Giselda Leirner — Contista e artista judaica brasileira/Brazilian Jewish Short-story writer and Artist–“Eugenio, Mi Amor”/”Eugenio, My Love” — história romântica/romantic short-story

Giselda Leirner

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Giselda Leirner é uma artista e acadêmica brasileira nascida em uma família judea profundamente enraizada nas artes. Filha de Isai e Felícia Leirner e irmã de Nelson Leirner, ela foi educada por mestres das artes, como Emiliano Di Cavalcanti, Yolanda Mohalyi e Poty Lazzarotto. Giselda também estudou na Art Students League e na Parson School of Design, em Nova Iorque. Suas obras fazem parte de coleções importantes, como o Museu de Arte de São Paulo (Masp) e o Museu de Jerusalém. Paralelamente à sua carreira artística, Giselda se formou em Filosofia pela Universidade de São Paulo, especializando-se em filosofia da religião. Ela publicou quatro livros no Brasil, sendo o primeiro também editado na França em 2005, demonstrando sua relevância nos campos da arte e da filosofia.
Biombô

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Giselda Leirner is a Brazilian artist and scholar born into a Jewish family deeply rooted in the arts. The daughter of Isai and Felícia Leirner and sister of Nelson Leirner, she was mentored by masters such as Emiliano Di Cavalcanti, Yolanda Mohalyi, and Poty Lazzarotto. Giselda also studied at the Art Students League and the Parsons School of Design in New York. Her works are held in major collections, including those of the São Paulo Museum of Art (MASP) and the Israel Museum in Jerusalem. Alongside her artistic career, Giselda earned a degree in Philosophy from the University of São Paulo, specializing in the philosophy of religion. She has published four books in Brazil—with the first also released in France in 2005—demonstrating her significance in the fields of art and philosophy. Biombô

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Naufrágos: Ela como que se descasca e despe diante do leitor, revelando a escritura como um processo e como um modo de sobrevida, meio de trançar vida e morte e de passar de um polo a outro. Ela se despe na medida mesmo em que afirma que a escritura é sua roupagem: “Escrevo. Não faço outra coisa que descrever, este sucedâneo literário que encobre minha carência, minha incapacidade. Desespero”. Medium

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Castaways: She seems to peel away and undress before the reader, revealing writing as a process and a mode of survival—a means of intertwining life and death and of passing from one pole to the other. She strips herself bare at the very moment she asserts that writing is her attire: “I write. I do nothing but describe—this literary substitute that cloaks my lack, my incapacity. Despair.” Medium

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Giselda Leirner, Naufrágios (Castaways). Kindle Edition.

“Eugenio, um amor”

Eugenio, um amor Eu o conheci três vezes e nas três vezes o amei com o mesmo profundo amor. Uma na juventude, outra na meia-idade e a terceira na velhice.

     A primeira foi quando o vi entrando no quarto de meu pai, que já estava com a doença fatal adiantada. Entrou junto ao sol, que o acompanhou sempre. Mesmo nos dias nebulosos, o quarto em que entrava resplandecia e a doença se apagava na luz irradiada.

     De uma coisa eu tinha certeza, ele iria curar meu pai. Era belo, a cabeça, com poucos cabelos loiros, e os olhos castanhos transmitiam uma tal inteligência, que eliminava qualquer dúvida quanto a sua capacidade de cura.

     Tendo já seus trinta anos, ainda tinha a certeza que trazem em si os meninos prodígios. Era assim considerado por todos, que se maravilhavam com sua capacidade de, aos sete anos, declamar versos inteiros da Divina Comédia, que lhe eram lidos pelo pai, dr. Guido, famoso e erudito médico italiano, que viera ao Brasil para dirigir um hospital.

     Assim que o vi, soube que seria ele o homem que me acompanharia até o fim de minha vida, mais longa que a dele, em todas as intermináveis três vezes em que o amei. Era sedutor e sabia usar esse dom. Não havia nada nele que não fosse verdadeiro. Não havia afetação na sua vontade de agradar.

     O gesto de amor lhe era natural. Estava a isto acostumado, filho caçula sempre perto da mãe, e mimado pelo pai, que era rigoroso com os outros filhos. Menino, gostava de sentar-se à grande mesa do consultório, balançando as pernas curtas, enquanto enchia folhas de receituário com garatujas.

      Ao morrer o pai, a primeira coisa que fez foi sentar-se à mesa, dizendo: “esta mesa é minha, aqui ninguém senta”. E assim foi.

     Quando o conheci, médico famoso, já tinha sido casado com uma mulher extremamente feia, porém rica, de família tradicional, que morreu de uma encefalite aguda assim que chegaram da viagem de núpcias. Como era muito jovem, Eugenio, sem pais, ficou morando na casa de seus sogros, que o adotaram como filho.

     Foi brilhante cirurgião, e dava aulas na Clínica Cirúrgica da Faculdade de Medicina, como chefe de disciplina. Sempre admirado, não só por colegas e por alunos, mas especialmente pelas mulheres, dava suas aulas com graça especial. Sendo exímio desenhista, desenhava com um giz em cada mão, em gestos contínuos, qualquer órgão do corpo humano, não necessitando de quadros ilustrativos. Era um artista. Sua distração aos domingos consistia em pintar belos quadros, que nunca pendurava. Deixava-os encostados ao rés do chão, sempre voltados para a parede, para que não fossem vistos. Não os mostrava a ninguém. Fui a única a vê-los.

      Grande estudioso, publicou vários artigos sobre a anatomia e as artes. A respeito do pintor El Greco, dizia que o alongamento dos corpos pintados pelo artista devia-se ao seu astigmatismo. Deu várias palestras como crítico de arte, especialmente sobre o Surrealismo e os elementos de sua iconografia na pintura. Suas cirurgias eram conduzidas com a elegância de um artista, sem manobras cirúrgicas desnecessárias.

     Tenho ainda comigo uma publicação em que ele analisa a obra do Aleijadinho, sempre unindo a estética à medicina, onde afirma ter sido Aleijadinho um doente de lepra. Tudo isso não me interessava pois, para mim, a obra do artista e seus problemas físicos eram coisas independentes. Geralmente eram essas as nossas discussões. Nunca duvidei, porém, de sua extraordinária capacidade cirúrgica que, no entanto, não conseguiu salvar meu pai.

     Era nietzschiano, ao pé da letra, sem o saber, pois acreditava que as diferentes civilizações refletem certos climas intelectuais, cada um, particularmente prejudicial ou salutar a um ou outro órgão. Via a história como a ciência dos remédios, mas não a própria terapêutica. Seria por isso necessário um médico que utilizasse esta ciência dos remédios para enviar cada um ao clima que lhe é particularmente salutar — por um período, ou para sempre. “Ao lado da cura do espírito”, dizia, “é necessário que, no tocante às coisas corporais, a humanidade apreenda, por meio de uma geografia médica, quais são as doenças que cada região da terra provoca, quais os fatores de cura que ela apresenta.” Eu não entendia muito bem suas teorias, elas me eram estranhas, às vezes pareciam alucinações. Considerava a terra como uma estação de cura, onde os indivíduos deveriam ser transplantados sem cessar até serem dominadores de sua própria hereditariedade. Esta maldição, dizia eu, não me permitia o acesso ao livre arbítrio, e para a qual, segundo meu ponto de vista, não havia cura.

     Nossas conversas não giravam somente em torno de assuntos relacionados à filosofia ou à arte. Brincávamos e ríamos muito, como crianças. Adorávamos viajar, passear de barco. Velejar era seu esporte favorito, do qual eu não participava, pelo medo que tinha do mar.

     Ficávamos o dia todo na praia e, sendo ele muito claro de pele, eu o encharcava de óleo Nívea para bebê.  Eu o adorava nestes momentos em que ele, brilhante de óleo, sob a luz do sol, entrava no mar. Era para mim um deus naquele instante, apesar da fragilidade de seu corpo, pois não era um homem grande nem forte ou musculoso. E era justamente esta fragilidade de um corpo com a força de uma cabeça que me fazia amá-lo tanto.    

     Quando voltávamos da praia, exaustos, tomávamos banho e, perfumados, com os corpos ainda sedosos do óleo, nos deitávamos e fazíamos amor, um amor louco às vezes; outras, um amor suave e delicado, vagaroso, até adormecermos enlaçados, esquecendo até de jantar. São estes dias e noites que ficaram em minha memória como os mais belos de nossa relação. Que nunca mudou.

     Ao chegar do serviço, muito cansado, eu lhe preparava um uísque com gelo. Tinha já as velinhas acesas na lareira e a música que ele amava no toca-discos. A casa toda, à espera do amado, perfumava-se com o cheiro delicioso do jantar. Depois do banho, que tomávamos juntos em nossa jacuzzi, vestíamos belos e coloridos quimonos, amarrados na cintura com largos cinturões. Descíamos as escadas de madeira de nossa casa para o jantar e, depois de a baiana gorda e preta, que nos serviu durante longos anos, sair, ainda ficávamos a conversar durante algum tempo.

     Nunca me falava sobre suas experiências no hospital ou consultório, nem assistia à tevê. Dormíamos sempre abraçados. Ao acordar, se sobrasse algum tempo ainda, me acariciava até chegarmos ao ato de amor, com o qual iniciávamos nosso dia. Ele saía para o hospital, enquanto eu entrava em meu Fusca verde em direção à faculdade, onde fazia o curso de pós-graduação em literatura. Meu trabalho intitulava-se Crime e santidade. Sempre comecei tudo o que escrevi pelo título, e foi este que me levou a Dostoiévski. Nunca consegui um retrato exato — nem era minha intenção escrever uma biografia.

     Jamais me considerei especialista em qualquer assunto, mesmo que tivesse lido toda a obra do autor russo. Sobre mim, é a única coisa que direi. É dos três homens de minha vida que desejo falar.

     Aos poucos, percebi que Eugenio voltava do hospital cansado demais para conversarmos. Apenas bebíamos. Esperava o entorpecimento para deitar-se. Não mais fazíamos amor. Durante a noite, acordava várias vezes. Irritado, passou a tomar comprimidos para dormir. Começou com um, trocou por outros mais fortes. Daí em diante, o inferno abriu suas portas para nos esperar. As garrafas de bebida multiplicaram-se pela casa até chegarem ao nosso quarto de dormir. Passei a beber também — eu, que tinha pouca resistência ao álcool, bebia menos que ele. Da euforia inicial, passávamos à depressão. Piores eram as manhãs. Eu ficava deitada, enquanto ele se arrastava com má vontade em direção ao hospital.

     Deixou de ser cirurgião, pois suas mãos tremiam. Sentia-se inseguro.

     Chegava em casa mais cedo, deixando com a secretária do consultório recados de que teria viajado para congressos.

     Os filhos, já adultos, diminuíram as visitas à nossa casa, pois não suportavam, entre outras coisas, o cheiro de álcool que permeava o ambiente. Mesmo ao nos beijar, eu sentia que o faziam com um certo desgosto. Falavam com a baiana em voz baixa antes de partir, e tinham sempre um ar preocupado. Um dia nos visitou dr. Rosário, melhor amigo de meu marido, que, alertado pelos meninos, e preocupado com a ausência de Eugenio, veio nos ver. Saiu cabisbaixo e silencioso.

     As persianas e as cortinas fechadas já não permitiam diferenciar o dia da noite. A vida era outra. Não deixava de ser vida, mas se parecia cada vez mais com a morte — ou com aquilo que achamos ser a morte, porque não a conhecemos e acreditamos ser um sono sem sonhos.

     Tínhamos nos tornados puros, brancos e cristalinos, como a vodca que tomávamos. Um o espelho do outro.

     Foi um dia-noite. Eugenio rolou pelas escadas. Bateu a cabeça. Depois de algum tempo, cresceu-lhe um tumor. Foi do golpe? Não saberia dizer. Dr. Rosário o internou numa clínica fora da cidade. Lá ficou, sentado numa cadeira de rodas. Deixou de falar, não me reconhecia mais.

    Ali morreu. Eu fiquei.

    Voltei à liberdade, dominada por uma profunda tristeza.

    Nas outras duas vezes em que o encontrei, não era mais o mesmo homem, nem o mesmo amor.

     Para ter compaixão é necessário um espaço de separação. Eu e o outro nos encontramos em um espaço não meu nem dele, mas num espaço único. Só aí o encontro pode se dar, o verdadeiro, o do amor reencontrado, porém diverso.

      Vivi com a sombra do primeiro amor duas vezes mais. O tempo de uma vida. Vivi a perplexidade diante do mundo, de mim mesma e daqueles que me cercaram. Estava enlouquecendo? Ou era uma espécie de consciência diferente da usual? Tudo me parecia destituído de verdade, de cor, de sentido.

      Voltei à vida, mas não era mais a mesma. Não havia evolução. O prazer perdido ficou assim para sempre. Impossível substituí-lo. O primeiro Eugenio foi sempre o mesmo. Os substitutos vieram. Outros prazeres surgiram, outras experiências vividas, porém nenhum progresso, só mudanças. Um elemento a mais na construção do desconhecido.

      Agora que me torno mais velha, me aproximo do mesmo amor de maneira mais profunda. Ao contrário do que deveria ser,para aprender a me afastar, deixar o caminho livre, mais chego perto deste terceiro e último amor que é e sempre será o primeiro Eugenio.

“Mudo de vida como se passa da sombra

ao sol, ou do sol à sombra, em um instante concreto,

que instaura uma diferença

física, à flor da pele, uma tênue diferença,

porém radical, entre o antes e o depois,

entre o passado e o porvir.”

Jorge Semprún

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“Eugenio, a Love”

Eugenio—a love. I loved him three times, and each time with the same profound affection: once in my youth, once in middle age, and a third time in old age.

The first time was when I saw him enter my father’s room; my father was already in the advanced stages of a fatal illness. He entered alongside the sunlight—a companion that always stayed with him. Even on cloudy days, the room would glow when he walked in, and the sickness seemed to fade away in the light he radiated.

Of one thing I was certain: he would cure my father. He was handsome; his head held sparse blond hair, and his brown eyes conveyed such intelligence that any doubt regarding his healing abilities vanished.

     Though already in his thirties, he still possessed that air of certainty found in child prodigies. Everyone regarded him as such, marveling at how, at the age of seven, he could recite entire verses of the *Divine Comedy*—lines read to him by his father, Dr. Guido, a renowned and learned Italian physician who had come to Brazil to run a hospital.

     The moment I saw him, I knew he was the man who would walk with me until the end of my life—a life longer than his—throughout those three interminable times I loved him. He was captivating, and he knew how to use that gift. There was nothing about him that wasn’t genuine; there was no affectation in his desire to please.

     That gesture of affection came naturally to him. He was used to it—the youngest son, always close to his mother and spoiled by a father who was otherwise strict with his other children. As a boy, he loved sitting at the large desk in the consulting room, swinging his short legs while filling prescription pads with scribbles.

     When his father died, the first thing he did was sit at that desk and declare, “This desk is mine; no one else sits here.” And so it remained.

     By the time I met him—already a renowned physician—he had been married to an extremely unattractive but wealthy woman from a traditional family; she had died of acute encephalitis shortly after they returned from their honeymoon. Being very young and without parents of his own, Eugenio continued living in his in-laws’ home, where they adopted him as a son.

     He was a brilliant surgeon and taught at the Medical School’s Department of Surgery, serving as the head of the discipline. Widely admired—not only by colleagues and students but especially by women—he conducted his classes with a unique grace. An accomplished draftsman, he could draw any organ of the human body using a piece of chalk in each hand simultaneously, moving in continuous strokes; he had no need for illustrative charts. He was an artist. His Sunday pastime was painting beautiful pictures, though he never hung them up. He would leave them leaning against the floor, always facing the wall so they wouldn’t be seen. He showed them to no one. I was the only person who ever saw them.

A dedicated scholar, he published several articles on the relationship between anatomy and the arts. Regarding the painter El Greco, he argued that the elongated figures in the artist’s work were the result of his astigmatism. He gave numerous lectures as an art critic, focusing particularly on Surrealism and the elements of its iconography in painting. He performed surgeries with the elegance of an artist, avoiding any unnecessary maneuvers. I still have a publication of his in which he analyzes the work of Aleijadinho—always linking aesthetics to medicine—and asserts that the artist suffered from leprosy. None of this interested me, as I viewed the artist’s work and his physical ailments as separate matters. Such were the usual topics of our discussions. Yet, I never doubted his extraordinary surgical skill—though, for all that, he could not save my father.

     He was a Nietzschean—quite literally, without even realizing it—believing that different civilizations reflect specific intellectual climates, each particularly harmful or beneficial to one organ or another. He viewed history as the science of remedies, though not as therapeutics itself. Thus, a physician was needed to apply this science of remedies by sending individuals to the climate most beneficial to them—whether for a time or forever. “Alongside the healing of the spirit,” he would say, “humanity must learn, through medical geography, which diseases each region of the earth provokes and what healing factors it offers.” I did not fully grasp his theories; they seemed alien to me, at times even like hallucinations. He regarded the earth as a health resort where individuals ought to be constantly transplanted until they had mastered their own heredity. That curse, I felt, denied me free will—and, in my view, there was no cure for it.

     Our conversations did not revolve solely around philosophy or art. We would joke and laugh a great deal, like children. We loved traveling and going out on the water. Sailing was his favorite sport—one I did not share in, owing to my fear of the sea.

We would spend the entire day at the beach; since he was very fair-skinned, I would douse him in Nivea baby oil. I adored him in those moments when, glistening with oil in the sunlight, he would step into the sea. To me, he was a god in that instant—despite the frailty of his body, for he was neither a large man nor strong or muscular. And it was precisely that frailty of body, paired with the strength of his mind, that made me love him so much.

     When we returned from the beach, exhausted, we would bathe; then, fragrant and with our bodies still silky from the oil, we would lie down and make love—sometimes wildly, at other times gently and delicately, taking our time—until we fell asleep in each other’s arms, forgetting even to have dinner. It is these days and nights that remain in my memory as the most beautiful of our relationship—a relationship that never changed.

     When he arrived home from work, very tired, I would prepare a whisky on the rocks for him. I would already have small candles lit in the fireplace and the music he loved playing on the record player. The whole house, awaiting my beloved, would be filled with the delicious aroma of dinner. After our bath—which we took together in our Jacuzzi—we would put on beautiful, colorful kimonos, tied at the waist with wide sashes. We would go down the wooden stairs for dinner, and after the stout Black woman from Bahia—who served us for so many years—had left, we would linger and talk for a while longer.

      I never considered myself an expert on any subject, even though I had read the Russian author’s entire body of work. That is the only thing I will say about myself. It is the three men in my life I wish to speak about.

     Gradually, I noticed that Eugenio would return from the hospital too exhausted for us to talk. We would simply drink. He would wait for the numbness to set in before going to bed. We no longer made love. He would wake up several times during the night. Irritated, he began taking sleeping pills. He started with one, then switched to stronger ones. From then on, hell opened its doors to await us. Bottles of liquor multiplied throughout the house until they reached our bedroom. I started drinking too—though, having little tolerance for alcohol, I drank less than he did. We would swing from initial euphoria to depression. The mornings were the worst. I would lie in bed while he dragged himself, reluctantly, toward the hospital.

       He stopped being a surgeon because his hands shook. He felt insecure.

      He would come home early, leaving messages with his office secretary claiming he had traveled to attend medical conferences.

       Our adult children visited less often; they couldn’t stand, among other things, the smell of alcohol that permeated the air. Even when they kissed us, I sensed a certain distaste. They would speak in hushed tones to our housekeeper before leaving, always looking worried. One day, Dr. Rosário—my husband’s best friend—came to visit; alerted by the children and concerned about Eugenio’s absence, he had come to check on us. He left with his head down, in silence.

     The closed blinds and curtains made it impossible to distinguish day from night. Life was different. It was still life, yet it increasingly resembled death—or rather, what we imagine death to be, since we do not know it and believe it to be a dreamless sleep. We had become pure, white, and crystal-clear, like the vodka we drank. Mirrors of each other.

      It was a day-night. Eugenio tumbled down the stairs. He hit his head. Sometime later, a tumor developed. Was it from the blow? I couldn’t say. Dr. Rosário had him admitted to a clinic outside the city. There he remained, sitting in a wheelchair. He stopped speaking; he no longer recognized me.

     He died there. I remained.

     I returned to freedom, overcome by a profound sadness.

     The other two times I encountered him, he was no longer the same man, nor was the love the same.

     To feel compassion, a space of separation is necessary. The other and I meet in a space that belongs to neither of us—a unique space. Only there can the encounter take place—the true encounter, that of a love rediscovered yet transformed.

I lived with the shadow of that first love for twice as long. A lifetime. I lived in a state of bewilderment regarding the world, myself, and those around me. Was I going mad? Or was this a form of consciousness different from the usual? Everything seemed devoid of truth, color, and meaning.

     I returned to life, but I was no longer the same. There was no evolution. The lost pleasure remained lost forever; it was impossible to replace. The first Eugenio remained always the same. Substitutes came along. Other pleasures arose, other experiences were lived, yet there was no progress—only change. Just one more element in the construction of the unknown.

       Now, as I grow older, I draw closer to that same love in a deeper way. Contrary to what one might expect—learning to step away and clear the path—I find myself moving ever closer to this third and final love, which is and will always be the first Eugenio.

“I change my life as one moves from shadow

to sun, or from sun to shadow, in a concrete instant

that establishes a difference—

physical, felt on the skin, a subtle difference,

yet a radical one—between the before and the after,

between the past and the future.”

Jorge Semprún

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Clarice Lispector (1920-1977) Romancista y contista brasileira judaica/Brazilian Jewish Novelist and Short-story Writer — “Amor”/”Love”– um conto/a story

Clarice Lispector

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Autora brasileña de origen judío-ucraniano, Clarice Lispector (1920-1977) llegó con su familia a Brasil cuando apenas contaba con dos años de edad. Estudió Derecho en la Facultad Nacional y trabajó, aunque de manera un tanto esporádica, como periodista para varios medios. Aunque ya había publicado varios cuentos y relatos con anterioridad, Lispector comenzó su carrera literaria a los 21 años con Cerca del corazón salvaje, obra que recibió el Premio Graça Aranha. A partir de ese momento, continuó escribiendo y colaborando con varios medios, pese a que sus constantes viajes —su marido era diplomático— le hicieron desarrollar su obra de manera inconstante. Tras separarse de su marido en 1950, Lispector volvió al ámbito periodístico y comenzó a destacar gracias a sus libros de relatos. En 1963 publicó La pasión según G.H., su novela más aclamada. Después de sobrevivir a un incendio en su casa que le produjo graves secuelas físicas, Lispector sufrió de depresión y su estado dio paso a una nueva etapa con obras como Un aprendizaje, Agua viva o La hora de la estrella, novela que fue llevada al cine en 1985. También comenzó a escribir relatos infantiles y siguió con su pasión por los cuentos cortos. Clarice Lispector murió de cáncer em 1977.

