Luis Krausz — Profesor e romancista judeu brasileiro/Brazilian Jewish Professor and Novelist– “Bom Retiro, Melhor Retiro”– Um capítulo do romance “Desterro”/A chapter from the novel “Desterro”

Luis Krausz

Luis S. Krausz nasceu em São Paulo, em 1961, em uma família judia de imigrantes. Obteve mestrado em Estudos Clássicos pela Universidade da Pensilvânia e é doutor em Literatura Judaica Moderna pela Universidade de São Paulo, onde leciona Literatura Judaica e Hebraica. Krausz traduz literatura alemã e hebraica para o português e é vencedor de diversos prêmios literários no Brasil, incluindo o Prêmio Benvirá por Deserto, seu segundo romance — obra que também foi finalista do Prêmio Jabuti. Em 2016, seu romance Bazaar Paraná conquistou o segundo lugar no Prêmio Jabuti, e sua obra mais recente, Outro lugar, venceu o Prêmio CEPE em 2017.

“A prosa de Luis Krausz é fluente, clara, com longas passagens de cunho proustiano.”

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Luis S. Krausz was born into an émigré Jewish family in São Paulo in 1961. He earned a Master’s degree in Classical Studies at the University of Pennsylvania and holds a PhD in Modern Jewish Literature from the Universidade de São Paulo, where he teaches Jewish and Hebrew Literature. Krausz translates German and Hebrew Literature into Portuguese, and he is the recipient of several literary prizes in Brazil, including the Benvirá Prize for Deserto, his second novel, also shortlisted for the Jabuti Prize. In 2016, his novel Bazaar Paraná, took second place in the Jabuti Prize, and his latest work, Outro lugar, won the CEPE Prize in 2017.

“Luis Krausz’s prose is fluent, clear, with long, Proustian passages.”

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Luid S. Krausz. Desterro: memórias em ruinas. Sâo Paulo: Tordesillas, 2022, 89-95.

Certa vez, num sábado de manhã, meu pai anunciou uma expedição a Bom Retiro. Iríamos em busca de pão preto e de kasha, iguarias cujo nome meu pai glorificava e enaltecia como o fizeram os nossos antepassados. Depois, que voltávamos de semelhantes expedições, a cheira do kasha cozinhando lentamente na grande panela de alumínio Rochedo, sobre o fogão de perninhas, escapava da cozinha pela porta entreaberta e se espalhava pela casa: uma cheira vulgar e penetrante, uma cheira de desalento e necessidade, e quando o cereal cinzento aparecia sobre a mesa do almoço, fumegante, eu me sentia insultado e ofendido. Mas meu pai comia aquilo com carne de panela, a moda egípcia, e molho, e engalia cerveja entre uma garfada e outra. Assim, quando ele anunciou que iríamos ao Bom Retiro para comprar kasha, um presságio ruim atravessou meu estomago. Era urna manhã de sol, de calor, e no rádio do carro, não sei por que, meu pai sintonizou urna esta9ao que transmitia em alemão, e tocava velhos Schlager. * Nunca tínhamos ouvido aquela estação de rádio, nem voltei a ouvi-la depois daquele dia. Talvez devesse servir como urna forma de antídoto para aquela visita ao bairro judeu? As calçadas cheias de gente não me pareciam muito diferentes das outras cal9adas do centro da cidade, mas eu sabia que, em algum ponto daquele trajeto, tínhamos cruzado urna fronteira invisível, pois a cada tanto minha mãe apontava pela janela, para este e para aquele lado, e no meio da multidão, como que eleitos por algum destino especial, destacavam-se os homens de capotes pretos, chapéus e barbas, cuja alvura parecia vinda de outro mundo, e urna expressão horrenda acompanhava a palavra “ortodoxo”, que esvoaçava celeste para aquele lado da cabine calorenta do nosso carro, acompanhando os gestos nervosos de minha mãe e interrompendo a transmissão da voz de velhinha bem-humorada da apresentadora do programa de Schlager da rádio alemã. Era como se fantasmas estivessem vagando pelas calçadas naquela manhã de sol, seguidas por crian9as que não se davam conta do macabro da situa9ao. Eu não sabia que eram sábios piedosos, isolados e incapazes de falar a língua do lugar em que viviam. E a voz da velhinha bondosa, que falava alemão pelo rádio, era como a da dona da casa do pão de gengibre, a doce senhorinha cujo forno clava a luz as luxuriantes bolachas amanteigadas que eram vendidas na mercearia do português, cuidadosamente arrumadas em fileiras de oito, em saquinhos transparentes e crocantes, fechados com rotulos de cartolina, com letras góticas e com desenhos coloridos da Branca de Neve e dos Sete Anões, moedas grossas açucaradas que estalavam nos dentes, desciam para o estomago aos cacos, para se dissolverem, numa felicidade untuosa, uma felicidade que subia pelo peito e fazia meu rosto reluzir. Mas nossa viagem ao Bom Retiro era em busca de outras especialidades, e assim que dessemos do carro para entrar na mercearia apinhada, me vi diante de um colossal barril cheio de herring.* As matronas judias ainda se davam o trabalho de comprar os peixes inteiros, desossá-los, cortá-los em filés, temperá-los. Consideravam urna vergonha comprar comida pronta. O barril emanava um cheiro forte de mar e trazia aquele gueto em pedaços a memória de outras terras, como se não houvesse nada de novo sob o sol. A vista dos peixes boiando na salmoura proporcionava algum conforto a minha mae, porque seu olhar se demorou ali antes de entrar no lufa-lufa da mercearia. As coisas, lá, evidentemente, nunca eram só o que eram. O barril de arenques era também uma alceia na paisagem pantanosa da Galícia Oriental; seu cheiro era o de peixe salgado misturado a neblina das noites frias, dos casebres onde famílias de muitos membros se aqueciam debaixo de sacos grossos de plumas.

Havia também outro barril grande, com pepinos em conserva, que imediatamente atraiu a atenção de meu pai, e antes que ele pudesse arrancar minha mãe do fascínio heliotrópico que mantinha seus olhos pregados no barril de herring, urna moça ofereceu a meu pai um daqueles pepinos reluzentes, pingando de salmoura. Para meu alívio, ele recusou com um sorriso educado.

Finalmente, quando partimos de lá, levávamos pacotes de kasha, de papel pardo amarrado com barbante, pães, e herrings envoltos em jornal. As nervuras dos arenques deixavam marcas no papel de embrulho, como se ele fosse um sudário. Meu pai desligou a rádio alemã. Urna parte dos herrings seria levada a casa de minha avó materna, no domingo, quando a visitávamos no apartamento pequeno e frio na rua dos Pinheiros, bem em frente a avenida Brasil. Um clima de suspense que nunca cedia pairava no ar, ali.

