Fragmento de uma novela/Section of a Novel — ״Amnésia ou no?״/ “Amnesia or not?״

Jacques Fux

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Jacques Fux é um autor brasileiro. Foi Visiting Scholar na Universidade de Harvard (2012–2014), realizou pós-doutorado na Universidade de Campinas, recebeu seu Ph.D. em literatura comparada pela UFMG e em língua, literatura e civilização francesas pela Universidade de Lille III. Possui mestrado em ciência da computação e bacharelado em matemática. Publicou quatro livros: Literatura e Matemática, premiado com o Prêmio Capes de Melhor Dissertação em Letras e Lingüística no Brasil; Antiterapias, sua primeira ficção, que recebeu o Prêmio São Paulo de Literatura; Brochadas; e Meshugá: um romance sobre a loucura.

Tradutora:

Hillary Auker se formou recentemente na Boston University com mestrado em Estudos Latino-Americanos com foco em tradução e escrita brasileira contemporânea. Ela também tem um B.A. em linguística com foco nas línguas espanhola e portuguesa, e atualmente trabalha no Departamento de Línguas Românicas da Universidade de Harvard.

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Jacques Fux is a Brazilian author. He was a visiting scholar at Harvard University (2012–2014), performed post-doctoral studies at the University of Campinas, received his Ph.D. in comparative literature from UFMG and in French language, literature, and civilization from the University of Lille III. He has a Master’s degree in computer science and a Bachelor’s degree in mathematics. He has published four books: Literatura e matemática, awarded the Capes Prize for the Best Dissertation in Letters and Linguistics in Brazil; Antiterapias, his first fiction, which received the São Paulo Prize for Literature; Brochadas; and Meshugá: um romance sobre a loucura.

Translator:

Hillary Auker recently graduated from Boston University with an M.A. in Latin American Studies with a focus in translation and contemporary Brazilian writing. She also has a B.A. in linguistics with a focus in Spanish and Portuguese languages, and is currently working in the Romance Languages Department at Harvard University. 

Por: Jacques Fux and Raquel Matsushita. As coisas de que não me lembro, sou. Aletra Editora

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Por Lee Wan Xiang, Asymptote Magazine

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As coisas de que não me lembro, sou

Não me lembro do dia em que fui para escola pela primeira vez. Não me lembro de nenhuma mordida, nenhum soco, nenhuma briga que tive com algum colega. Nem me recordo de ter sido colega de ninguém no jardim de infância. Não me lembro das brincadeiras, dos sorrisos, das corridas e saltos mirabolantes. também não me lembro das lágrimas da minha mãe quando me deixou pela primeira vez nessa escola. Não me recordo do meu desespero, do meu pranto, dos soluços e da dor de barriga de tanto chorar. Não me lembro da professora, de sua tentativa em ludibriar, transformar e recriar um mundo fora do útero dos meus pais. também não me lembro do dia em que a escola passou a ser essencial e que os amigos se tornaram fundamentais. Não lembro da profunda atenção que meus pais davam ao meu irmão, da completa ausência de tios e avós na minha criação. Não me lembro (e gostaria muito de reviver) o carinho especial da minha bisavó. O amor que ela viveu com minha mãe e que revivia comigo. também não me lembro do seu desaparecimento. de ser capaz de ressignificar amor e ausência.

Não me lembro do primeiro grito de reprovação que recebi (nem do segundo, nem do terceiro). também não me lembro de ter aprendido algo com esse grito, com esse tapa, com o dedo em riste, com o olhar sério, com a voz grossa, com a necessidade de ser educado. Não me lembro dos professores da minha infância. devem ter sido sensíveis, carinhosos e tolos. Não me lembro de colorir, de encaixar brinquedos, de jogar objetos em rebeldia, mostrando que eu tinha vontade própria, de gritar, fazer pirraça e calar quando bem entendia. Não me lembro de começar a escrever, de repetir infindavelmente as letras do meu nome, de descobrir o som distinto e paradoxal da última letra do meu sobrenome. de entender a herança pesada da minha família e da minha cultura. Não lembro de descobrir o fabuloso mundo que se desvelava com a minha alfabetização. mundo imponderável para meus avós e bisavós. Não me recordo de trazer para aula o nome e a profissão dos meus pais, avós, tios. Não me lembro de construir a árvore genealógica de minha família, de escutar sobre a origem dos meus ancestrais e dos ancestrais de meus amigos. Não me lembro de me dar conta de que as professoras não eram judias, de que o mundo não era judeu, de que tatuagens com números estranhos nos braços dos avós não eram coisas normais, comuns e cotidianas. Não me lembro de estranhar o nome Auschwitz ou de compreender que genocídios não eram coisas cotidianas e banais. Não me lembro de associar as palavras barbárie, poesia e amor.

Não me lembro de ter aprendido o alfabeto. de repetir fastidiosamente o som das vogais e das consoantes. Não me recordo de ter aprendido o estranho som da letra h e nem de ter a percepção e consciência do w. Não me lembro de sentir nenhum desejo, cobiça e volúpia pelo outro. ele ainda fazia parte de mim. Não me lembro da disputa e da competição pelo olhar da professora. Por seu amor e admiração. Não me lembro das brigas, das desilusões, das primeiras angústias que só aconteciam na escola. Não me lembro quando diferenciei pela primeira vez meninos de meninas. Não me recordo do dia em que olhei para uma menina e algo diferente se passou em mim. talvez um brilho mais intenso no meu olhar. talvez uma quentura inaugural percorrendo meu corpo.

Não me lembro da primeira vez em que cheguei em casa desiludido. Não me lembro do dia em que descobri que todos os outros alunos da escola também eram especiais, e que uns eram muito mais especiais e queridos pelas professoras que os outros. e eu não era um dos queridinhos. Não me lembro do dia em que algum amigo preteriu outro a mim. também devo ter apagado completamente a lembrança do dia em que uma menina escolheu olhar para outro e fechar os olhos para minha perfeição. Não lembro de compreender que o mundo poderia ruir um dia. Que eu podia me abalar. Que eu poderia sofrer.

Também não lembro do dia em que descobri que meus pais não eram perfeitos. Que meu pai não era herói. Que minha mãe o havia escolhido antes de me gerar. e que eu era somente o segundo, ou o terceiro. Não me lembro do dia em que reparei algum defeito nos meus pais. Não me lembro do dia em que eu percebi o cheiro deles. um cheiro que já não era meu. Não me recordo do dia em que tive vergonha dos meus pais. em que concebi as terríveis diferenças e limitações do meu irmão. e também tive vergonha e me escondi. e passei a esconder as histórias da minha casa. também não me lembro do dia em que comecei a invejar as outras famílias, fantasiadas na minha mente como normais, e que desejei estar no corpo de outro. também não sei quanto tempo isso tudo durou. e quanto tempo depois descobri que nada disso tinha sentido. Que cada um tinha que viver com suas próprias dores. e com suas próprias invenções.

Não me recordo de aprender hebraico. Não me lembro de saber que hebraico não se falava correntemente no Brasil. também não me lembro do dia em que comecei a esquecer propositalmente essa língua. Nem de quando percebi que iídiche não se falava na rua. também não me lembro do dia em que entendi que as palavras em iídiche tinham uma conotação negativa. uma conotação de dor, de saudade da diáspora da minha família e de sentir no corpo e na fala o não pertencimento a lugar algum. uma tentativa inútil de preservação cultural. de recordar tempos e épocas em que meus antepassados tinham que fugir constantemente. também não me lembro quando entendi que falar essa língua era discriminar as pessoas e o país que acolheram minha família. também não sei se eles foram acolhidos, se foram felizes, se viveram em paz. Não me lembro de conversar com eles sobre isso. Nem sei como eles me passaram os valores culturais, históricos, familiares e dolorosos do judaísmo. também não lembro da primeira vez que comi guelfite fish.

Não me recordo da paixão pelas rezas matinais. Não me lembro o porquê cantava com tanto fervor e alegria versos em hebraico (que eu não entendia nada). Não me lembro da certeza que tinha em relação à existência de deus. do deus judeu. Não sei dizer quando eu rezava acreditando que deus me ouviria. e quando eu trapaceava, e era vil e mesquinho, almejando que deus me esquecesse naquele momento. Não me lembro do dia em que deus me abandonou e nem do dia em que eu o abandonei. eternamente. Não me lembro de tê-lo matado, e nem de quando ele matou meu tio. também não sei quem o fez. tampouco entendi a dor da minha família, da minha avó, dos meus primos. também não lembro do dia que compreendi que eu e meus pais éramos mortais.

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Não me lembro mais do dia em que passei a considerar o amor como sofrimento. Não me recordo o dia em que amei a primeira menina que não me queria. em que passei a me tornar melancólico. também não lembro da certeza que tinha que era o melhor e o mais inteligente de todos. Não me lembro de me tornar estúpido, arrogante e metido. de me retrair. de ficar na minha. de blasfemar. de achar que o mundo não era bom o suficiente para mim. também não me lembro do dia em que gostei de me ver inserido no mundo goy, e que passei a detestar e amar simultaneamente o judaísmo. A detestar fazer jejum e lembrar, constantemente, das infelicidades desse meu povo. A me encantar com a possibilidade de viver em um país forte, novo, briguento. também não me lembro do dia em que tive pela primeira vez ojeriza da sinagoga e de muitos de seus membros. Não lembro mais o motivo. Não me lembro mais da aversão que tive dos seus cheiros, roupas e mesquinharias.

Não lembro mais por que me achava diferente e melhor em meio ao mundo católico. também não me lembro da razão por me considerar um estranho e pior no mundo judeu. Não me lembro por que comecei a ler. Não me lembro mais do primeiro, do segundo e do terceiro livro que li. Não me lembro das sensações que senti. Não me lembro por que me achava especial por carregar um livro nas mãos. Não me lembro de gostar de ler nenhum livro para o colégio.

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By Lee Wan Xiang, Asymptote Magazine

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I Am What I Can’t Remember

I can’t remember the very first day I went to school. I can’t remember biting, punching, or fighting with classmates. I can’t remember being anyone’s classmate at all. I can’t remember the games, the smiles, the running, the spectacular somersaults. Nor can I remember how hurt I was when my mother left me alone at school for the first time. I can’t remember my despair, my weeping, my hiccups, and my stomach aches from crying so much. I can’t remember the teacher thinking she could play the part of my parents. I also can’t remember the day school became essential and that the friends became fundamental as well. I can’t remember the considerable attention that my parents paid to my brother, or the complete absence of uncles and grandparents in my upbringing. I can’t remember (and I would like very much to relive it), my great-grandmother’s special affection. The love that she shared with my mother and that she continued with me. I also can’t remember her becoming unable to show love and affection.

I can’t remember the first time I was scolded (nor the second, nor the third). I also can’t remember having learned something from this scolding, slap, pointed finger, serious look, or stern voice about the need to behave myself. I can’t remember the teachers from my childhood, but I imagine they should have been sensitive, loving, and silly. I can’t remember coloring, playing with toys, or throwing things in protest to demonstrate that I had my own will, or shouting, or being stubborn, only quieting when I wanted to. I can’t remember beginning to write, infinitely repeating the letters of my name, discovering the distinct and paradoxical sound of the last letter of my last name. Or understanding the heavy past of my family and my culture. I can’t remember discovering the bright, new world that unfolded with literacy. An unimaginable world for my grandparents and great-grandparents. I can’t remember coming to class and sharing the names and professions of my parents, grandparents, and uncles. I can’t remember making a family tree or hearing the origin of my ancestors and my friend’s ancestors. I can’t remember realizing that my teachers weren’t Jewish, that the world wasn’t Jewish, and that tattoos with strange numbers on your grandparents’ arms weren’t a normal, common, everyday thing. I can’t remember ever finding the name “Auschwitz” peculiar, or understanding that genocides weren’t normal, common, everyday topics either. I can’t remember connecting the words savagery, poetry, and love.

I can’t remember having learned the alphabet. Or carefully repeating the sounds of the vowels and consonants. I can’t remember having learned the strange sound of the letter h or having discovered the sensation of the w. I don’t remember feeling any coveted or sensual desire for another. That wasn’t yet a part of me. I can’t remember competing for a teacher’s attention. For her love and admiration. I can’t remember the fights, disappointments, the frustrations that only happened in school. I can’t remember the first time I saw a difference between boys and girls. I can’t remember the day that I looked at a girl and noticed something change in me. Like a more intense sparkle in my eye. Like an initial heat moving through my body.

I can’t remember the first time that I came home disappointed. I can’t remember the day that I discovered that all the other students were also special, and that the professors loved some of these special students more than the others. And I wasn’t special. I can’t remember the day one friend chose someone else over me. I should have completely erased from my memory the day that a girl chose to look for someone else, ignoring my perfection. I can’t remember understanding that the world could collapse one day. That I could be upset. That I could suffer.

I also can’t remember the day I discovered my parents weren’t perfect. That my dad wasn’t a hero. That my mother had chosen my father before she chose to conceive me. That I was only her second choice, or maybe her third. I can’t remember the day that I noticed my parents’ flaws. I can’t remember the day I first perceived their scents. A scent that wasn’t quite mine. I can’t remember the day I felt ashamed of my parents. When I could conceive the terrible differences and limitation of my brother. I was ashamed of being ashamed, and hid myself. I started to hide the stories of my house. I can’t remember the day I started being jealous of other families I thought to be normal, or the day I started wanting to be someone else. I don’t know how much time it took to create these fantasies. And how much time after their inception I discovered that they were impossible, and made no sense. When I discovered that everyone had to live his own pain and his own stories.

I can’t remember learning Hebrew. I can’t remember learning that Hebrew wasn’t spoken correctly in Brazil. I also can’t remember the day that I started to forget this language deliberately. Or when I perceived that Yiddish wasn’t spoken out in the streets. I can’t remember the day that I understood Yiddish words to have a negative connotation. A connotation of pain, of longing, of the diaspora of my family and feeling like neither my language nor my body could belong to one place or another. A useless attempt at cultural preservation. Of remembering times and epochs when my ancestors had been constantly on the run. Also, I can’t remember when I understood that to speak this language was to discriminate against the people and the country that had welcomed my family. I also can’t know if they truly felt welcome, if they were happy, if they lived in peace. I can’t remember conversing with them about it. Nor do I know how they passed on to me culture, history, family values, and the pain of Judaism. I also can’t remember the first time I ate gefilte fish.

I can’t remember the passion I had for the morning prayers. I can’t remember the reason I sang the Hebrew verses (of which I understood nothing) with such fervor and happiness. I can’t remember the certainty I had regarding the existence of God. Of the Jewish God. I can’t say that when I prayed, I believed that my God could hear me. I also can’t say for certain when I deceived Him, and when I was vile and petty, longing for God to forget me in those moments. I can’t remember the day that God abandoned me nor the day that I abandoned Him. Forever. I can’t remember having killed Him, or when He killed my uncle. I don’t know who did it. I can’t remember my family’s pain—my grandparents’ or my cousins’. I can’t remember the day I understood that my parents and I were just human.

 
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I can’t remember most of the day that I began to consider love to mean suffering. I can’t remember the day I first loved the first girl that didn’t love me back. When I started to turn melancholy. I can’t remember feeling certain that I was the best and most intelligent of anyone. I don’t remember feeling stupid, arrogant, and brazen. Being a wallflower. Hiding within myself. Cursing others. Finding out that the world was not good or good enough for me. I also can’t remember the day that I liked being embedded in the goy world, and that I started hating and loving Judaism simultaneously. When I started detesting fasting and remembering, constantly, the unhappiness of my people. I was enchanted by the possibility of living in a strong, new, aggressive country. I can’t remember the day that I had, for the first time, a grudge against the synagogue and many of its members. I can’t remember why anymore. I can’t remember the aversion I had to their scents, clothes, and stinginess.

I can’t remember why I found the Catholic world to be different and better. I can’t remember the reason for considering the Jewish world strange and worse. I can’t remember why I started to read. I no longer remember the first, second, or third book that I read. I can’t remember how they made me feel. I can’t remember why I found carrying a book around in my hands so special. I can’t remember liking any of the books I read for high school.

Translation by Stephen A. Sadow
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Books by Jacques Fux

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Premio Nobel

Pedro Bloch (1914-2004) — Médico das crianças, pedagogo, escritor de livros por crianças y dramaturgo célebre judeu-brasileiro/Brazilian Jewish Pediatrician, Pedague, Writer of Children’s Books and Famous Dramatist — Sea coleção:”Como falam as crianças” e muito mais/His collection: “As Children Say” and much more

Pedro Bloch

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Pedro Bloch foi um médico foniatra, jornalista, compositor, poeta, dramaturgo e autor de livros infanto-juvenis. Escreveu mais de cem livros. Era naturalizado brasileiro.Sua família judeu imigrou para o Brasil no início do século XX. Cursou a Faculdade Nacional de Medicina da Praia Vermelha atual Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Chegou a lecionar na PUC do Rio de Janeiro.Dentre seus muitos livros estão Pai, me compra um amigo?, Nesta data querida e Chuta o Joãozinho para cá. Escreveu também as peças teatrais Dona Xepa e As Mãos de Eurídice. Mais de 50 do seus livros foram inspiradas quando ele atendia crianças, exercendo sua profissão de médico. A sua mais conhecida obra teatral, As mãos de Eurídice, estreou em 13 de maio de 1950 repetiu-se mais de 60 mil vezes, em mais de 45 países diferentes. Dois anos depois, escreveu outro sucesso teatral, Dona Xepa, que foi adaptada para o cinema e uma telenovela da Rede Globo. Como jornalista, trabalhou na revista Manchete e no jornal O Globo.

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Pedro Bloch was a phoniatrician, journalist, composer, poet, playwright and author of children’s books. Wrote over a hundred books. He was naturalized Brazilian. His Jewish family immigrated to Brazil in the beginning of the 20th century. He studied at the National Faculty of Medicine of Praia Vermelha, currently the Faculty of Medicine of the Federal University of Rio de Janeiro. He taught at PUC in Rio de Janeiro. Among his many books are Father, can you buy me a friend?, On this date dear and Chuta Joãozinho. He also wrote the plays Dona Xepa and As Mãos de Eurídice. More than 50 of his books were inspired when he attended children as a doctor. His best-known theatrical work, The Hands of Eurydice, premiered on May 13, 1950 and has been repeated more than 60,000 times, in over 45 different countries. Two years later, he wrote another theatrical success, Dona Xepa, which was adapted for cinema and a telenovela by Rede Globo. As a journalist, he worked for Manchete magazine and O Globo newspaper.

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Contribiçãos de Pedro Bloch/ Pedro Bloch’s Contributions

Humor infantil/Children’s Humor

Children’s Humor

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Pedro Bloch passou toda a sua vida como médico e escritor coletando as maravilhas que saem da boca das crianças. São definições espontâneas, trechos poéticos, descobertas extremamente

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Pedro Bloch spent his entire life as a doctor and writer collecting the wonders that come out of children’s mouths. They are spontaneous definitions, poetic extracts, extremely funny findings:

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ALEGRIA – É um palhacinho no coração da gente.

JOY – It’s a clown in people’s hearts.

 AMAR – É pensar no outro, mesmo quando a gente nem tá pensando.

LOVE – It’s thinking about the other, even when we’re not even thinking.

ADULTO – É uma pessoa que não entende de chuva, criança ou bala.

ADULT – It is a person who does not understand rain, children or bullets.
BOCA – É a garagem da língua.

MOUTH- It’s the tongue’s garage.

BEBÊ – É uma coisa que ainda tem a cabeça verde. Não funciona como a

gente.

BABY – It’s something that still has a green head. It doesn’t work like us.

CABELO – É uma coisa que serve pra gente não ficar careca.

HAIR – It’s something that helps us not to go bald.

CALCANHAR – É o queixo do pé.

HEEL – It’s the chin of the foot.

COBRA – É um bicho que só tem rabo.

COBRA – It’s an animal that only has a tail.

CHOCOLATE – É uma coisa que a gente nunca oferece aos amigos porque eles aceitam.

CHOCOLATE – It’s something we never offer our friends because they accept it.

DIA – Hoje é amanhã de ontem

DAY – Today is yesterday’s tomorrow.

ESPERANÇA – É um pedaço da gente que sabe que vai dar certo.

HOPE – It’s a part of us that knows it’s going to work.

INFERNO – É um lugar onde a gente morre muito mais.

HELL – It’s a place where people die a lot more.

JUÍZO – É fazer tudo o que mamãe acha que tá certo, mesmo quando está errado.

JUDGMENT – It’s doing everything that Mom thinks is right, even when it’s wrong.

JARDIM ZOOLÓGICO – O bicho que eu mais gostei, no jardim zoológico, foi o vendedor de sorvete.

ZOO – The animal that I liked the most, at the zoo, was the ice cream seller.

MÃE – Quando você era menina, quem era minha mãe?

MOTHER – When you were a girl, who was my mother?

NOITE – É o dia com luz apagada.

NIGHT – It’s the day with the lights off.

NEVOEIRO – É poeira do frio.

FOG – It’s cold dust

PACIÊNCIA – É uma coisa que a mamãe perde sempre.

PATIENCE – It’s something Mom always misses.

REDE – É uma porção de buracos amarrados com barbante.

NET – It’s a bunch of holes tied with string

RELÂMPAGO – É um barulho rabiscando o céu.

LIGHTNING – It’s a noise scratching the sky.

TRISTEZA – É uma criança com gesso no pé, sem assinatura.

SADNESS – It’s a child with a plaster cast on his foot, without a signature.

XINGAR – Quando eu xingo a minha avó, só xingo a metade que é do meu irmã

CURSING – When I swear at my grandmother, I only swear at the half that belongs to my brother.

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Livros para crianças/Children’s Books

Bar Mitzvá

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Biografia e religião/Biography and Religion

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Muitos tentaram explicar Deus.Einstein dizia que era o mistério insondável do universo. Os outros falaram em infinito, em Energia Universal, em mil coisas mais. Se descreveram o paraíso, purgatório e inferno. Se descreveram milgares, mil preces foram rezadas, mil formas Lhe foram atribuídas. Para meu pai Deus era tão obvio, estava tão ao seu lado em seu livro de orações e nos cânticos da sinagoga, que qualquer prova mais concreta de Sua existência lhe causaria a maior revolta. Deus para ele, era DEUS. Quem precisava de prova maior?