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Brazilian author of Jewish-Ukrainian origin, Clarice Lispector (1920-1977) left with her family in Brazil when she was only two years old. He studied Derecho at the National Faculty and worked, although somewhat sporadically, as a journalist for various media. Though she had published several stories and reports in the earlier, Lispector began her literary career at 21 years old with Cerca del Corazón Salvaje, a work that received the Graça Aranha Prize. From that moment on, she continued writing and collaborating with various media, despite her constant travels — her husband was a diplomat — which allowed her to develop her work in an inconsistent manner. After separating from her husband in 1950, Lispector returned to the journalistic sphere and began to stand out thanks to her books of reports. In 1963 She published La Pasión según G.H., her most acclaimed novel. After surviving a fire in her house that produced serious physical consequences, Lispector suffered from depression and his condition took him to a new stage with works such as An Apprenticeship, Agua Viva and The Hour of the Star, a novel that was shown in the cinema in 1985. She also began to write children’s stories and continued with his passion for the short accounts. Clarice Lispector died of cancer in 1977.

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“Amor”

Um pouco cansada, com as compras deformando o novo saco de tricô, Ana subiu no bonde. Depositou o volume no colo e o bonde começou a andar. Recostou-se então no banco procurando conforto, num suspiro de meia satisfação.

          Os filhos de Ana eram bons, uma coisa verdadeira e sumarenta. Cresciam, tomavam banho, exigiam para si, malcriados, instantes cada vez mais completos. A cozinha era enfim espaçosa, o fogão enguiçado dava estouros. O calor era forte no apartamento que estavam aos poucos pagando. Mas o vento batendo nas cortinas que ela mesma cortara lembrava-lhe que se quisesse podia parar e enxugar a testa, olhando o calmo horizonte. Como um lavrador. Ela plantara as sementes que tinha na mão, não outras, mas essas apenas. E cresciam árvores. Crescia sua rápida conversa com o cobrador de luz, crescia a água enchendo o tanque, cresciam seus filhos, crescia a mesa com comidas, o marido chegando com os jornais e sorrindo de fome, o canto importuno das empregadas do edifício. Ana dava a tudo, tranquilamente, sua mão pequena e forte, sua corrente de vida.

Certa hora da tarde era mais perigosa. Certa hora da tarde as árvores que plantara riam dela. Quando nada mais precisava de sua força, inquietava-se. No entanto sentia-se mais sólida do que nunca, seu corpo engrossara um pouco e era de se ver o modo como cortava blusas para os meninos, a grande tesoura dando estalidos na fazenda. Todo o seu desejo vagamente artístico encaminhara-se há muito no sentido de tornar os dias realizados e belos; com o tempo, seu gosto pelo decorativo se desenvolvera e suplantara a íntima desordem. Parecia ter descoberto que tudo era passível de aperfeiçoamento, a cada coisa se emprestaria uma aparência harmoniosa; a vida podia ser feita pela mão do homem.

No fundo, Ana sempre tivera necessidade de sentir a raiz firme das coisas. E isso um lar perplexamente lhe dera. Por caminhos tortos, viera a cair num destino de mulher, com a surpresa de nele caber como se o tivesse inventado. O homem com quem casara era um homem verdadeiro, os filhos que tivera eram filhos verdadeiros. Sua juventude anterior parecia-lhe estranha como uma doença de vida. Dela havia aos poucos emergido para descobrir que também sem a felicidade se vivia: abolindo-a, encontrara uma legião de pessoas, antes invisíveis, que viviam como quem trabalha — com persistência, continuidade, alegria. que sucedera a Ana antes de ter o lar estava para sempre fora de seu alcance: uma exaltação perturbada que tantas vezes se confundira com felicidade insuportável. Criara em troca algo enfim compreensível, uma vida de adulto. Assim ela o quisera e o escolhera.

          Sua precaução reduzia-se a tomar cuidado na hora perigosa da tarde, quando a casa estava vazia sem precisar mais dela, o sol alto, cada membro da família distribuído nas suas funções. Olhando os móveis limpos, seu coração se apertava um pouco em espanto. Mas na sua vida não havia lugar para que sentisse ternura pelo seu espanto – ela o abafava com a mesma habilidade que as lides em casa lhe haviam transmitido. Saía então para fazer compras ou levar objetos para consertar, cuidando do lar e da família à revelia deles. Quando voltasse era o fim da tarde e as crianças vindas do colégio exigiam-na. Assim chegaria a noite, com sua tranquila vibração.

          De manhã acordaria aureolada pelos calmos deveres. Encontrava os móveis de novo empoeirados e sujos, como se voltassem arrependidos. Quanto a ela mesma, fazia obscuramente parte das raízes negras e suaves do mundo. E alimentava anonimamente a vida. Estava bom assim. Assim ela o quisera e escolhera.  

O bonde vacilava nos trilhos, entrava em ruas largas. Logo um vento mais úmido soprava anunciando, mais que o fim da tarde, o fim do vento mais úmido soprava anunciando, mais que o fim da tarde, o fim da hora instável. Ana respirou profundamente e uma grande aceitação deu a seu rosto um ar de mulher.

O bonde se arrastava, em seguida estacava. Até Humaitá tinha tempo de descansar. Foi então que olhou para o homem parado no ponto.

A diferença entre ele e os outros é que ele estava realmente parado. De pé, suas mãos se mantinham avançadas. Era um cego.

O que havia mais que fizesse Ana se aprumar em desconfiança? Alguma coisa intranqüila estava sucedendo. Então ela viu: o cego mascava chicles… Um homem cego mascava chicles. Ana ainda teve tempo de pensar por um segundo que os irmãos viriam jantar — o coração batia-lhe violento, espaçado. Inclinada, olhava o cego profundamente, como se olha o que não nos vê. Ele mascava goma na escuridão. Sem sofrimento, com os olhos abertos. O movimento da mastigação fazia-o parecer sorrir e de repente deixar de sorrir, sorrir e deixar de sorrir — como se ele a tivesse insultado, Ana olhava-o. E quem a visse teria a impressão de uma mulher com ódio. Mas continuava a olhá-lo, cada vez mais inclinada — o bonde deu uma arrancada súbita jogando-a desprevenida para trás, o pesado saco de tricô despencou-se do colo, ruiu no chão — Ana deu um grito, o condutor deu ordem de parada antes de saber do que se tratava — o bonde estacou, os passageiros olharam assustados. Incapaz de se mover para apanhar suas compras, Ana se aprumava pálida. Uma expressão de rosto, há muito não usada, ressurgia-lhe com dificuldade, ainda incerta, incompreensível. O moleque dos jornais ria entregando-lhe o volume. Mas os ovos se haviam quebrado no embrulho de jornal. Gemas amarelas e viscosas pingavam entre os fios da rede. O cego interrompera a mastigação e avançava as mãos inseguras, tentando inutilmente pegar o que acontecia. O embrulho dos ovos foi jogado fora da rede e, entre os sorrisos dos passageiros e o sinal do XXX

Poucos instantes depois já não a olhavam mais.

O bonde se sacudia nos trilhos e o cego mascando goma ficara atrás para sempre. Mas o mal estava feito. A rede de tricô era áspera entre os dedos, não íntima como quando a tricotara. A rede perdera o sentido e estar num bonde era um fio partido; não sabia o que fazer com as compras no colo. E como uma estranha música, o mundo recomeçava ao redor. O mal estava feito. Por quê? Teria esquecido de que havia cegos? A piedade a sufocava Ana respirava pesadamente. Mesmo as coisas que existiam antes do acontecimento estavam agora de sobreaviso, tinham um ar mais hostil, perecível… O mundo se tornara de novo um mal-estar. Vários anos ruíam, as gemas amarelas escorriam. Expulsa de seus próprios dias, parecia-lhe que as pessoas da rua eram periclitantes, que se mantinham por um mínimo equilíbrio à tona da escuridão — e por um momento a falta de sentido deixava-as tão livres que elas não sabiam para onde ir. Perceber uma ausência de lei foi tão súbito que Ana se agarrou ao banco da frente, como se pudesse cair do bonde, como se as coisas pudessem ser revertidas com a mesma calma com que não o eram.

O que chamava de crise viera afinal. E sua marca era o prazer intenso com que olhava agora as coisas, sofrendo espantada. O calor se tornara mais abafado, tudo tinha ganho uma força e vozes mais altas. Na Rua Voluntários da Pátria parecia prestes a rebentar uma revolução, as grades dos esgotos estavam secas, o ar empoeirado. Um cego mascando chicles mergulhara o mundo em escura sofreguidão. Em cada pessoa forte havia a ausência de piedade pelo cego e as pessoas assustavam-na com o vigor que possuíam. Junto dela havia uma senhora de azul, com um rosto. Desviou o olhar, depressa. Na calçada, uma mulher deu um empurrão no filho! Dois namorados entrelaçavam os dedos sorrindo… E o cego? Ana caíra numa bondade extremamente dolorosa. Ela apaziguara tão bem a vida, cuidara tanto para que esta não explodisse. Mantinha tudo em serena compreensão, separava uma pessoa das outras, as roupas eram claramente feitas para serem usadas e podia-se escolher pelo jornal o filme da noite – tudo feito de modo a que um dia se seguisse ao outro. E um cego mascando goma despedaçava tudo isso. E através da piedade aparecia a Ana uma vida cheia de náusea doce, até a boca. Só então percebeu que há muito passara do seu ponto de descida. Na fraqueza em que estava, tudo a atingia com um susto; desceu do bonde com pernas débeis, olhou em torno de si, segurando a rede suja de ovo.

Por um momento não conseguia orientar-se. Parecia ter saltado no meio da noite. Era uma rua comprida, com muros altos, amarelos. Seu coração batia de medo, ela procurava inutilmente reconhecer os arredores, enquanto a vida que descobrira continuava a pulsar e um vento mais morno e mais misterioso rodeava-lhe o rosto. Ficou parada olhando о muro.     Enfim pôde localizar-se. Andando um pouco mais ao longo de uma sebe, atravessou os portões do Jardim Botânico. Andava pesadamente pela alameda central, entre os coqueiros. Não havia ninguém no Jardim. Depositou os embrulhos na terra, sentou-se no banco de um atalho e ali ficou muito tempo. A vastidão parecia acalmá-la, o silêncio regulava sua respiração. Ela adormecia dentro de si. De longe via a aléia onde a tarde era clara e redonda. Mas a penumbra dos ramos cobria o atalho.

Ao seu redor havia ruídos serenos, cheiro de árvores, pequenas surpresas entre os cipós. Todo o Jardim triturado pelos instantes já mais apressados da tarde. De onde vinha o meio sonho pelo qual estava rodeada? Como por um zunido de abelhas e aves. Tudo era estranho, suave demais, grande demais. Um movimento leve e íntimo a sobressaltou — voltou-se rápida. Nada parecia se ter movido. Mas na aléia central estava imóvel um poderoso gato. Seus pêlos eram macios. Em novo andar silencioso, desapareceu. Inquieta, olhou em torno. Os ramos se balançavam, as sombras vacilavam no chão. Um pardal ciscava na terra. E de repente, com malestar, pareceu-lhe ter caído numa emboscada. Fazia-se no Jardim um trabalho secreto do qual ela começava a se aperceber. Nas árvores as frutas eram pretas, doces como mel. Havia no chão caroços secos cheios de circunvoluções, como pequenos cérebros apodrecidos. O banco estava manchado de sucos roxos. Com suavidade intensa rumorejavam as águas. No tronco da árvore pregavam-se as luxuosas patas de uma aranha. A crueza do mundo era tranqüila. O assassinato era profundo. E a morte não era o que pensávamos. Ao mesmo tempo que imaginário — era um mundo de se comer com os dentes, um mundo de volumosas dálias e tulipas. Os troncos estar, pareceu-lhe ter caído numa emboscada. Fazia-se no Jardim um trabalho secreto do qual ela começava a se aperceber.

Nas árvores as frutas eram pretas, doces como mel. Havia no chão caroços secos cheios de circunvoluções, como pequenos cérebros apodrecidos. O banco estava manchado de sucos roxos. Com suavidade intensa rumorejavam as águas. No tronco da árvore pregavam-se as luxuosas patas de uma aranha. A crueza do mundo era tranqüila. O assassinato era profundo. E a morte não era o que pensávamos.

 Ao mesmo tempo que imaginário — era um mundo de se comer com os dentes, um mundo de volumosas dálias e tulipas. Os troncos eram percorridos por parasitas folhudas, o abraço era macio, colado. Como a repulsa que precedesse uma entrega — era fascinante, a mulher tinha nojo, e era fascinante.

As árvores estavam carregadas, o mundo era tão rico que apodrecia. Quando Ana pensou que havia crianças e homens grandes com fome, a náusea subiu-lhe à garganta, como se ela estivesse grávida e abandonada. A moral do Jardim era outra. Agora que o cego a guiara até ele, estremecia nos primeiros passos de um mundo faiscante, sombrio, onde vitórias-régias boiavam monstruosas. As pequenas flores espalhadas na relva não lhe pareciam amarelas ou rosadas, mas cor de mau ouro e escarlates. A decomposição era profunda, perfumada…

 Mas todas as pesadas coisas, ela via com a cabeça rodeada por um enxame de insetos enviados pela vida mais fina do mundo. A brisa se insinuava entre as flores. Ana mais adivinhava que sentia o seu cheiro adocicado… O Jardim era tão bonito que ela teve medo do Inferno. Era quase noite agora e tudo parecia cheio, pesado, um esquilo voou na sombra. Sob os pés a terra estava fofa, Ana aspirava-a com delícia. Era fascinante, e ela sentia nojo.

Mas quando se lembrou das crianças, diante das quais se tornara culpada, ergueu-se com uma exclamação de dor. Agarrou o embrulho, avançou pelo atalho obscuro, atingiu a alameda. Quase corria – e via о Jardim em torno de si, com sua impersonalidade soberba. Sacudiu os portões fechados, sacudia-os segurando a madeira áspera. O vigia apareceu espantado de não a ter visto.

Enquanto não chegou à porta do edifício, parecia à beira de um desastre. Correu com a rede até o elevador, sua alma batia-lhe no peito – o que sucedia? A piedade pelo cego era tão violenta como uma ânsia, mas o mundo lhe parecia seu, sujo, perecível, seu. Abriu a porta de casa. A sala era grande, quadrada, as maçanetas brilhavam limpas, os vidros da janela brilhavam, a lâmpada brilhava — que nova terra era essa? E por um instante a vida sadia que levara até agora pareceu-lhe um modo moralmente louco de viver. O menino que se aproximou correndo era um ser de pernas compridas e rosto igual ao seu, que corria e a abraçava. Apertou-o com força, com espanto. Protegia-se tremula. Porque a vida era periclitante. Ela amava o mundo, amava o que fora criado — amava com noção. Do mesmo modo como sempre fora fascinada pelas ostras, com aquele vago sentimento de asco que a aproximação da verdade Ihe provocava, avisando-a. Abraçou o filho, quase a ponto de machucá-lo. Como se soubesse de um mal — o cego ou o belo Jardim Botânicо? – agarrava-se a ele, a quem queria acima de tudo. Fora atingida pelo demônio da fé. A vida é horrível, disse-lhe baixo, faminta. O que faria se seguisse o chamado do cego? Iria sozinha… Havia lugares pobres e ricos que precisavam dela. Ela precisava deles..

Tenho medo, disse. Sentia as costelas delicadas da criança entre os braços, ouviu o seu choro assustado. Mamãe, chamou o menino. Afastou-o, olhou aquele rosto, seu coração crispou-se. Não deixe mamãe te esquecer, disse-lhe. A criança mal sentiu o abraço se afrouxar, escapou e correu até a porta do quarto, de onde olhou-a mais segura. Era o pior olhar que jamais recebera. O sangue subiu-lhe ao rosto, esquentando-o.

Deixou-se cair numa cadeira com os dedos ainda presos na rede. De que tinha vergonha? Não havia como fugir. Os dias que ela forjara haviam-se rompido na crosta e a água escapava.

Estava diante da ostra. E não havia como não olhá-la. De que tinha vergonha? E que já não era mais piedade, não era só piedade: seu coração se enchera com a pior vontade de viver. Já não sabia se estava do lado do cego ou das espessas plantas. O homem pouco a pouco se distanciara e em tortura ela parecia ter passado para o lados que lhe haviam ferido os olhos.

O Jardim Botânico, tranquilo e alto, Ihe revelava. Com horror descobria que pertencia à parte forte do mundo — e que nome se deveria dar a sua misericórdia violenta? Seria obrigada a beijar um leproso, pois nunca seria apenas sua irmã. Um cego me levou ao pior de mim mesma, pensou espantada. Sentia-se banida porque nenhum pobre beberia água nas suas mãos ardentes. Ah! era mais fácil ser um santo que uma pessoa! Por Deus, pois não fora verdadeira apieda este sentimento que se iria a uma igreja. Estou com medo, disse sozinha na sala. Levantou-se e foi para a cozinha ajudar a empregada a preparar o jantar.

Mas a vida arrepiava-a, como um frio. Ouvia o sino da escola, longe e constante. O pequeno horror da poeira ligando em fios a parte inferior do fogão, onde descobriu a pequena aranha. Carregando a jarra para mudar a água – havia o horror da flor se entregando lânguida e asquerosa às suas mãos. O mesmo trabalho secreto se fazia ali na cozinha. Perto da lata de lixo, esmagou com o pé a formiga. O pequeno assassinato da formiga. O mínimo corpo tremia. As gotas d’água caíam na água parada do tanque. Os besouros de verão.

O horror dos besouros inexpressivos. Ao redor havia uma vida silenciosa, lenta, insistente. Horror, horror. Andava de um lado para outro na cozinha, cortando os bifes, mexendo o creme. Em torno da cabeça, em ronda, em torno da luz, os mosquitos de uma noite cálida. Uma noite em que a piedade era tão crua como o amor ruim. Entre os dois seios escorria o suor. A fé ade que sondara no seu coração as águas mais profundas? Mas era uma piedade de leão.

Humilhada, sabia que o cego preferiria um amor mais pobre. Е, estremecendo, também sabia por quê. A vida do Jardim Botânico chamava-a como um lobisomem é chamado pelo luar. Oh! mas ela amava o cego! pensou com os olhos molhados. No entanto não era com quebrantava, o calor do forno ardia nos seus olhos.

Depois o marido veio, vieram os irmãos e suas mulheres, vieram os filhos dos irmãos.

Jantaram com as janelas todas abertas, no nono andar. Um avião estremecia, ameaçando no calor do céu. Apesar de ter usado poucos ovos, o jantar estava bom. Também suas crianças ficaram acordadas, brincando no tapete com as outras. Era verão, seria inútil obrigá-las a dormir. Ana estava um pouco pálida e ria suavemente com os outros.

Depois do jantar, enfim, a primeira brisa mais fresca entrou pelas janelas. Eles rodeavam a mesa, a família. Cansados do dia, felizes em não discordar, tão dispostos a não ver defeitos. Riam-se de tudo, com o coração bom e humano. As crianças cresciam admiravelmente em torno deles. E como a uma borboleta, Ana prendeu o instante entre os dedos antes que ele nunca mais fosse seu.

Depois, quando todos foram embora e as crianças já estavam deitadas, ela era uma mulher bruta que olhava pela janela. A cidade estava adormecida e quente. O que o cego desencadeara caberia nos seus dias? Quantos anos levaria até envelhecer de novo?

Qualquer movimento seu e pisaria numa das crianças. Mas com uma maldade de

Depois, quando todos foram embora e as crianças já estavam deitadas, ela era uma mulher bruta que olhava pela janela. A cidade estava adormecida e quente. O que o cego desencadeara caberia nos seus dias? Quantos anos levaria até envelhecer de novo?

Qualquer movimento seu e pisaria numa das crianças. Mas com uma maldade de amante, parecia aceitar que da flor saísse o mosquito, que as vitóriasrégias boiassem no escuro do lago. O cego pendia entre os frutos do Jardim Botânico.

Se fora um estouro do fogão, o fogo já teria pegado em toda a casa! pensou correndo para a cozinha e deparando com o seu marido diante do café derramado.

– O que foi?! gritou vibrando toda.

Ele se assustou com o medo da mulher. E de repente riu entendendo: – Não foi nada, disse, sou um desajeitado. Ele parecia cansado, com olheiras. Mas diante do estranho rosto de Ana, espiou-a com maior atenção.

Depois, quando todos foram embora e as crianças já estavam deitadas, ela era uma mulher bruta que olhava pela janela. A cidade estava adormecida e quente. O que o cego desencadeara caberia nos seus dias? Quantos anos levaria até envelhecer de novo? Qualquer movimento seu e pisaria numa das crianças. Mas com uma maldade de amante, parecia aceitar que da flor saísse o mosquito, que as vitórias-régias boiassem no escuro do lago. O cego pendia entre os frutos do Jardim Botânico.

Se fora um estouro do fogão, o fogo já teria pegado em toda a casa! pensou correndo para a cozinha e deparando com o seu marido diante do café derramado.

– O que foi?! gritou vibrando toda.

Ele se assustou com o medo da mulher. E de repente riu entendendo:

– Não foi nada, disse, sou um desajeitado. Ele parecia cansado, com olheiras.

Mas diante do estranho rosto de Ana, espiou-a com maior atenção. Depois atraiu-a a si, em rápido afago.

– Não quero que lhe aconteça nada, nunca! disse ela.

– Deixe que pelo menos me aconteça o fogão dar um estouro, respondeu ele sorrindo.

Ela continuou sem força nos seus braços. Hoje de tarde alguma coisa tranqüila se rebentara, e na casa toda havia um tom humorístico, triste. É hora de dormir, disse ele, é tarde. Num gesto que não era seu, mas que pareceu natural, segurou a mão da mulher, levando-a consigo sem olhar para trás, afastando-a do perigo de viver.

Acabara-se a vertigem de bondade.

E, se atravessara o amor e o seu inferno, penteava-se agora diante do espelho, por um instante sem nenhum mundo no coração. Antes de se deitar, como se apagasse uma vela, soprou a pequena flama do dia.

Fim

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“Love”

A little tired, the groceries stretching out her new knit sack, Ana boarded the tram.

She placed the bundle in her lap and the tram began to move. She then settled back in her seat trying to get comfortable, with a half-contented sigh.

Ana’s children were good, something true and succulent. They were growing up, taking their baths, demanding for themselves, misbehaved, ever more complete moments. The kitchen was after all spacious, the faulty stove gave off small explosions. The heat was stifling in the apartment they were paying off bit by bit. But the wind whipping the curtains she herself had cut to measure reminded her that if she wanted she could stop and wipe her brow, gazing at the calm horizon. Like a farmhand. She had sown the seeds she had in her hand, no others, but these alone. And trees were growing. Her brief conversation with the electric bill collector was growing, the water in the laundry sink was growing, her children were growing, the table with food was growing, her husband coming home with the newspapers and smiling with hunger, the tiresome singing of the maids in the building. Ana gave to everything, tranquilly, her small, strong hand, her stream of life.