     A atmosfera desolada do apartamento já se abatía sobre ele como urna pena quando entravamos no carro a caminho da rua dos Pinheiros. Era como se estivéssemos partindo para uma visita aos mortos. Minha irmã e eu tínhamos de vestir roupas engomadas e duras e calçar botinas engraxadas para, quando a avó apertasse nossas bochechas com seus dedos ossudos, nos sentíssemos dentro de uma armadura, pois nada aterrorizava mais minha mãe do que a possibilidade de ser acusada de desleixo. Meu tio agarrava nossas cabecitas e beijava nossas bochechas. Aos poucos urna expressão aborrecida ia distorcendo as faces do meu pai e, no amargor dos cigarros, ele buscava descanso para algum sofrimento que não tinha nome. De quando em quando, meu tio mais velho emitia um tipo de grunhido, um som produzido pela glote que Ilhe saía pelo nariz ao expirar, como se quisesse expulsar algum caroços respiratórias. Ninguém parecia incomodar-se com isso: seus ruídos pareciam tao naturais quanto os estalos do pendulo do carrilhão envidraçado, atrás da poltrona sem braços, mumificada numa capa branca que ia até o chão, sobre a qual meu tio Boris observava tudo. O pendulo prateado mastigava as horas, raivoso, com a lembrança de tempos melhores. Meus tios fingiam não ilhe dar atenção e observavam o jogo na televisão. Meus primos e eu, enquanto isso, nos púnhamos debaixo da mesa e brincávamos que éramos os moradores de urna cidade tomada pela lava de urna grande erupção e que ali era o nosso refúgio.

     Depois, meu tio Boris desapareceu. Aos poucos seu tornou claro que ele namorava urna schíckse,• e que se juntara com ela, vivendo em abominação. Minha avó, e com ela meus tios, o desprezavam por isso e ele recolheu-se a sua vergonha e não se deixara mais ver. Meus tios, de tempos em tempos, o encontravam, em segredo. Depois que ele desapareceu, seu nome continuava a manifestar-se naquelas tardes de domingo, voava de um lado a outro da sala, como um grande inseto enlouquecido, e se chocava com vidro da janela, coma parede, como ominoso carrilhão. Depois se cansavam desse jogo de peteca. A sala era estreita demais e logo se instalava apatia iresignada e melancólica de quem se entrega ao destino de braços cruzados.

     Voltávamos bem tarde para casa.

* Trigo-sarraceno, em russo e em iídiche.

*Arenque em salmoura em iídiche

*  Músicas populares alemãs.

* Gentia em íidishe

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Once, on a Saturday morning, my father announced an expedition to Bom Retiro. We were going in search of black bread and kasha, delicacies whose name my father glorified and extolled as our ancestors had done. After we returned from such expeditions, the smell of kasha slowly cooking in the large Rochedo aluminum pot on the stove with its little legs escaped from the kitchen through the half-open door and spread throughout the house: a vulgar and penetrating smell, a smell of despondency and need, and when the grey cereal appeared on the lunch table, steaming, I felt insulted and offended. But my father ate it with pot roast, Egyptian style, and sauce, and gulped down beer between bites. So, when he announced that we were going to Bom Retiro to buy kasha, a bad premonition crossed my stomach. It was a sunny, warm morning, and on the car radio, I don’t know why, my father tuned into a station broadcasting in German, playing old Schlager records. * We had never heard that radio station before, nor did I hear it again after that day. Perhaps it should serve as a kind of antidote to that visit to the Jewish quarter? The sidewalks full of people didn’t seem very different from the other sidewalks in the city center, but I knew that, at some point along that route, we had crossed an invisible border, because every now and then my mother would point out the window, this way and that, and in the middle of the crowd, as if chosen by some special destiny, stood out the men in black overcoats, hats, and beards, whose whiteness seemed to come from another world, and a horrendous expression accompanied the word “Orthodox,” which fluttered celestially towards that side of the hot cabin of our car, following the nervous gestures of my mother and interrupting the broadcast of the cheerful, elderly voice of the German radio Schlager show host. It was as if ghosts were wandering the sidewalks that sunny morning, followed by children who didn’t grasp the macabre nature of the situation. I didn’t know they were pious sages, isolated and unable to speak the language of the place where they lived. And the kind old lady’s voice, speaking German on the radio, was like that of the gingerbread-house woman—the sweet little lady whose oven brought forth the rich, buttery cookies sold at the Portuguese grocer’s: carefully arranged in rows of eight inside crisp, clear bags sealed with cardstock labels featuring Gothic lettering and colorful illustrations of Snow White and the Seven Dwarfs—thick, sugary discs that crunched between one’s teeth and slid down to the stomach in shards, only to dissolve into a buttery bliss, a happiness that rose through my chest and made my face glow. But our trip to Bom Retiro was in search of other specialties, and as soon as we stepped out of the car and into the crowded grocery store, I found myself facing a colossal barrel filled with herring. Jewish matrons still took the trouble to buy the fish whole, debone them, and cut them into. fillets, seasoning them. They considered buying ready-made food a disgrace. The barrel gave off a strong scent of the sea, bringing memories of other lands to that ghetto—as if there were nothing new under the sun. The sight of the fish floating in brine offered my mother some comfort; her gaze would linger there before she stepped into the bustle of the grocery store.

Things there were, of course, never merely what they seemed. The herring barrel was also a village in the marshy landscape of Eastern Galicia; its scent was that of salted fish mingled with the mist of cold nights and the hovels where large families kept warm beneath thick feather quilts.

     There was also another large barrel, this one containing pickled cucumbers, which immediately caught my father’s eye; before he could tear my mother away from the heliotropic fascination that kept her gaze fixed on the herring barrel, a young woman offered him one of those glistening pickles, dripping with brine. To my relief, he declined with a polite smile.

   Finally, when we left, we carried packages of kasha wrapped in brown paper and tied with string, loaves of bread, and herrings wrapped in newspaper. The ridges of the herrings left marks on the wrapping paper, as if it were a burial shroud. My father turned off the German radio. Some of the herrings would be taken to my maternal grandmother’s house on Sunday, when we visited her in her small, cold apartment on Rua dos Pinheiros, right across from Avenida Brasil. An unyielding sense of suspense hung in the air there. Sometimes, the many cries silenced over the years would suddenly erupt in the waxed-floor room, without carpets, on the bare white walls of the rented apartment, which couldn’t be marred by nails or pictures, on the furniture, covered in white slipcovers, waiting for the day when we could finally see its hungry stomach, whose color I didn’t know. And then my Uncle Boris, always sitting in the corner armchair, dressed in his shiny suits, his heavy glasses with thick dark green lenses and a cigar between his fingers, would shout in Yiddish, infuriating my mother and uncles, making my grandmother wring her hands, sometimes bringing tears to her eyes. After a few moments, everything would calm down. My grandmother would bring the crystal glasses from the kitchen and place them at the end of the table, on the part covered by a small tablecloth, along with the little bottles of guaraná and lemon-lime soda—drinks that were forbidden in our house—and the plate with the somewhat sad, round cookies she made, decorated in the middle with a small piece of sticky guava paste, and one of my uncles would turn on the television with its slender legs and wooden cabinet, always gleaming, which sat in a corner of the room, and the sports commentator would recount the plays of the football game. A few more sighs and everyone would resign themselves. For my father, those visits on Sunday afternoons were just another obligation that soured his life. It cast a long shadow over the weekend.