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Many tried to explain God. Einstein said it was the unfathomable mystery of the universe. The others spoke of infinity, Universal Energy, a thousand more things. Paradise, purgatory and hell were described. Thousands were described, a thousand prayers were said, a thousand forms were attributed to Him. To my father God was so obvious, was so close to him in his prayer book and in the chants of the synagogue, that any more concrete proof of His existence would have caused him the greatest revolt. God to him was GOD. Who needed greater proof?

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Drama e Cinema/Drama and Movies

A mãos de Eurîice — The Hands of Euriice

Gumercindo Tavares volta para casa oito anos depois de trocar a esposa Dulce pela amante. Sem dinheiro e sem o prazer que as delicadas mãos de Eurídice lhe proporcionaram, ele espera encontrar sua fiel esposa cuidando da família. A casa está vazia e a solidão traz-lhe memórias dos conflitos que o levaram a abandonar a família: A mulher que não parava em casa, os filhos que incomodavam a casa, a sogra tagarela, o sogro lunático direito. E Eurydice, jovem, alegre com suas mãos sempre amorosas, deslizando gentilmente no tapete, vencendo, perdendo, perdendo, vencendo … O fim do casamento, a aventura com o novo relacionamento e seu trágico fim. Gumercindo vasculha gavetas em busca de algo que comprove a desconfiança que sempre teve do interesse do professor de música por Dulce. Ele encontra coisas que traem o tempo: O filho teve complicações de saúde e não existe mais, a menina se casou. E Dulce?

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Sindo Filipe como Gumersindo/Sindo Filipe as Gumersido

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Gumercindo Tavares returns home eight years after exchanging his wife Dulce for his mistress. Without money and without the pleasure that Eurydice’s delicate hands gave him, he hopes to find his faithful wife taking care of the family. The house is empty and loneliness brings him memories of the conflicts that led him to leave his family: The woman who did not stop at home, the children who disturbed the house, the talkative mother-in-law, the lunatic father-in-law… And Eurydice, young, joyful with her ever loving hands, gentle sliding on the carpet, winning, losing, losing, winning…  The end of marriage, the adventure with the new relationship and its tragic end. Gumercindo rummages through drawers looking for something to prove the suspicion he always had of the music teacher’s interest in Dulce. He finds things that betray time: The son had health complications and no longer exists, the girl got married. And Dulce?

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Franz Weissmann (1911-2005) — Escultor do espaço brasileiro judaico/Escultor del espacio judío-brasileño/Brazilian Jewish Sculptor of Space — “Fuera e adentro”/”Afuera y adentro”/”Outside and Inside”

Franz Weissmann

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Franz Weissman (1911-2005) Escultor, desenhista, pintor e professor. Veio para o Brasil em 1921. No Rio de Janeiro, entre 1939 e 1941, frequenta cursos de arquitetura, escultura, pintura e desenho na Escola Nacional de Belas Artes (Enba). De 1942 a 1944, estudou desenho, escultura, modelagem e fundição com August Zamoyski (1893-1970). Em 1945, muda-se para Belo Horizonte, onde dá aulas particulares de desenho e escultura. Três anos depois, Guignard (1896-1962) o convida a lecionar escultura na Escola do Parque, que mais tarde recebe o nome de Escola Guignard. Inicialmente, desenvolve um trabalho baseado no figurativismo. A partir da década de 1950, vai elaborando gradativamente uma obra de cunho construtivista, valorizando as formas geométricas, submetendo-as a cortes e dobras, utilizando chapas de ferro, fios de aço, alumínio em dintel ou chapa. Ingressou no Grupo Frente, em 1955. No ano seguinte, voltou ao Rio de Janeiro e participou da Mostra Nacional de Arte Concreta, em 1957. Foi um dos fundadores do Grupo Neoconcreto, em 1959. Nesse ano, viajou para a Europa e Extremo Oriente, retornando ao Brasil em 1965. Na década de 1960, expôs a série Amassados, feita na Europa com chapas de zinco ou alumínio trabalhadas com martelo, clava e instrumentos de ponta, aliando-se temporariamente ao informalismo. Depois, volta aos aspectos construtivos. Na década de 1970, recebeu o prêmio de melhor escultor pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA), participou da Bienal Internacional de Escultura ao Ar Livre, em Antuérpia, na Bélgica, e da Bienal de Veneza. Realiza esculturas monumentais para espaços públicos de várias cidades brasileiras, como a Praça da Sé, em São Paulo, o Parque da Catacumba, no Rio de Janeiro e o Palácio das Artes, em Belo Horizonte.

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Franz Weissmann (1911-2005) Escultor, dibujante, pintor y maestro, llegó a Brasil en 1921. En Río de Janeiro, entre 1939 y 1941, asistió a cursos de arquitectura, escultura, pintura y dibujo en la Escuela Nacional de Bellas Artes ( En BA). De 1942 a 1944 estudió dibujo, escultura, modelado y fundición con August Zamoyski (1893-1970). En 1945 se trasladó a Belo Horizonte, donde impartió clases particulares de dibujo y escultura. Tres años más tarde, Guignard (1896-1962) lo invitó a enseñar escultura en la Escola do Parque, que más tarde recibió el nombre de Escola Guignard. Inicialmente he desarrollado un trabajo basado en el figurativismo. A partir de la década de 1950, poco a poco elaboró ​​una obra de carácter constructivista, valorando las formas geométricas sometiéndolas a cortes y pliegues, utilizando planchas de hierro, alambres de acero, aluminio en dintel o chapa. Ingresó al Grupo Frente, en 1955. Al año siguiente, regresó a Río de Janeiro y participó en la Exposición Nacional de Arte Concreto, en 1957. Fue uno de los fundadores del Grupo Neoconcreto, en 1959. En ese año, viajó a Europa y Extremo Oriente, regresando a Brasil en 1965. En la década de 1960 expone la serie Amassados, realizada en Europa con láminas de zinc o aluminio trabajadas con martillo, maza e instrumentos afilados, alineándose temporalmente con el informalismo. Más tarde, volví al estilo constructivo. En la década de 1970, recibí el premio por mejor escultor de la Asociación de Críticos de Arte de São Paulo (APCA), participó en la Bienal Internacional de Escultura al Aire Libre, en Amberes, Bélgica, y la Bienal de Venecia. Creó esculturas monumentales para espacios públicos en varias ciudades brasileñas, como Praça da Sé, en São Paulo, Parque da Catacumba, en Río de Janeiro y Palácio das Artes, en Belo Horizonte.

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Franz Weissmann (1911-2005) Sculptor, draughtsman, painter and teacher, came to Brazil in 1921. In Rio de Janeiro, between 1939 and 1941, he attended courses in architecture, sculpture, painting and drawing at the National School of Fine Arts (Enba). From 1942 to 1944, he studied drawing, sculpture, modeling and casting with August Zamoyski (1893-1970). In 1945, he moved to Belo Horizonte, where he taught private lessons in drawing and sculpture. Three years later, Guignard (1896-1962) invited him to teach sculpture at Escola do Parque, which later received the name Escola Guignard. Initially, he developed work based on figurativism. From the 1950s onwards, he gradually elaborated a work of a constructivist nature, valuing geometric shapes, submitting them to cuts and folds, using iron plates, steel wires, aluminum in lintel or sheet. He joined Grupo Frente, in 1955. The following year, he returned to Rio de Janeiro and participated in the National Exhibition of Concrete Art, in 1957. He was one of the founders of Grupo Neoconcreto, in 1959. In that year, he traveled to Europe and the Far East, returning to Brazil in 1965. In the 1960s, he exhibited the Amassados ​​series, made in Europe with zinc or aluminum sheets worked with a hammer, club and sharp instruments, temporarily aligning himself with informalism. Later, he came back to the constructive style. In the 1970s, he received the award for best sculptor from the São Paulo Association of Art Critics (APCA), participated in the International Biennial of Outdoor Sculpture, in Antwerp, Belgium, and the Venice Biennale. He created monumental sculptures for public spaces in several Brazilian cities, such as Praça da Sé, in São Paulo, Parque da Catacumba, in Rio de Janeiro and Palácio das Artes, in Belo Horizonte.

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O vazio sempre foi uma grande obsessão minha, o vazio ativo e não o vazio morto. O vazio está activo em relação ao conjunto de elementos de que dispõe [ao conjunto de elementos que ele tem]. Sempre tive a obsessão de não fechar portas, de abrir as janelas para ver, através delas, o mundo. Mesmo nas minhas figuras já trabalhei com o vazio, perfurei as figuras em argila e papel.”

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El vacío fue siempre una gran obsesión mía, el vacío activo y no el vacío muerto. El vacío es activo en relación con el conjunto de elementos que tiene [ao conjunto de elementos que ele tem]. Siempre tuve la obsesión de no cerrar puertas, de abrir las ventanas para ver, a través de ellas, el mundo. Incluso en mis figuras ya trabajé con el vacío, perforé las figuras en arcilla y papel.

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The void was always a great obsession of mine, the active void and not the dead void. The void is active in relation to the set of elements that it has [ao conjunto de elementos que ele tem]. I always had the obsession of not closing doors, of opening the windows to see, through them, the world. Even in my figures I already worked with the void, I pierced the figures in clay and paper.”

Franz Weismann

Renato Rodrigues da Silva (2021) The (neo)concrete sculptures of Franz Weissmann: between heaven and earth, World Art, 11:1, 41-70, DOI: 10.1080/21500894.2020.1737213

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Escultura exterior/Escultura de afuera/Outdoors Sculpture

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Escultura e arte plastica/Escultura y arte visual /Sculpture and Art

Uma escultura em MOMA/A sculpture in MOMA

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Franz Weissmann

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Livros/Books

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Roney Cyntrynowicz –Historiador e contista brasileiro-judeu/Brazilian Jewish Historian and Short-story writer — “Manequins”/”Mannequins” — Um conto/A short-story

Roney Cyntrynowicz

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Roney Cytrynowicz é historiador e escritor, autor de A duna do tesouro, Quando vovó perdeu a memória  Guerra sem guerra: a mobilização e o cotidiano em São Paulo durante a Segunda Guerra Mundial. É diretor da Editora Narrativa Um – Projetos e Pesquisas de História e editor de uma coleção de guias de passeios a pé pela cidade de São Paulo, entre eles Dez roteiros históricos a pé em São Paulo Dez roteiros a pé com crianças pela história de São Paulo. Sua coluna de PublishNews conta histórias em torno de livros, leituras, bibliotecas, editoras, gráficas e livrarias e narra episódios sobre como autores e leitores se relacionam com o mundo dos livros

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Roney Cytrynowicz is a historian and writer, author of The Treasure Dune, When Grandma Lost Her Memory and War Without War: Mobilization and Daily Life in São Paulo during World War II. He is the director of Editora Narrativa Um – Projects and Research in History editor and editor of a collection of guides for walking tours in the city of São Paulo, including Ten Historical Walking Routes in São Paulo and Ten Walking Routes with Children through the History of São Paulo. His PublishNews column tells stories about books, readings, libraries, publishers, printers and bookstores and chronicles episodes about how authors and readers report to the world of books.

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“Manequins”

Há dois dias falei com meu tio avó por telefone. Eu não o conheço, Ele tem oitenta e quatro anos e faz vinte e cinco anos que não tem qualquer contato com a família. Combinamos uma visita. No Teatro de Câmara de Tel Aviv. Alguém me diz que meu tio é uma personagem conhecida. No seu 80º aniversario fizeram-lhe uma grande homenagem. Saiu até no jornal.

         Na portaria digo o nome. A moça identifica-o pelo sobrenome. Ele me cumprimenta com algum afeto. Um neto do Brasil, curioso. “Você é o único da família conhecido pelo sobrenome. É uma responsabilidade”, brinco. Ele apenas sorri. Pregunto algo sobre o teatro. Leva-me para conhecer palco, camarins, platéia. Voltamos a sua sala, onde ele se senta e retoma o trabalho. Fico observando sem saber o que fazer.

         Oferece-me um café. Aceito. Mesmo uma xicrinha de café pude ocupar-me por um tempo largo. Pode-se curtir cada gole, goles curtos, depositar a xícara no pratinho, mexer a colher, espalhar novamente o açúcar, assoprar o líquido para esfriá-lo, cheirar o café, cheirar o café, apenas assegurar a xícara como a esquentar um pouco a mão. Por fim, deixa-la na mão, mesmo vazia, por mais alguns segundos, como a saborear o último gole. Quando o último gole se for, acho que irei junto.   

         O que tem, no entanto, não é uma xícara, mas, um longo copo de café bem quente. Os pequenos ardis do tempo multiplicam-se. Calculo pelo menos vinte minutos. Esboço varias estratégias e me sinto mais confiante para investigar a sala. Encima de sua mesa, uma máquina de coser de pedal. Sala pequena, meio desarrumada. Num canto, manequins experimentando a roupa de nova montagem. Gorki. Ele mostra as roupas e fala os personagens.

         Manequins. Bonecos. Que dignidade têm eles ali na oficina do teatro. Bonecos de plástico. Uma imagem forte ameaça a emergir. Imagem de criança: bonecas, uma fábrica brinquedos. Uma línea de montagem comprida, dezenas de mulheres enfileiradas, duas filas, esquerda e direita, nenhum dialogo, movimentos mecânicos, colocar pés, braços, cabeça, sapatos, vestido, pentear os cabelos e pintar os olhos. Uma esteira comanda o ritmo no começo é no fim da esteira enormes caixas, a primeira com os pedaços de bonecas, partes de corpo, parte do corpo, mãos, braços, pés, pernas, cabeças, troncos, óculos, cílios,  fivelas, cintos, roupas, na última caixa, as bonecas inteiras. Figuren. Nos campos, era proibido falar cadáveres, mortos, pessoas. Apenas figuren. Figuras. Como bonecos despedaçados. Não homens. Jamais homens. Apenas bonecos. Será que aquelas mulheres da fábrica ainda conseguem brincar de boneca?

         Imagem de criança. Sentado em sua escrivaninha, o dono observa o trabalho das operárias. Enquanto olha os pedaços de boneco sendo montados ele lembra do campo. Sonderkomando. A palavra que definia tudo. Ele trabalhara num sonderkomando. Retirava os mostos pelo gás. Já ne se lembrava quantas vezes escapara dela morte, quantas dezenas de milhares de cadáveres vira. As lembranças dessa fase não estão elaboradas. Não firam pensadas. São apenas registros. Imagens brutas, cenas sensaçãoes, pequenos terrores e angústias com a que memória bombardeia nossas ansiedades. Lembrava-se sempre as duas filas: esquerda e direita, pedaços de pessoas, pernas, braços, morte e linha de montagem. Agora, cada boneca montada era como um ser humano que renascia. Figuren que se tornavam novamente humanas. Linha de montagem invertida. Começava com as partes do corpo e montava uma figura viva. Homens e figuren jamais se confundíam.

         Cada vez que suava a sirene do almoço ele lembrava do dia de libertação. Sirenes de ambulâncias, soldados com comida, alguns com flores: ele olhava com apatia e indiferença. Não tinha forças para sentir felicidade, para se pensar fora daquele mundo. Difícil entender: apenas um muro de tijolos, um dia começou, um dia acabou e apenas um muro de tijolos. Sonderkomando, esse nome parecia dar o limite máximo de vida possível. De fantasia e de futuro. Enquanto pudesse estar ali, tal vez pudesse viver. Agora o muro não existe mais. E ele não conseguia enxergar vida. As operárias estranhavam aquele patrão que passava horas observando sem nunca dirigir-Ihes palavra. Elas não entendiam por que ele acompanhava cada rolar de esteira, cada peça encaixada. Cada figuren recriada.

         Poucas horas depois de libertação, no acampamento militar, veio uma criança. Não que língua ela falava, talvez alemão, talvez nenhuma. A criança trazia uma boneca, o viu prostrado, chegou perto, fez umas piruetas é a colocou em suo colo. Presente. Afastou-se. Ele sabia que sua vida recomeçara ali. Aquela boneca fui o primeiro ser humano que o tocou com ternura. Após anos de violência.

         Tempos despois, já no Brasil, inaugurou a fábrica de brinquedos. Deu a boneca a uma menina de rua. Era hora de passá-la adiante. De salvar outras vidas. Encherei a mundo de bonecas novas, decidiu. E lançou-se com toda energia a fabricação de milhares de elas. Cada boneca que saía de sua fábrica, não que fossem iguaizinhas, tinha ima missão para a humanidade,

             –Você olha as manequins como se conversasse com eles, diz meu tio avó.

            — Gosta deles? Pregunta uma costureira na sala, cheia de curiosidade sobre quem eu era. Ela se volta para meu tio e indaga, “é suo amigo?”

           Ele diz apenas: “um parente do Brasil”. Lembro de Singer, “Uma noite em Brasil”.

          –Um dia tal vez os manequins mereçam que se escriva uma história sobre eles, comento.

          –Todas as histórias são para elas.

          –Mas são como os homens que manipulam as marionetes. Nunca aparecem.

       –Pense de outra forma. Elas guardam a vida das personagens de teatro enquanto os autores não entram em cena, diz ela.

       Preparando-me para esse encontro tive o impulso de levar um gravador. Registrar para sempre histórias de família; não sei se encontrarei de novo meu tio avô. Mas desisti. Acho que preferia falar de amenidades. Apenas rir um pouco. Talvez pedir uma história. Contar algo do Brasil. Do teatro. A guerra de Romeu e Julieta. Tenho que voltar, foi a primeira coisa que pensei. Um primeiro encontro, vinte e cinco anos, aquele número no me saía da cabeça.

Observo-o trabalhar. Enquanto ele cerze seus pontos, vou costurando minhas histórias. Ele é meu tio avô por parte de pai e mãe, irmão da minha avó materna e primo do meu avo paterno. Esteve toda a guerra com meu avo na União Soviética. Ele costurava a meu avô para fazia marcenaria para cenários de teatro. Os dois trabalhavam no Kíevski Ievieíski Teatr. A máquina de costura nunca parou. Mesmo durante a guerra. Imagino os sons, a costura e serrote recortando madeiras. Sons da Rússia. Sons de guerra. Minha avó materna também costurava. Eu tentei uma vez quando era criança. Lembro de umas férias em que uma babá me ensinou. Ela era funcionária de uma empresa têxtil. Eu gostei logo. Fiz uma boneca de retalhos de tecidos. Guardei-a durante muitos anos. Os remendos foram abrindo. Mesmo assim teimava em mantê-la. Há certas coisas de infância que já não cabem na adolescência e começam a estourar. Acho que algum cachorro acabou por destruir a boneca, Nunca mais eu quis costurar.

       Eu sabia o que representavam aqueles poucos minutos em que estivemos juntos. Vinte e cinco anos. Quase a minha idade. Na despedida, poucas palavras. A curiosidade inicial agora afeto. Andamos pelo corredor rumo á porta. Ele não tem pressa. Olha-me como a sondar quando será o próximo encontro. Pede que eu escreva. Mesmo que apenas algumas linhas. Peço o endereço. Vou a escrever. Prometo. Algumas linhas. Com algumas poucas linhas, ele sobreviveu ao exílio e continua a criar mundos, roupas, épocas, personagens, histórias, encontros. Os manequins deixam de ser figuren. Viram coadjuvantes de criação. Preciso conectar estas linhas. Vinte e cinco. Talvez oitenta e quatro. Ainda não escrevi para ele. Gostaria de assistir à estréia de peça de Gorki. Ver a roupas em cena. Antes que os manequins guardem vida dos personagens por outros vinte e cinco anos. O talvez para sempre.

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“Mannequins”

Two days ago, I spoke with my great uncle by telephone. He is eighty-four years old, and it’s been twenty-five years since he’s had any contact whatsoever with the family. We arranged for a visit. In the Camera Theater in Tel Aviv. Someone told me that my uncle was a well-known person. On his eightieth birthday, they had a large tribute for him.  It was in the newspaper.

           At the box office, I gave them my name. A girl identified him by his last name. He greeted me with some affection. A grandson from Brazil. Curious. “You are the only one in your family known by your last name. That is a responsibility.” I joke. He hardly smiles. I ask him something about the theater. He takes me to see the stage, dressing rooms, seats. We return to his office, where he sits down and goes back to work. I continue observing without knowing what to do.

              He offers me a cup of coffee. I accept. Even a small cup of coffee could keep me busy for a long time. I can make each sip small, small sips, place the cup on the saucer, stir with a spoon, sprinkle the sugar in again, blow on the liquid to cool it, smell the coffee, barely hold on to the cup as if to warm my hand. Finally, I let go of my hand, for a few seconds more, so as to savor the last sip. When the last sip is done, I think that I will go over to him.

What I have, in the meantime, is not a small cup, but a large very hot, cup coffee. The little bits of time multiply. I calculate at least twenty minutes, I rough out several strategies, and I feel more confident about investigating the room. On a table, a pedal-driven sewing machine. Small room, somewhat cluttered. No corner, mannequins trying on clothing for a new Gorki production. He shows the clothing and talks about the characters.

              Mannequins. Dolls. What dignity do they have here in a theater office. Plastic dolls. A strong image threatens to appear. Image of a girl; dolls, a toy factory. A lengthy assembly line, dozens of women in line, two rows, left and right, no dialog, mechanical movements, putting on feet, arms, head, shoes, dress, comb the hair and painting the eyes. A conveyer belt controls the movement, from the beginning to end. And along the belt, enormous boxes, first with the bits of dolls, body parts, hands, arms, feet, legs, heads, trunks, eyes, eyelashes, buckles, belts, in the last box, the completed dolls. Figuren. In the camps, it was forbidden to talk about cadavers, the dead,  people. Even Figuren. No humans. Never humans. Even dolls. Could it be that those women in the factory even now are able to act as to dolls?

         Image of a little girl. Sitting on a work table, the owner observes the work of the operators. While he sees the pieces of the dolls being assembled, he remembers the camps Sonderkomando. A word that defines everything. He worked as a sonderkomando. He retrieved the remains from the gas. He no longer remembers how many times he escaped death, how many dozens of thousands to roll over, They were not thought about, they were scarcely numbers. Brutal images, sensational scenes, small terrors  and the anguishes with which memory bombardes our anxieties. He always remembered the two files: left and right, pieces  of people, legs, arms, dead and in line of montage. Now, every assembled doll was like a human being who was reborn, Figuren that became humans who were reborn. The line of figures inverted, He started with the body parts and create a living being. Humans and figuren were never confused.