A certain hour of the afternoon was more dangerous. A certain hour of the afternoon the trees she had planted would laugh at her. When nothing else needed her strength, she got worried. Yet she felt more solid than ever, her body had filled out a bit and it was a sight to see her cut the fabric for the boys’ shirts, the large scissors snapping on the cloth. All her vaguely artistic desire had long since been directed toward making the days fulfilled and beautiful; over time, her taste for the decorative had developed and supplanted her inner disorder. She seemed to have discovered that everything could be perfected, to each thing she could lend a harmonious appearance; life could be wrought by the hand of man.

Deep down, Ana had always needed to feel the firm root of things. And this is what a home bewilderingly had given her. Through winding paths, she had fallen into a woman’s fate, with the surprise of fitting into it as if she had invented it. The man she’d married was a real man, the children she’d had were real children. Her former youth seemed as strange to her as one of life’s illnesses. She had gradually emerged from it to discover that one could also live without happiness: abolishing it, she had found a legion of people, previously invisible, who lived the way a person works – with persistence, continuity, joy. What had happened to Ana before she had a home was forever out of reach: a restless exaltation so often mistaken for unbearable happiness. In exchange she had created something at last comprehensible, an adult life. That was what she had wanted and chosen.

The only thing she worried about was being careful during that dangerous hour of the afternoon, when the house was empty and needed nothing more from her, the sun high, the family members scattered to their duties. As she looked at the clean furniture, her heart would contract slightly in astonishment. But there was no room in her life for feeling tender toward her astonishment – she’d smother it with the same skill the household chores had given her. Then she’d go do the shopping or get something repaired, caring for her home and family in their absence. When she returned it would be the end of the afternoon and the children home from school needed her. In this way night would fall, with its peaceful vibration. In the morning she’d awake haloed by her calm duties. She’d find the furniture dusty and dirty again, as if repentantly come home. As for herself, she obscurely participated in the gentle black roots of the world. And nourished life anonymously. That was what she had wanted and chosen.

The tram went swaying along the tracks, heading down broad avenues. Soon a more humid breeze blew announcing, more than the end of the afternoon, the end of the unstable hour. Ana breathed deeply and a great acceptance gave her face a womanly air.

The tram would slow, then come to a halt. There was time to relax before Humaita. That was when she looked at the man standing at the tram stop.

The difference between him and the others was that he really was stopped. Standing there, his hands reaching in front of him. He was blind.

What else could have made Ana sit up warily? Something uneasy was happening. Then she saw: the blind man was chewing gum . . . A blind man was chewing gum.

Ana still had a second to think about how her brothers were coming for dinner – her heart beat violently, at intervals. Leaning forward, she stared intently at the blind man, the way we stare at things that don’t see us. He was chewing gum in the dark. Without suffering, eyes open. The chewing motion made it look like he was smiling and then suddenly not smiling, smiling and not smiling – as if he had insulted her, Ana stared at him. And whoever saw her would have the impression of a woman filled with hatred. But she kept staring at him, leaning further and further forward – the tram suddenly lurched throwing her unexpectedly backward, the heavy knit sack tumbled from her lap, crashed to the floor – Ana screamed, the conductor gave the order to stop before he knew what was happening – the tram ground to a halt, the passengers looked around frightened.

Unable to move to pick up her groceries, Ana sat up, pale. A facial expression, long unused, had reemerged with difficulty, still tentative, incomprehensible. The paperboy laughed while returning her bundle. But the eggs had broken inside their newspaper wrapping. Viscous, yellow yolks dripped through the mesh. The blind man had interrupted his chewing and was reaching out his uncertain hands, trying in vain to grasp what was happening. The package of eggs had been thrown from the bag and, amid the passengers’ smiles and the conductor’s signal, the tram lurched back into motion.

A few seconds later nobody was looking at her. The tram rumbled along the tracks and the blind man chewing gum stayed behind forever. But the damage was done.

The knit mesh was rough between her fingers, not intimate as when she had knit it. The mesh had lost its meaning and being on a tram was a snapped thread; she didn’t know what to do with the groceries on her lap. And like a strange song, the world started up again all around. The damage was done. Why? could she have forgotten there were blind people? Compassion was suffocating her, Ana breathed heavily. Even the things that existed before this event were now wary, had a more hostile, perishable aspect . . . The world had become once again a distress. Several years were crashing down, the yellow yolks were running. Expelled from her own days, it seemed to her that the people on the street were in peril, kept afloat on the surface of the darkness by a minimal balance – and for a moment the lack of meaning left them so free they didn’t know where to go. The perception of an absence of law happened so suddenly that Ana clutched the seat in front of her, as if she might fall off the tram, as if things could be reverted with the same calm they no longer held.

What she called a crisis had finally come. And its sign was the intense pleasure with which she now looked at things, suffering in alarm. The heat had become more stifling, everything had gained strength and louder voices. On the Rua Voluntarios da Patria a revolution seemed about to break out, the sewer grates were dry, the air dusty. A blind man chewing gum had plunged the world into dark voraciousness. In every strong person there was an absence of compassion for the blind man and people frightened her with the vigor they possessed. Next to her was a lady in blue, with a face. She averted her gaze, quickly. On the sidewalk, a woman shoved her son! Two lovers interlaced their fingers smiling . . . And the blind man? Ana had fallen into an excruciating benevolence.

She had pacified life so well, taken such care for it not to explode. She had kept it all in serene comprehension, separated each person from the rest, clothes were clearly made to be worn and you could choose the evening movie from the newspaper – everything wrought in such a way that one day followed another. And a blind man chewing gum was shattering it all to pieces. And through this compassion there appeared to Ana a life full of sweet nausea, rising to her mouth.

Only then did she realize she was long past her stop. In her weak state everything was hitting her with a jolt; she left the tram weak in the knees, looked around, clutching the eggstained mesh. For a moment she couldn’t get her bearings. She seemed to have stepped off into the middle of the night.

It was a long street, with high, yellow walls. Her heart pounding with fear, she sought in vain to recognize her surroundings, while the life she had discovered kept pulsating and a warmer, more mysterious wind whirled round her face. She stood there looking at the wall. At last she figured out where she was. Walking a little further along a hedge, she passed through the gates of the Botanical Garden.

She trudged down the central promenade, between the coconut palms. There was no one in the Garden. She put her packages on the ground, sat on a bench along a path and stayed there a long while.

The vastness seemed to calm her, the silence regulated her breathing. She was falling asleep inside herself.

From a distance she saw the avenue of palms where the afternoon was bright and full.

But the shade of the branches covered the path.

All around were serene noises, scent of trees, little surprises among the vines. The whole Garden crushed by the ever faster instants of the afternoon. From where did that half-dream come that encircled her? Like a droning of bees and birds. Everything was strange, too gentle, too big.

A light, intimate movement startled her – she spun around. Nothing seemed to have moved. But motionless in the central avenue stood a powerful cat. Its fur was soft. Resuming its silent walk, it disappeared.

Worried, she looked around. The branches were swaying, the shadows wavering on the ground. A sparrow was pecking at the dirt. And suddenly, in distress, she seemed to have fallen into an ambush. There was a secret labor underway in the Garden that she was starting to perceive.

In the trees the fruits were black, sweet like honey. On the ground were dried pits full of circumvolutions, like little rotting brains. The bench was stained with purple juices. With intense gentleness the waters murmured. Clinging to the tree trunk were the luxuriant limbs of a spider. The cruelty of the world was tranquil. The murder was deep. And death was not what we thought.

While imaginary – it was a world to sink one’s teeth into, a world of voluminous dahlias and tulips. The trunks were crisscrossed by leafy parasites, their embrace was soft, sticky. Like the revulsion that precedes a surrender – it was fascinating, the woman was nauseated, and it was fascinating.

The trees were laden, the world was so rich it was rotting. When Ana thought how there were children and grown men going hungry, the nausea rose to her throat, as if she were pregnant and abandoned. The moral of the Garden was something else. Now that the blind man had led her to it, she trembled upon the first steps of a sparkling, shadowy world, where giant water lilies floated monstrous. The little flowers scattered through the grass didn’t look yellow or rosy to her, but the color of bad gold and scarlet. The decomposition was deep, perfumed . . . But all the heavy things, she saw with her head encircled by a swarm of insects, sent by the most exquisite life in the world. The breeze insinuated itself among the flowers. Ana sensed rather than smelled its sweetish scent . . . The Garden was so pretty that she was afraid of Hell.

It was nearly evening now and everything seemed full, heavy, a squirrel leaped in the shadows. Beneath her feet the earth was soft, Ana inhaled it with delight. It was fascinating, and she felt nauseated.

But when she remembered the children, toward whom she was now guilty, she stood with a cry of pain. She grabbed her bag, went down the dark path, reached the promenade. She was nearly running – and she saw the Garden all around, with its haughty impersonality. She rattled the locked gates, rattled them gripping the rough wood. The guard appeared, shocked not to have seen her.

Until she reached the door of her building, she seemed on the verge of a disaster. She ran to the elevator clutching the mesh sack, her soul pounding in her chest – what was happening? Her compassion for the blind man was as violent as an agony, but the world seemed to be hers, dirty, perishable, hers. She opened her front door. The living room was large, square, the doorknobs were gleaming spotlessly, the windowpanes gleaming, the lamp gleaming – what new land was this? And for an instant the wholesome life she had led up till now seemed like a morally insane way to live. The boy who ran to her was a being with long legs and a face just like hers, who ran up and hugged her. She clutched him tightly, in alarm. She protected herself trembling. Because life was in peril. She loved the world, loved what had been created – she loved with nausea. The same way she’d always been fascinated by oysters, with that vaguely sick feeling she always got when nearing the truth, warning her. She embraced her son, nearly to the point of hurting him. As if she had learned of an evil – the blind man or the lovely Botanical Garden? – she clung to him, whom she loved more than anything. She had been touched by the demon of faith. Life is horrible, she said to him softly, ravenous. What would she do if she heeded the call of the blind man? She would go alone . . . There were places poor and rich that needed her. She needed them . . . I’m scared, she said. She felt the child’s delicate ribs between her arms, heard his frightened sobbing. Mama, the boy called. She held him away from her, looked at that face, her heart cringed. Don’t let Mama forget you, she told him. As soon as the child felt her embrace loosen, he broke free and fled to the bedroom door, looking at her from greater safety. It was the worst look she had ever received. The blood rushed to her face, warming it.

She let herself fall into a chair, her fingers still gripping the mesh sack. What was she ashamed of?

There was no escape. The days she had forged had ruptured the crust and the water was pouring out. She was facing the oyster. And there was no way not to look at it. What was she ashamed of? That it was no longer compassion, it wasn’t just compassion: her heart had filled with the worst desire to live.

She no longer knew whether she was on the side of the blind man or the dense plants. The man had gradually receded into the distance and in torture she seemed to have gone over to the side of whoever had wounded his eyes. The Botanical Garden, tranquil and tall, was revealing this to her. In horror she was discovering that she belonged to the strong part of the world – and what name should she give her violent mercy? She would have to kiss the leper, since she would never be just his sister. A blind man led me to the worst in myself, she thought in alarm. She felt banished because no pauper would drink water from her ardent hands. Ah! it was easier to be a saint than a person! By God, hadn’t it been real, the compassion that had fathomed the deepest waters of her heart? But it was the compassion of a lion.

Humiliated, she knew the blind man would prefer a poorer love. And, trembling, she also knew why. The life of the Botanical Garden was calling her as a werewolf is called by the moonlight. Oh! but she loved the blind man! she thought with moist eyes. Yet this wasn’t the feeling you’d go to church with. I’m scared, she said alone in the living room. She got up and went to the kitchen to help the maid with dinner.

But life made her shiver, like a chill. She heard the school bell, distant and constant. The little horror of the dust threading together the underside of the oven, where she discovered the little spider. Carrying the vase to change its water – there was the horror of the flower surrendering languid and sickening to her hands. The same secret labor was underway there in the kitchen. Near the trash can, she crushed the ant with her foot. The little murder of the ant. The tiny body trembled. The water droplets were dripping into the stagnant water in the laundry sink. The summer beetles. The horror of the inexpressive beetles. All around was a silent, slow, persistent life. Horror, horror. She paced back and forth across the kitchen, slicing the steaks, stirring the sauce. Round her head, circling, round the light, the mosquitoes of a sweltering night. A night on which compassion was raw as bad love. Between her two breasts sweat slid down. Faith was breaking her, the heat of the stove stung her eyes.

Then her husband arrived, her brothers and their wives arrived, her brothers’ children arrived.

They ate dinner with all the windows open, on the ninth floor. An airplane went shuddering past, threatening in the heat of the sky. Though made with few eggs, the dinner was good. Her children stayed up too, playing on the rug with the others. It was summer, it would be pointless to send them to bed. Ana was a little pale and laughed softly with the others.

After dinner, at last, the first cooler breeze came in through the windows. They sat around the table, the family. Worn out from the day, glad not to disagree, so ready not to find fault. They laughed at everything, with kind and human hearts. The children were growing up admirably around them. And as if it were a butterfly, Ana caught the instant between her fingers before it was never hers again.

Later, when everyone had gone and the children were already in bed, she was a brute woman looking out the window. The city was asleep and hot. Would whatever the blind man had unleashed fit into her days? How many years would it take for her to grow old again? The slightest movement and she’d trample one of the children. But with a lover’s mischief, she seemed to accept that out of the flower emerged the mosquito, that the giant water lilies floated on the darkness of the lake. The blind man dangled among the fruits of the Botanical Garden.

If that was the oven exploding, the whole house would already be on fire! she thought rushing into the kitchen and finding her husband in front of the spilled coffee.

“What happened?!” she screamed vibrating all over.

He jumped at his wife’s fright. And suddenly laughed in comprehension:

“It was nothing,” he said, “I’m just clumsy.” He looked tired, bags under his eyes.

But encountering Ana’s strange face, he peered at her with greater attention. Then he drew her close, in a swift caress.

“I don’t want anything to happen to you, ever!” she said.

“At least let the oven explode at me,” he answered smiling.

She stayed limp in his arms. This afternoon something tranquil had burst, and a humorous, sad tone was hanging over the house. “Time for bed,” he said, “it’s late.” In a gesture that wasn’t his, but that seemed natural, he held his wife’s hand, taking her along without looking back, removing her from the danger of living.

The dizziness of benevolence was over.

And, if she had passed through love and its hell, she was now combing her hair before the mirror, for an instant with no world at all in her heart. Before going to bed, as if putting out a candle, she blew out the little flame of the day.

The End

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Fayga Ostrower (1920-2001)– Gravadora, pintora, desenhista, ilustradora, teórica da arte e professora judea brasileira–Grabadora, pintora, diseñadora, ilustradora, teória del arte y profesora judío-brasileña–Brazilian Jewish-engraver, painter, designer, illustrator, art theorist and teacher

Fayga Ostrower

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Fayga Ostrower foi nascida em 1920 na cidade de Lodz, Polônia. Gravadora, pintora, desenhista, ilustradora, teórica da arte e professora, Fayga Ostrower chegou ao Rio de Janeiro em 1934. Cursou Artes Gráficas na Fundação Getúlio Vargas Entre os anos de 1954 e 1970, desenvolveu atividades docentes na disciplina de Composição e Análise Crítica no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. No decorrer da década de 60, lecionou no Spellman College, em Atlanta, EUA; na Slade School da Universidade de Londres, Inglaterra, e, posteriormente, como professora de pós-graduação, em várias universidades brasileiras. Foi presidente da Associação Brasileira de Artes Plásticas entre 1963 e 1966. De 1978 a 1982, presidiu a comissão brasileira da International Society of Education through Art, INSEA, da Unesco. Fez parte do Conselho Estadual de Cultura do Rio de Janeiro de 1982 a 1988. Em 1972, foi agraciada com a condecoração Ordem do Rio Branco. Em 1998, foi condecorada com o Prêmio do Mérito Cultural pelo Presidente da República do Brasil. Em 1999, recebeu o Grande Prêmio de Artes Plásticas do Ministério da Cultura. Faleceu no Rio de Janeiro, em 2001.

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Fayga Ostrower nació en 1920 en Lodz, Polonia. Grabadora, pintora, diseñadora, ilustradora, teórica del arte y profesora, llegó a Río de Janeiro en 1934. Estudió Artes Gráficas en la Fundación Getúlio Vargas. Entre 1954 y 1970, impartió clases de Composición y Análisis Crítico en el Museo de Arte Moderno de Río de Janeiro. Durante la década de 1960, impartió clases en el Spellman College de Atlanta, EE. UU.; en la Slade School de la Universidad de Londres, Inglaterra; y posteriormente, como profesora de posgrado en varias universidades brasileñas. Fue presidenta de la Asociación Brasileña de Artes Visuales de 1963 a 1966. De 1978 a 1982, presidió el comité brasileño de la Sociedad Internacional de Educación por el Arte (INSEA) de la UNESCO. Fue miembro del Consejo de Cultura del Estado de Río de Janeiro de 1982 a 1988. En 1972, recibió la Orden de Río Branco. En 1998, recibió el Premio al Mérito Cultural del Presidente de la República de Brasil. En 1999, recibió el Gran Premio de Artes Visuales del Ministerio de Cultura. Falleció en Río de Janeiro en 2001.

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Fayga Ostrower was born in 1920 in Lodz, Poland. Engraver, painter, designer, illustrator, art theorist and teacher, she arrived in Río de Janeiro in 1934. She studied Graphic Arts at the Fundación Getúlio Vargas. Between 1954 and 1970, she taught Composition and Critical Analysis at the Museum of Modern Art in Río de Janeiro. During the 1960s, she taught classes at Spellman College in Atlanta, EE. UU.; at the Slade School at the University of London, England; and later, as a postgraduate professor at several Brazilian universities. She was president of the Brazilian Association of Visual Arts from 1963 to 1966. From 1978 to 1982, she chaired the Brazilian committee of the International Society of Education for Art (INSEA) of UNESCO. She was a member of the Consejo de Cultura del Estado de Río de Janeiro from 1982 to 1988. In 1972, Ostrower received the Order of Río Branco. In 1998, she received the Cultural Merit Award from the President of the Republic of Brazil. In 1999, she received the Grand Prize for Visual Arts from the Ministry of Culture. She died in Río de Janeiro in 2001.

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Grabados/Engravings

Faces

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Paintings/Pinturas

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Livros/Libros/Books by Fayga Ostrower

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Natalia Timerman–Romancista judaica brasileira/Brazilian Jewish Novelist –“As pequenas chances”/”The Little Chances” — fragmento de a romance sobre a morte de seu pai/excerpt from the novel about her father’s death

Natalia Timerman

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Natalia Timerman (São Paulo, 1981) is a Brazilian psychiatrist, psychotherapist, literary critic, researcher and writer. He has a degree in medicine from the Federal University of São Paulo, a master’s degree in clinical psychology from the University of São Paulo and a specialization in writing from the Vera Cruz Institute. He worked as a psychiatrist at the Penitentiary System Hospital Center for more than a decade. She is a columnist for UNIVERSA and a contributor to the magazines Quatro Cinco Um and CULT. Her debut book was Desterros, praised for humanizing São Paulo’s prison system. The work brought to the public the experience of employees and inmates who passed through the Hospital Center of the Penitentiary System. His second book is a collection of fiction short stories, Rachaduras, a finalist for the 62nd Jabuti Prize, published by Quelônio. In the book, the author observes the city and everyday neuroses in the urban environment. Rachaduras deals with motherhood and the contradictions of being a mother. In 2021, she published her first novel with Todavia, Copo Vazio, one of the best sellers of 2021, a book that deals with the difficulty of establishing true emotional relationships in the era of apps and social networks. In 2022, she published, alongside psychoanalyst Bel Tatit, her first book of children’s literature Os óculos de Lucas, under the Brinque-Book label. In 2023, she published the novel, As Pequenas Chances, with Todavia. The work was inspired by the author’s experience with the death of her father, the infectious disease doctor and writer Artur Timerman, the grief she experienced and her relationship with Judaism.

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Artur e Natalia Timerman

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Demoro alguns segundos para entender de onde aquele rosto me é familiar, em um contexto tão diferente, o aeroporto, e já passados tantos anos de quando o havia visto pela última vez, no hospital, um dia antes da morte do meu pai. Devo ter sorrido; ele também sorri e se aproxima de mim um pouco mais, um tanto mudado, mas só depois penso que ele me reconheceu mais rápido, o que é estranho, ou deveria ser, pois os médicos têm milhares de pacientes, e os pacientes e seus familiares, apenas um médico em cada situação. Ainda que meu pai fosse médico e eu também; durante aqueles dias, éramos pacientes, ou melhor, meu pai era o paciente do dr. Felipe, médico de cuidados paliativos, e eu, apenas a filha de um homem com uma doença terminal.

É claro que ele não se lembra do meu nome, penso, postada diante dele na fila do café, surpresa com aquele encontro; penso em dizê-lo eu mesma, evitando algum constrangimento, se é que seria constrangedor um médico se esquecer do nome da filha do seu paciente tantos anos depois. Mas não digo nada; sorrio de volta — ou antes, ou ao mesmo tempo —, um sorriso triste, porque esse encontro, essa presença, remete de imediato àqueles dias, já passados faz tanto tempo, mas a morte não passa, ela continua, continua, continua.

O contato com o dr. Felipe nas últimas semanas de vida do meu pai foi tão constante que, nos dias seguintes à sua morte, tive diversas vezes o ímpeto de ligar para ele de novo, como se seu paciente ainda existisse, ou como se falar com o médico pudesse fazer que o paciente continuasse ou voltasse a existir, resolvesse o engano, porque no início (e até hoje, em alguns momentos, quando olho com atenção alguma foto do meu pai, seu rosto tão conhecido, o gesto congelado na imagem, que poderia do lado de fora da foto continuar a se mover, falar, viver) tive a forte impressão de que aquilo era algum tipo de equívoco — morrer, meu pai morrer, palavras que não combinam, que até hoje tenho dificuldade de ver juntas.

Ou como se o dr. Felipe pudesse agora cuidar não da dor do meu pai, que já não existia, mas da minha, da minha dor de não haver mais a dor e a vida do meu pai. Alô, Felipe (eu o chamava pelo nome, nunca consegui chamá-lo de doutor, talvez porque eu mesma odeie ser chamada de doutora), aqui é a Natalia, filha do Artur, bom dia, tudo bem?; então, Felipe, o Artur já não existe, mas eu ainda existo, você poderia me ajudar?; aliás, por acaso ainda sou filha dele?; como é ser filha de alguém que já não está?; não sinto dor, ou melhor, sinto muita, mas não aquela dor insuportável que meu pai sentiu nos últimos meses, aquela para a qual você prescreveu morfina e pregabalina e doses impensáveis de dipirona e depois, como nada disso adiantasse, patches de fentanil; não, minha dor é outra, também insuportável, mas vem em ondas, e, quando vem, é como se me estrangulasse, tirasse meu prumo, e tomo consciência da aberração do meu corpo, de ter um corpo, em um mundo no qual meu pai não existe mais, e percebo meus braços vazios, que o calor do abraço do meu pai já não está, nunca mais estará, e meus braços pendem, murchos, levando meus ombros para baixo, e minha cabeça olha para o chão, onde alguns dias atrás enterramos meu pai, eu ajudei a enterrá-lo, joguei três pás de terra por sobre seu caixão e depois finquei a pá na terra revolvida para que outra pessoa a tomasse e cumprisse o mesmo ritual, como manda o judaísmo, e eu, que nunca fui judia, quer dizer, que desde a adolescência ignorei a religião da minha família, me vi de repente cumprindo cada ritual com um alívio impensável alguns meses antes, como se tudo que eu quisesse ou precisasse naquele momento fosse que simplesmente me dissessem como me portar ou o que fazer, que me dessem uma lista de tarefas para existir.