     The desolate atmosphere of the apartment already weighed down on him like a feather when we got into the car on our way to Rua dos Pinheiros. It was as if we were going to visit the dead. My sister and I had to wear stiff, starched clothes and polished boots so that, when Grandma pinched our cheeks with her bony fingers, we would feel like we were inside armor, for nothing terrified my mother more than the possibility of being accused of slovenliness. My uncle would grab our little heads and kiss our cheeks. Gradually, a look of annoyance would distort my father’s face, and in the bitterness of his cigarettes, he sought relief from some nameless suffering. From time to time, my eldest uncle would let out a sort of grunt—a sound produced in the glottis and expelled through his nose as he exhaled, as if trying to dislodge some obstruction in his airways. No one seemed bothered by it; his noises seemed as natural as the ticking of the pendulum in the glass-fronted grandfather clock behind the armless chair—which was mummified in a white floor-length cover and from which Uncle Boris observed everything. The silver pendulum chewed on the hours, furious, haunted by memories of better times. My uncles pretended not to notice him, focusing instead on the game on television. Meanwhile, my cousins ​​and I would crawl under the table and play at being the inhabitants of a city engulfed by lava from a massive eruption, with that space serving as our refuge.

     Then, Uncle Boris disappeared. It gradually became clear that he was courting shiksa* and had moved in with her, living in a state of abomination. My grandmother—and my uncles along with her—despised him for this; he retreated into his shame and was never seen again. My uncles would meet him in secret from time to time. Even after he vanished, his name continued to surface on those Sunday afternoons, flitting back and forth across the room like a frenzied giant insect, crashing against the windowpane, the wall, and that ominous grandfather clock. Eventually, they would tire of this game of shuttlecock. The room was too narrow, and a resigned, melancholy apathy soon set in—the kind felt by those who surrender to their fate with folded arms.

We would return home very late.

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* Buckwheat, in Russian and Yiddish.

* Brined herring, in Yiddish.

* German folk songs.

* Gentile woman, in Yiddish.

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Tatiana Salem Levy–Romancista judea brasiliena/Brazilian Jewish Novelist–“A chave de casa”/”The Key to the House”– Umos trechos do romance/excerpts from the novel

Tatiana Salem Levy

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Tatiana Salem Levy, nascida em Lisboa em 1979, é uma escritora brasileira de ascendência portuguesa e judaico-turca. Vive em Lisboa, onde trabalha como pesquisadora na Universidade Nova. É também colunista do jornal Valor Econômico. Estudou Letras na Universidade Federal do Rio de Janeiro e na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Ao longo da vida, viveu nos Estados Unidos e na França. Sua obra literária inclui diversos romances, alguns dos quais foram traduzidos para o espanhol, como A Chave de Esmirna (vencedor do Prêmio São Paulo de Melhor Estreia em 2008) e Vista Chinesa.

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Tatiana Salem Levy, born in Lisbon in 1979, is a Brazilian writer of Portuguese and Jewish-Turkish descent. She lives in Lisbon, where she works as a researcher at Nova University. She is also a columnist for the newspaper Valor Econômico. She studied Literature at the Federal University of Rio de Janeiro and the Pontifical Catholic University of Rio de Janeiro. Throughout her life, she has lived in the United States and France. Her literary work includes several novels, some of which have been translated into Spanish, such as A Chave de Esmirna (winner of the São Paulo Prize for Best Debut in 2008) and Vista Chinesa.

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Conto (crio) essa história dos meus antepassados, essa história das imigrações e suas perdas, essa história da chave de casa, da esperança de retornar ao lugar de onde eles saíram, mas nós duas (só nós duas) sabemos ser outro o motivo da minha paralisia. Conto (crio) essa história para dar algum sentido à imobilidade, para dar uma resposta ao mundo e, de alguma forma, a mim mesma, mas nós duas (só nós duas) conhecemos a verdade. Eu não nasci assim. sair.

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Não havia nada de religioso no ritual. Para mim, faltava sempre alguma coisa. Faltava verdade. Tudo não passava de uma grande encenação: éramos judeus um dia por ano. Festejávamos o ano-novo, mas para nós o ano só começava no dia primeiro de janeiro. O ano nunca começou em setembro ou outubro. Então, por que a celebração? Por que esse teatro para nós mesmos? [Não entendo por que dizer que não havia verdade. Deus não estava na mesa, concordo, foi a nossa escolha. Não era a religião o que nos importava, mas a tradição. Não queríamos simplesmente jogar na lata de lixo aquilo que nossos antepassados se esforçaram para guardar. O importante era manter a simbologia. Eu queria transmitir um pouquinho do que aprendi para os que vieram depois.] Eu sei. Entendo seu gesto, entendo sua intenção. Romper definitivamente com o passado é mais difícil do que imaginamos, gera culpa, uma culpa que pode se tornar mortal. Penso que é por isso que somos judeus mesmo quando não o somos. Dizemos que se trata de uma questão genealógica, mas é sobretudo uma questão de medo: temos medo de esquecer o passado e ser responsáveis por isso. [O passado não é para ser esquecido.] Se não esquecemos o passado não vivemos o presente. Você sabe, essa dor que sinto no corpo, os ombros pesados, é o passado não esquecido que carrego comigo. O passado de gerações e gerações. [Não, minha filha, o que você suporta em seu dorso frágil são os silêncios do passado. Você carrega o que nunca foi falado, o que nunca foi ouvido. O silêncio é perigoso, eu a alertei.] Mas a culpa não é minha, não fui eu quem guardou os segredos. Eles chegaram a mim sem licença, e eu nem os conheço. [Sim, você os conhece: seu corpo conhece todos os segredos, todos os silêncios, muito mais do que você imagina.] Você confirma então que se trata de uma herança? Que herdei da família todas as dores? Que belo presente! [Não se irrite, de nada adianta. Tampouco se ausente de sua responsabilidade. Você também é responsável pelo seu passado, é responsável pelo que carrega nas costas e, principalmente, pela maneira como o carrega. Existem diferentes formas de lidar com a herança, e você certamente escolheu uma das mais pesadas, mais doloridas.] Não escolhi nada, já disse: vim ao mundo com esse fardo. [Eu estava lá quando você nasceu e me lembro bem: você era um bebê gorducho e fofo, não havia nada de pesado em seu corpo mole.] Não seja irônica, você sabe do que estou falando. [Não se trata de ironia. Quero apenas que tente enxergar as coisas como elas são, que acredite nessa viagem, que acredite que pode e merece ser feliz. Quero que entenda que não precisa ter a família nas costas, que pode se livrar do passado. Mas para isso não pode ignorá-lo: pelo simples fato de que você nunca o ignorou até agora e, por isso, precisa entendê-lo, precisa nomeá-lo.] Já o nomeei: o passado se chama medo. [Nunca conheci ninguém tão cabeça-dura. Mesmo quando você toma decisões, sempre as está questionando. A cada passo que avança, parece que recua outro. O passado não se chama medo. Não questione tanto, minha filha, apenas prossiga a viagem e verá as surpresas que a aguardam, verá o quão leve a vida pode ser.] Você me diz isso agora, mas não se esqueça de que foi você quem me ensinou que antes da maçã doce precisamos comer o pão seco. [É assim mesmo. A matzá serve para nos lembrar do passado sofrido. O pão seco fala da dor, da miséria. E a maçã com mel garante que não precisamos repetir o passado.] Se falam do passado, então por que trago comigo seus silêncios? [Compreendo suas inquietações. Há muitas coisas que não foram ditas. . .

