
Naomi Jaffe
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Noemi Jaffe é escritora, professora de literatura e de escrita e crítica literária. Doutorou- se em Literatura Brasileira pela USP. Publicou “O que os cegos estão sonhando” (Ed. 34-2012), “A verdadeira história do alfabeto” (Companhia das Letras – 2012), vencedor do Prêmio Brasília de Literatura em 2014, “Irisz: as orquídeas”(Companhia das Letras – 2015), “Não está mais aqui quem falou”(Companhia das Letras – 2017), “O que ela sussurra”, “Lili: Novela de um luto” (Companhia das Letras – 2021), “Escrita em movimento: sete princípios do fazer literário” (Companhia das Letras – 2023), entre outros. Desde 2016, mantém o Centro Cultural Literário Escrevedeira, em parceria com Luciana Gerbovic e João Bandeira
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Noemi Jaffe is a writer, professor of literature and writing and literary criticism. Doutorou- se em Literatura Brasileira pela USP. He published “O que os cegos estão sonhando” (Ed. 34-2012), “A Verdadeira História do Alfabeto” (Companhia das Letras – 2012), winner of the Prêmio Brasilia de Literatura in 2014, “Irisz: as orquídeas” (Companhia das Letras – 2015), “Não esta mais aqui quem falou” (Companhia das Letras – 2017), “O que ela sussurra”, “Lili: Novela de um luto” (Companhia das Letras – 2021), “Written in movement: seven principles of making literature” (Companhia das Letras – 2023), among others. Since 2016, we have maintained the Centro Cultural Literário Escrevedeira, in partnership with Luciana Gerbovic and João Bandeira.
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Lili — Una novela de luto

Quando ela estava morta, eu beijei seu rosto, suas mãos, seu colo. Apertava seu pulso, abraçava seu corpo, chamava: mãe, mãe. Levantava sua mão e a deixava cair. No dia anterior, quando ela ainda não estava morta, mas quase, eu aproximava meu ouvido do seu peito e ouvia a respiração. Era diferente. É diferente estar quase morta de estar morta mesmo. É diferente, e só sei disso agora que ela morreu. Se quando ela estava quase morta eu esperava que ela morresse, agora é como se eu a quisesse quase morta para sempre, só para ouvir sua respiração, a bochecha quente, os dedos da mão se mexendo mesmo que por reflexo, um ronco baixo no peito, o tremor nas pálpebras. Nunca tinha ficado perto de uma pessoa morta e descoberta. Apenas do meu pai, mas um lençol o cobria, sobre o qual tracei com o dedo o contorno do seu nariz, gesto que repeti com a minha mãe depois que a cobriram. Fui a única a permanecer com ela, ela morta. Fiz isso porque eu precisava, e por que precisava não sei dizer. Para estar mais com ela. O homem do chevra kadisha me censurou. Disse que quem estava lá não era mais ela. Com que rapidez se aceita que a morte subtrai a pessoa, que a morte esvazia o que chamam de alma da pessoa. Resisti: é o corpo da minha mãe. Era ela ou não era ela? Na hora, para mim, era. O corpo da minha mãe morta é minha mãe. Tive a ousadia de abrir os olhos dela, e por trás das pálpebras lá estava o olho inteiro, da mesma cor, o mesmo olhar, ainda que ninguém olhasse por trás dele. Não foi masoquismo, um prazer mórbido. Foi tão simples como uma despedida de amor ou a dificuldade da separação. Nas últimas semanas ela adormecia com frequência enquanto conversávamos e numa dessas vezes ela acordou sobressaltada, gemendo, e eu e a Leda perguntamos o que foi?, e ela respondeu: a dor da separação. Ela sabia que ia morrer e, apesar de sempre ter afirmado — e era verdade — não ter medo da morte, no final estava com medo, com muito medo. Ela pedia beijos sem fim, não queria largar o abraço e pedia mais e mais beijos. No penúltimo dia antes de morrer, aproximei minha bochecha da sua boca e pedi beijos, e ela, semi-inconsciente, fez um bico com os lábios, chegando a dar um estalo. Também apertou minha mão e fez que sim e que não com a cabeça. Por tanto tempo tive pressa pela morte dela, mas nos últimos dias eu só queria que demorasse para sempre. Uma pessoa pode ser só o calor da mão. Isso basta para que uma mãe seja mãe e para que eu seja filha. Ver o corpo morto e aceitar: mãe, você está morta. Existe uma aceitação incontornável a um corpo morto. Não vou prendê-lo, me agarrar a ele, impedir que seja embrulhado, ensacado, encaixotado e transportado por alguém que não conheço — e a quem agradeço de coração — para dentro de uma geladeira. Deve ser assim. É horrível e deve ser assim. Dever, aqui, quer dizer muitas coisas: é uma atribuição da maturidade realista, uma aceitação do ritual necessário de conformação à natureza (esse corpo vai se degradar) e à comunidade os mortos devem ser enterrados) e uma demonstração de sanidade (não sou louca, não devo me agarrar ao corpo). E existe ainda uma aceitação existencial, que oscila: aceito, não aceito: ela não existe mais. Minha mãe — o olhar, o sorriso, o beijo e o abraço — não existe mais. Quando penso nela, penso no olhar, no sorriso que ela abria quando reconhecia que eu tinha chegado, no abraço e nos beijos inumeráveis, sobre os quais ela dizia que “tudo era muito pouco”. Nos últimos meses, ela se transformou em puro carinho. Tudo nela emanava um amor infantil, que acariciava com o olhar. Era como ser olhada por um cervo filhote, ser abraçada por um leão, ser beijada por um amante que recebe amada. Sua mão grossa e quente apertava meu tronco e minhas mãos. Falávamos pouco. Ela adormecia, e muitas vezes dormi em seu ombro, ouvindo sua respiração lenta, me sentindo aconchegada. Ela era mãe. Ela se tornou mãe. Ela se reduziu a mãe. Ela era feliz porque tinha as três filhas, e nós três éramos o mundo todo, a vida toda para ela. Nada mais importava além de poder nos ver e beijar e abraçar.