Meu pai morreu num sábado de manhã, às 9h43, no Shabat. E então fomos para casa enquanto o corpo dele ficava na morgue do hospital, esperando ser levado para o cemitério na manhã do dia seguinte, pois durante o Shabat se deve descansar, esta é uma das leis máximas do judaísmo: não fazer esforços, não dirigir carros, não velar corpos ou transportar caixões.

Foi um dia estranho. Meu pai havia morrido, e cada coisa continuava no lugar. Na rua, na praça cheia de árvores na frente de casa, onde os meninos brincam, tudo permanecia do mesmo jeito, se movimentando, as árvores, os pássaros, os barulhos, os carros no asfalto, tudo igual, mas havia um silêncio por trás das coisas. A morte é um silêncio, atrás de cada som há esse silêncio, o telefone que nunca mais vai tocar, sua voz calada, nunca mais a singela mensagem Na/Posso ligar?, e eu nunca mais vou poder ligar direto em vez de responder que sim, pode, pai, porque você não pode mais ligar, eu não posso mais falar com você, e no entanto, tudo como se continuasse.

Gabi veio para minha casa. Minha irmã é engenheira naval, uma profissão que precisa de mar para ser exercida, e há muitos anos não mora mais em São Paulo. Ela sempre ficava na casa do nosso pai quando estava na cidade, mas agora não, agora não mais, não há mais casa do nosso pai, aliás, ainda havia, naquele dia, mas sem nosso pai, que é o mesmo que não haver mais casa dele. Minha irmã passou o dia deitada em silêncio, mal comeu, mal bebeu, mal podia andar.

Ao sairmos do hospital, deixando para trás o corpo, pegamos suas malas. Gabi tinha vindo direto de viagem e, desde que chegara, não arredara pé do quarto do nosso pai, que número era?, já não me lembro, nem em que andar, décimo, sexto? Ela não tinha forças para carregar as malas, ela quase não tinha forças para carregar a si mesma.

Tinha sido assim no enterro e na cerimônia um pouco antes. Minha irmã não conseguia ficar de pé. Alguém veio me perguntar se ela havia tomado algum remédio, já não lembro quem, algum amigo dela. Não havia, simplesmente a força se esvaíra do seu corpo. Ao lado do meu pai até o último instante — Gabi estava com ele quando o coração parou de bater; foi ela quem, de pé junto do leito, enquanto uma enfermeira lhe dava banho, percebeu que ele havia parado de respirar —, ao lado do meu pai ela estava firme. E nos telefonou com uma voz doce, calma, papai descansou, mas assim que saímos de perto dele, assim que nos pediram que levássemos todas as coisas do quarto do hospital pois viriam retirar o corpo, ela desmoronou. 

Gabi também cumpriu os rituais judaicos. Não sei quanto ao meu irmão; ela e eu, tudo que nos orientavam a seguir, seguíamos. E aquilo fazia sentido, pela primeira vez me senti amparada pela religião, não por Deus, mas pelos meus antepassados, que conheciam a dor que eu sentia e haviam inventado rituais que tentavam acolhê-la, amenizá-la, circunscrevê-la. O mero fato de que havia regras para a Shivá, a primeira semana de luto, que se inicia depois do enterro, parecia me dizer que a dor, por mais excruciante que fosse, por mais que bagunçasse o sentido de tudo, era conhecida e, de alguma forma, natural. 

Foi necessário segurar minha irmã pelo braço para que ela conseguisse ficar de pé diante do rabino, na pequena reza antes do enterro. Havia tanta gente no espaço que o caixão do meu pai ficou no salão de rezas (era uma sinagoga? Não sei, essas horas passadas no cemitério estão todas um pouco borradas), e não nas salinhas do cemitério judaico destinadas aos velórios. Ficamos sentados nas cadeiras da frente — minha irmã, eu, meu irmão, a mulher do meu pai, a filha dela. Um terrível privilégio, esse lugar da frente: bem diante da dor, o lugar da dor. Gabi ficou sentada quase o tempo todo; eu me levantava, ia beber água, sentia uma sede terrível, pegava água para minha irmã, ou alguém aparecia com um copo cheio para cada uma, e eu andava para lá e para cá, perdida.

Eu recebia abraços e, tonta de um cansaço antigo, descobria só depois de separados os troncos quem havia abraçado. Às vezes os rostos eram desconhecidos, mas os abraços me pareciam bons, quentes, um lugar onde eu queria simplesmente dormir. Ou via o rosto de alguém que me lembrava de uma época da minha vida, da vida do meu pai, o cara com quem ele trabalhou durante toda a minha infância, mais magro, muito mais velho, menor que a imagem que eu tinha dele, e então, ao abraçá-lo, chorava de novo, e mais, enquanto o sentia triste, porém rijo, como se estivesse me segurando e amparando meu choro. 

Havia quem começasse a chorar já ao me ver, algumas amigas que gostavam muito do meu pai e que misturavam seu choro ao meu quando nos abraçávamos. Esses eram os melhores abraços, eu me sentia um pouco fora de mim, como se parte minha estivesse com elas, e isso me proporcionava algum tipo de alívio, elas sentindo no meu lugar, me oferecendo um descanso do insuportável.

Havia também os abraços protocolares. Não eram ruins; cumpriam seu papel, e cumprir papéis preenche espaços vazios, em geral um pouco estranhos, tanto mais naquela situação.  Havia quem abraçasse demais, não sei por quê, e isso não tinha a ver com a intimidade prévia nem com algum critério, se pudessem existir critérios de abraço; eram abraços que pediam mais do que davam, e naquela hora eu simplesmente não tinha nada a oferecer. Havia quem me abraçasse com os olhos, de longe, por não conseguir se aproximar muito, seja pela falta de espaço, seja porque não houvesse caminho. Havia tantas partes da minha vida ali, no enterro do meu pai, na presença de tanta gente e do tempo espalhado naquelas pessoas, mas aquilo era um absurdo, havia algo que não se encaixava, tantos amigos de épocas diferentes da vida do meu pai, seria tão óbvio que justo ele estivesse ali, mas não: aquilo estava acontecendo justo porque ele não estava mais.

2

Ari, o mais velho dos cinco filhos de Jacó e Feyga (mais conhecida como Fani) — dos quais Artur, meu pai, era o terceiro —, veio me perguntar se eu queria discursar na cerimônia. Algum dos familiares próximos teria de dizer algo sobre o morto, fazer um pequeno discurso sobre a vida e as ações de quem morreu, da mesma forma que o patriarca Abraão fez pela esposa Sara, vim a saber bem depois. Percebi que não, eu não queria falar nada, mas disse que sim, pois é o que meu pai faria. Meu pai falaria. Não me lembro da ordem da cerimônia, não me lembro exatamente do que eu disse para as pessoas que lotavam o recinto sentadas e em pé — nunca vi um enterro tão cheio, comentou o rabino, talvez tentando nos consolar de alguma maneira; lembro-me, já de pé, diante de todo mundo, de respirar fundo algumas vezes e ser invadida pela sensação de que não conseguiria; de que, se abrisse a boca, só poderia ser para chorar. Mas então meus irmãos, ambos, se levantaram ao mesmo tempo — Gabi se ergueu sozinha nesse momento — e se postaram um de cada lado meu, sem dizer nada, sem que isso tivesse sido combinado. Assim, com eles junto a mim, foi possível falar. Eu disse algo como: se meu pai pudesse escolher qualquer coisa, escolheria a vida dele, a própria vida que ele tinha levado, enquanto escutava os narizes fungando no salão.

O enterro e a cerimônia que o antecede são um teatro. Eu sabia que as pessoas me observavam, observavam a mim, meu irmão e minha irmã chorando, observavam a companheira do meu pai atônita, e isso me dava certa sensação de farsa, a dor que eu comunicava não era a mesma que eu sentia, há um abismo entre ambas, mas as cerimônias são um teatro necessário, pois por trás delas não há nada, é isto a morte, nada, e isso não é possível suportar.

Timerman, Natalia. As pequenas chances.Todavia. Kindle Edition.

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It takes me a few seconds to realize where I know that face, in such a different context, the airport, and so many years since I’d last seen it, at the hospital, the day before my father’s death. I must have smiled; he smiles too and comes a bit closer, somewhat changed, but it’s only later that I think he recognized me first, which is odd, or should be, because doctors see thousands of patients, but patients and their families, just one doctor for each situation. Even though my dad was a doctor and so am I, during that time we were patients, or rather my dad was Dr. Felipe’s patient, his palliative care physician, and I, just the daughter of a terminally ill man. 

Of course he won’t remember my name, I think, standing in front of him in line for coffee, surprised to have run into him; I think about just going ahead and saying it, to avoid any embarrassment, if a doctor forgetting the name of his patient’s daughter after all those years could be embarrassing. But I don’t say anything; I smile back—or first, or at the same time—a sad smile, because this meeting, this presence, brings me right back to that time, so long ago. But death doesn’t pass, it continues, on and on and on. 

My contact with Dr. Felipe during the final weeks of my father’s life was so constant that, in the days following his death, several times I had the urge to call him up, as if his patient still existed, or as if talking to his doctor could make a patient keep on living or come back to life, to figure out this misunderstanding, because in the beginning (and even today, at times, when I look closely at pictures of my dad, his face so familiar, his gestures frozen in time, like someone who, outside that photo, might carry on moving, speaking, living) I had the strong feeling that this was all some kind of mistake—dying, my dad dying, words that don’t go together, that I struggle to see together to this day. 

Or as if Dr. Felipe might now treat not my father’s pain, which no longer existed, but mine, my own pain because my father’s pain and life no longer existed. Hello, Felipe (I called him by his first name, I could never call him doctor, maybe because I hate when people call me doctor), it’s Natalia, Artur’s daughter, hello, how are you?; well, Felipe, Artur is no longer alive, but I am, do you think you could help me out? actually, am I even still his daughter? what’s it like being the daughter of someone who’s no longer here? I don’t feel pain, or rather I feel a lot of pain, but not the unbearable pain my father felt those last few months, the one you prescribed morphine and pregabalin for, and unthinkable doses of dipyrone and then, when none of that worked, fentanyl patches; no, my pain is different, it’s also unbearable, but it comes in waves, and when it comes, it’s like it’s strangling me, it robs me of my wits, and I become aware of the absurdity of my body, of having a body, in a world where my father is no more, and I realize my arms are empty, that the warmth of my father’s embrace is gone, it will never be there again, and my arms hang, withered, bringing my shoulders down with them, and my head looks to the ground, where we buried my dad days ago, I helped bury him, I tossed three shovelfuls of earth on his coffin and then stuck the shovel in the turned earth so that someone else could take it and perform the same ritual, as required by Judaism, and I, who was never Jewish, I mean, who’d ignored my family’s religion since I was a teenager, suddenly I found myself performing each ritual with a relief that was unthinkable a few months ago, as if all I wanted or needed at that moment was to simply be told how to behave or what to do, to be given a list of tasks in order to exist. 

My father died on a Saturday morning at 9:43 am, on Shabbat. And then we went home while his body lay in the hospital morgue, waiting to be taken to the cemetery the next morning, because during Shabbat one must rest, this is one of the highest laws of Judaism: no exerting yourself, no driving cars, no mourning or transporting coffins. 

It was a strange day. My father had died, but everything was still in its place. Out on the street, in the leafy square in front of my house where the boys play, everything remained the same, in motion, the trees, the birds, the noises, the cars on the asphalt, everything the same, but there was a silence behind everything. Death is a silence, behind every sound there is this silence, the telephone that will never ring again, his silenced voice, never again the simple message Na, Can I call you?, and I will never be able to just call him instead of answering Yes, Dad, you can call, because you can’t call anymore, I can’t talk to you anymore, and yet, everything continues as if we still could.

Gabi came over to my place. My sister is a naval engineer, a profession that requires the sea, and she hasn’t lived in São Paulo for many years. She would always stay at our dad’s house when she was in town, but not now, not anymore, our dad’s house no longer exists, well, it still does, actually, but without our dad, which is the same as it no longer being his house. My sister spent the day lying down, in silence, she barely ate, she barely drank, she could barely walk. 

When we left the hospital, leaving the body behind, we went to pick up her suitcases. Gabi had come straight to the hospital from a trip and since she’d arrived, she hadn’t left our father’s room, what number was it? I don’t remember, not even which floor, tenth, sixth? She didn’t have the strength to carry her suitcases, she almost didn’t have the strength to carry herself. 

She was like that at the burial and at the ceremony shortly before. My sister was unable to stand. Someone came up to ask me if she’d taken anything, I don’t remember who, a friend of hers. She hadn’t, the strength had simply drained from her body. By my father’s side until the last moment—Gabi was the one with him when his heart stopped beating; she was the one who, standing at his bedside, while a nurse bathed him, noticed he’d stopped breathing—she stood firm beside my father. And she called us and said, in a sweet, calm voice, Dad’s gone, but as soon as we left his side, as soon as they asked us to take all his things from the hospital room because they were going to come and remove the body, she collapsed. 

Gabi also performed Jewish rites. I don’t know about my brother, but Gabi and I, everything we were told to do, we did. And it all made sense, for the first time I felt bolstered by religion, not by God, but by my ancestors, who knew the pain I felt and had come up with rituals that attempted to embrace it, alleviate it, circumscribe it. The mere fact that there were rules for Shiva, the first week of mourning that begins after burial, seemed to tell me that the pain, no matter how excruciating, no matter how much it messed up the meaning of everything, was familiar and, somehow, natural. 

I had to hold my sister up by the arm so she could stand in front of the rabbi, during the small prayer service before the burial. There were so many people inside that space that my father’s coffin was left in the prayer room (was it a synagogue? I don’t know, those hours spent at the cemetery are all a bit blurry), and not in the small rooms at the Jewish cemetery intended for funerals. We sat in the front row—my sister, me, my brother, my father’s wife, her daughter. A terrible privilege, a place at the front: right in front of the pain, at the place of pain. Gabi stayed seated almost the whole time; I would get up, go get a drink of water, I was terribly thirsty, getwater for my sister, or someone would come with a full glass for each of us, and I paced back and forth, lost. 

People came up to hug me and, dazed from an old tiredness, I’d only realize who it was after I took a step back. Sometimes the faces were unfamiliar, but the hugs felt good, warm, a place where I just wanted to curl up and sleep. Or I would see the face of somebody who reminded me of a certain time in my life, in my father’s life, the guy he worked with throughout my childhood, thinner, much older now, smaller than the image I had of him, and then, when I embraced him, I cried again, and harder, and I could feel that he was sad, but tough, like he was holding me up and sustaining my tears. 

There were the ones who burst into tears when they saw me, some friends who really liked my dad and whose tears mixed with mine when we hugged. Those were the best hugs, I felt a little outside of myself, as if part of me was with them, and that provided me with some relief, they were feeling in my place, offering me a break from the unbearable. 

There were also ceremonial hugs. They weren’t bad; they served their purpose, and serving purposes fills empty spaces, generally a little strange, especially in that situation. There were the ones who hugged too much, I don’t know why, and this had nothing to do with prior intimacy or any criteria, if there could be criteria for hugging; They were hugs that asked for more than they gave, and at that time I simply had nothing to offer. There were those who hugged me with their eyes, from afar, because they couldn’t come any closer, either because there wasn’t enough room or because there was no way to get to me. There were so many parts of my life there, at my father’s funeral, in the presence of so many people and time spent on those people, but that was absurd, there was something that didn’t sit right, so many friends from different times of my father’s life, it would be so obvious for him to be there himself, but no: this was taking place because he was no longer with us.

2 

Ari, the eldest of the five children of Jacob and Feyga (better known as Fani)—of whom Artur, my father, was the third—came to ask me if I wanted to speak. One of the immediate family members would have to say something about the deceased, give a short speech about the life and actions of the person who died, the same way the patriarch Abraham did for his wife Sara, I found out much later. I realized that no, I didn’t want to say anything, but I said yes, because that’s what my father would have done. My father would have spoken. I don’t remember the order of the ceremony, I don’t remember exactly what I said to the people who filled the room, sitting and standing—I’ve never seen such a crowded funeral, said the rabbi, perhaps in an attempt to console us in some way; I remember, standing there in front of everybody, taking a few deep breaths and being overcome by the feeling that I wasn’t going to make it; that if I opened my mouth only tears would come. But then my siblings, both of them, got up at the same time—Gabi got up on her own then—and stood on either side of me, without saying a word, without it having been arranged beforehand. And then, with them standing next to me, I was able to speak. I said something like: if my father could have chosen anything, he would have chosen life, the very life he led, as I heard sniffling noses fill the room. 

The burial and the ceremony that precedes it are a theater. I knew people were watching me, they were watching me, my brother and my sister crying, they were watching my father’s partner, paralyzed, and that gave a certain feeling of farce, the pain I was communicating wasn’t the same as what I was feeling, there’s an abyss between the two, but ceremonies are a necessary theater, because behind them there’s nothing, that is death, nothing, and that’s something impossible to bear.

Timerman, Natalia. As pequenas chances. Todavia. Kindle Edition.

Translated by Zoe Perry

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Judith Laikin Elkin (1928-2024)– Historian and Founding President of the Latin American Jewish Studies Association/Historiadora y Presidenta Fundadora de la Asociación de Estudios Judío-Latinoamericanos/Historiadora e Presidenta Fundador da Associação de Estudos Judaico-Latino-Americanos

Judith Laikin Elkin

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Judith Laikin Elkin was born in Baltimore MD in 1928; she had lived in Ann Arbor since 1980. Married for 47 years to Sol M. Elkin, who pre-deceased her. She was the mother of Alissa Ruth Leonard and the late Susannah (Stephen) Zisk. She is survived by four grandchildren: Sarah, Talia, and Abigail Leonard, and Sam Zisk. Educated in Detroit Public Schools and the Farband Folk Shule, Judith earned a BA in English from the University of Michigan (1948) and an MA in International Relations from Columbia University (1950). After raising her children, she returned to the University of Michigan to earn her Ph.D. in history (1976). Identifying a gap in historical studies, she founded the Latin American Jewish Studies Association to support research in that area and served as its president for 13 years. She was the author of numerous books and articles on this subject, including The Jews of Latin America, the foundational text for the field.
Judith was one of the few women commissioned as a United States Foreign Service Officer prior to passage of the 1964 Civil Rights Act. She served as vice consul to India, Pakistan, Burma (Myanmar), Ceylon (Sri Lanka), and Afghanistan, where she traveled extensively. A memoir of her experiences was published as Krishna Smiled: Assignment in South Asia. She later was assigned to London, England, as visa officer, where she had experiences recounted in her memoir, Walking Made My Path. She resigned her commission in order to be free to marry and found a family. Back home in Detroit, she wrote a column on foreign affairs for the Detroit Free Press and Toledo Blade. From 1989 on, she was an associate of the Frankel Center for Judaic Studies at the University of Michigan. While conducting research as an independent scholar, Judith taught history and political science at Albion College, Wayne State University, Ohio State University, and The University of Michigan. She also held administrative positions at Albion College, Great Lakes Colleges Association, and Union Steel. She was encouraged in her work by grants and fellowships from the National Endowment for the Humanities, the Fulbright Association, Memorial Foundation for Jewish Culture, American Jewish Archives, American Association of University Women, Touro National Heritage Foundation, and American Council of Learned Societies. She served as an elected member of the Albion school board, the board of the Michigan Chapter of the Fulbright Association, and the board of the Jewish Community Center of Greater Ann Arbor.  Ann Arbor News

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Judith Laikin Elkin nació en Baltimore MD en 1928; había vivido en Ann Arbor desde 1980. Casada durante 47 años con Sol M. Elkin, quien falleció antes que ella. Era la madre de Alissa Ruth Leonard y de la fallecida Susannah (Stephen) Zisk. Le sobreviven cuatro nietos: Sarah, Talia, Abigail Leonard y Sam Zisk. Educada en las Escuelas Públicas de Detroit y en Farband Folk Shule, Judith obtuvo una licenciatura en inglés de la Universidad de Michigan (1948) y una maestría en Relaciones Internacionales de la Universidad de Columbia (1950). Después de criar a sus hijos, regresó a la Universidad de Michigan para obtener su doctorado. en la historia (1976). Al identificar una brecha en los estudios históricos, fundó la Asociación de Estudios Judíos Latinoamericanos para apoyar la investigación en esa área y fue su presidenta durante 13 años. Fue autora de numerosos libros y artículos sobre este tema, incluido Los judíos de América Latina, el texto fundacional del campo. Judith fue una de las pocas mujeres comisionadas como funcionaria del Servicio Exterior de los Estados Unidos antes de la aprobación de la Ley de Derechos Civiles de 1964. Se desempeñó como vicecónsul en India, Pakistán, Birmania (Myanmar), Ceilán (Sri Lanka) y Afganistán, donde viajó mucho. Se publicó una memoria de sus experiencias como Krishna Smiled: Assignment in South Asia. Más tarde fue asignada a Londres, Inglaterra, como oficial de visas, donde contó sus experiencias en sus memorias, Walking Made My Path. Renunció a su cargo para poder casarse y fundar una familia. De regreso a Detroit, escribió una columna sobre asuntos exteriores para Detroit Free Press y Toledo Blade. A partir de 1989 fue asociada del Centro Frankel de Estudios Judaicos de la Universidad de Michigan. Mientras realizaba investigaciones como académica independiente, Judith enseñó historia y ciencias políticas en Albion College, Wayne State University, Ohio State University y The University of Michigan. También ocupó cargos administrativos en Albion College, Great Lakes Colleges Association y Union Steel. Su trabajo la alentaron las subvenciones y becas del Fondo Nacional de Humanidades, la Asociación Fulbright, la Fundación Memorial para la Cultura Judía, los Archivos Judíos Estadounidenses, la Asociación Estadounidense de Mujeres Universitarias, la Fundación del Patrimonio Nacional Touro y el Consejo Estadounidense de Sociedades Cultas. Se desempeñó como miembro electa de la junta escolar de Albion, la junta del Capítulo de Michigan de la Asociación Fulbright y la junta del Centro Comunitario Judío de Greater Ann Arbor.  Ann Arbor News

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Judith Laikin Elkin nasceu em Baltimore, MD, em 1928; morava em Ann Arbor desde 1980. Casado há 47 anos com Sol M. Elkin, que faleceu antes dela. Ela era a mãe de Alissa Ruth Leonard e da falecida Susannah (Stephen) Zisk. Ela deixa quatro netos: Sarah, Talia, Abigail Leonard e Sam Zisk. Educada nas Escolas Públicas de Detroit e no Farband Folk Shule, Judith obteve bacharelado em Inglês pela Universidade de Michigan (1948) e mestrado em Relações Internacionais pela Universidade de Columbia (1950). Depois de criar os filhos, ela voltou para a Universidade de Michigan para obter seu doutorado. na história (1976). Identificando uma lacuna nos estudos históricos, ela fundou a Associação de Estudos Judaicos Latino-Americanos para apoiar pesquisas nessa área e serviu como sua presidente por 13 anos. Ela foi autora de vários livros e artigos sobre o tema, incluindo The Jews of Latin America, o texto fundador da área. Judith foi uma das poucas mulheres comissionadas como oficial do Serviço de Relações Exteriores dos Estados Unidos antes da aprovação da Lei dos Direitos Civis de 1964. Ela serviu como vice-cônsul na Índia, Paquistão, Birmânia (Myanmar), Ceilão (Sri Lanka) e Afeganistão, onde ele viajou muito. Um livro de memórias de suas experiências foi publicado como Krishna Smiled: Assignment in South Asia. Mais tarde, ela foi designada para Londres, Inglaterra, como oficial de vistos, onde contou suas experiências em seu livro de memórias, Walking Made My Path. Ele renunciou ao cargo para poder se casar e constituir família. Retornando a Detroit, ele escreveu uma coluna sobre relações exteriores para o Detroit Free Press e o Toledo Blade. A partir de 1989, ela foi associada do Centro Frankel de Estudos Judaicos da Universidade de Michigan. Enquanto conduzia pesquisas como acadêmica independente, Judith ensinou história e ciências políticas no Albion College, na Wayne State University, na Ohio State University e na University of Michigan. Ele também ocupou cargos administrativos no Albion College, na Great Lakes Colleges Association e na Union Steel. Seu trabalho foi incentivado por doações e bolsas do National Endowment for the Humanities, da Fulbright Association, da Memorial Foundation for Jewish Culture, dos American Jewish Archives, da American Association of University Women, da Touro National Heritage Foundation e do American Council of Sociedades Cultuadas. Ela serviu como membro eleito do conselho escolar de Albion, do conselho do Capítulo de Michigan da Associação Fulbright e do conselho do Centro Comunitário Judaico da Grande Ann Arbor.  Ann Arbor News

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Books/Libros/Livros

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Judith Laikin Elkin. The Jews of Latin America. 3rd, Edition. Boulder, CO: Lynne Rienner, 2014, 296-301: 

English/Español/Português:

The Challenge of Religion

Absence of a religious core to Jewish life came to be seen as a principal reason for the accelerating rate of exogamy, which brought with it the prospect of the disappearance of Judaism from the continent. Of course, the disappearance of Judaism is not the same as disappearance of Jews physically, and Jews dif­fer as to Judaism’s enduring value. Persons “of Jewish descent” continue to live and thrive (or not) as citizens of their country of adoption, while memories of kehillah life retreat farther and farther beyond parents’ and grandparents’ horizons. Increasing numbers of Jews melt into national versions of the melting pot, while Orthodox Jews recoil from the “horror” of assimilation. A contest between very different proposed directions for Latin American Jewish life is ongoing at this time; two of several opposed religious visions are described here. The choices made will shape the way in which Jews adapt to, and are ac­cepted by, Latin American societies.