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Será que encontraria a casa dos meus antepassados? Que a chave ainda seria a mesma? Eu tentava acreditar nessa história que tinha inventado para mim mesma, nessa história que ainda invento e que é a única capaz de me dar alguma resposta. Nessa história que pode ser a mais descabida, mas também a mais real. Não sei até que ponto são verdadeiras as histórias do meu avô, até que ponto é verdadeiro o que vivo agora. Nem mesmo sei se é verdadeira a minha viagem. Parece que quanto mais me aproximo dos fatos mais me afasto da verdade.

Levy, Tatiana Salem. A chave de casa, Kindle Edition.

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I tell (create) this story of my ancestors, this story of immigration and its losses, this story of the house key, of the hope of returning to the place they left, but the two of us (only the two of us) know that the reason for my paralysis is something else. I tell (create) this story to give some meaning to the immobility, to give an answer to the world and, in some way, to myself, but the two of us (only the two of us) know the truth. I wasn’t born this way.

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There was nothing religious about the ritual. For me, something was always missing. Truth was missing. It was all just a big charade: we were Jewish one day a year. We celebrated the new year, but for us the year only began on January first. The year never started in September or October. So why the celebration? Why this theater for ourselves? [I don’t understand why you say there was no truth. God wasn’t at the table, I agree, that was our choice. It wasn’t religion that mattered to us, but tradition. We didn’t want to simply throw away what our ancestors had strived to preserve. The important thing was to maintain the symbolism. I wanted to pass on a little of what I learned to those who came after.] I know. I understand your gesture, I understand your intention. To break from dealing with the past is definitely more difficult than we imagine; it generates guilt, a guilt that can become deadly. I think that’s why we are Jewish even when we’re not. We say it’s a genealogical matter, but it’s above all a matter of fear: we are afraid of forgetting the past and being responsible for it. [The past is not to be forgotten.] If we don’t forget the past, we don’t live in the present. You know, this pain I feel in my body, the heavy shoulders, is the unforgotten past that I carry with me. The past of generations and generations. [No, my daughter, what you bear on your fragile back are the silences of the past. You carry what was never spoken, what was never heard. Silence is dangerous, I warned you.] But the guilt isn’t mine, I wasn’t the one who kept the secrets. They came to me without permission, and I don’t even know them. [Yes, you know them: your body knows all the secrets, all the silences, much more than you imagine.] So you confirm that it’s an inheritance? That I inherited all the pain from my family? What a beautiful gift! [Don’t get angry, it’s no use. Nor should you shirk your responsibility. You are also responsible for your past, you are responsible for what you carry on your back and, above all, for the way you carry it. There are different ways to deal with the inheritance, and you certainly chose one of the heaviest, most painful ones.] I didn’t choose anything, I already said: I came into the world with this burden. [I was there when you were born and I remember well: you were a chubby and cute baby, there was nothing heavy about your soft body.] Don’t be ironic, you know what I’m talking about. [It’s not irony. I just want you to try to see things as they are, to believe in this journey, to believe that you can and deserve to be happy. I want you to understand that you don’t need to have your family on your back, that you can free yourself from the past.] But to do that, you can’t ignore it: for the simple reason that you’ve never ignored it until now, and therefore you need to understand it, you need to name it.] I’ve already named it: the past is called fear. [I’ve never met anyone so stubborn. Even when you make decisions, you’re always questioning them. With every step you take forward, you seem to take another step back. The past is not called fear. No.] “Don’t question so much, my daughter, just continue the journey and you will see the surprises that await you, you will see how light life can be.” You tell me this now, but don’t forget that it was you who taught me that before the sweet apple we must eat the dry bread. [That’s right. The matzah serves to remind us of the suffering of the past. The dry bread speaks of pain, of misery. And the apple with honey ensures that we don’t need to repeat the past.] If they speak of the past, then why do I carry their silences with me? [I understand your anxieties. There are many things that were left unsaid…

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Would I find my ancestors’ house? Would the key still be the same? I tried to believe in this story I had invented for myself, this story I still invent and which is the only one capable of giving me any answers. This story that may be the most far-fetched, but also the most real. I don’t know to what extent my grandfather’s stories are true, to what extent what I’m experiencing now is true. I don’t even know if my journey is real. It seems that the closer I get to the facts, the further I get from the truth.

Translated by Stephen A. Sadow

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Abraham Palatnik (1928-2020)– Artista judeu brasileiro/Brazilian Jewish Artist– O arte cibernético/El arte cibernético/Cyber Art

Abraham Palatnik

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Abraham Palatnik é uma figura icônica nos movimentos de arte óptica e cinética
do Brasil — um pioneiro em seu interesse de longa data por explorar as possibilidades criativas
incorporadas em cruzamentos de arte e tecnologia. Tendo estudado engenharia, o artista se interessou em investigar usos mecânicos deluz e movimento. Em 1949, ele ganhou destaque com a criação de seu Dispositivo Cinecromático, reinventando efetivamente a ideia de uma pintura usando lâmpadas de diferentes voltagens movendo-se em diferentes velocidades e direções para criar imagens caleidoscópicas. A peça foi exibida na 1ª Bienal de São Paulo (1951) e recebeu uma Menção Honrosa do Júri Internacional por sua originalidade. Abraham Palatnik posteriormente iniciou seu trabalho com relevos, cunhados relevos progressivos, que ele fez de vários materiais (como madeira, papelão duplex e acrílico) usando processos manuais meticulosos para criar uma variedade de efeitos ópticos e cinéticos. Além da série W, que passou a incorporar o uso do corte a laser, Palatnik continuou a construir e a pintar cada peça à mão, tornando cada trabalho um símbolo de seu artesanato.

Nara Roesler

Para mais informações sobre a arte de Abraham Palatnik, veja a Galeria Nara Roesler:

\https://nararoesler.art/en/artists/29-abraham-palatnik

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Abraham Palatnik es una figura icónica de los movimientos de arte óptico y cinético.
de Brasil, un pionero en su interés de larga data por explorar las posibilidades creativas
Incorporado en las intersecciones del arte y la tecnología. Habiendo estudiado ingeniería, el artista se interesó en investigar los usos mecánicos de la luz y el movimiento. En 1949, saltó a la fama con la creación de su Dispositivo Cinecromático, reinventando efectivamente la idea de una pintura al utilizar bombillas de diferentes potencias que se movían a diferentes velocidades y direcciones para crear imágenes caleidoscópicas. La pieza fue expuesta en la 1ª Bienal de São Paulo (1951) y recibió una Mención Honorífica del Jurado Internacional por su originalidad. Abraham Palatnik comenzó más tarde su trabajo con relieves, llamados relieves progresivos, que realizó a partir de diversos materiales (como madera, cartón dúplex y acrílico) mediante meticulosos procesos manuales para crear una variedad de efectos ópticos y cinéticos. Además de la serie W, que comenzó a incorporar el uso del corte por láser, Palatnik continuó construyendo y pintando cada pieza a mano, haciendo de cada obra un símbolo de su artesanía.