Jaffe, Noemi . Lili . Companhia das Letras. Kindle Edition. 2021
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Lili–A Novel about Mourning

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When she was dead, I kissed her face, her hands, her lap. I squeezed her wrist, hugged her body, called out: mother, mother. I lifted her hand and let it fall. The day before, when she wasn’t dead yet, but almost dead, I would put my ear close to her chest and listen to her breathing. It was different. Being almost dead is different from being really dead. It’s different, and I only know that now that she’s dead. If when she was almost dead I expected her to die, now it’s as if I wanted her almost dead forever, just to hear her breathing, her warm cheek, her fingers moving even if it was reflexive, a low rumble in her chest, the trembling of her eyelids. I had never been close to a dead person who was uncovered. Only my father, but a sheet covered him, on which I traced the outline of his nose with my finger, a gesture I repeated with my mother after they covered her. I was the only one to stay with her, when she was dead. I did it because I needed to, and why I needed to, I don’t know. To be with her more. The man in the chevra kadisha scolded me. He said that the person there was no longer her. How quickly one accepts that death takes away a person, that death empties what they call a person’s soul. I resisted: it was my mother’s body. Was it her or wasn’t it her? At the time, for me, it was. My dead mother’s body is my mother. I had the audacity to open her eyes, and behind her eyelids there was the whole eye, the same color, the same look, even though no one was looking behind it. It wasn’t masochism, a morbid pleasure. It was as simple as a farewell to a lover or the difficulty of separation. In the last few weeks she had often fallen asleep while we were talking, and one of those times she woke up startled, moaning, and Leda and I asked her what it was?, and she answered: the pain of separation. She knew she was going to die, and although she had always said — and it was true — that she wasn’t afraid of death, in the end she was afraid, very afraid. She asked for endless kisses, she didn’t want to let go of the hug and she asked for more and more kisses. On the second-to-last day before she died, I brought my cheek close to her mouth and asked for kisses, and she, semi-conscious, pouted her lips and even smacked them. She also squeezed my hand and nodded yes and no. For so long I was in a hurry for her death, but in the last few days I just wanted it to take forever. A person can be just the warmth of a hand. That’s enough for a mother to be a mother and for me to be a daughter. Seeing the dead body and accepting: mother, you’re dead. There is an inescapable acceptance of a dead body. I’m not going to hold it back, cling to it, stop it from being wrapped, bagged, boxed and transported by someone I don’t know — and to whom I thank from the bottom of my heart — into a refrigerator. It must be like that. It’s horrible and it must be like that. Duty, here, means many things: it is an attribution of realistic maturity, an acceptance of the necessary ritual of conforming to nature (this body will degrade) and to the community (the dead must be buried), and a demonstration of sanity (I am not crazy, I must not cling to the body). And there is also an existential acceptance, which oscillates: I accept, I do not accept: she no longer exists. My mother — her gaze, her smile, her kiss and her hug — no longer exists. When I think of her, I think of the gaze, the smile she gave when she recognized that I had arrived, of the hug and the countless kisses, about which she said that “everything was too little”. In the last few months, she transformed into pure affection. Everything about her emanated a childlike love, which she caressed with her gaze. It was like being looked at by a baby deer, being embraced by a lion, being kissed by a lover who receives his beloved. Her thick, warm hand squeezed my torso and my hands. We spoke little. She fell asleep, and I often slept on her shoulder, listening to her slow breathing, feeling warm. She was a mother. She became a mother. She reduced herself to being a mother. She was happy because she had three daughters, and the three of us were her whole world, her whole life. Nothing else mattered except being able to see each other and kiss and hug each other.
Jaffe, Noemi. Lili . Companhia das Letras. Kindle Edition. 2021.