Renewal

           As leader of the newly founded Comunidad Bet El of Buenos Aires in the 1960s and 1970s, American rabbi Marshall Meyer took as his mission the renewal of Judaism and the reattachment of young secular Jews to Jewishness. Influenced by Liberation Theology-the realization of religious belief through social connection-Meyer worked to move the synagogue from the periphery or Argentine Jewish life to its center. He began by generating an atmosphere that would attract the entire family: men and women lo be incorporated into the religious service, and Hebrew prayers translated into Spanish. These innovations had been rejected when Meyer proposed them at Congregación Israelita de la República Argentina (CIRA) and were the cause of the congregational split.

          Although he himself was educated in the Conservative movement, Meyer enlisted a Moroccan rabbi to provide himself with an Orthodox anchor. (Conservatism bridges Orthodoxy and Reform, retaining essential teachings of Judaism while allowing customs that are deemed obsolete to lapse.) With his help, Meyer founded a Seminario Rabinico to begin training young men (and eventually women) to fill the need for Spanish-speaking religious personnel educated in both religious and secular modes. Unlike rabbis imported from abroad, students at the Buenos Aires seminary would also matriculate at an Argentine university, closing the gap that formerly had existed between congregations and their spiritual leaders. The seminario opened a day school for elementary through high school grades, initiated adult education courses and a teacher training program, established a library of Judaica and Hebraica, and arranged for the translation of basic religious works from Hebrew into Spanish. The seminario began the revival of moribund congregational life by legitimizing a conversion process (still controversial) that brought spouses who had not been born Jewish into the community, instead of excluding members who married non-Jews. . .

          Unlike would-be reformers of the Catholic Church, Conservative Jews had no institutional opponent in their effort to liberate Jews from a tradition they be­lieved had lost its relevance to the modem world. In 1970, the Seminario Rabinico achieved full status as a seminary for the training of rabbis and became an affiliate of the Jewish Theological Seminary of New York, the academic, cultural, and religious center for Conservative Judaism. From then on, students and faculty transitioned between the Seminario and Comunidad Bet El. By 1988, some fifty Conservative congregations were functioning in Argentina, Chile, Peru, Brazil, Colombia, and Mexico, thirty of these with Seminario-trained rabbis and embraced over on hundred thousand congregants. By 2013, Seminary had ordained ninety rabbis, including 10 women. This growth was not the result of missionary activity, but occurred when existing synagogues realized that their survival depended on attracting new congregants and that these were joining the Conservative wave. At that point, many requested the seminario to recommend a rabbi to guide the conversation to a progressive interpretation of Judaism.

         Marshall Mayer’s version of Conservative Judaism, combining religious faith and social action, filled a specific need in Argentine society. It attracted the children and grandchildren of leftist and secular Jews who had been alienated from religion because of its apparent disconnection from the problems of the day. Importantly, it provided an outlet for politically and socially aware Jews at a time when military oppression made political and social action dangerous. Meyer and the Seminario began a process from converting Judaism in Latin America from a set of rules and obligations without apparent relevance to the modern world to an ethical way of life informed by the past and applicable to contemporary life. By founding a rabbinical seminary for the training of spiritual leaders in a progressive mode, who are prepared to assume leadership roles in in their communities, Meyer also made it possible for Argentine Jews to accept an overture by the Church, should an opening occur.

Return

 The contemporary turn to ultra-Orthodoxy, viewed as a return or tshuvah originated in the 1940s as an attempt to explain the ongoing horror of the Holocaust. As interpreted by Menahem Mendel Schneerson (1902-1994), seventh rebbe of the Chabad Lubavich dynasty, Jewish are going through a “spiritual holocaust: the secularization of Jewish life in America.” This spiritual impoverishment can be reversed by a return to authentic Jewish tradition, and only that return with bring about the advent of the Messianic Age. Under this banner, Chabad and other ultra-religious sects pioneered a global mission to transform seculars, liberals, and unbelievers into Orthodox Jews (these groups have no interest in converting non-Jews to Judaism) . . .

         Orthodox emissaries are dispatched to live in areas where secularism and liberalism are believed to be decimating Jewish life. Chabad, writes Mary Topel, to awaken the spark of divinity, has transformed itself into a transnational empire with an aggressive policy of proselytization. These emissaries must keep the religious precepts themselves, setting an example of the moral life by fulfilling the commandments of halacha, including marrying and raising large families. Militants regard themselves as waging a spiritual war to awaken the spark of divinity that resides in every Jew but that has been covered over by the influence of the larger society. This militancy in the service of a righteous cause impels young missionaries to places like Mumbai, Kinshasa or São Paulo in order to locate non-observant Jews and them into a life of Jewish spirituality. The goal is the creation of new orthodox families and communities. These missions have been success in many cities across the Americas, of which São Paulo provides an example. In 1985, there were four orthodox rabbis in that city. In 2000, following the arrival of the Chabad missions, more than one hundred rabbis were active there. There were also fifteen new synagogues, three yeshivas, two religious academies for adults, facilities for kosher slaughter of meat, ritual baths, and five children’s schools, which had eclipsed the existing three secular schools. Kosher restaurants, bookstores and study centers had appeared by the 1990s, and rabbis were organizing youth activities, seminars, pizza parties, and other activities that attracted people who might not have been thinking about teshuva but who enjoyed getting together with other people like themselves. As more people connected to the hospitable Chabad Houses, Jewish spaces that had formerly been secular became Orthodox.

   The movement responded to the needs of Jews who might have made it in the material world, but who were searching for transcendence in their spiritual lives, which they could not find in the Catholic ambience. Within Jewish spaces where they felt a sense of belonging, they accepted the leadership of rabbis who gave assurance of the unchanging values of Judaism, which had guided their ancestors and still could teach one how to live in the modem world. The evolution of the Hebrew schools, which in Sao Paulo, as elsewhere, had been secular, exemplifies Chabad’s proselytizing methods. In accord with an agreement with a philanthropist who contributed the necessary funds, the schools brought Orthodox teachers onto their staffs. Parents did not object: instead of making do with volunteer or underprepared teachers, their children would now be studying Judaism from knowledgeable rabbis. Charismatic teachers gained the students’ attention and their parents’ support. But these well-regarded teachers soon refused to teach girls in the existing mixed classes; then objected to teaching the children of mixed marriages, whom they did not consider Jewish. Bat mitzvah (the coming-of-age ceremony for girls, parallel to the bar mitzvah for boys) was downgraded by assigning the girls to a separate room and not allowing them to voice their prayers aloud. Principals who objected to these changes were silenced by their board in the interest of retaining the conditional financing. Unlike the comparable situation in Israel, where attempts to impose orthodoxy on the population have met with resistance, by the year 2000, Sao Paulo Jews were on their way to accepting orthodoxy.

         Chabad was an early and enthusiastic adopter of technology. Its website carries a directory of Chabad centers worldwide (in 2012, there were eleven in Brazil, fifteen in Argentina, two in Venezuela, and one in Paraguay). Tabs on this site conveniently bring up lessons in Jewish law, sermons, kosher cookery, as well as the humorous stories that Hasidim tell to intrigue listeners and personalize religious concepts The tab marked “ask the rabbi” was deleted because it was receiving thousands of queries from non-Jews. Three groups Chabad particularly avoids: Pentecostals, people who believe they are descended from Marranos, and those who wish to convert to Judaism in order to qualify for emigration to Israel.

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El desafío de la religión

La ausencia de un núcleo religioso en la vida judía llegó a ser vista como la razón principal del ritmo acelerado de la exogamia, que trajo consigo la perspectiva de la desaparición del judaísmo del continente. Por supuesto, la desaparición del judaísmo no es lo mismo que la desaparición física de los judíos, y los judíos difieren en cuanto al valor perdurable del judaísmo. Las personas “de ascendencia judía” continúan viviendo y prosperando (o no) como ciudadanos de su país de adopción, mientras que los recuerdos de la vida en kehillah se alejan cada vez más de los horizontes de los padres y abuelos. Un número cada vez mayor de judíos se funden en versiones nacionales del crisol, mientras que los judíos ortodoxos retroceden ante el “horror” de la asimilación. En este momento está en curso una pugna entre direcciones propuestas muy diferentes para la vida judía latinoamericana. Aquí se describen dos de varias visiones religiosas opuestas. Las decisiones que se tomen determinarán la forma en que los judíos se adapten a las sociedades latinoamericanas y sean aceptados por ellas.

Renovación

           Como líder de la recién fundada Comunidad Bet El de Buenos Aires en las décadas de 1960 y 1970, el rabino estadounidense Marshall Meyer asumió como misión la renovación del judaísmo y la reinserción de los jóvenes judíos seculares al judaísmo. Influenciado por la Teología de la Liberación (la realización de la creencia religiosa a través de la conexión social), Meyer trabajó para trasladar la sinagoga de la periferia de la vida judía argentina a su centro. Comenzó por generar un ambiente que atrajera a toda la familia: hombres y mujeres incorporados al servicio religioso, y oraciones hebreas traducidas al español. Estas innovaciones habían sido rechazadas cuando Meyer las propuso en la Congregación Israelita de la República Argentina (CIRA) y fueron la causa de la división entre congregaciones.

          Aunque él mismo fue educado en el movimiento conservador, Meyer reclutó a un rabino marroquí para que le proporcionara un ancla ortodoxa. (El conservadurismo une la ortodoxia y la reforma, conservando las enseñanzas esenciales del judaísmo y al mismo tiempo permitiendo que caduquen costumbres que se consideran obsoletas). Con su ayuda, Meyer fundó un Seminario Rabínico para comenzar a capacitar a hombres jóvenes (y eventualmente a mujeres) para satisfacer la necesidad de estudiantes de habla hispana. personal religioso educado tanto en modalidad religiosa como secular. A diferencia de los rabinos importados del extranjero, los estudiantes del seminario de Buenos Aires también se matricularían en una universidad argentina, cerrando la brecha que antes existía entre las congregaciones y sus líderes espirituales. El seminario abrió una escuela diurna para los grados de primaria a secundaria, inició cursos de educación para adultos y un programa de formación de profesores, estableció una biblioteca de judaica y hebraica y organizó la traducción de obras religiosas básicas del hebreo al español. El seminario inició el resurgimiento de la moribunda vida congregacional al legitimar un proceso de conversión (aún controvertido) que incorporó a la comunidad a cónyuges que no habían nacido judíos, en lugar de excluir a los miembros que se casaron con no judíos. . .

   A diferencia de los aspirantes a reformadores de la Iglesia católica, los judíos conservadores no tenían ningún oponente institucional en su esfuerzo por liberarlos de una tradición que creían que había perdido su relevancia para el mundo moderno. En 1970, el Seminario Rabínico alcanzó el estatus pleno de seminario para la formación de rabinos y se convirtió en afiliado del Seminario Teológico Judío de Nueva York, el centro académico, cultural y religioso del judaísmo conservador. A partir de entonces, los estudiantes y profesores hicieron la transición entre el Seminario y la Comunidad Bet El. En 1988, funcionaban unas cincuenta congregaciones conservadoras en Argentina, Chile, Perú, Brasil, Colombia y México, treinta de ellas con rabinos formados en el Seminario y acogían a más de cien mil feligreses. En 2013, el Seminario había ordenado noventa rabinos, incluidas diez mujeres. Este crecimiento no fue el resultado de la actividad misionera. Pero ocurrió cuando las sinagogas existentes se dieron cuenta de que su supervivencia dependía de atraer nuevos feligreses y que éstos se estaban uniendo a la ola conservadora. En ese momento, muchos pidieron al seminario que recomendara un rabino para guiar la conversación hacia una interpretación progresista del judaísmo.

         La versión del judaísmo conservador de Marshall Mayer, que combinaba fe religiosa y acción social, satisfizo una necesidad específica de la sociedad argentina. Atrajo a los hijos y nietos de judíos izquierdistas y seculares que habían sido alienados de la religión debido a su aparente desconexión de los problemas de la época. Es importante destacar que proporcionó una salida para judíos política y socialmente conscientes en un momento en que la opresión militar hacía peligrosa la acción política y social. Meyer y el Seminario iniciaron un proceso para convertir el judaísmo en América Latina de un conjunto de reglas y obligaciones sin relevancia aparente para el mundo moderno a una forma de vida ética informada por el pasado y aplicable a la vida contemporánea. Al fundar un seminario rabínico para la formación de líderes espirituales de manera progresista, que estén preparados para asumir roles de liderazgo en sus comunidades, Meyer también hizo posible que los judíos argentinos aceptaran una propuesta de la Iglesia, en caso de que se produjera una apertura.

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O desafio da religião

A ausência de um núcleo religioso na vida judaica passou a ser vista como o principal motivo do ritmo acelerado da exogamia, que trouxe consigo a perspectiva do desaparecimento do judaísmo do continente. É claro que o desaparecimento do Judaísmo não é o mesmo que o desaparecimento físico dos Judeus, e os Judeus divergem quanto ao valor duradouro do Judaísmo. As pessoas “de ascendência judaica” continuam a viver e a prosperar (ou não) como cidadãos do seu país de adoção, enquanto as memórias da vida em kehillah se afastam cada vez mais dos horizontes dos pais e avós. Um número crescente de Judeus funde-se em versões nacionais do caldeirão cultural, enquanto os Judeus Ortodoxos recuam perante o “horror” da assimilação. Atualmente está em curso uma luta entre propostas de direções muito diferentes para a vida judaica latino-americana; Duas das várias visões religiosas opostas são descritas aqui. As decisões tomadas determinarão como os judeus se adaptarão e serão aceitos pelas sociedades latino-americanas.

Renovação

Como líder da recém-fundada Comunidade Bet El de Buenos Aires nas décadas de 1960 e 1970, o rabino americano Marshall Meyer assumiu como missão renovar o judaísmo e reintegrar jovens judeus seculares ao judaísmo. Influenciado pela Teologia da Libertação (a realização da crença religiosa através da conexão social), Meyer trabalhou para mover a sinagoga da periferia da vida judaica argentina para o seu centro. Começou criando um ambiente que atraiu toda a família: homens e mulheres incorporados ao serviço religioso e orações hebraicas traduzidas para o espanhol. Estas inovações foram rejeitadas quando Meyer as propôs na Congregação Israelita da República Argentina (CIRA) e foram a causa da divisão congregacional.

  Embora ele próprio tenha sido criado no movimento conservador, Meyer recrutou um rabino marroquino para lhe fornecer uma âncora ortodoxa. (O conservadorismo une a Ortodoxia e a Reforma, preservando os ensinamentos essenciais do Judaísmo, ao mesmo tempo que permite que os costumes considerados obsoletos expirem.) Com a ajuda deles, Meyer fundou um Seminário Rabínico para começar a treinar jovens (e eventualmente mulheres) para atender à necessidade de estudantes de língua espanhola. pessoal religioso educado nos modos religioso e secular. Ao contrário dos rabinos importados do estrangeiro, os seminaristas de Buenos Aires também se matriculariam numa universidade argentina, fechando a lacuna que existia anteriormente entre as congregações e os seus líderes espirituais. O seminário abriu uma escola diurna para o ensino fundamental até o ensino médio, iniciou cursos de educação de adultos e um programa de formação de professores, estabeleceu uma biblioteca judaica e hebraica e organizou a tradução de obras religiosas básicas do hebraico para o espanhol. O seminário iniciou o renascimento da vida congregacional moribunda ao legitimar um processo de conversão (ainda controverso) que trouxe para a comunidade cônjuges que não nasceram judeus, em vez de excluir membros que se casaram com não-judeus. . .

  Ao contrário dos pretensos reformadores da Igreja Católica, os judeus conservadores não tinham oponentes institucionais no seu esforço para os libertar de uma tradição que acreditavam ter perdido a sua relevância para o mundo moderno. Em 1970, o Seminário Rabínico alcançou o status pleno de seminário para a formação de rabinos e tornou-se afiliado do Seminário Teológico Judaico de Nova York, o centro acadêmico, cultural e religioso do Judaísmo Conservador. A partir de então, alunos e professores fizeram a transição entre o Seminário e a Comunidade Bet El. Em 1988, cerca de cinquenta congregações conservadoras funcionavam na Argentina, Chile, Peru, Brasil, Colômbia e México, trinta delas com rabinos formados no Seminário. e acolheu mais de cem mil paroquianos. Em 2013, o Seminário ordenou noventa rabinos, incluindo dez mulheres. Este crescimento não foi resultado da atividade missionária. Mas isso aconteceu quando as sinagogas existentes perceberam que a sua sobrevivência dependia da atração de novos fiéis e que estavam a aderir à onda conservadora. Na época, muitos pediram ao seminário que recomendasse um rabino para orientar a conversa em direção a uma interpretação progressista do Judaísmo.

          A versão do judaísmo conservador de Marshall Mayer, que combinava fé religiosa e ação social, atendeu a uma necessidade específica da sociedade argentina. Atraiu filhos e netos de judeus esquerdistas e seculares que haviam sido alienados da religião devido à sua aparente desconexão com as questões da época. É importante ressaltar que proporcionou uma saída para judeus política e socialmente conscientes numa época em que a opressão militar tornava perigosa a acção política e social. Meyer e o Seminário iniciaram um processo para converter o Judaísmo na América Latina de um conjunto de regras e obrigações sem relevância aparente para o mundo moderno para um modo de vida ético informado pelo passado e aplicável à vida contemporânea. Ao fundar um seminário rabínico para a formação de líderes espirituais de forma progressiva, preparados para assumir funções de liderança em suas comunidades, Meyer também possibilitou que os judeus argentinos aceitassem uma proposta da Igreja, em caso de abertura.

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Retorno

 El giro contemporáneo hacia la ultra-ortodoxia, visto como un retorno o tshuvá, se originó en la década de 1940 como un intento de explicar el horror actual del Holocausto. Según lo interpreta Menahem Mendel Schneerson (1902-1994), séptimo Rebe de la dinastí Jabad Lubavich, los judíos están atravesando un “holocausto espiritual: la secularización de la vida judía en Estados Unidos.” Este empobrecimiento espiritual puede revertirse mediante un retorno a la auténtica tradición judía, y sólo ese retorno traerá el advenimiento de la Era Mesiánica. Bajo esta bandera, Jabad y otras sectas ultra-religiosas fueron pioneras en una misión global para transformar a seculares, liberales e incrédulos en judíos ortodoxos (estos grupos no tienen ningún interés en convertir a los no judíos al judaísmo). . .

         Se envían emisarios ortodoxos a vivir en zonas donde se cree que el secularismo y el liberalismo están diezmando la vida judía. Jabad, escribe Mary Topel, para despertar la chispa de la divinidad, se ha transformado en un imperio transnacional con una agresiva política de proselitismo. Estos emisarios deben guardar los propios preceptos religiosos, dando ejemplo de vida moral cumpliendo los mandamientos de la halajá, incluido casarse y formar familias numerosas. Los militantes se consideran a sí mismos librando una guerra espiritual para despertar la chispa de la divinidad que reside en cada judío pero que ha sido cubierta por la influencia de la sociedad en general. Esta militancia al servicio de una causa justa impulsa a jóvenes misioneros a lugares como Mumbai, Kinshasa o São Paulo para ubicar a los judíos no observantes y a ellos en una vida de espiritualidad judía. El objetivo es la creación de nuevas familias y comunidades ortodoxas. Estas misiones han tenido éxito en muchas ciudades de América, de las cuales São Paulo es un ejemplo. En 1985 había cuatro rabinos ortodoxos en esa ciudad. En el año 2000, tras la llegada de las misiones de Jabad, más de cien rabinos estaban activos allí. También hubo  estaban activos allí. También había quince nuevas sinagogas, tres ieshivá, dos academias religiosas para adultos, instalaciones para el sacrificio de carne kosher, baños rituales y cinco escuelas para niños, que habían eclipsado a las tres escuelas seculares existentes. En la década de 1990 habían aparecido restaurantes, librerías y centros de estudio kosher, y los rabinos organizaban actividades para jóvenes, seminarios, fiestas con pizza y otras actividades que atraían a personas que quizá no estaban pensando en la teshuvá pero que disfrutaban de reunirse con otras personas como ellos. A medida que más personas se conectaron a las hospitalarias Casas de Jabad, los espacios judíos que antes habían sido seculares se volvieron ortodoxos.