Nara Roesler

Para obtener más información sobre el arte de Abraham Palatnik, visite la Galería Nara Roesler:

\https://nararoesler.art/en/artists/29-abraham-palatnik/

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Abraham Palatnik is an iconic figure in the optical and kinetic art movements
of Brazil—a pioneer in his long-standing interest for exploring the creative
possibilities embedded in crossings of art and technology. Having studied
engineering, the artist became interested in investigating mechanic uses of
light and movement. In 1949, he rose to prominence with the creation of his
first Kinechromatic Device effectively reinventing the idea of a painting by
using different voltage bulbs moving at different speeds and directions to
create kaleidoscopic images. The piece was shown at the 1st Bienal de São
Paulo (1951) and received an Honorable Mention from the International Jury
for its originality. Abraham Palatnik subsequently initiated his work with reliefs, coined
Progressive reliefs, which he made out of various materials (such as wood,
duplex cardboard and acrylic) using meticulous manual processes to create a
variety of optical and kinetic effects. Apart from the series W, which has come
to incorporate the use of laser-cutting, Palatnik continued to construct and
paint every piece by hand, making each work a token of his craftsmanship. His main solo exhibitions include: Abraham Palatnik: Seismograph of Color, at Nara Roesler (2022), in New York, United States; Abraham Palatnik – A Reinvenção da Pintura [Abraham Palatnik – The Reinvention of Painting], was featured in several Brazilian institutions

Nara Roesler

For more information about and art of Abraham Palatnik, see Nara Roesler Gallery:

\https://nararoesler.art/en/artists/29-abraham-palatnik/

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Youtube: português/English:

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Arte cibernético

O movimento, tanto real quanto virtual.

Dramatização de vários objetos e mecanismos

É uma arte dramática, lúdica e participativa

Interação com o espectador

Uso de ilusões de ótica

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Español

El arte cibernético

El movimiento tanto el real tanto el virtual

Dramatización de diversos objetos y mecanismos

Es un arte dramático, lúdico y participativo

Interactúa con el espectador

Uso de ilusiones ópticas

Influencia del ambiente tecnológica de los años 50

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English

Cyber ​​art

Movement, both real and virtual.

Drama among various objects and mechanisms

It is a dramatic, playful and participatory art

Interaction with the viewer

Use of optical illusions

Influence of the technological environment of the 1950s

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O arte cibernético/El arte cibernético/Cyber Art

Esculturas cibernéticas/Cibernetic Sculptures

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Bernardo Kucinski–Romancista judeu brasileiro/Braazilian Jewish Novelist — “K”/”K” — romance da dictadura/A Novel of the Dictatorship

Bernardo Kucinski

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Bernardo Kucinski, ou B. Kucinski, nasceu em 1937 na cidade de São Paulo, Brasil. Formou-se em Física (1968) e doutorou-se em Ciências da Comunicação (1991) pela Universidade de São Paulo (USP), onde foi professor titular do Departamento de Jornalismo e Editoração da Escola de Comunicações e Artes (ECA). Entre 2003 e 2005, atuou como assessor da Presidência da República do Brasil durante o governo Lula da Silva. É autor de obras sobre política, economia e jornalismo, como Abertura: a história de uma crise (1982), A ditadura da dívida (1987), O que são Multinacionais (1991) e Jornalismo na era virtual (2005).

Sua estreia no campo literário ocorreu apenas aos 74 anos com o livro K.: relato de uma busca. Além deste, B. Kucinski também é autor de outras obras que abordam episódios traumáticos da história brasileira, como Você vai voltar pra mim e outros contos (2014), Júlia: nos campos conflagrados do senhor (2020) e O congresso dos desaparecidos: drama em prosa (2023). Também dedicou algumas páginas a contos que refletem questões contemporâneas, como Pretérito imperfeito (2017) e A Nova Ordem (2019).

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Bernardo Kucinski, or B. Kucinski, was born in 1937 in the city of São Paulo, Brazil. He graduated in Physics (1968) and earned a doctorate in Communication Sciences (1991) from the University of São Paulo (USP), where he was a full professor in the Department of Journalism and Publishing at the School of Communication and Arts (ECA). Between 2003 and 2005, he served as an advisor to the Presidency of the Republic of Brazil during the administration of Lula da Silva. He is the author of works on politics, economics, and journalism, such as Abertura: a história de uma crise A ditadura da dívida, O que são Multinacionais, and Jornalismo na era virtual.

His debut in the literary field occurred only at the age of 74 with the book K.: relato de uma busca [K.: Chronicle of a Search]. In addition to this, B. Kucinski is also the author of other works that deal with traumatic episodes in Brazilian history, such as Você vai voltar pra mim e outros contos , Júlia: nos campos conflagrados do senhor J, and O congresso dos desaparecidos: drama em prosa. He also wrote stories that reflect on contemporary issues, such as Pretérito imperfeito and A Nova Ordem.

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De:/From: K. do Bernardo Kucinski. Sao Paulo:  Expressão Popular, 2011.

Sorvedouro de pessoas — capitulo 1

A tragédia já avançara inexorável quando, naquela manhã de domingo, K. sentiu pela primeira vez a angústia que logo o tomaria por completo. Há dez dias a filha não telefona. Depois, ele culparia a ausência dos ritos de família, ainda mais necessários em tempos difíceis, o telefonar uma vez por dia, o almoço aos domingos. A filha não afinava com sua segunda mulher.

E como não perceber o tumulto dos novos tempos, ele, escolado em política? Quem sabe teria sido diferente se, em vez dos amigos escritores do iídiche, * essa língua morta que só  poucos velhos ainda falam, prestasse mais atenção ao que acontecia no país naquele momento? Quem sabe? Que importa o iídiche?

* O iídiche é falado pelos judeus da Europa Oriental e teve seu apogeu no início do século xx, quando se consolidou sua literatura; sofreu rápido declínio devido ao Holocausto e à adoção do hebraico pelos fundadores do Esta- do de Israel.

Nada. Uma língua-cadáver, isso sim, que eles pranteavam nessas reuniões semanais, em vez de cuidar dos vivos.

Associava o domingo à filha desde quando lhe trazia regalos no dia da feira. Súbito, lembrou rumores da véspera, no Bom Retiro; dois estudantes judeus da medicina teriam desaparecido, um deles, dizia-se, de família rica. Coisa da política, disseram, da ditadura, não tinha a ver com antissemitismo. Também sumiram outros, não judeus, por isso a Federação decidira não se meter. Esse era o boato, talvez nem fosse verdade; pois não diziam quem eram os rapazes.