              Every time that the lunch siren sounded, he remembered the day of liberation. Sirens and ambulances, soldier with food, some with flowers: He looked on with apathy and indifference. He didn’t have the energy to feel happiness, in order to beyond that world. Difficult to understand: just a wall of bricks. A day began, a day ended and just a wall of bricks. Sonderkomando, that name seemed to place an absolute limit on a possible life. Of phantasy and of future. As long as he could be there, perhaps he could live. Now the wall doesn’t exist. And he didn’t get to see life. The operators found it strange that the boss who spent hours watching without directing a word to them. They didn’t understand why he accompanied every turn of the belt, every boxed piece. Every figuren recreated.

A few hours after Liberation, in the military camp, he saw a little girl. He didn’t know what language she spoke, perhaps German, perhaps none. The little girl carried a doll, He saw it lying down, she got up and did some pirouettes and held it closely in her lap. Present. She turned away. He knew that her world would begin again there. That doll was the first the first human being that touched him with tenderness. After years of violence. Sometime later, new in Brazil, he opened a toy factory. He gave a doll to a girl in the street. It was the time to move forward. To save other lives. He will fill the world with new dolls, he decided. And he threw himself, with all his energy into the creation of thousands of them. Every doll that left his factory, none made the same as the others, had a mission for humanity   

“You look the mannequins as if you can converse with them,” my great uncle said.

             “Do you like them?” A seamstress from the room, full of curiosity over who I was. She turned to my uncle and questioned, “Is he your friend?”

             He only said “a relative from Brazil.” I remembered Singer’s “A Night in Brazil.”

“The mannequins are worthy of having a story written about them Someday,” she commented.

“All stories are for them.”

“But it is as if human beings manipulate the marionettes. They never appear.”

“Look at in another way. They the continue lives of of the theater characters, while the authors don’t enter in the scene,” she said.

Preparing myself for this meeting, I had impulse to bring a recorder. To record family stories forever; I don’t know if I will meet my uncle again. But I held back; I guess I preferred to speak about amenities. Perhaps laugh a little. Perhaps ask for a story. To tell something about Brazil. Of the theater. The war of Romeo and Juliette. I have to come back. It was the first thing I thought of. A first encounter, twenty-five years, that number didn’t leave my mind.

I watch him work. While he sewed his stiches, he went on sewing my stories. He and my great uncle on the side of both my father and mother, brother of my maternal grandfather a cousin of my paternal grandfather For all of the war, he was with my grandfather in the Soviet Union. He clothed my grandfather, so he could do carpentry for the scenery in the Kíevski Ievieíski Teatr. The sewing machine never stopped. My paternal grandfather also sewed. The same during the war. I imagined the sounds of sewing and of saws cutting wood. Sounds of Russia. Sounds of war My maternal grandfather also sewed. And I tried it one when I was a little boy. I remember the days when my grandmother taught me. She was a functionary in a textile business. I liked it right away. I made a doll of pieces of fabric. I kept it for many years. The repairs were opening up. And so, I was also afraid of killing it. There are certain things from childhood that don’t fit in adolescence and begin to be lost. I guess that some puppy finished off the doll. I never sewed again.

I knew what the few minutes which we were together represented. Twenty-five years. Almost my age. At the good-byes, few words. The original curiosity now affection. We walked down the corridor in toward the door. He wasn’t in a hurry. He looked at me as if to calculate when our next meeting would be. He asked me to write. Even a few lines. I ask for the address. I will write. I promise. A few lines. He survived exile and continued to create worlds, clothing, epochs, people, stories, meetings. The mannequins were no longer figuren. They became assistants of creation. It’s necessary to connect these lines. Twenty-five. Perhaps eighty-four.  Yet I never wrote to him. I would like to attend a performance of a piece by Gorki. To see costumes in the scene. Before the mannequins keep those people alive for another twenty-five years. Or perhaps for all times.

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Livros de Roney Cytrynowicz/Books by Roney Cytrynowicz

Myra Landau (1926-2018) Artista visual judío-brasileña-mexicana/ Brazilian Mexican Jewish Artist “Arte de ritmo y armonía”/”Art of Rhythm and Harmony”

Myra Landau

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Myra Landau nació el 5 de diciembre de 1926 en Bucarest, Rumania. Después de un extenso viaje por Europa y Estados Unidos, se mudó a Brasil. Landau ha vivido durante un tiempo considerable en otros países ricos en cultura y diversidad social. Estas diversas culturas le han dado a su trabajo una mirada cosmopolita. Por ejemplo, el período que pasó en Brasil donde, en colaboración con el maestro Osvaldo Goeldi, realizó numerosas obras utilizando diversas técnicas gráficas. En México, Myra Landau ayudó a introducir una nueva técnica de grabado en metal, utilizando ácidos, pero impresa desde la superficie, llamada ‘Metal Relief’. Las obras de ‘Metal Relief’ le valieron una mención en la importante revista “El Nuevo arte de los metal”. Myra Landau tuvo su primera exposición individual en México en 1963. No se detuvo en las “artes del grabado”, sino que continuó su investigación en profundidad y finalmente tuvo éxito a través de la expresión del pastel sobre lino crudo. En 1974 comenzó a trabajar como profesora en la Universidad Veracruzana en la facultad de Bellas Artes. En 1975 se convirtió en investigadora a tiempo completo para el Instituto de Estética y Creación Artística de la Universidad Myra Landau. El currículum contiene más de sesenta exposiciones individuales y aproximadamente ciento cincuenta exposiciones colectivas en diferentes países; (México, Francia, Italia, Brasil, Estados Unidos, Perú, Uruguay, España, Costa Rica, Nicaragua, etc.) En 1994 reside en Roma, Italia, para luego trasladarse a Jerusalén, Israel, donde residió durante 6 años. Myra Landau vivió con su familia en Holanda, hasta su muerte en 2018.

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Myra Landau was born December 5, 1926 in Bucharest, Romania. After extensive travel throughout Europe and the United Sates she moved to Brazil.  Landau has lived for a considerable time in other countries rich with culture and social diversity. These diverse cultures have given her work a cosmopolitan outlook. For example, the period she spent in Brazil where, in collaboration with Master Osvaldo Goeldi, she created numerous works using various graphic techniques. In Mexico, Myra Landau helped introduce a new technique of engraving on metal, utilizing acids, but printed from the surface, called ‘Metal Relief.’ The ‘Metal Relief’ works earned her mention in the important magazine “El Nuevo arte de los metal”, Myra Landau had her first individual exhibition in Mexico in 1963. She did not stop with “engraving arts” but continued her in-depth research finally succeeding through the expression of pastel on raw linen. In 1974 she began working as teacher in the Veracruzana University in the faculty of Fine Arts. In 1975 she became a full-time researcher for the Institute of Aesthetics and Artistic Creation at the University Myra Landau’s resume contains more than sixty individual exhibitions and approximately one hundred and fifty collective exhibitions in different countries;(Mexico, France, Italy, Brazil, United State, Peru, Uruguay, Spain, Costa Rica, Nicaragua, etc.).I n 1994, she has been resident in Rome, Italy, later moving to Jerusalem, Israel where she lived for 6 years. Myra Landau lived with her family in Holland, until her death in 2018.

Myra Landau nasceu em 5 de dezembro de 1926 em Bucareste, Romênia. Después de un extenso viaje por Europa y Estados Unidos, se mudó a Brasil. Landau viveu durante um tempo considerável em outros países ricos em cultura e diversidade social. Estas diversas culturas le han dado a su trabajo una mirada cosmopolita. Por ejemplo, o período que passou no Brasil, em colaboração com o maestro Osvaldo Goeldi, realizou numerosas obras utilizando diversas técnicas gráficas. No México, Myra Landau ayudó a introducir una nueva técnica de grabado en metal, utilizando ácidos, pero impresa from la superficie, llamada ‘Metal Relief’. Las obras de ‘Metal Relief’ o valieron uma menção na importante revista “El Nuevo arte de los metal”. Myra Landau tuvo sua primeira exposição individual no México em 1963. No se detuvo nas “artes del grabado”, não se deu continuidade à investigação em profundidade e finalmente alcançou o sucesso a través da expressão pastel sobre lino crudo. Em 1974, começou a trabalhar como profesora na Universidad Veracruzana na faculdade de Bellas Artes. Em 1975, foi convocada para a investigação de um tempo completo para o Instituto de Estética e Criação Artística da Universidad Myra Landau. El currículum contém más de sesenta exposiciones indivíduos y aproximadamente ciento cincuenta exposiciones colectivas em países diferentes; (México, França, Itália, Brasil, Estados Unidos, Peru, Uruguai, Espanha, Costa Rica, Nicarágua, etc.) Em 1994 residir em Roma, Itália, para luego trasladarse a Jerusalén, Israel, donde residió durante 6 años. Myra Landau vivió com sua família em Holanda, hasta su muerte em 2018.

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El arte de Myra Landau/ The art of Myra Landau/ A arte de Myra Landau

Partituras.Music Score, 1963
Untitled, 1983
Untitled, 1979
Ritmo ciudad nueva/New City Rhythm, 1980
Ritmo paranóico/Paranoid Rhythm .1980
Ritmo de ópera /Opera Rhythm, 1984
Untitled, 1980
Ritmo transparente/Transparent Rhythm, 1981
Untitled, 1979
Untitled, 1979
Untitled, 1979
Ritmo transparente,/Transparent Rhythm, 1981
Conversazione/Conversation
Untitled, 1979

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Leonor Scliar-Cabral — Linguista e poeta brasileira judaica/ Brazilian Jewish Linguist and Poet — Poemas de Espanha velha (Sefarad) y de hoje/Poems from Olden Spain (Sefarad) and Today

Leonor Scliar-Cabral

Leonor Scliar-Cabral é doutora em Linguística pela Universidade de São Paulo e pós-doutorada pela Universidade de Montreal Professor Emérita da UFSC. Em 1991, ela se tornou presidente da Sociedade Internacional de Psicolinguística Aplicada e atualmente é membro honorário. Foi presidente da União Brasileira de Escritores (1995-1997) e presidiu a ABRALIN, durante o biênio 1997-1999. Pertence ao Conselho Editorial: Revista Internacional de Psicolinguística, Cadernos de Estudos Linguísticos, Letras de Hoje (fundadora), Revista ABRALIN entre outros. Pesquisadora do CNPq desde a década de 1970, coordena o Grupo de Pesquisa em Produtividade Linguística Emergente, alimentando a base de dados mundial CHILDES e os projetos “Ler & Ser: Combatendo o Analfabetismo Funcional” e Cátedra UNESCO MECEAL da UFSC. Junto com dezenas de artigos publicados no Brasil e no exterior estão seus livros: Introdução à Lingüística; Introdução à Psicolinguística (1990); Romances e canções sefarditas – séculos XV a XX (1990); Memórias de Sefarad (1994); Do senectute erotica (1998); Poesia Espanhola da Idade de Ouro (1998); “O outro, o mesmo” (In JL Borges, Obras completas, (1999); Cruz e Sousa, o Poeta do Exílio, versão poética para os franceses com M.-H. Torres das Lendas do Filme de Sylvio Back (2000); Princípios do sistema do alfabeto português e Guia Prático de Alfabetização (2003), The Sun Fell in Guaíba (2006); com CR Caldas-Coulthard; Unraveling Psycholinguistics: Basic Concepts (2008); Sagração da Alfabeto (2009); Psycholinguistics: Desafios Científicos e Tecnológicos (2010). Foi indicada como finalista do Prêmio Jabuti 2010, na Categoria Poesia, pela obra Consagrando o Alfabeto.

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Leonor Scliar-Cabral holds a PhD in Linguistics from University of São Paulo and a postdoctoral degree from the University of Montréal Professor Emeritus, UFSC. In 1991, she became President of the International Society of Applied Psycholinguistics and is currently an Honorary Member. She was president of the Brazilian Union of Writers (1995-1997) and presided over ABRALIN, during the biennium 1997-1999. She belongs to the Editorial Board: International Journal of Psycholinguistics, Cadernos de Estudos Linguísticos, Letras de Hoje (founder), ABRALIN Magazine among others. Researcher at CNPq since the 1970s, she coordinates the Emerging Linguistic Productivity Research Group, feeding the world database CHILDES and the projects “Ler & Ser: Combating Functional Illiteracy” and UNESCO MECEAL Chair at UFSC. Along with dozens of papers published in Brazil and abroad are her books: Introduction to Linguistics; Introduction to Psycholinguistics (1990); Sephardic Romances and Songs – XV to XX Century (1990); Memories of Sefarad (1994); Of senectute erotica (1998); Spanish Poetry of the Golden Age (1998); “The other, the same” (In J.L. Borges, Complete Works, (1999); Cruz e Sousa, the Poet of Exile, poetic version for the French with M.-H. Torres of the Legends of the Film of Sylvio Back (2000); Principles of the Portuguese Alphabet system and Practical Guide to Literacy (2003), O sol caía in Guaíba (2006); with C. R. Caldas-Coulthard; Unraveling Psycholinguistics: Basic Concepts (2008); Sagração da Alfabeto (2009); Psycholinguistics Scientific and Technological Challenges (2010). She was nominated as a finalist for the 2010 Jabuti Prize, in the Poetry Category, for the work Consagrando o Alfabeto.

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Poemas da Leonor Scliar-Cabral/

Poems by Leonor Scliar-Cabral

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Toledo

Toledo, Ciudad de Consuelo

Debrum nas janelas cegas e paredes de ladrilhos:

uma profusão de lírios orna estrelas de Davi,

nos idos de ha-Levi.

Os pedreiros muçulmanos te ergueram, Alamliquim,

as trinta e duas pilastras da toledana magia.

Estes trinta e seis degraus, rezando a cabala do Rabi,

salmodiavam até os banhos, nos idos de ha-Levi.

Os passos na pobre Aljama, paradas na Alcana rica,

separadas pelos muros e seus cerrados postigos.

Os segredos de tuas casas, se abriam para os jardins

internos com suas fontes cercados por alecrins,

nos idos de ha-Levi.

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Toledo, City of Consolation

Surrounding blind windows and tiled walls:

a profusion of lilies decorates stars of David,

ha-Levi long gone.

Muslim masons raised you up, Alamliquim,

the thirty-two pillars of the Toledano magic.

These thirty-six steps, saying the Rabbi’s cabal,

even melted in the baths, ha-Levi long gone.

The steps in poor Aljama, steps in rich Alcana

separated by the walls and their closed shutters.

The secrets of your houses, opened to the gardens

internal with its fountains surrounded by rosemary,

 ha-Levi long gone.

Translated by Stephen A. Sadow

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Girona

Girona

Harab bem Ishaq e as consagradas lâmpadas;

palavras escuras sempre iluminadas.

Vozes de Provença, presságios nas calls

vinte-e-duas letras, vinte-e-dois degraus.

Intrincado Dédalo, de arcos e arcanos

e a estrela amarela e os vermelhos panos.

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Girona

Harab bem Ishaq and the consecrated lights:

obscure words always illuminated.

Voices of Provence, presentiments of the calls,

twenty-two letters, twenty-two steps

Intricate Daedalus, of arches and arcane things

and the yellow star and the red clothes

Translated by Stephen A. Sadow

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Granada

Shavout em Granada

Seus pezinhos sobem em alamedas

pelos jardins da Alhambra e suas roseiras

antes da lua cheia.

Romãs maduras penduradas em sua cesta

e dos vinhedos, cachos de uvas frescas,

antes da lua cheia.

Com a fragrante flor de laranjeira

você vai enfeitar as estrelas

antes da lua cheia

e os sinos tocam suas bênçãos

e o Rabino Yosef já começou a ler

antes da lua cheia.

Antes da tinta no sangue a lua cheia

estanque esta fonte para sempre

de uma fortaleza inacabada e eterna.

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Shavout em Granada

Your small feet climb avenues

through the gardens of the Alhambra and its rose bushes

awaiting the full moon comes.

Ripe pomegranates hang from your basket

and from the vineyards, bunches of fresh grapes,

awaiting of the full moon.

With the fragrant orange blossom

you will garland the stars

awaiting the full moon

and the bells sound their blessings

and Rabbi Yosef already starts reading

awaiting the full moon.

Earlier than the color of blood in the full moon

this fountain impervious forever

to an unfinished and eternal fortress.

Translated by Stephen A. Sadow

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Falso Discurso

“E tão bem estar só

              vagar a esmo pela minha casa

que fala das lembranças

              sem possíveis partilhas. . .”

Em solilóquio eu mesma me convenço.

“Como e bom estar só!

              Pinçar aquela foto esmaecida

do baralho escondido

captura do que fomos.”

Em solilóquio eu mesma me convenço.

              “Mais que nunca estar só!

              Ir ao jardim, colher fruto maduro

no almoço improvisado

a mesa, sem convivas.”

Em solilóquio eu mesma me convenço.

“Para sempre, estar só.

              Rolar na cama grande desgrenhada,

              e como um animal

sem máscara dormindo.”

Eternamente só

              Nos parques onde os pares se entrelaçam,

a falsa persuasão

inútil se recolhe

              e o solilóquio aos prantos se soterra.

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Deceiving Words

“It feels so good to be by myself.

              to wander through my house

that speaks of memories

              exempt of memories

in a soliloquy I convince myself of that.

“How good it is to be by myself!

       To fetch that faded out picture

in a hidden deck of cards,

a glimpse of what we were.”

In a soliloquy I convince myself of that.

              “More than ever, to be by myself!

              To go to the orchard, to grab a ripe fruit

in the improvised lunch

a table without guests.”

In a soliloquy I convince myself of that.

“Forever, to be by myself.

              To roll over on the big bed disheveled,

              and like an animal

sleeping with no mask.”

In a soliloquy I convince myself of that.

By myself for eternity.

       In parks where couples embrace,

the false perception

useless curls itself in

              and the soliloquy is flooded by tears.

Translated by Regina Igel

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Fogo e cinzas

Amarotei as cartas uma a uma

              E dos sonhos desfeitos fiz o fogo

              que Lilith me ensinou no paraíso

chama roubada

              Mas o musgo reveste por inteiro

              o irregular das pedras de meu muro,

              em flor o resedá e o laranjal,

              com seu perfume.

              É setembro dos ventos e do pólen,   

Das derradeiras cinzas de lareira,

              sopradas vida e morte nos caminhos

              inominados.

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Fire and Embers

One by one I crushed the letters

       and of the end of my dreams I lit the fire

       taught to me by Lilith in paradise

stolen flame.

       But moss covers all

       the stones’ unevenness on my wall,

              the resedá and the orange tree are blossoming

with their perfume.

       It is March of winds and pollen,

of the last embers in the fireplace,

              life and death wafted along roads

              unnamed.

Translated by Regina Igel

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Sephirot

              Numa esfera perdida un paraíso

              Está a minha esfera não sei quando

E eu vou galgando em círculos os ramos

              secos de pomas.         

Os meus cabelos brancos se emaranham

              disfarce dos espinhos ressequidos,

onde eu busquei romãs, maças y figos

              do paraíso.

       Perdida estou, jamais, porém, meu sonho

e a rasgada pele em gretas geme

              as derradeiras gotas que alimentam

              o que está morto.

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Sephirot

       In a lost sphere a paradise

       waits for me I don’t know when

and I go on climbing in circles the branches

       dry of fruits.

       My gray hair is disheveled

       a mask for dried out thorns,

where I searched for pomegranates, apples and figs

              from paradise.

       I’m lost, but never my dream

and my torn cracked skin moans

       for the last drops that feeds

       what is dead.

Translated by Regina Igel

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Jacobo “Jacó” Guinsburg — (1921-2018) — Escritor e professor judaico brasileiro/Brazilian Jewish Writer and Professor — “Reforçando Forças”– conto poderoso sobre o último dia do bom omen comum /”Gathering Strength” –/Short-story about the last day of a good average guy

Jacó Guinsburg — 97 anos

Jacobo (Jacó) Guinsburg emigrou para o Brasil com seus pais em 1924, com três anos de idade, onde, anos depois, integrou-se ao intenso processo de movimentação política e intelectual no país, acompanhando de perto a renovação do teatro brasileiro. Escreveu na imprensa de São Paulo e do Rio de Janeiro sobre literatura brasileira, judaica e internacional, tornando-se colaborador constante em revistas da comunidade judaica com artigos no campo das artes, da literatura e, inclusive, da crítica teatral. Entre suas obras encontram-se Stanislavski e o Teatro de Arte de Moscou, Aventuras de uma Língua Errante – Ensaio de Literatura e Teatro Ídiche, Leone De Sommi: Um Judeu no Teatro da Renascença Italiana, Guia Histórico da Literatura Hebraica, Dicionário do Teatro Brasileiro, Diálogos Sobre Teatro, Stanislavski, Meierhold Cia & Ensaios de Teatro Russo, Semiologia do Teatro, Da Cena em Cena e inúmeros ensaios de estética e história do teatro, traduções e edição de várias obras sobre DiderotLessingBuechner e Nietzsche. É editor das obras completas de Anatol Rosenfeld, importante crítico e teórico de teatro que viveu no Brasil depois da Segunda Guerra Mundial. Como editor participou das editoras Rampa 1946, Perspectiva (a primeira com esse nome), Difusão Européia do Livro – Difel, fundando posteriormente a atual Editora Perspectiva voltada para a edição de obras de vanguarda. Fez cursos de filosofia na Sorbonne 1962 e 1963. Sempre acompanhando o movimento inovador do teatro e das artes brasileiras é chamado pelo diretor Gerald Thomas como um ensaísta e “acadêmico de vanguarda”. Começou sua intensa carreira como professor de crítica teatral na Escola de Arte Dramática (EAD) em 1964, ingressando posteriormente – 1967 na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, ECA/USP, assumindo finalmente a cadeira de estética teatral em que se tornou formador e estimulador de grande número dos principais críticos, teóricos e mestres do teatro brasileiro, tendo recebido o título de Professor Emérito. Faleceu em São Paulo em 21 de outubro de 2018 , aos 97 anos.