    El movimiento respondió a las necesidades de los judíos que podrían haber triunfado en el mundo material, pero que buscaban una trascendencia en su vida espiritual que no podían encontrar en el ambiente católico. Dentro de los espacios judíos donde sintieron un sentido de pertenencia, aceptaron el liderazgo de rabinos que les daban seguridad de los valores inmutables del judaísmo, que habían guiado a sus antepasados ​​y todavía podían enseñarles a uno cómo vivir en el mundo moderno. La evolución de las escuelas hebreas, que en Sao Paulo, como en otros lugares, había sido secular, ejemplifica los métodos proselitistas de Jabad. Según un acuerdo con un filántropo que aportó los fondos necesarios, las escuelas incorporaron profesores ortodoxos a su plantilla. Los padres no pusieron objeciones: en lugar de conformarse con maestros voluntarios o mal preparados, sus hijos ahora estudiarían judaísmo con rabinos expertos. Maestros carismáticos obtuvieron ron la atención de los estudiantes y el apoyo de sus padres. Pero estos profesores bien considerados pronto se negaron a enseñar a niñas en las clases mixtas existentes; Luego se opuso a enseñar a los hijos de matrimonios mixtos, a quienes no consideraban judíos. Bat mitzvah (la ceremonia de mayoría de edad para las niñas, paralela al bar mitzvah para los niños) fue degradada al asignar a las niñas a una habitación separada y no permitirles expresar sus oraciones en voz alta. Los directores que se opusieron a estos cambios fueron silenciados por su junta directiva con el fin de conservar la condicional financiación. A diferencia de la situación comparable en Israel, donde los intentos de imponer la ortodoxia a la población han encontrado resistencia, en el año 2000 los judíos de Sao Paulo estaban en camino de aceptar la ortodoxia.

  Jabad fue uno de los primeros y entusiastas en adoptar la tecnología. Su sitio web contiene un directorio de centros de Jabad en todo el mundo (en 2012, había once en Brasil, quince en Argentina, dos en Venezuela y uno en Paraguay). Pestañas en este sitio ofrece convenientemente lecciones de ley judía, sermones, cocina kosher, así como historias humorísticas que los jasidim cuentan para intrigar a los oyentes y personalizar conceptos religiosos. La pestaña marcada “pregúntale al rabino” se eliminó porque estaba recibiendo miles de consultas de no -judíos. tres grupos. Jabad evita particularmente: los pentecostales, las personas que creen que descienden de los marranos y aquellos que desean convertirse al judaísmo para calificar para emigrar a Israel.

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O desafio de la religião

A ausência de um núcleo religioso na vida judaica passou a ser vista como o principal motivo do ritmo acelerado da exogamia, que trouxe consigo a perspectiva do desaparecimento do judaísmo do continente. É claro que o desaparecimento do Judaísmo não é o mesmo que o desaparecimento físico dos Judeus, e os Judeus divergem quanto ao valor duradouro do Judaísmo. As pessoas “de ascendência judaica” continuam a viver e a prosperar (ou não) como cidadãos do seu país de adoção, enquanto as memórias da vida em kehillah se afastam cada vez mais dos horizontes dos pais e avós. Um número crescente de Judeus funde-se em versões nacionais do caldeirão cultural, enquanto os Judeus Ortodoxos recuam perante o “horror” da assimilação. Atualmente está em curso uma luta entre propostas de direções muito diferentes para a vida judaica latino-americana, Duas das várias visões religiosas opostas são descritas aqui. As decisões tomadas determinarão como os judeus se adaptarão e serão aceitos pelas sociedades latino-americanas.

Renovação

Como líder da recém-fundada Comunidade Bet El de Buenos Aires nas décadas de 1960 e 1970, o rabino americano Marshall Meyer assumiu como missão renovar o judaísmo e reintegrar jovens judeus seculares ao judaísmo. Influenciado pela Teologia da Libertação (a realização da crença religiosa através da conexão social), Meyer trabalhou para mover a sinagoga da periferia da vida judaica argentina para o seu centro. Começou criando um ambiente que atraiu toda a família: homens e mulheres incorporados ao serviço religioso e orações hebraicas traduzidas para o espanhol. Estas inovações foram rejeitadas quando Meyer as propôs na Congregação Israelita da República Argentina (CIRA) e foram a causa da divisão congregacional.

  Embora ele próprio tenha sido criado no movimento conservador, Meyer recrutou um rabino marroquino para lhe fornecer uma âncora ortodoxa. (O conservadorismo une a Ortodoxia e a Reforma, preservando os ensinamentos essenciais do Judaísmo, ao mesmo tempo que permite que os costumes considerados obsoletos expirem.) Com a ajuda deles, Meyer fundou um Seminário Rabínico para começar a treinar jovens (e eventualmente mulheres) para atender à necessidade de estudantes de língua espanhola. pessoal religioso educado nos modos religioso e secular. Ao contrário dos rabinos importados do estrangeiro, os seminaristas de Buenos Aires também se matriculariam numa universidade argentina, fechando a lacuna que existia anteriormente entre as congregações e os seus líderes espirituais. O seminário abriu uma escola diurna para o ensino fundamental até o ensino médio, iniciou cursos de educação de adultos e um programa de formação de professores, estabeleceu uma biblioteca judaica e hebraica e organizou a tradução de obras religiosas básicas do hebraico para o espanhol. O seminário iniciou o renascimento da vida congregacional moribunda ao legitimar um processo de conversão (ainda controverso) que trouxe para a comunidade cônjuges que não nasceram judeus, em vez de excluir membros que se casaram com não-judeus. . .

 Ao contrário dos pretensos reformadores da Igreja Católica, os judeus conservadores não tinham oponentes institucionais no seu esforço para os libertar de uma tradição que acreditavam ter perdido a sua relevância para o mundo moderno. Em 1970, o Seminário Rabínico alcançou o status pleno de seminário para a formação de rabinos e tornou-se afiliado do Seminário Teológico Judaico de Nova York, o centro acadêmico, cultural e religioso do Judaísmo Conservador. A partir de então, alunos e professores fizeram a transição entre o Seminário e a Comunidade Bet El. Em 1988, cerca de cinquenta congregações conservadoras funcionavam na Argentina, Chile, Peru, Brasil, Colômbia e México, trinta delas com rabinos formados no Seminário. e acolheu mais de cem mil paroquianos. Em 2000, o Seminário ordenou noventa rabinos, incluindo dez mulheres. Este crescimento não foi resultado da atividade missionária. Mas isso aconteceu quando as sinagogas existentes perceberam que a sua sobrevivência dependia da atração de novos fiéis e que estavam a aderir à onda conservadora. Na época, muitos pediram ao seminário que recomendasse um rabino para orientar a conversa em direção a uma interpretação progressista do Judaísmo.

          A versão do judaísmo conservador de Marshall Mayer, que combinava fé religiosa e ação social, atendeu a uma necessidade específica da sociedade argentina. Atraiu filhos e netos de judeus esquerdistas e seculares que haviam sido alienados da religião devido à sua aparente desconexão com as questões da época. É importante ressaltar que proporcionou uma saída para judeus política e socialmente conscientes numa época em que a opressão militar tornava perigosa a acção política e social. Meyer e o Seminário iniciaram um processo para converter o Judaísmo na América Latina de um conjunto de regras e obrigações sem relevância aparente para o mundo moderno para um modo de vida ético informado pelo passado e aplicável à vida contemporânea. Ao fundar um seminário rabínico para a formação de líderes espirituais de forma progressiva, preparados para assumir funções de liderança em suas comunidades, Meyer também possibilitou que os judeus argentinos aceitassem uma proposta da Igreja, em caso de abertura.

Retornar

A viragem contemporânea em direcção à ultraortodoxia, vista como um regresso ou tshuva, teve origem na década de 1940 como uma tentativa de explicar o actual horror do Holocausto. Conforme interpretado por Menahem Mendel Schneerson (1902-1994), sétimo Rebe da dinastia Chabad Lubavich, os judeus estão passando por um “holocausto espiritual”: a secularização da vida judaica na América. Este empobrecimento espiritual pode ser revertido através de um regresso à autêntica tradição judaica, e só esse regresso provocará o advento da Era Messiânica. Sob esta bandeira, Chabad e outras seitas ultra-religiosas foram pioneiras numa missão global para transformar seculares, liberais e incrédulos em judeus ortodoxos (estes grupos não têm interesse em converter não-judeus ao judaísmo…

          Emissários ortodoxos são enviados para viver em áreas onde se acredita que o secularismo e o liberalismo estão dizimando a vida judaica. Chabad, escreve Mary Topel, para despertar a centelha da divindade, foi transformado num império transnacional com uma política agressiva de proselitismo. Estes emissários devem manter os seus próprios preceitos religiosos, dando um exemplo de vida moral ao cumprir os mandamentos da halacha, incluindo casar-se e constituir famílias numerosas. Os militantes consideram-se travadores de uma guerra espiritual para despertar a centelha de divindade que reside em cada judeu, mas que foi ofuscada pela influência da sociedade em geral. Esta militância a serviço de uma causa justa leva jovens missionários a lugares como Mumbai, Kinshasa ou São Paulo para colocar judeus não-observantes e eles mesmos em uma vida de espiritualidade judaica. O objetivo é a criação de novas famílias e comunidades ortodoxas. Essas missões têm tido sucesso em muitas cidades da América, das quais São Paulo é um exemplo. Em 1985 havia quatro rabinos ortodoxos naquela cidade. Em 2000, após a chegada das missões Chabad, mais de cem rabinos atuavam ali. Também estavam ativos lá. Havia também quinze novas sinagogas, três yeshivas, duas academias religiosas para adultos, instalações kosher para sacrifício de carne, banhos rituais e cinco escolas para crianças, que eclipsaram as três escolas seculares existentes. Na década de 1990, surgiram restaurantes, livrarias e centros de estudo kosher, e os rabinos organizaram atividades para jovens, seminários, festas de pizza e outras atividades que atraíram pessoas que talvez não estivessem pensando em teshuvá, mas que gostavam de se encontrar com eles. eles. À medida que mais pessoas se conectavam às hospitaleiras Casas Chabad, os espaços judaicos que antes eram seculares tornaram-se ortodoxos.

   O movimento respondeu às necessidades dos judeus que poderiam ter tido sucesso no mundo material, mas que procuravam uma transcendência nas suas vidas espirituais que não conseguiam encontrar no ambiente católico. Dentro dos espaços judaicos onde eles sentiram um sentimento de pertencimento, aceitaram a liderança dos rabinos que lhes deram garantias dos valores imutáveis ​​do Judaísmo, que guiaram seus ancestrais e ainda poderiam ensinar como viver no mundo moderno. A evolução das escolas hebraicas, que em São Paulo, como em outros lugares, tinha sido secular, exemplifica os métodos de proselitismo de Chabad. Sob um acordo com um filantropo que forneceu os fundos necessários, as escolas acrescentaram professores ortodoxos ao seu quadro de funcionários. Os pais não levantaram objecções: em vez de se contentarem com professores voluntários ou mal preparados, os seus filhos estudariam agora o Judaísmo com rabinos experientes. Professores carismáticos ganharam a atenção dos alunos e o apoio dos pais. Mas estes professores conceituados logo se recusaram a ensinar meninas nas classes mistas existentes; Ele então se opôs a ensinar filhos de casamentos mistos, que eles não consideravam judeus. O bat mitzvah (a cerimônia de maioridade para as meninas, paralela ao bar mitzvah para os meninos) foi degradado ao designar as meninas para uma sala separada e não permitir que elas fizessem suas orações em voz alta. Os administradores que se opuseram a estas mudanças foram silenciados pelo seu conselho de administração, a fim de preservar o financiamento condicional. Ao contrário da situação comparável em Israel, onde as tentativas de impor a Ortodoxia à população encontraram resistência, no ano 2000 os judeus de São Paulo estavam no caminho da aceitação da Ortodoxia.

  Chabad foi um dos primeiros e entusiasmados adotantes da tecnologia. Seu site contém um diretório de centros Chabad em todo o mundo (em 2012, havia onze no Brasil, quinze na Argentina, dois na Venezuela e um no Paraguai). As guias deste site oferecem convenientemente aulas de lei judaica, sermões, culinária kosher, bem como histórias humorísticas que os hassidim contam para intrigar os ouvintes. A aba marcada “pergunte ao rabino” foi removida porque estava recebendo milhares de perguntas de não-judeus. três grupos. Chabad evita particularmente: os pentecostais, pessoas que acreditam ser descendentes dos marranos e aqueles que desejam se converter ao judaísmo para se qualificarem para imigrar para Israel.

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Michel Laub — Romancista judaico brasileiro/Brazilian Jewish Novelist — “Diário da Queda” “Diary of the Fall” — Historia de uma familia — A Family Story

Michel Laub

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Michel Laub nasceu em Porto Alegre, em 1973 de pais judeus. Escritor e jornalista, foi editor-chefe da revista Bravo, coordenador de publicações e internet do Instituto Moreira Salles e colunista da Folha de S.Paulo e do Globo. Hoje é colunista do Valor Econômico e colaborador de diversas editoras e veículos.Publicou oito romances, todos pela Companhia das Letras: Música Anterior (2001), Longe da água (2004), O segundo tempo (2006), O gato diz adeus (2009), Diário da queda (2011),  A maçã envenenada (2013), O Tribunal da Quinta-Feira (2016) e Solução de dois Estados (2020). Seus livros saíram em 12 idiomas. Integrante da coletânea Os Melhores jovens escritores brasileiros, da revista inglesa Granta, entre outras no Brasil e no exterior, o autor recebeu as bolsas Vitae (2006), Funarte (2010) e Petrobras (2012) e os prêmios JQ – Wingate (Inglaterra, 2015), Transfuge (França, 2014), Jabuti (segundo lugar, 2014), Copa de Literatura Brasileira (2013), Bravo Prime (2011), Bienal de Brasília (2012) e Erico Verissimo/Revelação (2001). Além disso, foi finalista dos prêmios Dublin International Literary Award (Irlanda, 2016), Correntes de Escrita (Portugal, 2014), Jabuti (2007, 2017 e 2021), São Paulo de Literatura (2012, 2014, 2017 e 2021) e outros.

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Michel Laub was born in Porto Alegre, in 1973 in a Jewish family. Writer and journalist, he was editor-in-chief of Bravo magazine, coordinator of publications and internet of the Moreira Salles Institute and columnist of Folha de S.Paulo and Globo. Now he is a columnist for Valor Econômico and a contributor to various publications. Publicou oito romances, all pela Companhia das Letras: Música Anterior (2001), Longe da água (2004), O segundo tempo (2006), O gato diz adeus (2009), Diário da queda (2011), A maçã envenenada (2013) ), O Tribunal da Quinta-Feira (2016) and Solução de dos Estados (2020). His books are published in 12 languages.He is one the of Best Young Brazilian Writers, according to eht the English magazine Granta, among others not in Brazil and abroad, and author received the Vitae (2006), Funarte (2010) and Petrobras (2012) awards and the JQ – Wingate awards (England, 2015), Transfuge (France, 2014), Jabuti (second place, 2014), Brazilian Literature Cup (2013), He was a finalist for two Dublin International Literary Awards (Ireland, 2016), Correntes de Escrita (Portugal, 2014), Jabuti (2007, 2017 and 2021), São Paulo for Literature (2012, 2014, 2017 and 2021) among others.

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Sources:/Fuentes:

Michel Laub. Diário da queda. São Paulo: Companhia de Letras, 2011.

Michel Laub. Diary of a Fall. Translated by Margaret Juli Costa. New York: Other Press, 2011.

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ALGUMAS COISAS QUE SEI SOBRE MIM

27.

Numa escola como a minha, os poucos alunos que não eram judeus tinham até privilégios. O de não assistir as aulas de hebraico, por exemplo. Ou as de cultura hebraica. Nas semanas que antecediam os feriados religiosos eles eram dispensados de aprender as canções típicas, e fazer as rezas, e dançar as coreografias e participar do Shabat, e visitar a sinagoga e o Lar dos Velhos, e enfeitar o berço de Moisés ao som do hino de Israel, isso sem falar nos acampamentos do chamado movimento juvenil.

28.

Nos acampamentos éramos divididos em grupos, cada um com um monitor mais velho, e parte do dia era ocupada por atividades normais num encontro assim, o almoço, o futebol, os abraços coletivos de união, as gincanas com talco e ovos. Nós levávamos barraca, repelente, marmita, cantil, e lembro ele esconder tudo o que pudesse ser roubado na minha ausência, urna barra de chocolate no fundo de um saco de roupa suja, um carregador de pilha em meio as urtigas.

29.

A noite éramos separados em dois grupos, um exercício que se chamava ataque a bandeira, um camuflado na vegetação e o outro que se encarregava da defesa, e durante a madrugada num descampado formávamos pelotões que reproduziam as estratégias de urna patrulha, com bússola e coluna, lanço e escalada. urna simulação do que tínhamos ouvido em palestras onde os monitores falavam sobre a Guerra de Seis Dias, a Guerra de Independência, a Guerra de Yom Kippur, Guerra de Líbano.

30.

Havia outros não judeus João na escola, mas nenhum como João. Uma vez um deles segurou um colega e o arrastou por quarenta metros e esticou seu braço direito e bateu com um portão de ferro várias vezes nos dedos, e quando o colega estava se contorcendo ele pegou o braço esquerdo e fez a mesma coisa. Joao era diferente: o colega o mandava ficar de pé, e ele ficava. O colega jogava o sanduíche de Joao longe, e ele ia buscar. O colega segurava Joao e o forcava a comer o sanduíche, mordida por mordida, e no rosto de Joao não se via nada – nenhuma dor, nenhum apelo, nenhuma expressão.

31.

Quando o pai de Joao perguntou se eu não tinha vergonhado que aconteceu na festa, eu poderia ter descrito essa cena. Eu poderia ter dito algo mais do que ele esperava, o relato de como pedi desculpas a Joao quando ele retornou a escala. Em vez de contar como foi saber que João acabaria ficando bom, andando normalmente e tendo a mesma vida de antes, e como ficar sabendo disso tornou a nossa conversa mais fácil, como se o pedido de desculpas apagasse na hora o que ele passou depois da queda, ele estatelado diante dos parentes, com falta de ar porque havia bati­ do as costas, ele na ambulância e no pronto-socorro e no hospital sem receber uma visita dos colegas, e mais dois meses em casa sem receber nenhum de nós, e de volta a escala sem que nenhum de nós tivesse se aproximado dele até o dia em que criei coragem para tanto em vez de tudo isso eu poderia ter contado como era ver João comendo o sanduíche diante do agressor, terminando o último pedaço e senda novamente pego pelo agressor, atrás de urna árvore no canto do pátio, cercado por um pequeno grupo que cantava todos os dias a mesma música.

32

A música começava assim, come areia, come areia. Era como um ritual, o incentivo enquanto João virava o rosto e tentava es­ capar dos golpes até não resistir e abrir a boca, o gasto quente e áspero, sola de tênis na cara, e só aí o agressor cansava e os gritos diminuíam e Joao era deixado até se levantar já sozinho, ainda vermelho e ajeitando a roupa e pegando de novo a mochila e subindo de novo as escadas como admissão pública do quanto ele era sujo. e fraco. e desprezível.

33·

Nada disso impediu que ele aparecesse como convites para a festa. Nas cerimónias de Bar Mitzvah os convites eram impressos em gráfica, em papel-carteio dourado, com um laço e tipologia dourada. o nome dos pais do aniversariante, um telefone para confirmar a presença, o endereço para entrega ele presentes. Os de Joao eram caseiros, feitos com papel-ofício, dispostos num envelope de cartolina, escritos em caneta hidrocor. Ele os entregou em silencio. de mesa em mesa, com duas semanas de antecedência. a sétima série inteira convidada.

34.

Eu acordei cedo naquele sábado. Eu me vesti, fui até a geladeira e passei a manhã no quarto. Eu gostava de ver televisão as­ sim. a veneziana fechada, a cama ainda desfeita e as migalhas de pão sobre o lençol até que alguém batesse na porta porque já eram quinze para a uma, e o resto do dia foi: o almoço na casa da minha avó, a ida mom a minha mãe ao shopping. ela perguntando se o colega que fazia aniversario preferia um short ou uma mochila, uma carteira ou uma camiseta, se ele gostava de música e ficaria feliz com um vale-disco, e eu respondi e esperei que ela pagasse e que a balconista da loja fizesse o pacote e ainda fôssemos ao fliperama onde joguei corrida e sinuca eletrônica.

35-

Eu dei parabéns a João quando cheguei a festa. Eu entreguei o presente a ele. É possível que eu tenha cumprimentado o pai dele, algum parente que estivesse próximo, e é possível até que eu tivesse aproveitado a festa como todos os outros convidados, que eu tivesse até me divertido sem nem por um instante demonstrar nervosismo, os cinco colegas escalados para formar a rede de bombeiros, aqueles que eu também cumprimentei ao chegar, com quem também conversei normalmente, nós todos vestidos e ensaiados e unidos na espera pela hora do bolo e pelo parabéns.

36.

No sei se participei por causa desses outros colegas, e seria fácil a esta altura culpá-los por tudo, ou se em algum momento eu fui ativo na história: se nos dias anteriores tive alguma ideia, se diz alguma sugestão, se de alguma forma fui indispensável para que tudo saísse exatamente como planejado, nós em coro no verso final, muitos anos ele vida antes ele nos aproximarmos dele, em cada perna, um em cada braço, eu segurando o pescoço porque essa é a parte mais sensível do corpo.

37.

Não sei se fiz aquilo apenas porque me espelhava nos meus colegas, João senda jogado para cima urna vez, duas vezes, eu segurando até que na décima terceira vez e com ele ainda subindo eu recolhi os braços e dei um passo para trás e vi João parado no ar e iniciando a queda, ou se foi o contrário: se no fundo, por essa ideia dos dias anteriores, algo que eu tivesse dito ou uma atitude que tivesse tomado, uma vez que fosse, diante de uma pessoa que fosse, independentemente das circunstâncias e das desculpas, se no fundo eles também estavam se espelhando em mim.

38.

Porque é claro que eu usava aquelas palavras também, as mesmas que levaram ao momento em que ele bateu o pescoço no chão, e foi pouco tempo até eu perceber os colegas saindo rápido, dez passos até o corredor e a portaria e a rua e de repente você está virando a esquina em disparada sem olhar para trás e nem pensar que era só ter esticado o braço, só ter amortecido o impacto e João teria levantado, e eu nunca mais veria nele o desdobramento do que tinha feito por tanto tempo até acabar ali, a escala, o recreio, as escadas e o pátio e o muro onde Joao sentava para fazer o lanche, o sanduíche jogado longe e Joao enterrado e eu me deixando levar com os outros, repetindo os versos, a cadencia, todos juntos e ao mesmo tempo, a música que você canta porque é só o que pode e sabe fazer aos treze anos: come areia, come areia, come areia, gói filho de urna puta.