Foi o rumor que o fez inquieto, não foi o domingo.   Passou o dia discando um número de telefone que a filha lhe dera para urgências, mas o toque ecoava solitário. Sem resposta, nem à uma da madrugada, quando ela deveria estar de volta mesmo que tivesse ido ao cinema, de que tanto gostava, decidiu procurá-la no dia seguinte na universidade.

Naquela noite sonhou ele menino, os cossacos invadindo a sapataria do pai para que lhes costurasse as polainas das botinas. Despertou cedo, sobressaltado. Os cossacos, lembrou-se, haviam chegado justo no Tisha Beav, * o dia de todas as desgraças do povo judeu, o dia da destruição do primeiro templo e do segundo, e também o da expulsão da Espanha.

Sem saber o que temer, mas já temendo, e sem acordar a mulher, tirou o Austin da garagem e dirigiu rumo ao campus da universidade, distante na planície, do outro lado do emaranhado de arranha-céus. Conduzia devagar, demorando-se ao atravessar o centro, como se não quisesse chegar nunca; ossentimentos alternando-se entre a certeza de encontrá-la trabalhando normalmente e o medo do seu contrário. Por fim, atingiu o Conjunto das Químicas, onde estivera uma única vez, havia anos, quando a filha defendera seu doutorado perante um grupo de professores de semblantes severos, alguns deles formados ainda na Alemanha.

* Literalmente, o nono dia do mês de Av do calendário judaico, considerado maldito.

Ela não veio hoje, disseram as amigas. Hesitantes, olhavam de soslaio umas para as outras. Depois, como se temessem a indiscrição das paredes, puxaram K. para conversar no jardim. Então revelaram que havia onze dias que ela não aparecia. Sim, com certeza, onze dias, contando dois finais de semana. Ela, que nunca deixara de dar uma única aula. Falavam aos sussurros, sem completar as frases, como se cada palavra escondesse mil outras de sentidos proibidos.

Insatisfeito, agitado, K. queria ouvir outras pessoas — quem sabe os superiores da filha tinham alguma informação? Se ela tivesse sofrido um acidente e estivesse hospitalizada decerto teriam contatado a universidade. As amigas alarmam-se. Não faça isso. Por enquanto, não. Para dissuadi-lo, moderaram a fala, pode ser que ela tenha viajado, se afastado por alguns dias por precaução. Desconhecidos andaram perguntando por ela, sabe? Há gente estranha no campus. Anotam chapas de carros. Eles estão dentro da reitoria. Eles quem? Não souberam responder.

Persuadido a não procurar as autoridades universitárias, K. dirigiu em agonia do campus até um número da rua Padre Chico, que a filha lhe dera havia tempos, com a recomendação de só a procurar nesse endereço se acontecesse algo muito grave e ela não atendesse ao telefone. Um absurdo ele não questionado isso de só visitar se for grave, de só telefonar se for urgente. Onde ele estava com a cabeça, meu Deus?

Era um sobradinho geminado, dando diretamente para a rua, espremido entre uma dezena do mesmo tipo. Ao pé da porta, folhetos e jornais empoeirados denunciavam ausência prolongada dos moradores. Ninguém atendeu seus apertos inquisitivos de campainha.

Pronto, estava instalada a tragédia. O que fazer? Os dois filhos, longe, no exterior. A segunda esposa, uma inútil. As amigas da universidade em pânico. O velho sentiu-se esmagado. O corpo fraco, vazio, como se fosse desabar. A mente em estupor. De repente, tudo perdia sentido. Um fato único impunha-se, cancelando o que dele não fosse parte; fazendo tu- do o mais obsoleto. O fato concreto de sua filha querida estar sumida há onze dias, talvez mais. Sentiu-se muito só.

Passou a listar hipóteses. Quem sabe um acidente, ou uma doença grave que ela não quisesse revelar. A pior era a prisão pelos serviços secretos. O Estado não tem rosto nem sentimentos, é opaco e perverso. Sua única fresta é a   corrupção. Mas às vezes até essa se fecha por razões superiores. E então o Estado se torna maligno em dobro, pela crueldade e por ser inatingível. Isso ele sabia muito bem.

K. rememorou cenas recentes, o nervosismo da filha, suas evasivas, isso de chegar correndo e sair correndo, do endereço só em último caso e com a recomendação de não passá-lo a ninguém. Atarantado, deu-se conta da enormidade do autoengano em que vivera, ludibriado pela própria filha, talvez mettida em aventuras perigosíssimas sem ele desconfiar, distraído que fora pela devoção ao iídiche, pelo encanto fácil das sessões literárias.

Ah, e o erro de ter se casado com aquela judia alemã só porque ela sabia cozinhar batatas. Malditos os amigos que o convenceram a se casar de novo. Malditos sejam todos. Ele, que nunca blasfemava, que tolerante aceitava as pessoas como elas eram, viu-se descontrolado, praguejando. Pressentiu o pior.

Pelo telefone, o amigo escritor, também advogado, orientou-o a dar queixa na Delegacia de Desaparecidos, embora advertindo que de nada adiantaria, era uma obrigação formal de pai. Ditou-lhe o endereço, na Brigadeiro Tobias, sede central da polícia. K. perguntou se ele ouvira falar do sumiço de dois alunos judeus da medicina. Sim. Era verdade. Já fora procurado por uma das famílias. E o que ele ia fazer? Nada. Nas prisões de motivação política, os tribunais estavam proibidos de aceitar pedidos de habeas corpus. Não há nada que um advogado possa fazer. Nada. Esta é a situação.

Na polícia fizeram ao velho poucas perguntas. A maioridos desaparecidos eram adolescentes que fugiam de pais b bados e padrastos que espancavam. K. explicou que a filha era professora da universidade em grau de doutora, era independente e morava só. Tinha seu próprio carro; não seria alguma coisa política?

Não quis se abrir com o delegado, apenas insinuou. Por isso também não lhe deu o endereço da Padre Chico, deu o seu como sendo o dela e o da loja como se fosse o seu. Sem perceber, K. retomava hábitos adormecidos da juventude conspiratória na Polônia. O delegado de plantão não gostou da conversa. Em casos políticos, estava proibido de se meter. Mas, condoído, registrou a queixa. Ele que esperasse e não falasse mais em política.

Procurar? Não, a polícia tinha mais o que fazer; uma professora universitária, de quase trinta anos, adulta e vacinada. Ele que esperasse, uma circular com a fotografia chegaria a todas as delegacias. Se ele não fosse avisado em cinco dias, podia tentar o Instituto Médico Legal, para onde encaminha- vam corpos não identificados de vítimas de atropelamentos e outros acidentes. Disse isso constrangido.