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Jacobo (Jacó) Guinsburg emigrated to Brazil with his parents in 1924, at the age of three, where, years later, he joined the intense process of political and intellectual movement in the country, closely following the renovation of the Brazilian theater. He wrote in the São Paulo and Rio de Janeiro press about Brazilian, Jewish and international literature, becoming a constant contributor to journals in the Jewish community with articles in the field of arts, literature and even theater criticism. Among his works are Stanislavski and the Moscow Art Theater, Adventures of a Wandering Language – Essay on Literature and Yiddish Theater, Leone De Sommi: A Jew in the Italian Renaissance Theater, Historical Guide to Hebrew Literature, Dictionary of the Brazilian Theater , Theater Dialogues, Stanislavski, Meierhold Cia & Rehearsals of Russian Theater, Theater Semiology, Da Cena em Cena and numerous essays on theater aesthetics and history, translations and editing of various works on Diderot, Lessing, Buechner and Nietzsche. He is the editor of the complete works of Anatol Rosenfeld, an important theater critic and theorist who lived in Brazil after the Second World War. As editor he participated in the publishing houses Rampa 1946, Perspectiva (the first with that name), European Book Diffusion – Difel, subsequently founding the current Editora Perspectiva dedicated to the edition of avant-garde works. He took philosophy courses at the Sorbonne 1962 and 1963. Always following the innovative movement of Brazilian theater and arts, he is called by director Gerald Thomas as an essayist and “avant-garde academic”. He began his intense career as a professor of theater criticism at the School of Dramatic Art (EAD) in 1964, later joining – 1967 at the School of Communications and Arts at the University of São Paulo, ECA / USP, finally assuming the chair of theatrical aesthetics in which he he became a trainer and stimulator of a large number of the main critics, theorists and masters of Brazilian theater, having received the title of Professor Emeritus. He died in São Paulo on October 21, 2018, at the age of 97.

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“Refazendo As Forças”

         Strulik acordou aquela manhã com torpor no corpo inteiro. Não conseguia sair da cama. Parecia-lhe ter o peso de um elefante. A muito custo chegou a abrir um olho, o que não quer dizer que pudesse abrir o outro. Pensou para si: Que kholerie é essa? Já deve ser tarde! E, enquanto puxava um braço para frente a fim de esticar-se, fez um esforço inaudito para erguer a segunda pálpebra. De repente, deu consigo mesmo de olho no relógio. Mas não pôde ver nada – um longo bocejo o assaltou. E foi exatamente quando estava com a boca escancarada que uma voz aguda, vinda da cozinha, lhe perfurou o tímpano:

         — Você pensa que todo dia é sábado?

         Não teve dúvida de perdera a hora. Mal pôde saltar da cama. Aos trancos foi fazer o que devia fazer para vestir-se. E, aí passar a mão cheia de água fria no rosto, com o arrepio que ela lhe causou, ocorre-lhe que algo de estravo estava acontecendo com ele.

         Não era possível que, com aquele corpo que agüentara todo o exército polaco nas costas e que sempre pronto a entrar em ação ao primeiro toque do corneteiro, estivesse ali todo quebrado de preguiça. Por que seria? Nesta semana não havia trabalhado mais do que nas outras e podia jurar que não havia tinha bebido um gole além do que do costume. Devia ser esgotamento…e lembrou-se: O Haim-Iankel teve uma coisa assim. No meia da sua, sentiu que a cabeça não era mais dele, estava zonzo. Foi ao Dr. Krekhtz que, no intervalo diagnóstico de um suspiro e um gemido, como sempre, receitou-lhe aquele xarope do anúncio no bonde, o Biotônico Fontoura. Ele tomou, e sarou, e, como não podia deixar de ser, continuou zonzo. Mas eu não estou… Ah, já sei, o que estou precisando é das férias!

         Mas logo agora? Nem pensar! É começo do mês. Tenho que fazer a cobrança. Se não, Dona Maria gasta todo o dinheiro. Isto é certo, tão certo quanto Adonai é Um. Mas o que é isso?!  A moleza não larga. Pareço um trapo. É, não da pra deixar pra depois. Preciso mesmo de férias, e pra já. Ah, sim, por que não no fim do mês? O pessoal fica sem um tostão, não compra, nem paga. Está resolvido. Só falta conversar com ela. Ih, já pensou? Vai soltar um falatório danado… Que precisamos primeiro arrumar a casa que vai ficar ainda mais cansada do que está correndo atrás das crianças… e todo o resto.

         Mas o Brodski me contou que levou a família para passar uns dias com Santos, na Pensão Flickman, sem gastar muito, e que encontrou lá uma turma toda, até gente do Farain, que foi muito agradável: as mulheres num lado, os homens no outro, as crianças no meio, ou melhor, nos dois lados ao mesmo tempo, uma comida caseira e um papo solto. Acho que é uma excelente ideia, mesmo porque eu só conheço o mar de cima, do alto do navio, e a Dvoire, nem isso, pois ela deve tê-lo posto fora de si, com é bem capaz – durante toda a sua viajem, ele só esteve com raiva, sacudiu  o vapor pra lá e pra cá, para todos os lados e botou todos os irmãos e irmãos de navio, de olhos vidrados cima e de boca aberta baixo. E de mais a mais, a praia vai lhe fazer bem. Ela não precisa mergulhar, basta boiar. O todo é bom pros nervos y pra saúde. E como li no Der Tog (O Dia) naquele artigo Schvim in lam um Schlof in Bet (nade no mar e durma na cama). E o ar? Erma na cama. E o ar? É puro, mesmo como os navios soltando fumaça no porto. E o sol nem há de dizer! Uma delícia! Volta-se de lá outro, com as forças refeitas. Não há o que pensar. É isto mesmo – E fechou a torneira da pia.

         Enquanto enxugava o rosto, mobilizando as forças para ir à luta e estudando os seus possíveis desdobramentos bem como as táticas que deveria adotar para sair são e salvo a casa e chegar inteiro a praia, tanto mais quanto no íntimo não deixava  de concordar que sua mulher, quanto calada, era até uma boa cabeça, e ele precisava guarnecer seus motivos de razões à prova de choros, gritos e astúcias de Eva, deu-se conta de que corria real perigo. Pois, recordou ele, tomando posição de combate, como lhe haviam ensinado os mestres para um argumento só um contra-argumento.

         De fato, ela vai repetir que nós não temos condições, mas outro dia veio com a história de que a Ester-Malke foi pra aquela stantzie, como se chama? Ah, Poços de Caldas…e contou maravilhas: hotel com mármores e escadarias, candelabros de cristal e ouro em todo quarto, jardins cheios de flores, restaurante com piano, garção que leva e traz comida platzground para crianças brincar e correr, banhos quentes, banhos frios, águas com cheiro, com bolinha, com rádio, uma verdadeira vesserbod, um lugar por madames, uma Karlsbad, disse ela como quem não diz nada…E o que sabe ela de Karlsbad? De onde, da taberna do pai dela? Da mikve, da casa de banhos do schtetl?… E Santos é logo ali, basta descer a serra, enquanto esse kurort, esse paraíso das águas, fica onde nem o demônio chega. Um dia inteiro de chacoalharão de ônibus e poeira de estrada. A gente vai sujo, toma banho e volta sujo. Isto é coisa que entre na cabeça de uma pessoa? E como se não fosse pouco, é preciso levar pra de manhã, de tarde e de noite, e roupões pra entra na banheira e sair de banheira, ainda bem que fornecem as toalhas de graça. E haja malas para pôr carregar toda essa tralha. Vai ser um tal de mala, maleta, bolsa, bolsinha, é meu descanso? Vai por água abaixo, pro ralo. Nem pensar! Pra que eu preciso de tudo isso? No Flickmann fica-se com em casa, a gente atravessa a rua e já está no mar. E para entrar n’agua, não precisa de roupa nenhuma, e só cobrir as vergonhas. Um pedaço de pano chega…um maiô o que pode custar? Era estocada final. Srulik pendurou a toalha.

              Foi quando, transpondo as alturas, se fez ouvir de novo a convocação: — Onde você se meteu? Belo exemplo, você dá para os seus filhos! –E Srulik com a certeza de haver alcançado a luz de verdade que somete os mestres alcançam em seus sábios conselhos, caminhou impávido para o campo de gloria.

14 de outubro de 2000

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“Restoring Strength”

Strulik woke up that morning with a torpor in his entire body. He wasn’t able to get out of bed. It seemed to him that he had the weight of an elephant. With great effort, he succeeded in opening an eye, which doesn’t mean to say that he could open the other. He thought to himself: What cholerie is that? It must be late already. And, while he pulled an arm forward to stretch it out, he made an extraordinary effort to raise a second eyelid. Suddenly, he glanced at the clock. But he can’t see anything—a long yawn assaulted him. And it was exactly then with his mouth wide-open, that a shrill voice, coming from the kitchen, perforated his ear drum:

         “Do you think every day is Saturday?”

He didn’t doubt that he lost track of time. He barely could get out of bed. With jerking motions, he did what he needed to do to dress himself.  And, there, splash a handful of cold water on his face. With the shiver that it caused him made him think that something strange was happening to him.

         It wasn’t possible that, with that body that had toughed out  being in the Polish army without trouble, was always quick to go into action at the first blast from the bugler, could be there all bound up by sloth. Why would that be? This week, he hadn’t worked more than in others, and he could swear that the hadn’t drunk alcohol a slug more than usual. It must be exhaustion. . . , and he remembered: Haim-Yankel had something like that. In the middle of the street, he felt that his head was no longer his; he was dizzy. He went to Dr Krekhtz, who, in the diagnostic interval between a sigh and a moan, as always, prescribed that syrup advertised on the streetcars, Biotonic. He took it, and was cured, and he as couldn’t stop being who he was, he remained dizzy. But, I’m not . . . , what I need is a few days of rest!

But right now? Unthinkable. It’s the beginning of the month. I have to make my collections. If not, Doña Maria will spend all the money. That’s for sure, as sure as Adam and Eve. But what is this? Weakness won’t let me. It seems like a trap. And, it can’t be left for later. I need those days off, right now. Ah, yes, why wait until the end of the month? The people will still have no money, they don’t buy, they don’t pay. It’s settled. It’s only necessary to talk with her. Has it occurred to her already? She’ll let out a damn stream of babbling… That we first need to clean up the house, that she will then be more tired than she already is, running after the children…, and all the rest.

         But Brodski told me that he took his family to spend a few days near Santos, in the Flickmann Guest House, without spending much, and that he found there a gang of folks; even people from Farain, who were very pleasant; women on one side, men on the other, the children in the middle, or better yet, on both sides at the same time, a home-cooked meal and a lot of chit-chat. I think that it is a great idea, precisely because I only know the sea from above, from the height of a ship, and Dvoire, my daughter, not even that, since she should be in the water—as she is well able—during the entire vacation. Only he was angry, shook at the hot air this way and everyway and put all the brothers and the sisters from the ship, with glassed-over eyes above and open mouths, below. And more and more, the coast made him feel good. It wasn’t necessary to dive in, it was enough to float. And all of it is good for the nerves and for health. And as he read in Der Tog (The Day) in that article Schvim in lam um Schlof in Bet (Swim in the Sea and sleep in Bed). And the air? It’s pure, just like the ships letting out smoke in the port. And about the sun, what can you say? A pleasure! You return from there a new person, with strength restored. There is nothing to think about. It’s exactly this – And he turned off a sink faucet.

While he dried his face, mobilizing the strength to go to battle and studying his possible explanations well and the tactics that he ought to adopt to come out safe and sound at home and arrive whole at the shore, as down deep, he didn’t stop believing that his wife, when quiet, was even a good thinker, and she needed to adorn her motives behind reasons, the proof with crying, yelling and the astuteness of Eve. He understood that he faced a true danger. Therefore, he remembered, taking on a combat position, as his teachers had, taught him to beat an argument with a counter-argument.

In fact, she was going to say again that we don’t have the money, but just the other day, she learned that Ester-Malke went to that stanzie, what’s it called? Ah, Poços de Caldas. . . And she told of marvels: hotel with marble and staircases, candelabras of crystal and gold in every room, gardens packed full of flowers, a garcon who brings and takes the food, a platzground for the children to jump and run, hot baths, cold baths, scented water, with a ball, with radio, a true vesserbod, a place for ladies, a Karlsbad, she says as if it were nothing unusual. . . And what does she know about Karlsbad? From where, from her father’s tavern? From the mikve, the bathhouse in the schtetl?. . .  And Santos is already there, just descend the mountain range, as for that kurot, that paradise of waters, it is set where even the devil won’t go. An entire day shaking in the bus in the highway dust. The people go there dirty, take their baths and return dirty. Do people even think of that? And as if that were nothing. It is necessary to bring clothing for the morning, the afternoon and evening, clothes to enter the baths, and there have to be bags in which to carry all this junk. It’s going to be a valise, a suitcase, a bag, a purse, and my rest? What do I need with all of this? Do they go under water, to the drain? Unthinkable! What do I need all of this for? At Flickmann’s, you are at home, the people cross the road, and right there is the sea. To get into the water, you don’t need any clothes at all, only to cover your private parts. A piece of cloth is enough… a bathing suit, what could that cost? It was a last thrust. Strulik hung up the towel.

         It was when, crossing the heavens, a convocation was newly opened:  What were you involved in? Good example! You give to your children! And Strulik, with the certainty of reached the light of truth that only the masters reach in their wise advice, walked undaunted toward the field of glory.                           

October 14, 2000

Translation by Stephen A. Sadow

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Estudios

  • Antropologia Aplicada
  • Aventuras de uma Língua Errante: Ensaios de Literatura e Teatro Ídiche, 1996, reelaboração e desenvolvimento de sua tese de doutorado com o mesmo título, de 1973;
  • Buchner – Na Pena e Na Cena
  • Cabala, Cabalismo e Cabalistas
  • Cacilda Becker: A Face e a Máscara, 1983, ao lado de Maria Thereza Vargas, ensaio que consta do livro: Uma Atriz: Cacilda Becker, de Nanci Fernandes e Maria Thereza Vargas.
  • Círculo Linguístico De Praga
  • Classicismo
  • Contos De I. L. Peretz
  • Conto Ídiche
  • Da Cena em Cena: Ensaios de Teatro, 2001, livro que aborda aspectos relevantes de concepções e correntes estéticas no teatro.
  • Diálogo sobre a Natureza do Teatro
  • Dicionário do Teatro Brasileiro
  • Diderot – Obras
  • Encenador De Si Mesmo
  • Evreinov: o Teatro da Vida
  • Expressionismo
  • Filosofia Do Judaismo
  • Guia Histórico da Literatura Hebraica
  • Ideia do Teatro
  • Judeu e a Modernidade
  • Leone de’Sommi, Homem de Teatro do Renascimento, 1989, com a tradução da primeira comédia hebraica de autoria de Leone de’Sommi
  • Linguagem e Mito
  • Meierhold e Grotowski
  • Nascimento da Tragédia
  • Nova e Velha Patria
  • Patriota, R. (org.) Jaco Guinsburg. A Cena em Aula. Itinerários de um Professor em Devir. SP: Edusp, 2009. Transcrição de aulas do professor e artigos de especialistas sobre o mestre.
  • Paz Perpétua
  • Pequena Estética
  • Pós-Dramático
  • Pós-Modernismo
  • Prazer do Texto
  • Quarenta anos de Habima.
  • Quatro Mil Anos de Poesia
  • Que Aconteceu, Aconteceu
  • Romantismo
  • Semiologia do Teatro, 1986, de cuja organização também participam Teixeira Coelho e Reni Chaves Cardoso
  • Sobre Anatol Rosenfeld
  • Stanislávski e o Teatro de Arte de Moscou, 1985, baseado na sua tese de Livre-Docência, pela Editora Perspectiva
  • Stanislavski, Meierhold & Cia
  • Surrealismo.
  • Teatro-Studio
  • Tairov: Notas para um Teatro de Síntese
  • Vanguarda e Absurdo, uma Cena de Nosso Tempo

Traduçãos

  • História da Sociologia, de Gaston Bouthoul, volume 3 da Coleção Saber Atual, da Difel, tradução de “Histoire de la sociologie”, lançado em 1954.[2]
  • As Sociedades Secretas, de Serge Hutin, volume 7 da Coleção Saber Atual, da Difel, tradução de “Les sociétés secrètes”, 1954.[3]
  • As Doutrinas Econômicas, de Joseph Lajugie, volume 12 da Coleção Saber Atual, da Difel, tradução de “Les doctrines économiques”, 1955.[3]
  • O Marxismo, de Henri Lefebvre, volume 19 da Coleção Saber Atual, da Difel, tradução de “Le marxisme“, 1955.[2][4]
  • O Existencialismo, de Paul Foulquié, volume 20 da Coleção Saber Atual, da Difel, tradução de “L’Existentialisme”. Teve 3 edições, a primeira em 1955,[2][5] e a última em 1975.
  • A Estética, de Denis Huisman, volume 21 da Coleção Saber Atual, da Difel, tradução de “L’esthétique“, 1955.[2]
  • A Literatura Russa, de Marcelle Ehrhard volume 32 da Coleção Saber Atual, da Difel, 1ª edição 1956.
  • A Magia, de Jérome Antoine Rony, volume 43 da Coleção Saber Atual, da Difel, tradução de “La magie”, 1957.[3]
  • Crimes e Crimes, de Strindberg, em 1952, publicado pela Edusp, em 1999
  • O Dibuk, de Sch. Ans-ki, publicado em 1952, reeditado em 1965 pela Brasiliense e, em 1988, pela Perspectiva
  • Pirandello: do Teatro no Teatro, Perspectiva, 1999.
  • República – Platão

Prêmios

  • Aos 87 anos e em plena atividade, Jacó Guinsburg recebe o Prêmio Shell de Teatro (2009) por sua contribuição ao pensamento crítico do teatro no Brasil.

Jacques Fux — Romancista brasileiro-judaico/Brazilian Jewish Novelist” — “Antiterapias”/ “Anti-Therapies” –fragmentos do romance/excerpts from the novel

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Jacques Fux

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Jacques Fux é graduado em matemática e mestre em ciência da computação pela UFMG, doutor e pós-doutor em literatura pela UFMG, pela Universidade de Lille 3 (França) e pela Unicamp, além de pesquisador visitante na Universidade de Harvard. Sua tese de doutorado, versão do livro Literatura e Matemática: Jorge Luis Borges, Georges Perec e o OULIPO (Perspectiva, 2016), recebeu em 2011 o Prêmio CAPES de melhor tese de Letras e Linguística do Brasil e foi finalista do Prêmio APCA de 2016. Antiterapias (Scriptum, 2012), seu romance de estreia, venceu o Prêmio São Paulo de Literatura 2013 e o manuscrito de Brochadas: confissões sexuais de um jovem escritor (Rocco, 2015), recebeu Menção Honrosa no Prêmio Cidade de Belo Horizonte. Foi finalista do Prêmio Barco a Vapor 2016. Publicou ainda Meshugá: um romance sobre a loucura, que saiu pela prestigiosa Editora José Olympio, e recebeu o Prêmio Manaus de Literatura 2016, e Nobel (José Olympio, 2018) em que realiza o sonho de todo escritor: ser laureado com um Nobel de Literatura.

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Jacques Fux has a degree in mathematics and a master’s in computer science from UFMG, a doctor and a post-doctor in literature from UFMG, the University of Lille 3 (France) and Unicamp, as well as a visiting researcher at Harvard University. His doctoral thesis, version of the book Literature and Mathematics: Jorge Luis Borges, Georges Perec and OULIPO (Perspectiva, 2016), received in 2011 the CAPES Award for the best thesis in Letters and Linguistics in Brazil and was a finalist in the 2016 APCA Award. Antiterapias (Scriptum, 2012), his debut novel, won the São Paulo Literature Award 2013 and the manuscript of Brochadas: sexual confessions of a young writer (Rocco, 2015), received an Honorable Mention in the Belo Horizonte City Award. He was a finalist in the Barco a Vapor Award 2016. He also published Meshugá: a novel about madness, published by the prestigious Editora José Olympio, and received the Manaus Literature Award 2016, and the Nobel Prize (José Olympio, 2018) in which he fulfills the dream of every writer: be awarded a Nobel Prize for Literature.

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Jacques Fux. Antiterapias. 2 ed. Belo Horizonte: Scriptum, 2014, 27-29, 113-114.

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Antiterapias

os fragmentos

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Então, se era para estudar, era para estudar. E se estava numa escola judaica atinha que rezar também. Não havia muito que questionar. Era para chegar cedo, rezar em hebraico—para não entender bem aquelas letras e músicas—e depois ir a sala de aula. Eu gostava das minhas aulas sobre a Torá, sobre o judaísmo e das aulas de hebraico. Ainda não era muito bom em hebraico. Ainda não sabia que poderia criar um Golem pela mera manipulação das letras hebraicas. Se soubesse, teria criado o mesmo Golem de Praga.O Golem de Bashevis Singer. Este Frankenstein judaico muito teria me ajudava a conquistar o amor de Silvinha e a repelir o profeta às avessas que sempre me perseguia. Mas eu desconhecia as relações entre letras e números. Não poderia imaginar (e v meus professores poderiam ensinar) as relações entre o Aleph, a matemática e um mundo literário completamente novo. Oh God, I could be bounded in a nutshell and count myself a King of infinite space. Também não tinha batido minha cabeça na escada para poder vislumbar a pequena esfera furta-cor, de quase intolerável fulgor, que me revelaria os segredos do universo. Mas estava suficientemente feliz com as explicações simplórias da vida. Da origem, da criação e da justiça divina. Era tudo muito simples. Deus me criou à sua imagem e semelhança. Eu era ainda mais parecido com Ele, segundo mamãe e papai. Criou o mundo e os animais. A luz da escuridão. E tudo isso em seis dias. E descansou no shabat. Estava tudo lá escrito. Pelo menos me diziam, já que não sabia muito bem ler hebraico, sobretudo sem as vogais. Ah, claro, havia dez mandamentos. O meu manual de conduta moral e ética já estava pronto. Nem precisava questionar nada. Sim, Ele era o senhor meu Deus e eu deveria acreditar nisso. Não deveria matar. Não poderia roubar. Não praticaria o adultério. Não desejaria a mulher do próximo. Não daria falso testemunho. Não criaria imagens. Honraria meu pai e mãe (claro e sempre!). Lembraria o shabat (o que tinha o Dror e era bom). Não pediria ajuda a Deus em vão. Ufa, eram tantos nãos. Mais como era bom, fácil e simples! Não tinha muito que questionar. Era seguir e ser feliz. Acredito que hoje alguns mandamentos, mudaram. Todos nós desejamos a mulher do próximo, desde que esse próximo não esteja ou seja tão próximo assim.

Ou que a mulher do próximo esteja numa revista, num site pornô o mesmo atravessando a rua. Já roubar, bem, roubar pequenas coisinhas na Machiné não era tão grave assim. Éramos todos judeus, numa, numa excursão de judeus, e estávamos tentando perpetuar nossa espécie. Já os outros mandamentos, esses tento cumprir.