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SOME MORE THINGS I KNOW ABOUT MYSELF

27.

In a school like mine, the few non-Jewish students even enjoyed certain privileges. For example, they didn’t have to attend Hebrew classes. Or the classes about Hebrew culture. In the weeks preceding reli­gious holidays, they were excused from learning the traditional songs, saying the prayers, doing the dances, taking part in the Shabbat, visiting the synagogue and the Old People’s Home, and decorating Moses’s cra­dle to the sound of the Israeli national anthem, not to mention the so-called Youth Movement camps.

28.

At camp we were divided into groups, each with an older boy as a monitor, and part of the <lay was taken up with the usual activities one would expect at such a gathering: lunch, football, group hugs, treasure hunts and messy games involving talcum powder and eggs. We took a tent, insect repellent, a cooking pot and canteen, and I remember carefully hiding anything that might be stolen in my absence, stowing a bar of chocolate at the bottom of my dirty laundry bag, a battery charger in the middle of a clump of nettles.

29.

At night we were divided into two groups, in an exercise known as “camp attack,” with one group hidden in the vegetation and the other in charge of defend­ ing the camp. Then, in a clearing in the early hours, we would form into platoons that basically did what patrols are supposed to do, armed with compasses and in columns, crawling through undergrowth and scaling hills, an imitation of what we had heard about in talks the monitors gave about the Six-Day War, the War of Independence, the Yom Kippur War, the Lebanese War.

30.

There were other non-Jews at the school, but none like João. Once, one of them got hold of a Jewish classmate, dragged him along for about forty meters, pinned his victim’s right arm to the wall next to an iron door, and repeatedly slammed the door on the boy’s and when the boy was screaming and writhing in pain, he grabbed the boy’s left arm and did the same again. João was different: if a classmate ordered him to stand, he would stand. If a classmate flung Joao’s sandwich across the playground, Joao would go and fetch it. If the same classmate, then grabbed Joao and made him eat the sandwich, bite by bite, Joao’s face would remain utterly impassive-no pain, no plead­ ing, no expression at all.

31.

When João’s father asked me if I didn’t feel ashamed about what had happened at the party, I could have described that scene to him. I could have told him more than he was expecting to hear, rather than about how I had apologized to João when he returned to school. Instead of telling him how relieved I felt when I found out that João would make a full recovery, walking normally and leading a normal life, and how knowing this had made our conversation easier, as if my apology had instantly erased everything he had been through after the fall, João lying on the floor in front of his relatives, the breath knocked out of him, João in the ambulance and in the emergency room and in hospital, where not a single one of his classmates visited him, and then another two months spent at home, where, again, none of us went to see him, and then back at school where, again, none of us spoke to him until I plucked up enough courage to do so–instead of that I could have told him what it was like to see João eating that sandwich watched by his attacker. And how, when he had finished the last mouthful, his attacker had hit him again, hidden behind a tree in one corner of the playground, sur­rounded by a small group of boys who chanted the same refrain every day.

32.

The refrain went like this: eat sand, eat sand. It was a sort of ritual, intended to drive them on while João turned his head to try and avoid the blows, until he could resist no longer and opened his mouth, the hot, rough taste, the sole of someone’s sneaker in his face, only then did his attacker grow weary and the shouting diminish and then João would be left to get his own, red-faced and straightening his rumpled, clothes, picking up his backpack and going up the stairs like a public admission of how dirty and weak and despicable he was.

33.

None of this prevented him from coming to school with the invitations to his party. For bar mitzvah ceremonies, the invitations were always professionally printed on a folded piece of card, with a ribbon and gilt lettering, the name of the boy’s parents, a telephone number to confirm that you would be coming and an address where presents could be sent. João’s invitations were homemade on a sheet of foolscap paper placed in a cardboard envelope and written in felt-tip pen. Two weeks beforehand, he silently gave them out, going from desk to desk, inviting the whole year group.

34,

That Saturday I woke up early. I got dressed, went to the fridge and spent the morning in my room. I liked watching TV like that, with the blinds clown, the bed still unmade and breadcrumbs among the sheets, until someone knocked on the door to tell me it was a quarter to one, and the rest of the day was: lunch at my grandmother’s house, a visit to the shopping mall with my mother, her asking me if the classmate whose birthday it was would prefer a pair of shorts or a backpack, a wallet or a T-shirt, or if he liked music and would be happy with a record-voucher, and me answering and waiting for her to pay and for the assistant to wrap the present up and then still having time to visit the arcade where I played at circuit racing and electronic snooker.

35.

1 wished João a happy birthday when I arrived at the party. I gave him his present. I may have said helio to his father too, or to some relative of his standing nearby, and I may even have enjoyed the party along with ali the other guests, I may even have had a good time without for a moment appearing nervous, along with the four other classmates chosen to form the safety net, and who I had also greeted when I arrived, and with whom I chatted normally, all of us dressed and ready and united as we waited for the moment for the birthday cake to be cut and for everyone to sing “Happy Birthday.”

36.

I don’t know if I took part because of those other classmates, and it would be easy at this stage to blame them for everything, or if at some point I played an active role in the story: if during the previous days I had an idea, made a suggestion, and was in sorne way indispensable if everything was to work out as planned, with us singing the last line together, happy birthday to you, before we gathered round him, one at each leg, one at each arm, with me supporting his neck because that’s the most vulnerable part of the body.

37.

I don’t know if I did it simply because I was mirroring my classmates’ behavior, João being thrown into the air once, twice, with me supporting him right up until the thirteenth time and then, as he was going up, withdrawing my arms and taking a step back and seeing Joao hover in the air and then begin the fall, or was it the other way round: what if, deep down, because of that plot hatched in the previous days, because of something I might have said or an attitude.1 might have taken, even if only once and in the presence of only one other person, quite independently of the circumstances and any possible excuses, what if, deep clown, they were also mirroring my behavior?

38.

Because of course I used the same words, the words that led up to the moment when the back of his neck struck the floor, and it didn’t take long for me to notice my classmates beating a hasty retreat, just ten steps to the corridor and the porter’s lodge and the street and suddenly you’re tearing round the corner without a backward glance and not even thinking that if you had only reached out an arm to break the fall João would have got up, and 1 would never have had to see in him the consequence of everything I had done up until then, school, break-time, the stairs and the playground and the wall where João used to sit, the sandwich flung across the playground and João buried in sand and me, allowing myself to be carried along with the others, all panting the same words, the same rhythm, al of us together at the same time, the song you sing because that’s all you can do when you’re thirteen: eat sand, eat sand you son ofa-bitch goy.

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MAIS ALGUMAS COISAS QUE SEI SOBRE O MEU AVÓ

4·

Eu comecei a beber aos catorzes anos, depois que mudei de escola junto com João. Embora já tivesse tomado um ou outro copo de cerveja com meu pai, e uma ou outra taça ele vinho em algum jantar ele adultos em casa, a primeira vez ele verdade foi numa festa logo no início das aulas. Eu não fui direto a festa, e sim a casa de um colega cujos pais não estavam, e quando saímos de lá alguns estavam cantando e falando alto e eu entrei no táxi com urna garrafa ele plástico cortada ao meio. Alguém tinha misturado cachaça com Coca-Cola, e era impossível tomar um gole sem prender a respiração, e ao descer do táxi eu senti as pernas meio ocas e nessa hora já estavam todos rindo e foi mais fácil entrar e passar o resto da noite encostado muna parede ao lado de uma caixa ele som: eu misturei a cachaça com vodca e um vinho com embalagem de papelão que deixava os dentes roxos e antes das onze já tinha me arrastado até o jardim e procurado um canto escuro e sentado com a pressão baixa e ninguém me acharia ali depois que eu me deixasse cair sem ajuda porque ainda nem conhecia direito os colegas.

5.

Demorou para os colegas perguntarem se eu era judeu, por  que identificar sobrenomes é coisa de pessoas mais velhas e em geral também judias, e o meu não termina em man ou berg ou qualquer desses sufixos óbvios que dá as pistas a quem não sabia onde eu tinha estudado antes. Nas aulas da escola nova o Holocausto era apenas eventualmente citado entre os capítulos da Segunda Guerra, e Hitler era analisado pelo prisma histórico da República de Weimar, da crise econômica dos anos 30, da inflação que fazia as pessoas usarem carrinhos para levar o dinheiro da feira, e a história dos carrinhos despertava tanto interesse que se chegava ao vestibular sabendo mais sobre como alguém precisa, à ser rápido para que o preço do pão e do leite não subisse antes de passar no caixa do que sobre corno era feito o transporte de prisioneiros para os campos de concentração. Nenhum professor mencionou Auschwitz mais de urna vez. Nenhum jamais disse urna palavra sobre É isto um homem? Nenhum fez o cálculo óbvio de que eu com catorze anos naquela época, certamente tinha um pai ou avo ou bisavó meu ou de um primo ou de um amigo de um amigo de um amigo que escapou das câmaras de extermínio.

6.

Não sei se meu avo leu É isto um homem? e se ter vivido o que Primo Levi narra faz com que o livro soe diferente, e o que para um leitor comum é a descoberta dos detalhes da experiencia em Auschwitz para o meu avo era apenas reconhecimento, uma conferência para ver se o que era dito no texto correspondia ou à realidade, ou a realidade da memória do meu avo, e não sei. até que ponto essa leitura como pé atrás tira parte do impacto do relato.

7·

Eu não sei como meu avo reagia ao ouvir uma piada sobre judeus, se algum dia contaram essas piadas a ele ou se ele esteve na mesma sala onde alguém as contava, um coquetel ou jantar ou encontro de negócios em que ele estava distraído e por acaso ou um fiapo de voz ou de riso que remetia à palavra judeu, e como ele reagiria ao saber que foi isso que passei a ouvir aos catorze anos, o apelido que começou a ser usado na escola nova assim que João fez o primeiro comentário sobre a escola anterior, sobre a sinagoga pequena que havia no térreo e os al unos da sétima série que tinham estudado para fazer Bar Mitzvah, e que para mim o apelido teve um significado diferente, e em vez da raiva por urna ofensa que deveria ser enfrentada ou da indignação pelo estereótipo que ela envolvia, os velhos que apareciam em filmes e novelas ele TV usando roupa preta e falando com sotaque estrangeiro e dentes de vampiro, em vez disso eu preferi ficar inicialmente quieto.

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SOME MORE THINGS THAT I KNOW ABOUT MY GRANDFATHER

4.

I started drinking when I was fourteen, after João and I changed schools. I’d had the occasional beer with my father and the occasional glass of wine at some grown up suppers at home, but the first time I got seriously drunk was at a party just after term started. 1 didn’t go straight to the party, but to the house of a class­mate whose parents were out and, when we left there, some of the boys were singing and talking loudly. and I climbed into the taxi clutching a plastic bottle cut in half. Someone had mixed cachaça and Coca-Cola, and you had to hold your breath every time you took a swig of it, and when I got out of the taxi, my legs felt hollow and by then everyone was laughing and it was easy enough to spend the rest of the night lean­ing against a wall next to a speaker. I mixed cachaça with vodka and with some cheap wine that stained your teeth purple, and by eleven o’clock I’d crawled out into the garden and found a dark corner where I sat, feeling rather weak, and where no one would find me once I’d slid helplessly to the ground, because I still didn’t really know any of my classmates.

5.

It was a while befare my classmates asked if I was Jewish, because identifying surnames is something that only older people and Jews in general do, and my name doesn’t end in man or berg or any of those other telltale suffixes that would have given a clue to anyone who didn’t know where I’d studied before. In the lessons at the new school, the Holocaust was only mentioned in passing as an episode in the Second World War, and Hitler was analyzed through the his­torical lens of the Weimar Republic, the economic cri­sis of the 1930s, and the soaring inflation that obliged people to use wheelbarrows to carry their money back from the market, a story that aroused so much inter­est that you reached the final year of school know­ing more about how quick shoppers had to be if they wanted to reach the cashier befare the price of bread or milk went up again than about how prisoners were transported to the concentration camps. Not one of the teachers gave more than a cursory nod to Ausch­witz. Not one of them said a word about If This Is a Man. Not one of them made the obvious calculation that a fourteen-year-old like me must have had a father or a grandfather or a great-grandfather or a cousin or a friend of a friend of a friend who had escaped the gas chambers.

6.

I don’t know if my grandfather ever read If This Is a Man or if the fact of having actually lived through what Primo Levi wrote about would have made him read the book differently, whether what was a revela­tion to the ordinary reader, a detailed description of the whole Auschwitz experience, would have been merely a process of recognition for my grandfather, a matter of checking to see whether or not the book corresponded to reality or to the reality of his mem­ory, and I don’t know to what extent that somewhat distanced reading would reduce the book’s impact.

7.

I don’t know how my grandfather used to react when he heard a joke about Jews, assuming anyone ever told such jokes to him, or if he, as the distracted guest at some cocktail party or supper or business meeting, was ever in a room where someone was telling them and where he might have heard a high-pitched gig­gle in response to the word Jew–or what his reaction would have been to knowing that this is what hap­pened to me when I was fourteen, that this was the nickname that began to be used as soon as João men­tioned our previous school with the little synagogue on the grounds and the seventh-grade students studying for their bar mitzvah, and that the nickname meant something different for me, that instead of feeling angry at an insult that ought to be confronted or indig­nant at the implied stereotype-the old men all in black and with vampire teeth who used to appear in films and TV soaps–I preferred not to say or do anything, at least initially.

Translation by Stephen A. Sadow

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Pedro Bloch (1914-2004) — Médico das crianças, pedagogo, escritor de livros por crianças y dramaturgo célebre judeu-brasileiro/Brazilian Jewish Pediatrician, Pedague, Writer of Children’s Books and Famous Dramatist — Sea coleção:”Como falam as crianças” e muito mais/His collection: “As Children Say” and much more

Pedro Bloch

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Pedro Bloch foi um médico foniatra, jornalista, compositor, poeta, dramaturgo e autor de livros infanto-juvenis. Escreveu mais de cem livros. Era naturalizado brasileiro.Sua família judeu imigrou para o Brasil no início do século XX. Cursou a Faculdade Nacional de Medicina da Praia Vermelha atual Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Chegou a lecionar na PUC do Rio de Janeiro.Dentre seus muitos livros estão Pai, me compra um amigo?, Nesta data querida e Chuta o Joãozinho para cá. Escreveu também as peças teatrais Dona Xepa e As Mãos de Eurídice. Mais de 50 do seus livros foram inspiradas quando ele atendia crianças, exercendo sua profissão de médico. A sua mais conhecida obra teatral, As mãos de Eurídice, estreou em 13 de maio de 1950 repetiu-se mais de 60 mil vezes, em mais de 45 países diferentes. Dois anos depois, escreveu outro sucesso teatral, Dona Xepa, que foi adaptada para o cinema e uma telenovela da Rede Globo. Como jornalista, trabalhou na revista Manchete e no jornal O Globo.

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Pedro Bloch was a phoniatrician, journalist, composer, poet, playwright and author of children’s books. Wrote over a hundred books. He was naturalized Brazilian. His Jewish family immigrated to Brazil in the beginning of the 20th century. He studied at the National Faculty of Medicine of Praia Vermelha, currently the Faculty of Medicine of the Federal University of Rio de Janeiro. He taught at PUC in Rio de Janeiro. Among his many books are Father, can you buy me a friend?, On this date dear and Chuta Joãozinho. He also wrote the plays Dona Xepa and As Mãos de Eurídice. More than 50 of his books were inspired when he attended children as a doctor. His best-known theatrical work, The Hands of Eurydice, premiered on May 13, 1950 and has been repeated more than 60,000 times, in over 45 different countries. Two years later, he wrote another theatrical success, Dona Xepa, which was adapted for cinema and a telenovela by Rede Globo. As a journalist, he worked for Manchete magazine and O Globo newspaper.

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Contribiçãos de Pedro Bloch/ Pedro Bloch’s Contributions

Humor infantil/Children’s Humor

Children’s Humor

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Pedro Bloch passou toda a sua vida como médico e escritor coletando as maravilhas que saem da boca das crianças. São definições espontâneas, trechos poéticos, descobertas extremamente

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Pedro Bloch spent his entire life as a doctor and writer collecting the wonders that come out of children’s mouths. They are spontaneous definitions, poetic extracts, extremely funny findings:

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ALEGRIA – É um palhacinho no coração da gente.

JOY – It’s a clown in people’s hearts.

 AMAR – É pensar no outro, mesmo quando a gente nem tá pensando.

LOVE – It’s thinking about the other, even when we’re not even thinking.

ADULTO – É uma pessoa que não entende de chuva, criança ou bala.

ADULT – It is a person who does not understand rain, children or bullets.
BOCA – É a garagem da língua.

MOUTH- It’s the tongue’s garage.

BEBÊ – É uma coisa que ainda tem a cabeça verde. Não funciona como a

gente.

BABY – It’s something that still has a green head. It doesn’t work like us.

CABELO – É uma coisa que serve pra gente não ficar careca.

HAIR – It’s something that helps us not to go bald.

CALCANHAR – É o queixo do pé.

HEEL – It’s the chin of the foot.

COBRA – É um bicho que só tem rabo.

COBRA – It’s an animal that only has a tail.

CHOCOLATE – É uma coisa que a gente nunca oferece aos amigos porque eles aceitam.

CHOCOLATE – It’s something we never offer our friends because they accept it.

DIA – Hoje é amanhã de ontem

DAY – Today is yesterday’s tomorrow.

ESPERANÇA – É um pedaço da gente que sabe que vai dar certo.

HOPE – It’s a part of us that knows it’s going to work.

INFERNO – É um lugar onde a gente morre muito mais.

HELL – It’s a place where people die a lot more.

JUÍZO – É fazer tudo o que mamãe acha que tá certo, mesmo quando está errado.

JUDGMENT – It’s doing everything that Mom thinks is right, even when it’s wrong.

JARDIM ZOOLÓGICO – O bicho que eu mais gostei, no jardim zoológico, foi o vendedor de sorvete.

ZOO – The animal that I liked the most, at the zoo, was the ice cream seller.

MÃE – Quando você era menina, quem era minha mãe?

MOTHER – When you were a girl, who was my mother?

NOITE – É o dia com luz apagada.

NIGHT – It’s the day with the lights off.

NEVOEIRO – É poeira do frio.

FOG – It’s cold dust

PACIÊNCIA – É uma coisa que a mamãe perde sempre.

PATIENCE – It’s something Mom always misses.

REDE – É uma porção de buracos amarrados com barbante.

NET – It’s a bunch of holes tied with string

RELÂMPAGO – É um barulho rabiscando o céu.

LIGHTNING – It’s a noise scratching the sky.

TRISTEZA – É uma criança com gesso no pé, sem assinatura.

SADNESS – It’s a child with a plaster cast on his foot, without a signature.

XINGAR – Quando eu xingo a minha avó, só xingo a metade que é do meu irmã

CURSING – When I swear at my grandmother, I only swear at the half that belongs to my brother.

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Livros para crianças/Children’s Books

Bar Mitzvá

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Biografia e religião/Biography and Religion

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Muitos tentaram explicar Deus.Einstein dizia que era o mistério insondável do universo. Os outros falaram em infinito, em Energia Universal, em mil coisas mais. Se descreveram o paraíso, purgatório e inferno. Se descreveram milgares, mil preces foram rezadas, mil formas Lhe foram atribuídas. Para meu pai Deus era tão obvio, estava tão ao seu lado em seu livro de orações e nos cânticos da sinagoga, que qualquer prova mais concreta de Sua existência lhe causaria a maior revolta. Deus para ele, era DEUS. Quem precisava de prova maior?

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Many tried to explain God. Einstein said it was the unfathomable mystery of the universe. The others spoke of infinity, Universal Energy, a thousand more things. Paradise, purgatory and hell were described. Thousands were described, a thousand prayers were said, a thousand forms were attributed to Him. To my father God was so obvious, was so close to him in his prayer book and in the chants of the synagogue, that any more concrete proof of His existence would have caused him the greatest revolt. God to him was GOD. Who needed greater proof?

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Drama e Cinema/Drama and Movies

A mãos de Eurîice — The Hands of Euriice

Gumercindo Tavares volta para casa oito anos depois de trocar a esposa Dulce pela amante. Sem dinheiro e sem o prazer que as delicadas mãos de Eurídice lhe proporcionaram, ele espera encontrar sua fiel esposa cuidando da família. A casa está vazia e a solidão traz-lhe memórias dos conflitos que o levaram a abandonar a família: A mulher que não parava em casa, os filhos que incomodavam a casa, a sogra tagarela, o sogro lunático direito. E Eurydice, jovem, alegre com suas mãos sempre amorosas, deslizando gentilmente no tapete, vencendo, perdendo, perdendo, vencendo … O fim do casamento, a aventura com o novo relacionamento e seu trágico fim. Gumercindo vasculha gavetas em busca de algo que comprove a desconfiança que sempre teve do interesse do professor de música por Dulce. Ele encontra coisas que traem o tempo: O filho teve complicações de saúde e não existe mais, a menina se casou. E Dulce?

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Sindo Filipe como Gumersindo/Sindo Filipe as Gumersido

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Gumercindo Tavares returns home eight years after exchanging his wife Dulce for his mistress. Without money and without the pleasure that Eurydice’s delicate hands gave him, he hopes to find his faithful wife taking care of the family. The house is empty and loneliness brings him memories of the conflicts that led him to leave his family: The woman who did not stop at home, the children who disturbed the house, the talkative mother-in-law, the lunatic father-in-law… And Eurydice, young, joyful with her ever loving hands, gentle sliding on the carpet, winning, losing, losing, winning…  The end of marriage, the adventure with the new relationship and its tragic end. Gumercindo rummages through drawers looking for something to prove the suspicion he always had of the music teacher’s interest in Dulce. He finds things that betray time: The son had health complications and no longer exists, the girl got married. And Dulce?