Assim começou a saga do velho pai, cada dia mais aflito, mais mal dormido. No vigésimo dia, depois de mais uma incursão inútil ao campus e à casa da Padre Chico, recorreu aos amigos do círculo literário; os mesmos que por descontrole havia amaldiçoado. Quem sabe conheciam alguém que conhecesse alguém outro, na polícia, no Exército, no sni, seja onde for dentro daquele sistema que engolia pessoas sem deixar traços. Com exceção do advogado, eram uns pobretões que não conheciam ninguém importante. O advogado mencionou vagamente um líder da comunidade do Rio que tinha acesso aos generais. Tentaria saber mais.

K. passou a contabilizar a duração da ausência da filha, outro preceito dos tempos da juventude. E não passava um dia sem que tentasse algo pela filha. Já não fazia outra coisa. Para dormir, passou a tomar soporíferos. Quando se completaram vinte e cinco dias, reuniu coragem e foi ao Instituto Médico Legal.

Falou da inexplicável ausência da filha, sem mencionar política. Mostrou sua foto de formatura, solene. Depois mostrou outra, diferente, ela magra e de olhar sofrido. Não, os funcionários não associavam aquele rosto a nenhum dos pouvos cadáveres femininos, todos negros ou pardos. Quase todos, indigentes. Para dizer a verdade, deve fazer mais de ano que não chega aqui um corpo não identificado de mulher branca.

K. saiu do iml aliviado; mantinha-se a esperança de encontra–la viva. Mas as fotografias do álbum dos indigentes e desconhecidos o deprimiram. Nem na época da guerra na Polônia deparara com rostos tão maltratados e olhos tão arregalados de pavor.

Foi então que, obcecado, passou a abordar fregueses que vinham pagar a prestação na loja, vizinhos da avenida, e até desconhecidos. A todos contava a história da filha. E sua fosquinha também sumiu, ele enfatizava. A maioria ouvia até o fim em silêncio, depois davam-lhe eventualmente uma tapinha nas costas encurvadas e diziam: eu sinto muito. Alguns poucos o interrompiam já no início, alegando hora marcada no médico, ou um pretexto parecido como se ouvir já os colocasse em perigo.

No trigésimo dia do sumiço da filha, K. leu no Estado de S. Paulo uma notícia que se referia, embora de modo discreto, a desaparecidos políticos. O arcebispo havia convocado uma reunião com “familiares de desaparecidos políticos”.

Estava escrito assim mesmo: “familiares de desaparecidos políticos”.

K. nunca entrara num templo católico, tal o estranha- mento nele provocado pela penumbra silenciosa das igrejas e pelas imagens de santos, que vislumbrava por entre vãos de porta. Tinha pelo catolicismo repulsa atávica, à qual somava desprezo pelas práticas religiosas todas, inclusive as do seu próprio povo. Na verdade, não era das pessoas e suas crenças que ele não gostava, era dos sacerdotes, fossem padres, rabinos ou bispos; ele os tinha como hipócritas. Mas, naquela tarde, nada disso importava. Uma autoridade importante, um arcebispo, ia falar sobre as estranhas desaparições.

Ao entrar no salão central da Cúria Metropolitana, K. sentiu o quanto o sumiço da filha já o havia mudado. Foi com simpatia que contemplou a imagem barroca da Virgem Maria situada no saguão, e outras de santos que desconhecia, postadas nos cantos. Quando chegou, a reunião já começara. Havia sessenta pessoas ou mais nas cadeiras bem mais numerosas dispostas no salão. Quatro senhores sisudos que pareciam advogados coordenavam o encontro, sentados em forma de meialua de frente para o público; uma freira escrevia num grande caderno.

Falava uma senhora de muita idade, talvez passando dos noventa, franzina, miúda, de óculos na ponta do nariz e cabelos brancos; seu marido voltava do exílio por Uruguaiana, chegou até um ponto de encontro pré-combinado, do lado de cá da fronteira, e desapareceu por completo, sem deixar vestígio, como se tivesse evaporado ou anjos o tivessem alçado aos céus. Um dos filhos tentou rastrear seus passos, foi a todos os hospitais, delegacias, estações de ônibus de Uruguaiana e nada, nenhum sinal. O filho, ao lado, corroborava o relato.

Depois falou outra senhora, de seus cinquenta anos, que se apresentou como esposa de um ex-deputado federal. Dois policiais vieram à sua casa, pedindo que o marido os acompanhasse à delegacia para prestar alguns esclarecimentos. Ele foi tranquilo, pois embora seu mandato de deputado tivesse sido cassado pelos militares, levava vida normal, tinha escritório de advocacia. Desde então, havia oito meses, nunca mais o viram. Na delegacia disseram que ele ficou apenas quinze minutos e foi liberado. Mas como? Como poderia ter desaparecido assim por completo? Essa senhora, muito elegante, estava acompanhada de quatro filhos.

Mais relatos de sumiços; todos queriam falar. E queriam ouvir. Queriam entender. Talvez do conjunto de casos surgis- se uma explicação, uma lógica, principalmente uma solução, uma maneira de pôr fim ao pesadelo. Uma jovem de não mais que vinte anos pediu para falar em nome de um grupo sentado à sua volta, “familiares dos desaparecidos do Araguaia”, disse ela. K. pela primeira vez ouvia alguém falar do Araguaia; ficou sabendo que muitos rapazes tinham sido presos pelas Forças Armadas no meio da floresta amazônica e executados lá mesmo.

O que trazia aquele grupo à reunião era algo insólito. O Exército alegava que nada disso tinha acontecido, apesar de um dos presos, apenas um, ter escapado e testemunhado tudo. Os familiares queriam enterrar seus mortos — que eles já sabiam mortos, mais de cinquenta, diziam, sabiam até a região aproximada em que foram executados, mas os militares insistiam que não havia corpo nenhum para entregar.

Um rapaz encontrou-se com a esposa no Conjunto Nacional para almoçarem juntos e os dois nunca mais foram vistos. À medida que falava, a mãe do rapaz mostrava aos vizinhos de assento as fotos do filho, da nora e do netinho. Um senhor levantou-se, disse que viera de Goiânia especialmente para a reunião. Seus dois filhos, um de vinte anos e o outro de apenas dezasseis, foram desaparecidos. Esse senhor gaguejava, parecia em estado catatônico. Foi o primeiro a usar a expressão “foram desaparecidos”. Também trazia fotos dos filhos. Depois dele, K. tomou coragem e contou a sua história. Já havia caído a noite e os relatos prosseguiam. Variavam cenários, detalhes, circunstâncias, mas todos os vinte e dois casos computados naquela reunião tinham uma característica comum assombrosa: as pessoas desapareciam sem deixar vestígios. Era como se volatilizassem. O mesmo com os jovens do Araguaia, embora este já se soubesse estarem mortos. A freira anotava caso por caso. Também recolhia as fotos trazidas pelos familiares.