Tudo corria muito bem, sum nenhuma questão mais polêmica, até que a nossa professora resolveu nos explicar sobre Darwin. A evolução das espécies. Que coisa complicada! As explicações não se fechavam muito bem. O sistema não era completo, consistente e coerente. Os teoremas da incompletude de Gödel já poderiam ser vislumbrados logo na Bíblia. Em 1925, outro jovem brilhante judeu chamado Gödel demonstrou que qualquer sistema formal capaz de fazer aritmética não é capaz de provar sus própria consistência. E além disso, esses sistemas são incompletos. Ora, se existe um Código da Bíblia e se acreditarmos na Cabala, o sistema bíblico torna-se incompleto, como já era de esperar. Assim poderíamos provar algo inconsistente: que Deus existe o que Deus não existe. Ficção? Com Darwin, a teoria do mundo seria diferente daquela contada em seis dias. Outras histórias bíblicas também perderiam o sentido. A seleção natural seria fruto da Arca de Noé? Noé os selecionou para perpetuar as espécies? Tudo muito confuso. E agora, José, em que acreditar? A festa acabou? A casa caiu? A Torá ruiu? E todas as histórias, parábolas, contos, civilizações que as versões de mamãe tinham me ensinado na escola, era tudo inventado? Toda essa história deveria contada como o Ilíada? Moisés seria como Ulisses? Não haveria compromisso com a verdade num livro escrito com inspiração divina? A divindade então era literária? Poesia? Besteira? Malditos Nazistas. O tempo se bifurca perpetuamente para inumeráveis futuros. Nesse encontro fomos inimigos. Todas essas histórias bíblicas poderiam estar num livro de seres imaginários? Fui ludibriando, novamente, pelo Dibouk? Se eu descobrisse quem era o mentiroso, arrenegado, anhangão, Pé-de-Pato. O -que-nunca-se-ri que falseou essa história, eu o colocaria em algum dos círculos do inferno dantesco. Fosse ele Darwin, fosse ele Deus! E eu tinha que descobrir. Tinha que revelar para o mundo o segredo. O meu fantasioso e literário segredo. Mas é lógico que o único caminho que conhecia era o de estudo.

***

As religiões voltadas todas para Deus e para o arrependimento. Para o arrependimento pelas faltas com Deus. Eu, que fui educado desde muito pequeno com os valores judaicos, não os associava à religião. A religião não ensinava a forma como deveríamos tratar as pessoas, o meio ambiente, nós mesmos. Ensinava esse temor divino. Esse medo e as

eternas oferendas que deveríamos fazer. O Deus católico era extremamente bondoso, mas era necessário extremamente receptivo a tudo o que ele pregava. Ou que pregavam por ele. O Deus judeu era um Deus justo. Justiça podia simbolizar rigor. Punição, Adoração. E eu, que gostava o gosto dos valores humanos, do respeito, admirava os valores judaicos. Não a religião, mas sua cultura milenar. Se dependêssemos dos ortodoxos judeus, haveria um colapso econômico. Famílias imensas existiriam. Existem. Todos esperando o tal do Mashiach, chegar. Nada de trabalhar. Só rezar. Nem todos poderiam ser rabinos. E sem trabalho, com alta taxa de natalidade, a economia ruiria. Lógico que há exceções. Em Nova Iorque, muitos ortodoxos trabalham demais. Em todos os lugares também.

Mas há um grupo de ultraortodoxos em Israel e nos EUA que não trabalha. Só rezar. Só espera o Mashiach. Não vai o exército. Não está de acordo com a existência do Estado Judeu. Aguarda. Alguns de elos até já encontraram o Amadinejah em um congresso revisionista de Shoah. E não fazem nada para contribuir, além de terem mais filhos. Israel assegura sua existência. Eles não. Foi um de esses que matou Isaac Rabin. O que tentou verdadeiramente fazer a paz. O que sonhou. Aquele que apertou a mão a Arafat num gesto inédito. Impensável na época. Surreal. Mas que foi morto por um extremista judeu. É interessante pensar que consta nos dez mandamentos um preceito explícito o não matarás. Na verdade, é um mandamento que diz não assassinarás. Assassinar é matar alguém inocente. Matar se direciona a alguém culpado, segundo a interpretação dessa Lei. Assim alguns ortodoxos condenaram á morte pelo acordo com Arafat. Por não desejar expandir o território judeu em busca de Israel Gdolá. A Israel bíblica. Segundo eles, Rabin foi morto, não assassinado. No era um inocente. Histórias de vida real. Mas, também, se a perpetuação do judaísmo dependesse somete dos liberais, alguns valores seriam perdidos. Muitos. Purim vivaria um Carnaval? A Rainha Ester seria uma Rainha de Bateria? Poderíamos fazer uma pequenina refeição no Yom Kipur? E alguns valores, crenças, marcos e fatos seriam mudados. Evolução natural? Não sé, mas acho que, existindo somete os liberais, teríamos outra religião. Com outra visão. Muitas vezes, boa. Muitas vezes, falha e incompleta. E eu não sabia muito bem em quem acreditar, em que acreditar nem por acreditar. Creio, assim, necessário esse duelo entre os religiosos, os liberais e os marginais, como eu, que não concordam com nenhum dos lados. Ou que concordam com os dos lados.

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Rabin, Clinton, Arafat

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Antitherapies

excerpts

So, if it was to be studying, it was to be studying. And if it was in a Jewish school, it was yet to pray also. There was never much to question. It was to arrive early, to pray in Hebrew—to not understand well those letters and tunes—and then go to the classroom. I enjoyed my classes about Torah, Judaism and the Hebrew classes. Though I not was very good in Hebrew. Though I didn’t know that you could create a Golem by the mere manipulation of Hebrew letters. If I knew, I would have created the same Golem of Prague. The Golem de Bashevis Singer. This Jewish Frankenstein would have helped me a lot in conquering Silvinha’s love and to have the prophet chase away that craziness that always pursues me. But didn’t know the relationships between letters and numbers. I couldn’t imagine (and not even my teacher could teach) the relation between the Aleph, to mathematics and a completely new literary world. O God I could be bounded in a nutshell and count myself a king of infinite space. Moreover, I have never beaten my head against wall so I could have glimpse at a small iridescent sphere, of an almost intolerable brilliance, that would reveal to me the secrets of the universe. But I was sufficiently happy with simple explanations about life. Of the Beginning, the Creation and Divine Justice. It was all very simple. God created me in his image and resemblance. I was therefore very similar to Him, according to mother and father. He created the world and the animals He created the world and the animals. Light from darkness. And all this in six days. And He rested on Shabbat. It was all written down. At least they told me so, as I didn’t know how to read Hebrew very well, especially without the vowels. Oh, of course, there were ten commandments. My manual of moral conduct and ethics already was ready.

It wasn’t necessary to question anything. Yes, He, the Lord, my God and I should believe this. Thou shalt not kill. Thou shalt not steal. Thou shalt not desire your neighbor’s wife. Thou shalt not give false testimony. Thou shalt not create graven images. Honor your father and your mother (Most certainly and forever!) Remember the Sabbath and keep it holy (or do what Dror did and that was good enough. Don’t take God’s name in vain. Yikes! There were so many Shalt Nots. But they were good, easy and simple. There was never much to question. Follow and be happy. I believe that today some commandments have changed. We all want our neighbor’s wife, since that wife is or is not necessarily a neighbor. Or that your neighbor’s wife is in some magazine, some porno site or even crossing the street. As for stealing, stealing little things from the Macjané, the vending machine, wasn’t so serious either. We were all Jews, in a group of Jews, and we were tempted to perpetuate our species. As for the other commandments, those I try to follow.

Everything was just fine, without any other polemical questions, until our teacher decided to Darwin to us. The Evolution of the Species. What a complicated business! The explanations don’t fit very well. The system wasn’t complete, consistent or coherent. The theory of incompletion of Gödel could then be seen in the Bible. In 1925, another brilliant young Jew named Gödel demonstrated that any system that was capable of being proven mathematically, was not capable of proving its own reality. And because of this, those systems were incomplete. Now, if there exists a Biblical Code, and if we believe in the Kabbalah, the Biblical system becomes incomplete: that God exists or that God doesn’t exist. Fiction? With Darwin, a theory of the world would be different from that told in six days. Other Biblical stories would also not make sense. Natural selection would be the result of Noah’s Ark? Noah selected them to perpetuate the species? Everything is very confusing. And now, Joseph, who to believe? The party is over? The house falls? The Torah collapses? And were all the tales, parables, stories, civilizations, songs that had been taught in school all invented? All of that history should be told like the Iliad? Moses would be like Ulises? There couldn’t be compromise with the truth of a book written with divine inspiration? The Divinity, then, was literature? Poetry? Nonsense?  Damn Nazis. Time perpetually divides into innumerable futures. At that meeting we were enemies.  All those Biblical stories could be found in a book of imaginary beings. I was fooled once again by the Dibbuk? If I were to discover who was the liar, the cursed, the devil, the faker. Or, that scoffer who falsified that story, I would put him into the circles of Dante’s Inferno. Was it Darwin? Was it God? And I had to discover which.

I had to reveal the secret to the world. My fantastic and literary secret. But, logically, the only path that I knew was studying. I was looking for everything that I could find. And Astrophysics wasn’t sufficient to prove Darwin’s or God’s fallacy, at least so I believed. And I had to understand all that Jewish or scientific nonsense at six years old.

I had to reveal the secret to the world. My fantastic and literary secret. But, logically, the only path that I knew was studying. I was looking for everything that I could find. And Astrophysics wasn’t sufficient to prove Darwin’s or God’s fallacy, at least so I believed. And I had to understand all that Jewish or scientific nonsense at six years old.

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The religions all returned to God and for repentance. For repentance for the failings with God. I, who was educated since I was very small with Jewish values, not those associated with religion. Religion didn’t teach the way in which we ought to treat people, the environment, ourselves. I taught fear of the divine. That fear and  the eternal sacrifices that we ought to make. The Catholic God was extremely generous, but it was necessary to be very accepting of everything that He preached or that they preached for him. The Jewish God was a just God. Justice could symbolize rigor. Punishment. Adoration. And I, who liked or like human values, admired Jewish values, out of respect, I admired Jewish values. Not the religion, but its millennial culture. If we were to depend on the orthodox Jews, there would be and economic collapse. Immense families existed, exist. All waiting for such a Mashiach to arrive. Nothing about working. No working. Just prayer Not all of them could be rabbis. And without work, with a high birth, the economy collapsed. Of course, there were exceptions. In New York, many orthodox worked too much. In every other place, too.

But there was a group of ultra-orthodox in Israel and in the United States who didn’t work. Only prayer. Only waiting for the Meshiach to arrive. Didn’t go into the army. Didn’t agree with the existence of the State of Israel.  Wait. Some of them had even met with Ahmadinejab in a revisionist congress dealing with the Shoah. And they didn’t do anything to contribute, other than having more children. Israel assures their existence. They don’t. It was one of those who killed Isaac Rabin. He who truly tried to make peace. Or so he dreamt.

The one who offered his had to Arafat in an unheard-of gesture. Unthinkable in that period. Surreal. But who was killed by a Jewish extremist. It is interesting to think that the Ten Commandments contains an explicit precept that thou shalt not kill. In fact, there is a commandment that says assassinate.  Assassinate or kill someone innocent. To kill is used with someone guilty, according to the interpretation of that Law. So, some orthodox condemned to death for the agreement with Arafat. For not wanting to expand the Jewish territory in search of Israel Gadolà, Greater Israel. The Biblical Israel. According to them, Rabin was killed, not assassinated. He wasn’t an innocent. Stories of real life. But, moreover, if the perpetuation of Judaism were to depend on the liberals, some values would be lost. Many. Purim become a Carnival. Queen Esther would be a Queen of Drums. Would we be able to make a slight reference to Yom Kippur? And some values, beliefs, references and facts would be changed. Natural evolution? I don’t know, but I think that, with only the liberals existing, we would have a different religion. With another vision. Often good. Often faulting and incomplete. And I don’t know really know in which to believe or why to believe. I believe it to be necessary, therefore, this duel between the religious, the liberals and the marginalized. Like me, who doesn’t agree with either of the two sides. Or who agrees with both sides.

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Rabin, Clinton, Arafat

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Translation from the Portuguese by Stephen A. Sadow

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Livros por Jacques Fux/Books by Jacques Fux

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Alberto Dines (1932-2018) — Jornalista e professor do jornalismo brasileiro- judaico/Periodista y profesor de periodismo judío-brasileño/Brazilian Jewish Journalist and Professor of Journalism

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Alberto Dines

(Em Portugués;  En Español; In English)

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Alberto Dines nasceu em 1932, no Rio de Janeiro (RJ). Iniciou sua carreira em 1952, quando começou a escrever para a revista A Cena Muda (RJ). Na revista Manchete (RJ), começou como repórter e passou. Entrou para o Jornal do Brasil (RJ), em 1962, como editor-chefe, onde depois também dirigiria os cadernos Comunicação e Cadernos de Jornalismo. Em 1963, criou a cadeira de jornalismo comparado da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Em 1968, foi preso após criticar a ditadura em um discurso na universidade. Sua passagem pelo Jornal do Brasil ficou marcada pelo aperfeiçoamento que ele implantou no jornal, além de pelo menos duas capas históricas no período da ditadura militar. Em 1971, ganhou o prêmio Maria Moors Cabot da Universidade de Columbia (EUA), onde em 1973 se tornaria professor.No mesmo ano, foi demitido do Jornal do Brasil após uma série de manchetes e artigos que criticavam a ditadura brasileira e que noticiavam o golpe contra Salvador Allende, no Chile. Em 1975, assumiu a chefia da sucursal do Rio de Janeiro da Folha de S. Paulo (SP), onde ficou até 1980. Nesse período, criou o espaço Jornal dos Jornais, dentro da Folha, em que entre 1975 e 1977 fez críticas ao jornalismo na época. Após escrever uma sátira para o Pasquim (RJ), famoso por fazer críticas à ditadura, Dines deixou a Folha. Em 1982, mudou-se para Lisboa (Portugal), para realizar pesquisas para uma biografia do escritor Stefan Zweig.  Em 1988, foi nomeado diretor do Grupo Abril em Portugal. Em 1993, resultado de uma parceria com Carlos Vogt, reitor da Universidade Estadual de Campinas – na época interessado em implementar um centro de estudos de Jornalismo –, foi cofundador do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo da universidade. Dois anos depois, por meio do Instituto para o Desenvolvimento do Jornalismo, criou o Observatório da Imprensa, site com presença regular na Internet desde abril de 1996, do qual é editor responsável desde o início. O portal ganhou sua versão televisiva em 5 de maio de 1998, veiculada semanalmente pela TV Brasil,  e no rádio, em 2005, com um programa transmitido diariamente pelas rádios. Escreveu cerca de 15 livros de ficção, reportagens, teoria e prática jornalística, biografia e história. Entre eles: Posso?1972; O papel do jornal, 1974; E por que não eu, 1979); Morte no Paraíso – a tragédia de Stefan Zweig, 1981; O Baú de Abravanel  1990; Vínculos do fogo, Tomo I 1992, e O papel e a profissão de jornalista, 2009. Fundou e segue como dirigente em 2015 do site Observatório da Imprensa, e faz o programa com o mesmo título no rádio e na televisão da Rede Pública. Ainda em 2012, em junho, Dines foi indicado ao Prêmio Herzog Especial.  Foi eleito em 2014 entre os ‘TOP 50’ dos Admirados Jornalistas Brasileiros pelo trabalho desenvolvido na Folha de S.Paulo. Reeleito em 2015 confirmou a presença entre os 50 mais admirados do Brasil.

Adaptado do Portal dos Jornalistas

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Alberto Dines nació en 1932, en Río de Janeiro (RJ). Comenzó su carrera en 1952, cuando comenzó a escribir para la revista A Cena Muda (RJ). En la revista Manchete (RJ), comenzó como reportero. Se unió a Jornal do Brasil (RJ), en 1962, como editor e jefe, donde más tarde también dirigiría Cadernos Comunicação y Cadernos de Jornalismo. En 1963, creó la cátedra de periodismo comparativo de la Pontificia Universidad Católica de Río de Janeiro. En 1968, fue arrestado luego de criticar a la dictadura en un discurso en la universidad. Su tiempo en Jornal do Brasil estuvo marcado por la mejora y la implementación en el periódico, así como al menos dos portadas históricas durante la dictadura militar. En 1971, ganó el Premio Maria Moors Cabot de la Universidad de Columbia (EE. UU.), donde en 1973 se convertiría en profesor. En el mismo año, fue despedido de Jornal do Brasil después de una serie de titulares y artículos que criticaron a la dictadura brasileña e informaron el golpe contra Salvador Allende en Chile. En 1975, asumió la dirección de la sucursal de Folha de S. Paulo (SP) en Río de Janeiro, donde permaneció hasta 1980. Durante este período, creó el espacio Diario del periódico dentro de Folha, en el cual, entre 1975 y 1977, criticó el periodismo en ese momento. Después de escribir una sátira para Pasquim (RJ), famoso por criticar la dictadura, Dines dejó Folha. En 1982, se mudó a Lisboa (Portugal) para realizar una investigación para una biografía del escritor Stefan Zweig. En 1988, fue nombrado director del Grupo Abril en Portugal. En 1993, como resultado de una asociación con Carlos Vogt, decano de la Universidad Estatal de Campinas, en ese momento interesado en implementar un centro de estudio de periodismo, cofundó el Laboratorio de Estudios Avanzados de Periodismo de la Universidad. Dos años más tarde, a través del Instituto para el Desarrollo del Periodismo, creó el Observatorio de la Prensa, un sitio web con presencia regular en Internet desde abril de 1996, del cual ha sido editor responsable desde el principio. El portal ganó su versión televisiva el 5 de mayo de 1998, transmitido semanalmente por TV Brasil, y en la radio en 2005, con un programa transmitido diariamente en la radio. Ha escrito unos 15 libros de ficción, reportajes, teoría y práctica periodística, biografía e historia. Entre ellos: ¿Puedo? 1972; El papel del periódico, 1974; Y por qué no yo, 1979; Muerte en el paraíso: la tragedia de Stefan Zweig, 1981; en 1990; Bonds of Fire, Tomo I 1 y The Role and Profession of Journalism, 2009. Fundada y continúa como directora en 2015 del sitio web del Observatorio de la Prensa, y realiza el programa con el mismo título en radio y televisión de la Red Pública. También en 2012, en junio, Dines fue nominado para el Premio Especial Herzog. Fue elegido en 2014 entre los “TOP 50” de los admirados periodistas brasileños por su trabajo en Folha de S.Paulo. Reelegido en 2015 confirmó la presencia entre los 50 más admirados en Brasil.

Adaptado el Portal de Periodistas

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Alberto Dines was born in 1932, in Rio de Janeiro (RJ). He began his career in 1952, when he began writing for the magazine A Cena Muda (RJ). In Manchete magazine (RJ), he started as a reporter. He joined Jornal do Brasil (RJ), in 1962, as editor-in-chief, where he would later also direct the Cadernos Comunicação and Cadernos de Jornalismo. In 1963, he created the comparative journalism chair of the Pontifical Catholic University of Rio de Janeiro. In 1968, he was arrested after criticizing the dictatorship in a speech at the university. His time at Jornal do Brasil was marked by the improvements he implemented in the newspaper, as well as at least two historical articles during the military dictatorship. In 1971, he won the Maria Moors Cabot Prize from Columbia University (USA), where in 1973 he would become a professor. In the same year, he was fired from Jornal do Brasil after a series of headlines and articles that criticized the Brazilian dictatorship and reported the coup against Salvador Allende in Chile. In 1975, he took over as head of the Rio de Janeiro branch of Folha de São Paulo (SP), where he stayed until 1980. During this period, he created the Jornal dos Jornais space within Folha, in which, between 1975 and 1977, he criticized the journalism at the time. After writing a satire for Pasquim (RJ), famous for criticizing the dictatorship, Dines left Folha. In 1982, he moved to Lisbon (Portugal) to conduct research for a biography of writer Stefan Zweig. , – at the time he was interested in setting up a journalism study center -, he co-founded the University’s Advanced Journalism Studies Laboratory. Two years later, through the Institute for the Development of Journalism, he created the Press Observatory, a website with regular internet presence since April 1996, of which he has been a responsible editor from the beginning. The program won its television version on May 5, 1998, broadcasted weekly by TV Brasil, and on the radio in 2005, with a program daily broadcasts on the radio. He has written about 15 books of fiction, reporting, journalistic theory and practice, biography and history. Among them: May I? 1972; The Rose of the Newspaper, 1974; And why not me, 1979); Death in Paradise – the tragedy of Stefan Zweig, 1981; The Abravanel Chest, 1990; Bonds of Fire, Volume I 1992, and The Role and Profession of 2009. He founded and continued as director in 2015 of the Observatory of the Press website, and did the program with the same title on radio and television of the Public Network. Also in 2012, in June, Dines was nominated for the Herzog Special Award. He was elected in 2014 among the ‘TOP 50 ″ of the Admired Brazilian Journalists for his work at Folha de Sáo Paulo. Re-elected in 2015, he confirmed his presence among the 50 most admired in Brazil.

Adapted from the Portal de Periodistas

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Precisa-se: gente igual com disposição diferente

Existem profissões especiais? Até que ponto o jornalismo é diferente de outras atividades da sociedade moderna? O jornalismo é uma profissão ou um estado de espírito?

Mesmo em uma empresa de comunicação, os jornalistas são considerados privilegiados. Aqueles que procuram o poder os endeusam. Aqueles que chegaram ao poder os abominam. O público os vê mitologicamente.

Que é, pois, o jornalista? Já vimos, no capítulo introdutório, o desenvolvimento pelo qual passou a profissão e o seu estudo. Já vimos que o jornalista se relaciona com o leitor como um psicanalista com seu paciente, um marido com sua mulher, o pai com seu filho. São espelhos um do outro, reflexos, continuações, interações, partes, enfim, de um mesmo processo. Jornalista é o intermediário da sociedade, tem dito o sociólogo americano Paul Lazarsfeld.

Já anotamos que o jornalismo, por ser uma atividade essencialmente intelectual, pressupõe no seu exercício uma série de valores morais e éticos. Sabe-se que o processo de informar é um processo formador; portanto, o jornalista, em última análise, é um educador.