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Franz Weissmann (1911-2005) — Escultor do espaço brasileiro judaico/Escultor del espacio judío-brasileño/Brazilian Jewish Sculptor of Space — “Fuera e adentro”/”Afuera y adentro”/”Outside and Inside”

Franz Weissmann

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Franz Weissman (1911-2005) Escultor, desenhista, pintor e professor. Veio para o Brasil em 1921. No Rio de Janeiro, entre 1939 e 1941, frequenta cursos de arquitetura, escultura, pintura e desenho na Escola Nacional de Belas Artes (Enba). De 1942 a 1944, estudou desenho, escultura, modelagem e fundição com August Zamoyski (1893-1970). Em 1945, muda-se para Belo Horizonte, onde dá aulas particulares de desenho e escultura. Três anos depois, Guignard (1896-1962) o convida a lecionar escultura na Escola do Parque, que mais tarde recebe o nome de Escola Guignard. Inicialmente, desenvolve um trabalho baseado no figurativismo. A partir da década de 1950, vai elaborando gradativamente uma obra de cunho construtivista, valorizando as formas geométricas, submetendo-as a cortes e dobras, utilizando chapas de ferro, fios de aço, alumínio em dintel ou chapa. Ingressou no Grupo Frente, em 1955. No ano seguinte, voltou ao Rio de Janeiro e participou da Mostra Nacional de Arte Concreta, em 1957. Foi um dos fundadores do Grupo Neoconcreto, em 1959. Nesse ano, viajou para a Europa e Extremo Oriente, retornando ao Brasil em 1965. Na década de 1960, expôs a série Amassados, feita na Europa com chapas de zinco ou alumínio trabalhadas com martelo, clava e instrumentos de ponta, aliando-se temporariamente ao informalismo. Depois, volta aos aspectos construtivos. Na década de 1970, recebeu o prêmio de melhor escultor pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA), participou da Bienal Internacional de Escultura ao Ar Livre, em Antuérpia, na Bélgica, e da Bienal de Veneza. Realiza esculturas monumentais para espaços públicos de várias cidades brasileiras, como a Praça da Sé, em São Paulo, o Parque da Catacumba, no Rio de Janeiro e o Palácio das Artes, em Belo Horizonte.

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Franz Weissmann (1911-2005) Escultor, dibujante, pintor y maestro, llegó a Brasil en 1921. En Río de Janeiro, entre 1939 y 1941, asistió a cursos de arquitectura, escultura, pintura y dibujo en la Escuela Nacional de Bellas Artes ( En BA). De 1942 a 1944 estudió dibujo, escultura, modelado y fundición con August Zamoyski (1893-1970). En 1945 se trasladó a Belo Horizonte, donde impartió clases particulares de dibujo y escultura. Tres años más tarde, Guignard (1896-1962) lo invitó a enseñar escultura en la Escola do Parque, que más tarde recibió el nombre de Escola Guignard. Inicialmente he desarrollado un trabajo basado en el figurativismo. A partir de la década de 1950, poco a poco elaboró ​​una obra de carácter constructivista, valorando las formas geométricas sometiéndolas a cortes y pliegues, utilizando planchas de hierro, alambres de acero, aluminio en dintel o chapa. Ingresó al Grupo Frente, en 1955. Al año siguiente, regresó a Río de Janeiro y participó en la Exposición Nacional de Arte Concreto, en 1957. Fue uno de los fundadores del Grupo Neoconcreto, en 1959. En ese año, viajó a Europa y Extremo Oriente, regresando a Brasil en 1965. En la década de 1960 expone la serie Amassados, realizada en Europa con láminas de zinc o aluminio trabajadas con martillo, maza e instrumentos afilados, alineándose temporalmente con el informalismo. Más tarde, volví al estilo constructivo. En la década de 1970, recibí el premio por mejor escultor de la Asociación de Críticos de Arte de São Paulo (APCA), participó en la Bienal Internacional de Escultura al Aire Libre, en Amberes, Bélgica, y la Bienal de Venecia. Creó esculturas monumentales para espacios públicos en varias ciudades brasileñas, como Praça da Sé, en São Paulo, Parque da Catacumba, en Río de Janeiro y Palácio das Artes, en Belo Horizonte.

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Franz Weissmann (1911-2005) Sculptor, draughtsman, painter and teacher, came to Brazil in 1921. In Rio de Janeiro, between 1939 and 1941, he attended courses in architecture, sculpture, painting and drawing at the National School of Fine Arts (Enba). From 1942 to 1944, he studied drawing, sculpture, modeling and casting with August Zamoyski (1893-1970). In 1945, he moved to Belo Horizonte, where he taught private lessons in drawing and sculpture. Three years later, Guignard (1896-1962) invited him to teach sculpture at Escola do Parque, which later received the name Escola Guignard. Initially, he developed work based on figurativism. From the 1950s onwards, he gradually elaborated a work of a constructivist nature, valuing geometric shapes, submitting them to cuts and folds, using iron plates, steel wires, aluminum in lintel or sheet. He joined Grupo Frente, in 1955. The following year, he returned to Rio de Janeiro and participated in the National Exhibition of Concrete Art, in 1957. He was one of the founders of Grupo Neoconcreto, in 1959. In that year, he traveled to Europe and the Far East, returning to Brazil in 1965. In the 1960s, he exhibited the Amassados ​​series, made in Europe with zinc or aluminum sheets worked with a hammer, club and sharp instruments, temporarily aligning himself with informalism. Later, he came back to the constructive style. In the 1970s, he received the award for best sculptor from the São Paulo Association of Art Critics (APCA), participated in the International Biennial of Outdoor Sculpture, in Antwerp, Belgium, and the Venice Biennale. He created monumental sculptures for public spaces in several Brazilian cities, such as Praça da Sé, in São Paulo, Parque da Catacumba, in Rio de Janeiro and Palácio das Artes, in Belo Horizonte.

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“O vazio sempre foi uma grande obsessão minha, o vazio ativo e não o vazio morto. O vazio está activo em relação ao conjunto de elementos de que dispõe [ao conjunto de elementos que ele tem]. Sempre tive a obsessão de não fechar portas, de abrir as janelas para ver, através delas, o mundo. Mesmo nas minhas figuras já trabalhei com o vazio, perfurei as figuras em argila e papel.”

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“El vacío fue siempre una gran obsesión mía, el vacío activo y no el vacío muerto. El vacío es activo en relación con el conjunto de elementos que tiene [ao conjunto de elementos que ele tem]. Siempre tuve la obsesión de no cerrar puertas, de abrir las ventanas para ver, a través de ellas, el mundo. Incluso en mis figuras ya trabajé con el vacío, perforé las figuras en arcilla y papel.“

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“The void was always a great obsession of mine, the active void and not the dead void. The void is active in relation to the set of elements that it has [ao conjunto de elementos que ele tem]. I always had the obsession of not closing doors, of opening the windows to see, through them, the world. Even in my figures I already worked with the void, I pierced the figures in clay and paper.”

Franz Weismann

Renato Rodrigues da Silva (2021) The (neo)concrete sculptures of Franz Weissmann: between heaven and earth, World Art, 11:1, 41-70, DOI: 10.1080/21500894.2020.1737213

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Escultura exterior/Escultura de afuera/Outdoors Sculpture

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Escultura e arte plastica/Escultura y arte visual /Sculpture and Art

Uma escultura em MOMA/A sculpture in MOMA

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Franz Weissmann

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Livros/Books

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Roney Cyntrynowicz –Historiador e contista brasileiro-judeu/Brazilian Jewish Historian and Short-story writer — “Manequins”/”Mannequins” — Um conto/A short-story

Roney Cyntrynowicz

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Roney Cytrynowicz é historiador e escritor, autor de A duna do tesouro, Quando vovó perdeu a memória  e Guerra sem guerra: a mobilização e o cotidiano em São Paulo durante a Segunda Guerra Mundial. É diretor da Editora Narrativa Um – Projetos e Pesquisas de História e editor de uma coleção de guias de passeios a pé pela cidade de São Paulo, entre eles Dez roteiros históricos a pé em São Paulo e Dez roteiros a pé com crianças pela história de São Paulo. Sua coluna de PublishNews conta histórias em torno de livros, leituras, bibliotecas, editoras, gráficas e livrarias e narra episódios sobre como autores e leitores se relacionam com o mundo dos livros

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Roney Cytrynowicz is a historian and writer, author of The Treasure Dune, When Grandma Lost Her Memory and War Without War: Mobilization and Daily Life in São Paulo during World War II. He is the director of Editora Narrativa Um – Projects and Research in History editor and editor of a collection of guides for walking tours in the city of São Paulo, including Ten Historical Walking Routes in São Paulo and Ten Walking Routes with Children through the History of São Paulo. His PublishNews column tells stories about books, readings, libraries, publishers, printers and bookstores and chronicles episodes about how authors and readers report to the world of books.

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“Manequins”

Há dois dias falei com meu tio avó por telefone. Eu não o conheço, Ele tem oitenta e quatro anos e faz vinte e cinco anos que não tem qualquer contato com a família. Combinamos uma visita. No Teatro de Câmara de Tel Aviv. Alguém me diz que meu tio é uma personagem conhecida. No seu 80º aniversario fizeram-lhe uma grande homenagem. Saiu até no jornal.

         Na portaria digo o nome. A moça identifica-o pelo sobrenome. Ele me cumprimenta com algum afeto. Um neto do Brasil, curioso. “Você é o único da família conhecido pelo sobrenome. É uma responsabilidade”, brinco. Ele apenas sorri. Pregunto algo sobre o teatro. Leva-me para conhecer palco, camarins, platéia. Voltamos a sua sala, onde ele se senta e retoma o trabalho. Fico observando sem saber o que fazer.

         Oferece-me um café. Aceito. Mesmo uma xicrinha de café pude ocupar-me por um tempo largo. Pode-se curtir cada gole, goles curtos, depositar a xícara no pratinho, mexer a colher, espalhar novamente o açúcar, assoprar o líquido para esfriá-lo, cheirar o café, cheirar o café, apenas assegurar a xícara como a esquentar um pouco a mão. Por fim, deixa-la na mão, mesmo vazia, por mais alguns segundos, como a saborear o último gole. Quando o último gole se for, acho que irei junto.   

         O que tem, no entanto, não é uma xícara, mas, um longo copo de café bem quente. Os pequenos ardis do tempo multiplicam-se. Calculo pelo menos vinte minutos. Esboço varias estratégias e me sinto mais confiante para investigar a sala. Encima de sua mesa, uma máquina de coser de pedal. Sala pequena, meio desarrumada. Num canto, manequins experimentando a roupa de nova montagem. Gorki. Ele mostra as roupas e fala os personagens.

         Manequins. Bonecos. Que dignidade têm eles ali na oficina do teatro. Bonecos de plástico. Uma imagem forte ameaça a emergir. Imagem de criança: bonecas, uma fábrica brinquedos. Uma línea de montagem comprida, dezenas de mulheres enfileiradas, duas filas, esquerda e direita, nenhum dialogo, movimentos mecânicos, colocar pés, braços, cabeça, sapatos, vestido, pentear os cabelos e pintar os olhos. Uma esteira comanda o ritmo no começo é no fim da esteira enormes caixas, a primeira com os pedaços de bonecas, partes de corpo, parte do corpo, mãos, braços, pés, pernas, cabeças, troncos, óculos, cílios,  fivelas, cintos, roupas, na última caixa, as bonecas inteiras. Figuren. Nos campos, era proibido falar cadáveres, mortos, pessoas. Apenas figuren. Figuras. Como bonecos despedaçados. Não homens. Jamais homens. Apenas bonecos. Será que aquelas mulheres da fábrica ainda conseguem brincar de boneca?

         Imagem de criança. Sentado em sua escrivaninha, o dono observa o trabalho das operárias. Enquanto olha os pedaços de boneco sendo montados ele lembra do campo. Sonderkomando. A palavra que definia tudo. Ele trabalhara num sonderkomando. Retirava os mostos pelo gás. Já ne se lembrava quantas vezes escapara dela morte, quantas dezenas de milhares de cadáveres vira. As lembranças dessa fase não estão elaboradas. Não firam pensadas. São apenas registros. Imagens brutas, cenas sensaçãoes, pequenos terrores e angústias com a que memória bombardeia nossas ansiedades. Lembrava-se sempre as duas filas: esquerda e direita, pedaços de pessoas, pernas, braços, morte e linha de montagem. Agora, cada boneca montada era como um ser humano que renascia. Figuren que se tornavam novamente humanas. Linha de montagem invertida. Começava com as partes do corpo e montava uma figura viva. Homens e figuren jamais se confundíam.

         Cada vez que suava a sirene do almoço ele lembrava do dia de libertação. Sirenes de ambulâncias, soldados com comida, alguns com flores: ele olhava com apatia e indiferença. Não tinha forças para sentir felicidade, para se pensar fora daquele mundo. Difícil entender: apenas um muro de tijolos, um dia começou, um dia acabou e apenas um muro de tijolos. Sonderkomando, esse nome parecia dar o limite máximo de vida possível. De fantasia e de futuro. Enquanto pudesse estar ali, tal vez pudesse viver. Agora o muro não existe mais. E ele não conseguia enxergar vida. As operárias estranhavam aquele patrão que passava horas observando sem nunca dirigir-Ihes palavra. Elas não entendiam por que ele acompanhava cada rolar de esteira, cada peça encaixada. Cada figuren recriada.

         Poucas horas depois de libertação, no acampamento militar, veio uma criança. Não que língua ela falava, talvez alemão, talvez nenhuma. A criança trazia uma boneca, o viu prostrado, chegou perto, fez umas piruetas é a colocou em suo colo. Presente. Afastou-se. Ele sabia que sua vida recomeçara ali. Aquela boneca fui o primeiro ser humano que o tocou com ternura. Após anos de violência.

         Tempos despois, já no Brasil, inaugurou a fábrica de brinquedos. Deu a boneca a uma menina de rua. Era hora de passá-la adiante. De salvar outras vidas. Encherei a mundo de bonecas novas, decidiu. E lançou-se com toda energia a fabricação de milhares de elas. Cada boneca que saía de sua fábrica, não que fossem iguaizinhas, tinha ima missão para a humanidade,

             –Você olha as manequins como se conversasse com eles, diz meu tio avó.

            — Gosta deles? Pregunta uma costureira na sala, cheia de curiosidade sobre quem eu era. Ela se volta para meu tio e indaga, “é suo amigo?”

           Ele diz apenas: “um parente do Brasil”. Lembro de Singer, “Uma noite em Brasil”.

          –Um dia tal vez os manequins mereçam que se escriva uma história sobre eles, comento.

          –Todas as histórias são para elas.

          –Mas são como os homens que manipulam as marionetes. Nunca aparecem.

       –Pense de outra forma. Elas guardam a vida das personagens de teatro enquanto os autores não entram em cena, diz ela.

       Preparando-me para esse encontro tive o impulso de levar um gravador. Registrar para sempre histórias de família; não sei se encontrarei de novo meu tio avô. Mas desisti. Acho que preferia falar de amenidades. Apenas rir um pouco. Talvez pedir uma história. Contar algo do Brasil. Do teatro. A guerra de Romeu e Julieta. Tenho que voltar, foi a primeira coisa que pensei. Um primeiro encontro, vinte e cinco anos, aquele número no me saía da cabeça.

Observo-o trabalhar. Enquanto ele cerze seus pontos, vou costurando minhas histórias. Ele é meu tio avô por parte de pai e mãe, irmão da minha avó materna e primo do meu avo paterno. Esteve toda a guerra com meu avo na União Soviética. Ele costurava a meu avô para fazia marcenaria para cenários de teatro. Os dois trabalhavam no Kíevski Ievieíski Teatr. A máquina de costura nunca parou. Mesmo durante a guerra. Imagino os sons, a costura e serrote recortando madeiras. Sons da Rússia. Sons de guerra. Minha avó materna também costurava. Eu tentei uma vez quando era criança. Lembro de umas férias em que uma babá me ensinou. Ela era funcionária de uma empresa têxtil. Eu gostei logo. Fiz uma boneca de retalhos de tecidos. Guardei-a durante muitos anos. Os remendos foram abrindo. Mesmo assim teimava em mantê-la. Há certas coisas de infância que já não cabem na adolescência e começam a estourar. Acho que algum cachorro acabou por destruir a boneca, Nunca mais eu quis costurar.

       Eu sabia o que representavam aqueles poucos minutos em que estivemos juntos. Vinte e cinco anos. Quase a minha idade. Na despedida, poucas palavras. A curiosidade inicial agora afeto. Andamos pelo corredor rumo á porta. Ele não tem pressa. Olha-me como a sondar quando será o próximo encontro. Pede que eu escreva. Mesmo que apenas algumas linhas. Peço o endereço. Vou a escrever. Prometo. Algumas linhas. Com algumas poucas linhas, ele sobreviveu ao exílio e continua a criar mundos, roupas, épocas, personagens, histórias, encontros. Os manequins deixam de ser figuren. Viram coadjuvantes de criação. Preciso conectar estas linhas. Vinte e cinco. Talvez oitenta e quatro. Ainda não escrevi para ele. Gostaria de assistir à estréia de peça de Gorki. Ver a roupas em cena. Antes que os manequins guardem vida dos personagens por outros vinte e cinco anos. O talvez para sempre.

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“Mannequins”

Two days ago, I spoke with my great uncle by telephone. He is eighty-four years old, and it’s been twenty-five years since he’s had any contact whatsoever with the family. We arranged for a visit. In the Camera Theater in Tel Aviv. Someone told me that my uncle was a well-known person. On his eightieth birthday, they had a large tribute for him.  It was in the newspaper.

           At the box office, I gave them my name. A girl identified him by his last name. He greeted me with some affection. A grandson from Brazil. Curious. “You are the only one in your family known by your last name. That is a responsibility.” I joke. He hardly smiles. I ask him something about the theater. He takes me to see the stage, dressing rooms, seats. We return to his office, where he sits down and goes back to work. I continue observing without knowing what to do.

              He offers me a cup of coffee. I accept. Even a small cup of coffee could keep me busy for a long time. I can make each sip small, small sips, place the cup on the saucer, stir with a spoon, sprinkle the sugar in again, blow on the liquid to cool it, smell the coffee, barely hold on to the cup as if to warm my hand. Finally, I let go of my hand, for a few seconds more, so as to savor the last sip. When the last sip is done, I think that I will go over to him.

What I have, in the meantime, is not a small cup, but a large very hot, cup coffee. The little bits of time multiply. I calculate at least twenty minutes, I rough out several strategies, and I feel more confident about investigating the room. On a table, a pedal-driven sewing machine. Small room, somewhat cluttered. No corner, mannequins trying on clothing for a new Gorki production. He shows the clothing and talks about the characters.

              Mannequins. Dolls. What dignity do they have here in a theater office. Plastic dolls. A strong image threatens to appear. Image of a girl; dolls, a toy factory. A lengthy assembly line, dozens of women in line, two rows, left and right, no dialog, mechanical movements, putting on feet, arms, head, shoes, dress, comb the hair and painting the eyes. A conveyer belt controls the movement, from the beginning to end. And along the belt, enormous boxes, first with the bits of dolls, body parts, hands, arms, feet, legs, heads, trunks, eyes, eyelashes, buckles, belts, in the last box, the completed dolls. Figuren. In the camps, it was forbidden to talk about cadavers, the dead,  people. Even Figuren. No humans. Never humans. Even dolls. Could it be that those women in the factory even now are able to act as to dolls?

         Image of a little girl. Sitting on a work table, the owner observes the work of the operators. While he sees the pieces of the dolls being assembled, he remembers the camps Sonderkomando. A word that defines everything. He worked as a sonderkomando. He retrieved the remains from the gas. He no longer remembers how many times he escaped death, how many dozens of thousands to roll over, They were not thought about, they were scarcely numbers. Brutal images, sensational scenes, small terrors  and the anguishes with which memory bombardes our anxieties. He always remembered the two files: left and right, pieces  of people, legs, arms, dead and in line of montage. Now, every assembled doll was like a human being who was reborn, Figuren that became humans who were reborn. The line of figures inverted, He started with the body parts and create a living being. Humans and figuren were never confused.

              Every time that the lunch siren sounded, he remembered the day of liberation. Sirens and ambulances, soldier with food, some with flowers: He looked on with apathy and indifference. He didn’t have the energy to feel happiness, in order to beyond that world. Difficult to understand: just a wall of bricks. A day began, a day ended and just a wall of bricks. Sonderkomando, that name seemed to place an absolute limit on a possible life. Of phantasy and of future. As long as he could be there, perhaps he could live. Now the wall doesn’t exist. And he didn’t get to see life. The operators found it strange that the boss who spent hours watching without directing a word to them. They didn’t understand why he accompanied every turn of the belt, every boxed piece. Every figuren recreated.

A few hours after Liberation, in the military camp, he saw a little girl. He didn’t know what language she spoke, perhaps German, perhaps none. The little girl carried a doll, He saw it lying down, she got up and did some pirouettes and held it closely in her lap. Present. She turned away. He knew that her world would begin again there. That doll was the first the first human being that touched him with tenderness. After years of violence. Sometime later, new in Brazil, he opened a toy factory. He gave a doll to a girl in the street. It was the time to move forward. To save other lives. He will fill the world with new dolls, he decided. And he threw himself, with all his energy into the creation of thousands of them. Every doll that left his factory, none made the same as the others, had a mission for humanity   

“You look the mannequins as if you can converse with them,” my great uncle said.

             “Do you like them?” A seamstress from the room, full of curiosity over who I was. She turned to my uncle and questioned, “Is he your friend?”

             He only said “a relative from Brazil.” I remembered Singer’s “A Night in Brazil.”

“The mannequins are worthy of having a story written about them Someday,” she commented.

“All stories are for them.”

“But it is as if human beings manipulate the marionettes. They never appear.”

“Look at in another way. They the continue lives of of the theater characters, while the authors don’t enter in the scene,” she said.

Preparing myself for this meeting, I had impulse to bring a recorder. To record family stories forever; I don’t know if I will meet my uncle again. But I held back; I guess I preferred to speak about amenities. Perhaps laugh a little. Perhaps ask for a story. To tell something about Brazil. Of the theater. The war of Romeo and Juliette. I have to come back. It was the first thing I thought of. A first encounter, twenty-five years, that number didn’t leave my mind.

I watch him work. While he sewed his stiches, he went on sewing my stories. He and my great uncle on the side of both my father and mother, brother of my maternal grandfather a cousin of my paternal grandfather For all of the war, he was with my grandfather in the Soviet Union. He clothed my grandfather, so he could do carpentry for the scenery in the Kíevski Ievieíski Teatr. The sewing machine never stopped. My paternal grandfather also sewed. The same during the war. I imagined the sounds of sewing and of saws cutting wood. Sounds of Russia. Sounds of war My maternal grandfather also sewed. And I tried it one when I was a little boy. I remember the days when my grandmother taught me. She was a functionary in a textile business. I liked it right away. I made a doll of pieces of fabric. I kept it for many years. The repairs were opening up. And so, I was also afraid of killing it. There are certain things from childhood that don’t fit in adolescence and begin to be lost. I guess that some puppy finished off the doll. I never sewed again.

I knew what the few minutes which we were together represented. Twenty-five years. Almost my age. At the good-byes, few words. The original curiosity now affection. We walked down the corridor in toward the door. He wasn’t in a hurry. He looked at me as if to calculate when our next meeting would be. He asked me to write. Even a few lines. I ask for the address. I will write. I promise. A few lines. He survived exile and continued to create worlds, clothing, epochs, people, stories, meetings. The mannequins were no longer figuren. They became assistants of creation. It’s necessary to connect these lines. Twenty-five. Perhaps eighty-four.  Yet I never wrote to him. I would like to attend a performance of a piece by Gorki. To see costumes in the scene. Before the mannequins keep those people alive for another twenty-five years. Or perhaps for all times.

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