Essa lista de características é, no entanto, de caráter geral. Quais os componentes específicos da atitude jornalística? Uma exegese detalhada se faz necessária, a fim de evitar que o jornalista assuma aprioristicamente um “comportamento” sem o devido lastro psicológico e subjetivo.

Nesse sentido, vale mencionar experiências que fizemos com turmas da PUC e em seminários internos para a formação de estagiários do Jornal do Brasil. Acreditando que o treinamento profissional de um jornalista compreende também um cuidadoso preparo subjetivo e sensorial, assim como o arquiteto deve ser preparado para sentir volumes, espaços e formas, convocamos alguns especialistas para preparar o “lado de dentro” do futuro jornalista.3 Em outras oportunidades, já pensando no jornalista profissionalizado

O jornalista não necessariamente deve compor o tipo expansivo, entusiasta, ágil, “durão”, cuja imagem o público já mentalizou. Pode ser até calado e delicado. Porém, intimamente deve ser um espírito inconformado e inquieto. O jornalista não pode contentar-se com a primeira informação, impressão ou inferência, nem acomodar-se ao primeiro obstáculo. Quantas vezes a não notícia é uma excelente notícia? Basta trabalhá-la.  Pejorativamente, diz-se que o jornalista é um cavador.

Diríamos, melhorando o termo, que o jornalista é um permanente buscador. Jornalista conformado não é jornalista. O profissional de imprensa pessimista ou cínico prejulga, não acredita no que pode acontecer, pois já sabe o que vai acontecer. Quem não acredita na notícia não a persegue e não a encontra.

Há um componente otimista dentro da profissão que a torna vulnerável às tendências, aguça percepção, espicaça a criatividade. Essa inquietação gerou é gerada por uma permanente sensibilização. Qualquer anormalidade deve ser percebida, seguida, desvendada. O jornalista é o profissional da indagação, do questionamento. No nível operacional, o jornalista se caracteriza pela permanente tomada de decisões. Mesmo sem o treino do rápido decision making, está permanentemente tomando decisões em ritmo veloz. Se fotógrafo, é o ângulo da fotografia que importa, uma decisão, portanto. Se repórter, importam o enfoque da notícia, a pergunta ao entrevistado e a escolha do próprio entrevistado. Se chefe, tem de avaliar incessantemente a incrível massa de informações despejada sobre sua mesa, aferir sua veracidade, avaliar sua importância e definir seu destaque. Ao escrever, cada palavra é uma decisão, cada informação, uma decisão, cada orientação, decisão. Durante todo o tempo em que desempenha sua atividade diária – e já vimos que esta não se limita ao horário de trabalho –, o jornalista seleciona e opta.

Nessa sucessão de alternativas que resulta na escolha de uma delas, inclui-se como consequência lógica o senso de responsabilidade. Aqui se insere um vasto debate sobre o exercício da profissão e os limites que a ela vêm sendo impostos. Toda vez que a imprensa incomoda, a primeira reação é calá-la. Cria-se, assim, uma gangorra de crime e castigo que desemboca nos regimes censórios, de consequências tão funestas.

Poucos se lembram, no entanto, de recorrer ao único meio capaz de colocar o espírito investigativo do jornalista no contexto do contrato social segundo o qual vivemos – a lei da responsabilidade. No fim do governo Castello Branco (1966), depois de um exemplar período de liberdade de expressão (considerando que o regime era excepcional), pretendeu-se aprovar uma Lei de Imprensa para enquadrar os crimes cometidos no exercício da profissão. Na ocasião, o Jornal do Brasil procurou convencer o governo a adotar uma legislação genérica de responsabilidade, incluindo médicos, industriais que menosprezam as especificações dos seus produtos, engenheiros cujas obras contêm falhas etc.

Uma legislação específica contra crimes de imprensa – atentados à responsabilidade como outros quaisquer – confere à atividade jornalística uma regalia jurídica injustificável. A pregação do Jornal do Brasil não vingou e a Lei de Imprensa foi aprovada.

O único elemento capaz de sanear a imprensa é um revigoramento geral do senso de responsabilidade. Primeiro, por parte do governo – criando o clima de liberdade com respeito. Depois, das fontes de notícias, que, percebendo a desatenção ou descuido do repórter, se aproveitam da situação para “plantar” informes perigosos. E, finalmente, da empresa jornalística, de onde deve partir uma atmosfera permanente de seriedade e dignidade. O repórter que percebe uma atitude solerte na nota redigida pela direção ou nos editoriais inconscientemente a absorverá, passando a adotar os mesmos padrões.

O jornalista entrosa-se com a responsabilidade muito mais facilmente do que com a punição e o arbítrio. Especialmente se essa responsabilidade for um padrão de toda a sociedade que ele representa. O jornalista sabe que, ao redigir uma nota de três linhas, pode estar destruindo uma reputação e uma vida. Trabalhando nos bastidores da informação, avalia a força que tem. Para ele, um limite, desde que não seja arbitrário, é mais confortável e protetor que a impunidade.

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Necesario: mismas personas con diferente disposición

¿Hay profesiones especiales? ¿En qué se diferencia el periodismo de otras actividades de la sociedad moderna? ¿Es el periodismo una profesión o un estado mental?

Incluso en una empresa de comunicaciones, los periodistas son considerados privilegiados. Los que buscan poder los deifican. Los que han llegado al poder los aborrecen. El público los ve mitológicamente.

¿Qué es, entonces, el periodista? Ya hemos visto en el capítulo introductorio el desarrollo de la profesión y su estudio. Ya hemos visto que el periodista se relaciona con el lector como un psicoanalista con su paciente, un esposo con su esposa, el padre con su hijo. Son espejos el uno del otro, reflejos, continuaciones, interacciones, partes, en resumen, del mismo proceso. El periodista es el intermediario de la sociedad, ha sido el sociólogo estadounidense Paul Lazarsfeld.

Ya hemos señalado que el periodismo, como actividad esencialmente intelectual, presupone en su ejercicio una serie de valores morales y éticos. Se sabe que el proceso de informar es un proceso formativo; por lo tanto, el periodista es finalmente un educador. Esta lista de características, sin embargo, es de carácter general. ¿Cuáles son los componentes específicos de la actitud periodística? Es necesaria una exégesis detallada para evitar que el periodista asuma un “comportamiento” a priori sin el lastre psicológico y subjetivo adecuado.

En este sentido, vale la pena mencionar las experiencias que hemos tenido con las clases de la PUC y en seminarios internos para la capacitación de aprendices de Jornal do Brasil. Creyendo que la capacitación profesional de un periodista también incluye una cuidadosa preparación subjetiva y sensorial, así como el arquitecto debe estar preparado para sentir volúmenes, espacios y formas, llamamos a algunos expertos para preparar el “interior” del futuro periodista. En otros oportunidades, ya pensando en el periodista profesional.

El periodista no necesariamente debe componer el tipo expansivo, entusiasta, ágil, “duro” cuya imagen el público ya ha mentalizado. Incluso puede ser silencioso y delicado. Pero íntimamente debe ser un espíritu inquieto e inquieto. El periodista no puede contentarse con la primera información, impresión o inferencia, ni acomodarse al primer obstáculo. ¿Con qué frecuencia las noticias no son buenas noticias? Solo resuélvelo. Peyorativamente, se dice que el periodista es un cavador. Diríamos, mejorando el término, que el periodista es un buscador permanente. Periodista conformado no es periodista. Los prejuicios profesionales pesimistas o cínicos de la prensa, no creen lo que puede suceder porque él ya sabe lo que sucederá. Quienes no creen las noticias no las persiguen y no las encuentran.

Hay un componente optimista dentro de la profesión que la hace vulnerable a las tendencias, agudiza la percepción y estimula la creatividad. Este malestar generado es generado por una conciencia permanente. Cualquier anormalidad debe ser percibida, luego descubierta. El periodista es el profesional de la investigación, del interrogatorio. A nivel operativo, el periodista se caracteriza por la toma de decisiones permanente. Incluso sin una formación rápida en la toma de decisiones, e tomar decisiones de forma rápida y permanente. Si es fotógrafo, lo que importa es el ángulo de la fotografía, una decisión, por lo tanto. Si usted es reportero, es importante el foco de las noticias, la pregunta al entrevistado y la elección del entrevistado mismo. Si eres un jefe, tienes que evaluar sin cesar la increíble cantidad de información vertida en tu escritorio, medir su verdad, medir su importancia y definir su importancia. Por escrito, cada palabra es una decisión, cada información, una decisión, cada orientación, decisión. A lo largo de su actividad diaria, y hemos visto que no se limita a las horas de trabajo, el periodista selecciona y elige.

En esta sucesión de alternativas que resulta en la elección de una de ellas, el sentido de responsabilidad se incluye como una consecuencia lógica. Aquí hay un amplio debate sobre el ejercicio de la profesión y los límites que se le imponen. Cada vez que la prensa te molesta, la primera reacción es callarla. Esto crea una oscilación de la delincuencia y el castigo que resulta en regímenes censales con consecuencias tan graves. Sin embargo, pocos recuerdan recurrir al único medio capaz de ubicar el espíritu investigador del periodista en el contexto del contrato social en el que vivimos: la ley de responsabilidad. Al final del gobierno de Castello Branco (1966), después de un período ejemplar de libertad de expresión (considerando que el régimen era excepcional), tenía la intención de aprobar una Ley de Prensa para enmarcar los delitos cometidos en el ejercicio de la profesión. En ese momento, Jornal do Brasil buscaba persuadir al gobierno para que adoptara una legislación genérica de responsabilidad, incluidos médicos, industriales que ignoran las especificaciones de sus productos, ingenieros cuyos trabajos contienen fallas, etc.

La legislación específica contra los crímenes de prensa (infracciones de responsabilidad como cualquier otra) otorga a la actividad periodística un privilegio legal injustificable. La predicación de Jornal do Brasil no tuvo éxito y se aprobó la Ley de Prensa. El único elemento que puede limpiar la prensa es una revitalización general del sentido de responsabilidad. Primero, desde el gobierno, creando el clima de libertad con respeto. Luego, de fuentes de noticias que, al darse cuenta de la falta de atención o descuido del periodista, aprovechan la situación para “plantar” informes peligrosos. Y finalmente, de la empresa periodística, de donde debe surgir una atmósfera permanente de seriedad y dignidad.

El periodista que percibe una actitud floja en la nota escrita por la gerencia o los editoriales la absorberá inconscientemente, adoptando los mismos estándares. El periodista mezcla la responsabilidad mucho más fácilmente que el castigo y la agencia. Especialmente si esta responsabilidad es un estándar de toda la sociedad que representa. El periodista sabe que escribir una nota de tres líneas podría estar destruyendo una reputación y una vida. Trabajando detrás de escena, evalúa su fuerza. Para él, un límite, siempre que no sea arbitrario, es más cómodo y protector que la impunidad.

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“Needed: Similar people with different dispositions”

Are there any special professions? How is journalism different from other activities of modern society? Is journalism a profession or a state of mind?

Even in a communications company, journalists are considered privileged. Those who seek power deify them. Those who have come to power abhor them. The public sees them mythologically. What, then, is the journalist? We have already seen in the introductory chapter the development through which the profession went and its study. We have already seen that the journalist relates to the reader as a psychoanalyst with his patient, a husband with his wife, the father with his son. They are mirrors of each other, reflexes, continuations, interactions, parts, in short, of the same process. Journalist is the intermediary of the society, has been the American sociologist Paul Lazarsfeld.

We have already noted that journalism, as an essentially intellectual activity, presupposes in its exercise a series of moral and ethical values. The process of informing is known to be a formative process; therefore, the journalist is ultimately an educator. This list of characteristics, however, is general in character. What are the specific components of the journalistic attitude? A detailed exegesis is necessary, the in order to prevent the journalist from assuming a priori “behavior” without the proper psychological and subjective ballast.

In this regard, it is worth mentioning experiences we had with PUC classes and in internal seminars to train interns at Jornal do Brasil. Believing that a journalist’s professional training also includes careful subjective and sensory preparation, just as the architect must be prepared to feel volumes, spaces and forms, we call upon some experts to prepare the “inside” of the future journalist. In others opportunities, already thinking about the professional journalist The journalist must not necessarily compose the expansive, enthusiastic, agile, “tough” type whose image the public has already mentalised. It can even be silent and delicate. But intimately it must be an unruly and restless spirit. The journalist cannot be content with the first information, impression or inference, nor accommodate to the first obstacle. How often is not news great news? Just work it out. Pejoratively, the journalist is said to be a digger. We would say, improving the term, that the journalist is a permanent seeker.

An accepting journalist is not a journalist. The pessimistic or cynical press professional prejudices, does not believe what can happen because he already knows what will happen. Who doesn’t believe in the news doesn’t pursue and does not find it. There is an optimistic component within the profession that makes it vulnerable to trends, sharpens perception, spurs creativity. This unrest generated is generated by a permanent awareness. Any abnormalities must be perceived, then uncovered.

The journalist is the professional of inquiry, of questioning. At the operational level, the journalist is characterized by permanent decision making. Even without fast decision making training, you are always making fast-paced decisions. If a photographer, it is the angle of photography that matters, a decision, therefore. If you are a reporter, it matters the focus of the news, the question to the interviewee and the choice of the interviewee himself. If you’re a boss, you have to ceaselessly evaluate the incredible mass of information poured on your desk, gauge its truth, gauge its importance, and define its prominence. In writing, every word is a decision, every information, a decision, every orientation, decision. Throughout his daily activity – and we have seen that it is not limited to working hours – the journalist selects and chooses. In this succession of alternatives that results in the choice of one of them, the sense of responsibility is included as a logical consequence. Here is a wide debate about the exercise of the profession and the limits imposed on it. Every time the press bothers you, the first reaction is to shut it up. This creates a crime seesaw and punishment that results in census regimes, with such dire consequences.

Few remember, however, to resort to the only means capable of placing the investigative spirit of the journalist in the context of the social contract under which we live – the law of responsibility. At the end of the Castello Branco administration (1966), after an exemplary period of freedom of expression (considering that the regime was exceptional), it was intended to approve a Press Law to frame the crimes committed in the exercise of the profession. At the time, Jornal do Brasil sought to persuade the government to adopt generic liability legislation, including doctors, industrialists who disregard the specifications of their products, engineers whose works contain flaws, etc. Specific legislation against press crimes – breaches of liability like any other – gives journalistic activity unjustifiable legal privilege. The preaching of Jornal do Brasil did not succeed and the Press Law was approved. The only element that can clean up the press is a general reinvigoration of the sense of responsibility. First, from the government – creating the climate of freedom with respect. Then, from news sources, who, realizing the reporter’s inattention or carelessness, take advantage of the situation to “plant” dangerous reports. And finally, from the journalistic company, where a permanent atmosphere of seriousness and dignity must come from.

The reporter who perceives a loose attitude from the management or in editorials will unconsciously absorb it, adopting the same standards. The journalist mingles responsibility much more easily than punishment and agency. Especially if this responsibility is a society-wide standard that it represents. The journalist knows that writing a three-line note could be destroying a reputation and a life. Working behind the scenes, he assesses his strength. For him, a limit, as long as it is not arbitrary, is more comfortable and protective than impunity.

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Dines, Alberto. O Papel do Jornal e a Profissão de Jornalista . Summus Editorial. Kindle Edition.

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Marcelo Cipis– Artista brasileiro-judeu/Brazilian Jewish Artist — O arte e o humor/Art and Humor

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Marcelo Cipis

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Marcelo Cipis (São Paulo SP 1959)

Marcelo Cipis Inicia sua formação em artes plásticas, em 1968, no ateliê livre de criação coordenado por Naum Alves de Souza (1942), na Fundação Armando Álvares Penteado – Faap. Freqüenta o ateliê de Fanny Abramovitch, entre 1970 e 1971, e tem aulas com Luiz Paulo Baravelli (1942), em 1976. No ano seguinte, ingressa na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo – FAU/USP, formando-se em 1982. Nesse período começa a trabalhar como ilustrador em revistas e jornais e estuda aquarela com Rubens Matuck (1952). De 1983 a 1985 tem aulas de desenho e pintura com Dudi Maia Rosa (1946). Participa, em 1984, da 11ª Bienal de Artes Gráficas de Brno, na Tchecoslováquia, atual República Tcheca. Realiza sua primeira individual em 1988, na Galeria Documenta, em São Paulo. Participa da 21ª Bienal Internacional de São Paulo, com a instalação Cipis Transworld, das 4ª e 5ª edições da Bienal de Havana, Cuba. Recebe, em 1994, o Prêmio Jabuti pela capa do livro Como Água para Chocolate, de Laura Esquivel, publicado pela Editora Martins Fontes. Em 2000 ganha bolsa da Pollock-Krasner Foundation em São Paulo. Produz ilustrações para vários jornais, revistas e livros infantis.

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Marcelo Cipis began his training in fine arts in 1968 at the free creative studio coordinated by Naum Alves de Souza (1942) at the Armando Álvares Penteado – Faap Foundation. He attends Fanny Abramovitch’s studio, between 1970 and 1971, and has classes with Luiz Paulo Baravelli (1942), in 1976. The following year, he joined the Faculty of Architecture and Urbanism of the University of São Paulo – FAU / USP, graduating In 1982, he began working as an illustrator in magazines and newspapers and studied watercolor with Rubens Matuck (1952). From 1983 to 1985 he took drawing and painting classes with Dudi Maia Rosa (1946). Participates in 1984 at the 11th Brno Biennial of Graphic Arts in Czechoslovakia, the present Czech Republic. Makes his first solo in 1988 at Galeria Documenta, in São Paulo. Participates in the 21st International Biennial of São Paulo, with the installation Cipis Transworld, the 4th and 5th editions of the Havana Biennial, Cuba. In 1994, he received the Jabuti Award for the cover of Laura Esquivel’s book Como Água para Chocolate, published by Editora Martins Fontes. In 2000, he received a scholarship from the Pollock-Krasner Foundation in São Paulo. Produces illustrations for various newspapers, magazines and children’s books.

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Obras de arte/Obras de arte/Artworks

 

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Obra premiada/Obra premiada/Awarded Work

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As capas para libros/Book Covers

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As capas de libros /Book Covers 

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Marcelo Cipis

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Moacyr Scliar (1937-2011) — Novelista y contista brasileiro judeu/Brazilian Jewish “A vaca” — un conto/ “The Cow” — A Short-story

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Moacyr Scliar

Moacyr Jaime Scliar nasceu em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, no 1937. A partir de 1943, cursa a Escola de Educação e Cultura, conhecida como Colégio Iídiche. Em 1948, transfere-se para o Colégio Rosário. Começa a cursar medicina em 1955, na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Especializou-se na área de saúde pública, tornando-se médico sanitarista e ocupando os cargos de chefe da equipe de Educação em Saúde da Secretaria da Saúde do Rio Grande do Sul e diretor do Departamento de Saúde Pública.

Na década de 1970, cursou pós-graduação em medicina, em Israel, e também se tornou doutor em Ciências pela Escola Nacional de Saúde Pública. Ainda na área médica, atuou como professor do curso de medicina da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre.

O dia a dia de estudante de medicina inspirou a Scliar o seu primeiro livro, “Histórias de um médico em formação”, publicado em 1962. Foi o começo de uma brilhante carreira como ficcionista, durante a qual publicou mais de setenta livros, divididos entre romances, coletâneas de contos e crônicas, literatura infantojuvenil e ensaios. Seu romance “O centauro no jardim”, publicado em 1980, faz parte da lista dos 100 melhores livros de temática judaica dos últimos 200 anos, organizada pelo National Yiddish Book Center (EUA).

Scliar conquistou diversos prêmios literários, como, por exemplo: três prêmios Jabuti (nas categorias “romance” e “contos, crônicas e novelas”); o Prêmio  da Associação Paulista dos Críticos de Arte, em 1989, na categoria “literatura”; e o Casa de las Americas, em 1989, na categoria “conto”. Seus livros foram traduzidos em inúmeros países.

Em 1993 e 1997, foi professor visitante na Brown University e na Universidade do Texas, ambas nos EUA.

Moacyr Scliar faleceu no 2011.

Adaptado de educação,uol,br

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Moacyr Jaime Scliar was born in Porto Alegre, Rio Grande do Sul, in 1937.  From 1943, he attended the School of Education and Culture, known as Yiddish School. In 1948, he transferred to the Rosario School. He began to study medicine in 1955, at the Federal University of Rio Grande do Sul. He specialized in public health. and was head of the Health Education team of the Rio Grande do Sul Health Secretariat South and director of the Department of Public Health.

In the 1970s, he did post-graduate studies in medicine in Israel, and also received a doctorate in science from the National School of Public Health. Also, in the medical area, he acted as professor of the medicine of the Federal University of Health Sciences of Porto Alegre.

His experience as a medical student inspired Scliar his first book, “Stories of a Physician in Training,” published in 1962. It was the beginning of a brilliant career as a fictionist, during which he published more than seventy books, divided between novels, compilations of short stories and chronicles, children’s literature and essays. His novel “The Centaur in the Garden,” published in 1980, is one of the 100 best Jewish-themed books of the last 200 years, organized by the National Yiddish Book Center.

Scliar won several literary awards, such as three Jabuti awards (in the categories “romance” and “short stories, chronicles and novels”); the Prize of the Paulista Association of Art Critics, in 1989, in the category “Literature”; and the Casa de las Americas Prize, in 1989, in the category “short story”. His books have been translated into countless countries.

In 1993 and 1997, he was a visiting professor at Brown University and the University of Texas, both in the United States.

Moacyr Scliar passed away in 2011,

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“A vaca”

 

Numa noite de temporal, um navio naufragou ao largo da costa africana. Partiu-se ao meio, e foi ao fundo em menos de um minuto. Passageiros e tripulantes pererecam instantaneamente. Salvou-se apenas um marinheiro, projetado à distância no momento do desastre. Meio afogado, pois não era bom nadador, o marinheiro orava e despedia-se da vida, quando viu a seu lado, nadando com presteza e vigor, a vaca Carola.

A vaca Carola tinha sido embarcada em Amsterdam.

Excelente ventre, fora destinada a uma fazenda na América do Sul.

Agarrado aos chifres da vaca, o marinheiro deixou-se conduzir; e assim, ao romper do dia, chegaram a uma ilhota arenosa, onde a vaca depositou o infeliz rapaz, lambendo-Ilhe o rosto até que ele acordasse.

Notando que estava numa ilha deserta, o marinheiro rompeu em prantos: “Ai de mim! Esta ilha está fora de todas as rotas! Nunca mais verei um ser humano!” Chorou muito, prostrado na areia, enquanto a vaca Carola fitava-o com os grandes olhos castanhos.

Finalmente, o jovem enxugou as lágrimas e pôs-se de pé.

Olhou ao redor: nada havia na ilha, a não ser rochas pontiagudas e umas poucas árvores raquíticas. Sentiu forme: chamou a vaca: “Vem Carola!”. Ordenou-a e bebeu leite bom e espumante. Sentiu-se melhor; sentiu-se e ficou a olhar o oceano. “Ai de mim” – gemia de vez em quando, mas já sem muita convicção; o leite fizera-lhe bem.

Naquela noite dormiu abraça o á vaca. Foi um sono bom, cheio de sonhos reconfortantes: e quando acordou – ali estava o ubre a ilhe oferecer o leite abundante.

Os dias foram passando e o rapaz cada vez mais se apegava a vaca. “Vem, Carola!” Ela vinha, obediente.

Ele cortava um pedaço de carne tenra – gostava muito de língua – e devorava-o cru, ainda quente, o sangue escorrendo pelo queixo. A vaca nem mugia. Lambia as feridas, apernas. O marinheiro tinha sempre o cuidado de não ferir órgãos vitais; se tirava um pulmão; deixava o outro; comeu o baço, mas não o coração, etc.

Com os pedaços de couro, o marinheiro fez roupas e -sapatos e um toldo para abriga-lo do sol e da chuva. Amputou a cauda de Carola e usava-a para espantar as moscas.

Quando a carne começou a escassear, atrelou a vaca a um tosco arado, feito de galhos, e lavrou um pedaço de terra mais fértil, entre as árvores.

Usou o excremento do animal como adubo. Como fosse escasso, triturou alguns ossos, para usá-los como fertilizante.

Semeou alguns grãos de milho, que tinham ficado nas cáries da dentadura de Carola. Logo, as plantinhas começaram a brotar e o rapaz sentiu renascer a esperança.

Na festa de São João comeu canjica.

A primavera chegou. Durante a noite uma brisa suave soprava de lugares remotos, trazendo sus aromas.

Olhando as estrelas, o marinheiro suspirava. Uma noite, arrancou um dos olhos de Carola, misturou-o com água do mar e engoliu esta leve massa. Teve visões voluptuosas, como nenhum mortal jamais experimentou. . .  Transportado de desejo, aproximou-se da vaca. . .  E ainda desta vez, foi Carola quem ilhe valeu.

Muito tempo se passou, e um dia o marinheiro avistou um navio no horizonte. Doido de alegria, berrou com todas as forças, mais não Ihe respondiam; o navio estava muito longe. O marinheiro arrancou um de chifres de Carola e improvisou uma corneta. O som poderoso atroou os ares, mas ainda assim não obteve reposta.

O rapaz desesperava-se; a noite caia e o navio afastava-se de ilha. Finalmente, o rapaz deitou Carola no chão e jogou um fósforo aceso no ventre ulcerado de Carola, onde um pouco de gordura ainda aparecia.

Rapidamente, a vaca incendiou-se. Em meio á fumaça negra, fitava o marinheiro com seu único olho bom. O rapaz estremeceu, julgou ter visto uma lágrima. Mas foi só impressão.

O claro chamou atenção do comandante do navio; uma lancha veio recolher o marinheiro. Iam aí partir, aproveitando a mar, quando o rapaz gritou: “Um momento!”; voltou para a ilha, e apandou, do montículo de cinzas fumegantes, um punhado que guardou dentro do gibão de couro. “Adeus, Carola – murmurou. Os tripulantes da lancha se entreolharam. “É o sol” – disse um.

O marinheiro chegou a seu país natal. Abandonou a vida do mar e tornou-se um rico e respeitado granjeiro, dono de um tambo com centenas de vacas.

Mas a pesar disto, vivou infeliz e solitário, tendo pesadelos horríveis todas as noites, até os quarenta anos. Chegando a esta idade, viajou a Europa de navio.

Uma noite, insone, deixou o luxuoso camarote e subiu ao tombadilho iluminado pelo luar.  Acendeu um cigarro, apoiou-se na amura e ficou olhando o mar..

De repente estirou o pescoço, ansioso. Avistara uma ilhota no horizonte.

— Alô – disse alguém, pelo dele.

Voltou-se. Era uma bela loira, de olhos castanhos e busto opulento.

— Meu nome é Carola – disse ela.

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De:/From: Moacyr Scliar. Sus mejores cuentos. São Paulo, 1996.

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“The Cow”

 

On a stormy night, a ship went down off the African coast. It broke in half, and went to the bottom in less than a minute. Passengers and crewmen perished instantly. Only one sailor was saved, thrust out at a distance at the moment of the disaster. Half-drowned, since he wasn’t a good swimmer, the sailor prayed and said goodbye to his life, when he saw at his side, swimming quickly and vigorously, the cow Carola.

The cow, Carola had been put onboard in Amsterdam.

Excellent belly, she was destined for a farm in South America.

Grasping on the cow’s horns, the sailor let himself be guided, and so, at the break of day, they arrived at a little sandy island where the cow deposited the unhappy boy, licking him on his face until he woke up.

Noticing that he was on a desert island, the sailor broke out wailing: “Woe is me!” The island is outside al the shipping routes. I’ll never see a human being again.” He cried a great deal, prostrated on the sand, while the cow Carola stared at him with chestnut eyes.

Finally, the boy dried his tears and stood up. He looked around: there was nothing on the island, but sharp rocks and a few rickety trees. He felt hungry: he called the cow: “Come Carola!” He ordered her and he drank good and frothy milk. He felt better; he felt and he turned to look at the ocean. “Woe is me” – he sighed from time to time, but now without much conviction: the mild did him good.

The sailor arrived at his native land. He abandoned the sailor’s life and became a rich and respected farmer, owner of a dairy farm with hundreds of cows.

That night he slept hugging the cow. I was a good dream; full of comforting sounds; and when he awoke – there was the utter offering him abundant milk.

The days passed, and the boy more and more fond of the cow. “Come, Carola!” She came obediently.

He cut off a piece of tender meat—he liked the tongue a lot—and he devoured it raw, still hot, the blood flowing over his chin. The cow didn’t moo. She hardly licked her wounds. The sailor always took care to no injure the vital organs; he took out a lung; he left the other one; he ate the spleen, but not the heart, etc.

With the pieces of leather, the sailor made clothing and shoes and a canopy/awning to protect himself from the sun and the rea. He amputated Carola’s tail and used it to chase flies away.

When the meat began to become scarce, he harnessed the cow to a crude plow, made of pieces of wood and tilled a piece of the most fertile land among the trees.

He used the animal’s excrement for compost. As it was scarce, he ground up some bones, to use them as fertilizer.

He planted some grains of corn, which he had stuck in the cavities of Carola’s teeth. Then, the plants began to sprout and the boy felt a resurgence of hope.

On Saint John’s Day, he ate hominy.

Spring arrived. During the night, a gentle breeze blew in from remote places, bringing their fragrances.

Gazing at the stars, the sailor sighed. One night, he tore out one of Carola’s eyes, mixed it with seawater and swallowed this light paste. He had voluptuous visions, as no mortal had ever experienced. . . Carried away with desire, he came near the cow. . . And this time too, it was Carola whom he wanted.

A great deal of time passed, and one day, the sailor caught sight of a ship on the horizon. Crazy with happiness, he hollered with his strength, but nothing, but there was no answer; the ship was very far away. The sailor tore off one of Carola’s horns and improvised a bugle. The powerful sound thundered through the air, but even so, it wasn’t answered.

The boy was losing hope; it was nightfall and the ship remained at a distance from the island. Finally, the boy laid Carola down on the ground and threw down a match and lit Carola’s ulcerated belly on fire, at a spot where a little bit of fat still appeared.

Rapidly, the cow caught fire. Amidst the black smoke, she stared at the sailor with her only good eye. The boy trembled and was sure he had seen a tear. But it was only an impression.

The bright light caught the attention of the commander of the ship, a launch set out to rescue the sailor. Leaving there, taking advantage of the sea, when the boy shouted: One moment!”; he returned to the island, and gathered, from the little pile of smoking ashes, a handful that he saved inside of his leather doublet. “Goodbye, Carola” – he murmured. The crew of the launch looked at one another. “It’s the sun!” one said.

But, in spite of this, he lived unhappy and alone, having horrible nightmares every night for forty years. Reaching this age, he travelled to Europe by ship.

One night, suffering insomnia, he left the luxurious cabin and went up to the quarterdeck, lit up by the moonlight.

Suddenly, he stretched his neck anxiously. He caught sight of a small island on the horizon.

“Hello,” said someone nearby him.

He turned around. It was a beautiful blond, with chestnut eyes and an opulent bust.

“My name is Carola,” she said.

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Translation by Stephen A. Sadow

 

Livros/Books — Moacyr Scliar

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Frans Krajcberg– (1921-2017) — O artista plástico polonês-brasileiro-judaico/Polish-Brazilian-Jewish Artist — O escultor na defensa da natureza/Sculptor in Defense of Nature

 

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Frans Krajcberg

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Frans Krajcberg (Kozienice, Polônia, 1921 – Rio de Janeiro, 2017). Escultor, pintor, gravador e fotógrafo. Autor de obras que têm como principal característica a exploração de elementos da natureza, destaca-se por seu ativismo ecológico, que associa arte e defesa do meio ambiente. Nascido na Polônia, Krajcberg forma-se em engenharia e artes pela Universidade de Leningrado. Mais tarde, ao mudar-se para a Alemanha, ingressa na Academia de Belas Artes de Stuttgart, onde se torna aluno do pintor alemão Willi Baumeister (1889-1955). Sua carreira artística se inicia no Brasil, para onde migra em 1948, procurando reconstruir sua vida depois de perder toda a família em um campo de concentração durante a Segunda Guerra Mundial. Reside um curto período no Paraná (isolando-se na floresta para pintar). Muda-se para o Rio de Janeiro em 1956 e naturaliza-se brasileiro no ano seguinte. Ele retorna a Paris em 1958, onde permanece até 1964. De volta ao Brasil, em 1964, instala um ateliê em Cata Branca, Minas Gerais. A partir desse momento ocorre em sua obra a explosão no uso da cor e do próprio espaço. Começa a criar as “sombras recortadas”, nas quais associa cipós e raízes a madeiras recortadas. Em 1972, passa a residir em Nova Viçosa, no litoral sul da Bahia. Amplia o trabalho com escultura, iniciado em Minas Gerais. Intervém em troncos e raízes, entendendo-os como desenhos no espaço. Essas esculturas fixam-se firmemente no solo ou buscam libertar-se, direcionando-se para o alto. A partir de 1978, atua como ecologista, luta que assume caráter de denúncia em seus trabalhos: “Com minha obra, exprimo a consciência revoltada do planeta”. Krajcberg viaja constantemente para a Amazônia e Mato Grosso, e registra por meio da fotografia os desmatamentos e queimadas em imagens dramáticas. Dessas viagens, retorna com troncos e raízes calcinados, que utiliza em suas esculturas. Na década de 1980 realiza a série Africana, utilizando raízes, cipós e caules de palmeiras associados a pigmentos minerais.

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Frans Krajcberg (Kozienice, Poland, 1921 – Rio de Janeiro, 2017). Sculptor, painter, engraver and photographer. The main characteristic of his work is the exploration of of nature. He is known for his ecological activism, that associates art and defense of the environment. Born in Poland, Krajcberg graduated in engineering and arts from the University of Leningrad. Later, when moving to Germany, he entered the Academy of Fine Arts in Stuttgart, where he became pupil of the German painter Willi Baumeister (1889-1955). His artistic career began in Brazil, where he moved in 1948, seeking to rebuild his life after losing the entire family in a concentration camp during World War II.  He lived for a short period in Paraná (isolating in the forest to paint). He moved to Rio de Janeiro in 1956 and became a Brazilian citizen the following year. He  returned to Paris in 1958, where he remained until 1964. Back in Brazil, in 1964, he set up an atelier in Cata Branca, Minas Gerais. From that moment on, his work explores the use of color and space itself. He begins to create the “cut up shadows,” in which he associates vines and roots with cut wood. In 1972, he moved to Nova Viçosa, on the southern coast of Bahia. He expands his sculptural work, begun in Minas Gerais, with trunks and roots, understanding them as drawings in space. These sculptures hold firmly to the ground or seek to liberate themselves, heading upwards. From 1978 on, he acts as an ecologist, a struggle that he denounces: “With my work, I express the revolted conscience of the planet.” Krajcberg traveled constantly to the Amazon and Mato Grosso, and recorded  photographically dramatic images of deforestation by burning. From these trips, he returned with trunks and calcined roots, which he used in his sculptures. In the 1980s, he created the Africana series, using roots, lianas and stalks of palm trees associated with mineral pigment.

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Video — Frans Krajcberg

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Escultura/Sculpture

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Susy Gheler (1956-2014) — Artista plástico brasileira-judia/Jewish-Brazilian Artist — “Bonecas”/”Dolls”

 

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Suzy Gheler

As esculturas em tecido, cheias de charme e em tamanho natural, ganham vida nas exposições cenográficas de Suzy Gheler. No início da década de 80 começava a história da artista plástica que, movida pela sua paixão por bonecas, criou a sua primeira boneca, a Gigi. Gigi cresceu e ganhou novos amigos, juntos, eles já esbaldaram charme em variados espaços cenográficos de Shoppings como Iguatemi, JK, Center Norte, Pátio Higienópolis, Pátio Paulista, entre muito outros; e também aeroportos de todo o Brasil. A artista, falecida em 2014, empenhava-se em detalhar ao máximo suas criações para que as esculturas em tecido fossem quase reais. Através da humanização dos projetos é impossível não se emocionar.As criações tinham uma preocupação constante com a sustentabilidade. Em seus trabalhos a artista inovou reaproveitando todos os itens do cenário, inclusive transformando retalhos em vestidos para seus personagens .A artista deixou um valioso acervo com mais de 30 exposições e 800 personagens.”Em um mundo com excesso de tecnologia e impessoalidade nas relações as pessoas tornaram-se carentes de artesanato de qualidade… Apresentamos uma ferramenta que leva um toque mais humano e sensível ao ambiente.”

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Suzy Gheler’s fabric sculptures, full of charm and life-size, come to life in her exhibitions. In the early 80’s, began the history of the artist who, motivated by his passion for dolls, created her first doll, Gigi. Gigi grew up and gained new friends, together, they had fun in varied scenarios of Malls like Iguatemi, JK, Center North, Patio Higienópolis, Patio Paulista, among many others; and in airports all over Brazil. The artist, who died in 2014, was dedicated to adding all details possible to her creations, so that the fabric sculptures were almost real. The human aspects of her projects are quite moving, With a constant concern with sustainability. the artist innovated by reusing all the items of the scene, including transforming pieces into dresses for her characters. Gheler left a valuable collection with more than 30 exhibitions and 800 characters. “In a world with an excess of ,technology and impersonality in people have miss quality craftsmanship … We present a tool that brings a touch more human and sensitive to the environment.,” Suzy Gheler.

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AS BONECAS DE SUZY GHELER/

                               SUSY GHELER’S DOLLS

“Humaniçáo de Proyectos”/”Humanization of Designs”

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Arquitetura das Sinagogas em Brasil/ Brazilian Synagogue Architecture

Hé mais de 110 sinagogas no Brasil, praticamente metade delas em São Paulo, cidade com maior concentração de população judaica do país.

No cenário brasileiro, uma tradição histórica: não existe um estilo arquitetônico único para as sinagogas. Elas refletem o momento vivido por uma determinada comunidade, como as características geográficas e culturais do meio onde ela se insere combinadas com tradições carregadas por aquela coletividade na Diáspora. Por exemplo, no Rio de Janeiro, sinagogas combinam a necessidade de conviver com o calor típico da cidade com tradições provenientes da longínqua Europa oriental. Do alto da sua experiência fotografando mais de uma centena de sinagogas, opina Niels Andreas: “Nenhuma sinagoga é igual à outra, embora elas sejam compostas sempre pelos mesmos elementos, como rolos da Torá, menorot, entre outros”     Adaptado da revista MORASHÁ, São Paulo.

________________________________There are more than 110 synagogues in Brazil, almost half of them in São Paulo, the city with the highest concentration of Jewish population in the country.

In Brazil, there is no single architectural style for synagogues. They reflect the moment lived by a particular community, such as the geographic and cultural characteristics of the environment in which it is inserted combined with traditions carried by that community in the Diaspora. For example, in Rio de Janeiro, synagogues combine the need to live with the typical heat of the city with traditions from far eastern Europe. From the height of his experience photographing more than a hundred synagogues, Niels Andreas opines: “No synagogue is the same as the other, although they are always composed of the same elements, such as Torah scrolls, menorot, among others”    Adapted from the magazine MORASHÁ, São Paulo.

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Alguns exemplos da arquitetura das sinagogas de Brasil/Some Examples of Brazilian Synagogue Architecture

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Sinagoga Beth El, São Paulo

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Sinagoga Ohel Yaakov, São Paulo

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Sinagoga Israelita Brasileira, São Paulo

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Grande Templo Israelita, Rio de Janeiro

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Sinagoga Israelita de Petrópolis, Rio de Janeiro

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Sinagoga Francisco Frischmann, Curitiba

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Sinagoga Shear Hashamiam, Belém

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Sinagoga Kahal Zur Israel, Recife

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Sinagoga União Israelita, Porto Alegre

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Beit Yaacov Synagogue Rebi Meyr (interior), Manaus, Amazonas

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Sinagogas em São Paulo

https://artejudaicasaopaulo.blogspot.com/

Moacyr Scliar (1937-2011) — Escritor brasileiro-judio/Brazilian-Jewish Writer — “A Balada do Falso Messias”/”The Ballad of the False Messiah”

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Moacyr Scliar

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Moacyr Scliar

          Moacyr Jaime Scliar nasceu no bairro do Bom Fim, em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, a 23 de março de 1937. Filho de imigrantes russos judeus, o escritor resume, na sua pessoa e em grande parte de sua escrita, a dualidade típica do brasileiro nato, criado na cultura brasileira e herdeiro de uma bagagem cultural judaica-europeia. 

          Em 1962, formou-se pela Faculdade de Medicina Federal do Rio Grande do Sul. Como médico principiante, fazendo suas rondas por uma casa (“lar”) de judeus idosos, em Porto Alegre, Scliar começou a ouvir e armazenar histórias individuais de um passado coletivo, no qual se encontravam suas próprias raízes.

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Moacyr Scliar

         Moacyr Jaime Scliar was born in the Bom Fim neighborhood, Porto Alegre, Rio Grande do Sul, in March 23, 1937. The son of Russian-Jewish immigrants, Scliar shows in his person and in the greater part of his writing, the typical duality of a native-born Brazilian, raised in Brazilian culture and inheritor of European-Jewish cultural baggage.

          In 1962, he graduated from the Federal School of Medicine of Rio Grande do Sul. As a young doctor, making his rounds in an asylum (“home”) for the Jewish aged in Porto Alegre, Scliar began to listen to and collect individual stories from a collective past, in which he discovered his own roots.

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“A Balada do Falso Messias”

          A narrativa se desenvolve em dois níveis de representação ficcional: o convencional, com um entrosamento tradicional de locais, datas e estados de ânimo: “comprimidos na terceira classe. Chorávamos e vomitávamos naquele ano de 1906” e o surreal, pelo qual Scliar faz com que se aproximem, aos imigrantes do século XX, no Rio Grande do Sul, Shabtai [sic] Zvi e Natan de Gaza, duas figuras do século XVII.

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“The Ballad of the False Messiah”

         The narrative develops on two levels of fictional representation: the conventional, with a traditional mix of places, dates and moods: “packed together in third class. We wept and were seasick in that year of 1906”; and surreal, by which Scliar brings together the twentieth century immigrants in Rio Grande do Sul with Shabtai [sic] Zvi and Natan of Gaza, two figures from the seventeenth century.

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Notes from:

Regina Igel. Imigrantes Judeus/Escritores Brasileiros:  O Componente Judaica em na Literatura Brasileira. São Paulo: Editora Perspectiva, 1997, pp. 61-62.

Regina Igel is Professor of Portuguese, University of Maryland.

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Sabbatai Zvi

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Natan de Gaza/Nathan of Gaza

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“A Balada do Falso Messias”

Vai pôr vinho no copo. Suas mãos agora estão enrugadas e tremem. Mas ainda me impressionam, essas mãos grandes e fortes. Comparo-as com as minhas, de dedos curtos e grossos, e admito que nunca o compreendi e nunca chegarei a compreendê-lo. Encontrei-o pela primeira vez a bordo do Zemlia. Nesse velho navio, nós, judeus, estávamos deixando a Rússia; temíamos os pogroms. Acenavam-nos com a promessa da América e para lá viajávamos, comprimidos na terceira classe. Chorávamos e vomitávamos, naquele ano de 1906. Eles já estavam no navio, quando embarcamos. Shabtai Zvi e Natan de Gaza. Nós os evitávamos. Sabíamos que eram judeus, mas nós, da Rússia, somos desconfiados. Não gostamos de quem é ainda mais oriental do que nós. E Shabtai Zvi era de Esmirna, na Ásia Menor – o que se notava por sua pele morena e seus olhos escuros. O capitão nos contou que ele era de uma família muito rica. De fato, ele e Natan de Gaza ocupavam o único camarote decente do barco. Então, por que iam para a América? Por que fugiam? Perguntas sem resposta.

Natan de Gaza, um homem pequeno e trigueiro, despertava-nos particularmente a curiosidade. Nunca tínhamos visto um judeu da Palestina de Eretz Israel – uma terra que para muitos de nós só existia em sonhos. Natan, um orador eloqüente, falava para um público atento sobre as suaves colinas da Galiléia, o belo lago Kineret, a histórica cidade de Gaza, onde ele nascera, e cujas portas Sansão tinha arrancado. Bêbado, porém, amaldiçoava a terra natal: “Pedras e areia, camelos, árabes ladrões…”. Ao largo das ilhasCanárias, Shabtai Zvi surpreendeu-o maldizendo Eretz Israel. Surrou-o até deixá-lo caído no chão, sangrando; quando Natan ousou protestar, demoliu-o com um último pontapé.

Depois disso passou dias trancado no camarote, sem falar com ninguém. Passando por ali ouvíamos gemidos… e suspiros… e suaves canções. Uma madrugada acordamos com os gritos dos marinheiros. Corremos ao convés e lá estava Shabtai Zvi nadando no mar gélido. Baixaram um escaler e a custo conseguiram tirá-Lo da água. Estava completamente nu e assim passou por nós, de cabeça erguida, sem nos olhar – e foi se fechar no camarote. Natan de Gaza disse que o banho fora uma penitência, mas nossa conclusão foi diferente: “É louco, o turco”. Chegamos à ilha das Flores, no Rio de Janeiro, e de lá viajamos para Erexim, de onde fomos levados em carroções para os nossos novos lares, na colônia denominada Barão Franck, em homenagem ao filantropo austríaco que patrocinara nossa vinda. Éramos muito gratos a este homem que, aliás, nunca chegamos a conhecer. Alguns diziam que nas terras em que estávamos sendo instalados mais tarde passaria uma ferrovia, cujas ações o barão tinha interesse em valorizar. Não acredito. Acho que era um bom homem, nada mais. Deu a cada família um lote de terra, uma casa de madeira, instrumentos agrícolas, animais.

Shabtai Zvi e Natan de Gaza continuavam conosco. Receberam uma casa, embora ao representante do barão não agradasse a idéia de ver os dois juntos sob o mesmo teto.

– Precisamos de famílias – disse incisivamente – e não de gente esquisita.

Shabtai Zvi olhou-o. Era tal a força daquele olhar que ficamos paralisados. O agente do barão estremeceu, despediu-se de nós e partiu apressadamente. Lançamo-nos ao trabalho.

Como era dura a vida rural! A derrubada de árvores. A lavra. A semeadura… Nossas mãos se enchiam de calos de sangue. Durante meses não vimos Shabtai Zvi. Estava trancado em casa. Aparentemente o dinheiro tinha acabado, porque Natan de Gaza perambulava pela vila, pedindo roupas e comida. Anunciava para breve o ressurgimento de Shabtai Zvi trazendo boas novas para toda a população.

– Mas o que é que ele está fazendo? – perguntávamos. O que estava fazendo? Estudava. Estudava a Cabala, a obra-prima do misticismo judaico: o Livro da Criação, o Livro do Brilho, o Livro do Esplendor. O ocultismo. A metempsicose. A demonologia. O poder dos nomes (os nomes podem esconjurar demônios; quem conhece o poder dos nomes pode andar sobre a água sem molhar os pés; e isso sem falar da força do nome secreto, inefável e impronunciável de Deus). A ciência misteriosa das letras e dos números (as letras são números e os números são letras; os números têm poderes mágicos; quanto às letras, são os degraus da sabedoria).

É então que surge em Barão Franck o bandido Chico Diabo. Vem da fronteira com seus ferozes sequazes. Fugindo dos “Abas Largas”, esconde-se perto da colônia. E rouba, e destrói, e debocha. Rindo, mata nossos touros, arranca-lhes os testículos, e come-os, levemente tostados. E ameaça matar-nos a todos se o denunciarmos às autoridades. Como se não bastasse esse infortúnio, cai uma chuva de granizo que arrasa as plantações de trigo.

Estamos imersos no mais profundo desespero quando Shabtai Zvi reaparece.

Está transfigurado. O jejum devastou-lhe o corpo robusto, os ombros estão caídos. A barba agora, estranhamente grisalha, chega à metade do peito. A santidade envolve-o, brilha em seu olhar. Caminha lentamente até o fim da rua principal… Nós largamos nossas ferramentas, nós saímos de nossas casas, nós o seguimos. De pé sobre um montículo de terra, Shabtai Zvi nos fala.

– Castigo divino cai sobre vós!

Referia-se a Chico Diabo e ao granizo. Tínhamos atraído a ira de Deus. E o que poderíamos fazer para expiar nossos pecados?

– Devemos abandonar tudo: as casas; as lavouras; a escola; a sinagoga; construiremos, nós mesmos, um navio – o casco com a madeira de nossas casas, as velas com os nossos xales de oração. Atravessaremos o mar. Chegaremos à Palestina, a Eretz Israel; e lá, na santa e antiga cidade de Sfat, construiremos um grande templo.

– E aguardaremos lá a chegada do Messias? – perguntou alguém com voz trêmula.

– O Messias já chegou! – gritou Natan de Gaza. – O Messias está aqui! O Messias é o nosso Shabtai Zvi!

Shabtai Zvi abriu o manto em que se enrolava. Recuamos, horrorizados. Víamos um corpo nu, coberto de cicatrizes; no ventre, um cinturão eriçado de pregos, cujas pontas enterravam-se na carne. Desde aquele dia não trabalhamos mais. O granizo que destruísse as plantações. Chico Diabo que roubasse os animais, porque nós íamos embora. Derrubávamos as casas, jubilosos. As mulheres costuravam panos para fazeras velas do barco. As crianças colhiam frutas silvestres para fazer conservas. Natan de Gaza recolhia dinheiro para, segundo dizia, subornar os potentados turcos que dominavam a Terra Santa.

– O que está acontecendo com os judeus? – perguntavam-se os colonos da região. Tão intrigados estavam que pediram ao padre Batistella para investigar. O padre veio ver-nos; sabia de nossas dificuldades, estava disposto a nos ajudar.

– Não precisamos, padre – respondemos com toda a sinceridade. –

Nosso Messias chegou; ele nos libertará, nos fará felizes.

– O Messias? – o padre estava assombrado. – O Messias já passou pela terra. Foi Nosso Senhor Jesus Cristo, que transformou a água em vinho e morreu na cruz por nossos pecados.

– Cala-te, padre! – gritou Santa. – O Messias é Shabtai Zvi!

Santa, filha adotiva do gordo Leib Rubin, perdera os pais num pogrom. Ficara então com a mente abalada. Seguia Shabtai Zvi por toda a parte, convencida de que era a esposa reservada para o Ungido do Senhor. E para surpresa nossa Shabtai Zvi aceitou-a: casaram-se no dia em que terminamos o casco do barco. Quanto à embarcação, ficou muito boa; pretendíamos levá-la ao mar, como Bento Gonçalves transportara seu navio, sobre uma grande carreta puxada por bois.

Estes já eram poucos. Chico Diabo aparecia agora todas as semanas, roubando duas ou três cabeças de cada vez. Alguns falavam em enfrentar os bandidos. Shabtai Zvi não aprovava a idéia. “Nosso reino está além do mar. E Deus vela por nós. Ele providenciará.” De fato: Chico Diabo desapareceu. Durante duas semanas trabalhamos em paz, ultimando os preparativos para a partida. Então, num sábado pela manhã, um cavaleiro entrou a galope na vila. Era Gumercindo, lugar-tenente de Chico Diabo.

– Chico Diabo está doente! – gritou, sem descer do cavalo. – Está muito mal. O doutor não acerta com o tratamento. Chico Diabo me mandou levar o santo de vocês para curar ele. Nós o rodeávamos em silêncio.

– E se ele não quiser ir – continuou Gumercindo – é para nós queimar a vila toda. Ouviram?

– Eu vou – bradou uma voz forte.

Era Shabtai Zvi. Abrimos caminho para ele. Aproximou-se lentamente,

encarando o bandoleiro.

– Apeia.

Gumercindo desceu do cavalo. Shabtai Zvi montou.

– Vai na frente, correndo.

Foram os três: primeiro Gumercindo, correndo; depois Shabtai Zvi a cavalo; e fechando o cortejo, Natan de Gaza montado num jumento. Santa também quis ir mas Leib Rubin não deixou. Ficamos reunidos na escola todo o dia. Não falávamos; nossa angústia era demasiada. Quando caiu a noite ouvimos o trote de um cavalo. Corremos para a porta. Era Natan de Gaza, esbaforido.

– Quando chegamos lá – contou – encontramos Chico Diabo deitado no chão. Perto dele, um curandeiro fazia mandingas. Shabtai Zvi sentou perto do bandido. Não disse nada, não fez nada, não tocou no homem – só ficou olhando. Chico Diabo levantou a cabeça, olhou para Shabtai Zvi, deu um grito e morreu. O curandeiro, eles mataram ali mesmo. De Shabtai Zvi nada sei. Vim aqui avisar: correi, fugi!

Metemo-nos nas carroças e fugimos para Erexim. Santa teve de ir à força. No dia seguinte, Leib Rubin nos reuniu.

– Não sei o que vocês estão pensando em fazer – disse – mas eu já estou cheio dessas histórias todas: Barão Franck, Palestina, Sfat… Eu vou é para Porto Alegre. Querem ir comigo?

– E Shabtai Zvi? – perguntou Natan de Gaza com voz trêmula (era remorso o que ele sentia?).

– Ele que vá para o diabo, aquele louco! – berrou Leib Rubin. – Só

trouxe desgraças!

– Não fale assim, pai! – gritou Santa. – Ele é o Messias.

– Que Messias, nada! Acaba com essa história, isso ainda vai provocar os anti-semitas. Não ouviste o que o padre disse? O Messias já veio, está bom? Transformou a água em vinho e outras coisas. E nós vamos embora. O teu marido, se ainda está vivo, e se ficou bom da cabeça, que venha atrás. Eu tenho obrigação de cuidar de ti, e vou cuidar de ti, com marido ou sem marido!

Viajamos para Porto Alegre. Judeus bondosos nos hospedaram. E para nossa surpresa, Shabtai Zvi apareceu uns dias depois. Trouxeram-no os “AbasLargas”, que haviam prendido todo o bando de Chico Diabo.

Um dos soldados nos contou que haviam encontrado Shabtai Zvi sentado numa pedra, olhando para o corpo de Chico Diabo. Espalhados pelo chão – os bandidos, bêbados, roncando. Havia bois carneados por toda a parte. E vinho. “Nunca vi tanto vinho!” Tudo o que antes tinha água agora tinha vinho! Garrafas, cantis, baldes, bacias, barricas. As águas de um charco ali perto estavam vermelhas. Não sei se era sangue das reses ou vinho. Mas acho que era vinho. Ajudado por um parente rico, Leib Rubin se estabeleceu com uma loja de fazendas. Depois passou para o ramo de imóveis e posteniormente abriu uma financeira, reunindo grande fortuna. Shabtai Zvi trabalhava numa de suas firmas, da qual eu também era empregado. Natan de Gaza envolveu-se em contrabando, teve de fugir e nunca mais foi visto.

Desde a morte de Santa, Shabtai Zvi e eu costumamos nos encontrar num bar para tomar vinho. E ali ficamos toda a noite. Ele fala pouco e eu também; ele serve o vinho e bebemos em silêncio. Perto da meia-noite ele fecha os olhos, estende as mãos sobre o copo e murmura palavras em hebraico (ou em aramaico, ou em ladino). O vinho se transforma em água. O dono do bar acha que é apenas um truque. Quanto a mim, tenho minhas dúvidas. 

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Campos do Rio Grande do Sul, Brasil

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Sabbatai Zvi

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Natan de Gaza/Nathan of Gaza

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“The Ballad of the False Messiah”

He’s about to pour the wine into the glass. His hands are now wrinkled and unsteady. And yet, those big, strong hands of his still deeply affect me. I compare them with my own hands with their stubby fingers and I admit that I’ve never understood him and never will.

I first met him on board the Zemlia. We were Jews leaving Russia in that old ship; we feared the pogroms. Enticed by the promises of America, we were now journeying toward our destination, crammed into the third class. We wept and were seasick in that year of 1906.

They were already aboard the ship when we embarked. Shabtai Zvi and Natan de Gaza. We shunned them. We knew that they were Jews, but we from Russia are wary of strangers. We dislike anyone who looks more Oriental than we do. And Shabtai Zvi was from Smima, in Asia Minor—one could tell by his swarthy complexion and dark eyes. The captain told us that he was from a very wealthy family. As a matter of fact, he and Natan de Gaza occupied the only decent stateroom in the ship. What made them leave for America? What were they escaping from? Questions with no answers.

Natan de Gaza, in particular—a short, dark complexioned man—roused our curiosity. Until then we had never seen a Jew from Palestine, from Eretz Israel—a land which to many of us existed only in dreams. Natan, an eloquent public speaker, would tell an attentive audience about the rolling hills of Galilee, about beautiful Lake Kineret, about the historical city of Gaza, where he had been born, and whose gates Samson had wrenched off their hinges. When drunk, however, he would curse his native land: ”Nothing but rocks  and sand, camels, larcenous Arabs . . . ” When we were off the Canary Islands, Shabtai Zvi caught him execrating Eretz Israel. He beat Natan up, until he collapsed on the floor, where he lay bleeding; when Natan dared to protest, Shabtai knocked him out with one final kick.

After this incident he spent days shut up in his stateroom, speaking to no one. As we walked past his door, we could hear moans . . . and sighs . . . and melodious songs.

One day at dawn we were awakened by the shouts of the seamen. We rushed to the deck and saw Shabtai Zvi swimming in the icy sea. A lifeboat was lowered and with great difficulty he was pulled out of the water. Stark naked as he was, he walked past us, without a glance in our direction, his head held high—and he went straight to his stateroom, where he shut himself up. Natan de Gaza said that the bathing in the sea had been an act of penance, but our own conclusion was quite different: “He’s crazy, this Turk.”

We arrived at Ilha das Flores in Rio de Janeiro, and from there we traveled to Erexim, from where we proceeded in covered wagons to our new homes in the settlement called Barão Franck, named for the Austrian philanthropist who had sponsored our coming. We felt very grateful to this man, whom, incidentally, we never met. It was rumored that later a railroad would be built across the lands where we were being settled, and that the baron was interested in the valuation of the shares of stock in the railroad company. I don’t believe this rumor was true. I do think that he was a generous man, that’s all. He gave each family a plot of land, a wooden house, agricultural tools, livestock.

Shabtai Zvi and Natan de Gaza stayed with us. They were given a house, too, although the baron’s representative wasn’t pleased with the idea of having two men living together under the same roof.

“We need families,” he stated incisively—”not fairies.” Shabtai Zvi stared at him. It was such a powerful gaze that it froze us.

The baron’s agent shuddered, bid us farewell, and left hastily. We threw ourselves wholeheartedly into our work. How hard country life was! Felling trees. Plowing the fields. Sowing . . . Our hands were covered with bleeding blisters. We hadn’t seen Shabtai Zvi for months. He had shut himself up in his house. Apparently he had run out of money because Natan de Gaza began to wander about the village, asking for clothes and food. He would tell us that Shabtai Zvi would reappear in the near future to bring good tidings to the entire population. “But what has he been doing?” we would ask. What has he been doing? Studying. He has been studying the Cabalah, the masterpiece work of Jewish mysticism: The Book of Creation, the Book of Brightness, theBook of Splendor. The occult sciences. Metempsychosis. Demonology. The power of names (names can exorcise demons; a person well versed in the power of names can walk on the water without getting his feet wet; and there is also the power of the secret, ineffable, unpronounceable name of God). The mysterious science of letters and numbers (letters are numbers and numbers are letters; numbers have magical powers; as for letters, they are the steps leading to wisdom).

It is around that time that the outlaw Chico Devil puts in an appearance at Barão Franck for the first time. A fugitive from the law, he comes from the frontier, he and his band of desperados. While fleeing from the “Stetsons,” he finds a hideout near our settlement. And he plunders and he destroys and he sneers. Laughing, he kills our bulls, wrenches out their testicles, then eats them slightly roasted. And he threatens to kill every one of us if we denounce him to the authorities. As if this misfortune weren’t enough, we are struck by hail, which destroys our fields of wheat. We are plunged into the deepest despair when Shabtai Zvi reappears.

He is transformed. Fasting has ravaged his once robust body, his shoulders stoop. His beard, oddly turned grey, now reaches down to his chest. Sainthood enfolds him like a mantle and it glows in his eyes. Slowly he walks toward the end of the main street . . . We drop our tools, we leave our houses, we follow him. Then, standing on a mound of earth, Shabtai Zvi addresses us.

“Divine punishment will befall you!”

He was referring to Chico Devil and to the hail. We had attracted God’s wrath. And what could we do to expiate our sins?

“We will abandon everything: the houses; the cultivated fields; the school; the synagogue; with our own hands we will build a boat—the timber of our houses will bemade up into the hull, and our talliths will be made up into sails. Then we will cross the ocean. We will arrive in Palestine, in Eretz Israel; and there, in the ancient, holycity of Sfat, we will build a large temple.”

“And will we await the coming of the Messiah there?” somebody asked in a trembling voice.

“The Messiah has already come!” shouted Natan de Gaza. “The Messiah is right here! The Messiah is our own Shabtai Zvi!”

Shabtai Zvi opened the mantle which enveloped him. We stepped back, horrified. What we saw was a naked body covered with scars; circling his belly was a wide belt studded with spikes that penetrated his flesh.

That day we stopped working. Let the hail destroy the cultivated fields. Let Chico Devil steal our livestock; we no longer cared, because we were leaving soon. Jubilant, we tore down our houses. The women sewed pieces of cloth together to make sails for the boat. The children gathered wild berries to make jam. Natan de Gaza collected money, which was needed, he said, to buy off the Turkish potentates that ruled over the Holy Land.

“What’s been going on in the Jewish settlement?” wondered the settlers in the neighboring areas. They were so intrigued that they sent Father Batistella over to find out. The priest came to see us; he was aware of our plight and willing to help us.

“We don’t need anything, Father,” we replied with great earnestness. “Our Messiah has come; he’s going to set us free and make us happy.” “The Messiah?” The priest was astonished. “But the Messiah has already been here on earth. He was our Lord Jesus Christ, who changed water into wine and who died on the cross because of our sins.”

“Shut up, Father!” shouted Sarita. “The Messiah is Shabtai Zvi!”

Sarita, the adopted daughter of fat Leib Rubin, had lost her parents in a pogrom. Ever since, she had been mentally unbalanced. She would follow Shabtai Zvi everywhere, convinced that she was destined to become the wife of the Anointed of the Lord. And to our surprise, Shabtai Zvi accepted her: they were married on the day when we finished the hull of the boat. As for the vessel itself, it was quite good; we planned to transport it to the sea on a big oxcart, the way Bento Gonçalves had transported his own boat.

There weren’t many oxen left. Chico Devil was now showing up once a week, each time stealing a couple of them. Some of us began talking about confronting the bandits. Shabtai Zvi disapproved of this idea. “Our kingdom lies overseas. And God is protecting us. He will provide for us.” Indeed: Chico Devil disappeared. For two weeks we worked in peace, putting the finishing touches to the preparations for our departure. Then on a Saturday morning, a horseman galloped into the village. It was Gumercindo, Chico Devil’s lieutenant.

“Chico Devil is ill!” he shouted without dismounting from his horse. “He’s seriously ill. The doctor doesn’t seem to be able to come up with the right treatment. Chico Devil has asked me to bring your saint over so that he can cure him.”We surrounded him in silence.

“And if he refuses to come with me,” Gumercindo went on, “then I have orders to set the whole village on fire. Did you hear?”

“I’ll go,” thundered a strong voice. It was Shabtai Zvi. We made way for him. Slowly he drew closer, his eyes fastened on the outlaw.

“Get down from the horse.”

Gumercindo dismounted. Shabtai Zvi mounted the horse.

“You go in front of me, running.”

The three of them set off: Gumercindo, running ahead; then Shabtai Zvi, on horseback; and bringing up the rear, Natan de Gaza, riding on a donkey. Sarita wanted to go with them, but Leib Rubin didn’t let her.

We were assembled in the school building all day long. We were far too anxious to speak. When night fell, we heard a horse’s trotting. We ran to the door. It was Natan de Gaza, gasping for breath.

“When we got there,” he said, “we found Chico Devil lying on the floor. Beside him, a witch doctor was performing his sorcery. Shabtai Zvi sat down by the bandit. He didn’t say a word, he didn’t do a thing, he never touched the man—he just sat there watching. Then Chico Devil raised his head, looked at Shabtai Zvi, let out a yell, and died. The witch doctor, he was killed right then and there. I don’t know what happened to Shabtai Zvi. I came over to warn you: Cut and run!”

We got into our wagons and fled from Erexim. Sarita had to be taken forcibly. On the following day, Leib Rubin called us to a meeting. “I don’t know about the rest of you,” he said, “but I’ve had enough of the whole shebang: Barão Franck, Palestine, Sfat . . . I’ve made up my mind to go to Porto Alegre. Do you want to come with me?””And what about Shabtai Zvi?” asked Natan de Gaza in a shaky voice (was he feeling remorse?).

“The hell with him. He’s nuts!” yelled Leib Rubin. “He has caused us nothing but misfortunes.”

“Don’t speak like that, Father!” shouted Sarita. “He is the Messiah!”

“The Messiah, my foot! Enough of this story—it’s the kind of thing that might well provoke the Jewhaters. Didn’t you hear what the priest said? The Messiah has already come, didn’t you hear? He changed water into wine, among other things. And we’re leaving. That husband of yours, if he’s still alive—and if he has gotten his head together—can join us later. It’s my duty to look after you—which I’m going to do, husband or no husband!”

We traveled to Porto Alegre. Kindly Jews took us in. And to our surprise, Shabtai Zvi showed up a few days later. The “Stetsons,” who had arrested Chico Devil’s gang, brought him to us.

One of the soldiers told us that they had found Shabtai Zvi sitting on a stone, his eyes fixed on the body of Chico Devil. And throughout the floor—the bandits, dead drunk, lay snoring. There were quartered oxen scattered everywhere. And wine. “I’ve never seen so much wine! Every single container previously filled with water was now filled with wine! Bottles, flasks, buckets, basins, barrels. The waters of a nearby marsh were red. I don’t know if it was the blood of the oxen or if it was wine. But I think it was wine.”

With the help of a wealthy relative, Leib Rubin set up shop: first he ran a store that sold fabrics. Then he moved on to furniture, and eventually he established a brokerage firm, and ended up amassing a great fortune. Shabtai Zvi worked in one of his companies, where I was also an employee. Natan de Gaza, after getting mixed up in some smuggling activities, had to flee the country and was never heard of again.

After Sarita’s death, Shabtai Zvi and I got into the habit of getting together in a bar to drink wine. That’s where we spend our evenings. He doesn’t say much, and neither do I; he pours the wine and we drink in silence. Just before midnight he closes his eyes, lays his hands over the glass and murmurs some words in Hebrew (or in Aramaic, or in Ladino). The wine is changed into water. The bar owner thinks it is just a trick. As for myself, I’m not so sure.

Translation by Eloah Giacomelli

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