K. tudo ouvia, espantado. Até os nazistas que reduziam suas vítimas a cinzas registavam os mortos. Cada um tinha um número, tatuado no braço. A cada morte, davam baixa num livro. É verdade que nos primeiros dias da invasão houve chacinas e depois também. Enfileiravam todos os judeus de uma aldeia ao lado de uma vala, fuzilavam, jogavam cal em cima, depois terra e pronto. Mas os goim* de cada lugar sabiam que os seus judeus estavam enterrados naquele buraco, sabiam quantos eram e quem era cada um. Não havia a agonia da incerteza; eram execuções em massa, não era um sumidouro de pessoas.

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The tragedy had already advanced inexorably when, on that Sunday morning, K. felt for the first time the anguish that would soon overwhelm him completely. His daughter had not called for ten days. Later, he would blame the lack of family rituals, which were all the more necessary in difficult times, the phone calls once a day, the Sunday lunch. His daughter was not on good terms with his second wife.

And how could he not notice the turmoil of the new times, he, schooled in politics? Who knows if it would have been different if, instead of his friends who wrote Yiddish, * this dead language that only a few old people still speak, he had paid more attention to what was happening in the country at that moment? Who knows? What does Yiddish matter?

* Yiddish is spoken by the Jews of Eastern Europe and had its heyday at the beginning of the 20th century, when its literature was consolidated; it suffered a rapid decline due to the Holocaust and the adoption of Hebrew by the founders of the State of Israel.

Nothing. A corpse language, that’s what they mourned in these weekly meetings, instead of caring for the living.

He had associated Sunday with his daughter ever since he brought her gifts on market day. Suddenly, he remembered rumors from the day before, in Bom Retiro; two Jewish medical students had disappeared, one of them, it was said, from a wealthy family. A political thing, they said, a dictatorship thing, it had nothing to do with anti-Semitism. Others, non-Jews, had also disappeared, which is why the Federation had decided not to get involved. That was the rumor, perhaps it wasn’t even true; since they didn’t say who the boys were.

It was the rumor that made him restless, not Sunday. He spent the day dialing a phone number his daughter had given him for emergencies, but the ringing echoed alone. With no answer, not even at one in the morning, when she should have been back even though she had gone to the movies, which she liked so much, he decided to look for her the next day at the university. That night, as a boy, he dreamed of the Cossacks invading his father’s shoe shop so that he could sew them boot gaiters. He woke up early, startled. The Cossacks, he remembered, had arrived precisely on Tisha Beav, * the day of all the misfortunes of the Jewish people, the day of the destruction of the first and second temples, and also of the expulsion from Spain.

* Literally, the ninth day of the month of Av in the Jewish calendar, considered cursed.

Not knowing what to fear, but already fearing it, and without waking his wife, he took the Austin out of the garage and drove towards the university campus, far away on the plain, on the other side of the tangle of skyscrapers. He drove slowly, taking his time crossing the center, as if he never wanted to arrive; the feelings alternating between the certainty of finding her working normally and the fof the opposite. Finally, she reached the Chemistry Complex, where she had only been once, years ago, when her daughter had defended her doctorate in front of a group of stern-looking professors, some of whom had graduated in Germany.

She didn’t come today, her friends said. They glanced at each other hesitantly. Then, as if fearing the walls’ indiscretion, they pulled K. aside to talk in the garden. Then they revealed that she had not shown up for eleven days. Yes, of course, eleven days, counting two weekends. She, who had never missed a single class. They spoke in whispers, without finishing their sentences, as if each word concealed a thousand other words with forbidden meanings.

Dissatisfied and agitated, K. wanted to hear from other people — perhaps his daughter’s superiors had some information? If she had had an accident and was hospitalized, they would certainly have contacted the university. Her friends were alarmed. Don’t do that. Not yet. To dissuade him, they moderated their speech, maybe she had traveled, gone away for a few days as a precaution. Strangers have been asking about her, you know? There are strange people on campus. They write down license plates. They are inside the rectory. Who are they? They didn’t know how to answer.

Persuaded not to seek out the university authorities, K. drove in agony from the campus to a number on Padre Chico Street, which his daughter had given him some time ago, with the recommendation that he only call her at that address if something very serious happened and she didn’t answer the phone. It was absurd that he hadn’t questioned this about only visiting if it was serious, only calling if it was urgent. What was he thinking, my God?

It was a small semi-detached house, facing directly onto the street, squeezed in between a dozen of the same type. At the foot of the door, dusty pamphlets and newspapers denounced the prolonged absence of the residents. No one answered his inquisitive calls to the doorbell.

There you have it, the tragedy had set in. What to do? His two sons, far away, abroad. His second wife, a useless woman. His friends from university were in a panic. The old man felt crushed. His body was weak, empty, as if it were about to collapse. His mind was in a stupor. Suddenly, everything lost its meaning. A single fact imposed itself, canceling out everything that was not part of it; making everything obsolete. The concrete fact that his beloved daughter had been missing for eleven days, maybe more. He felt very alone.

He began to list hypotheses. Maybe an accident, or a serious illness that she did not want to reveal. The worst was arrest by the secret services. The State has no face or feelings, it is opaque and perverse. Its only crack is corruption. But sometimes even that closes for higher reasons. And then the State becomes doubly evil, through its cruelty and its untouchability. He knew that very well.

K. recalled recent scenes, his daughter’s nervousness, her evasions, her rushing in and out, only giving out the address as a last resort and with the recommendation not to give it to anyone. In a daze, he realized the enormity of the self-deception he had lived in, tricked by his own daughter, perhaps getting involved in extremely dangerous adventures without him suspecting, distracted as he had been by his devotion to Yiddish, by the easy charm of literary sessions.

Oh, and the mistake of having married that German Jew just because she knew how to cook potatoes. Damn the friends who convinced him to marry again. Damn them all. He, who never swore, who tolerantly accepted people as they were, found himself out of control, cursing. He sensed the worst. Over the phone, his writer friend, also a lawyer, advised him to file a complaint with the Missing Persons Police Station, although he warned him that it would be useless; it was a formal obligation as a father. He gave him the address, on Brigadeiro Tobias, the police headquarters. K. asked if he had heard about the disappearance of two Jewish medical students. Yes. It was true. One of the families had already looked for him. And what was he going to do? Nothing. In politically motivated arrests, the courts were forbidden from accepting habeas corpus petitions. There was nothing a lawyer could do. Nothing. That was the situation.

The police asked the old man few questions. Most of the missing people were teenagers who were running away from drunken fathers and stepfathers who beat them. K. explained that his daughter was a university professor with a doctorate degree, was independent and lived alone. She had her own car; couldn’t it be something political?

He didn’t want to open up to the police chief, he just hinted. That’s why he didn’t give her Padre Chico’s address either, he gave his as hers and the store’s as his own. Without realizing it, K. was returning to the dormant habits of his conspiratorial youth in Poland. The police chief on duty didn’t like the conversation. He was forbidden from getting involved in political matters. But, feeling sorry for him, he filed the complaint. He should wait and not talk about politics anymore.

Look for her? No, the police had better things to do: a university professor, almost thirty years old, an adult and vaccinated. He should wait, a circular with her photograph would reach all the police stations. If he wasn’t notified within five days, he could try the Forensic Medical Institute, where they sent unidentified bodies of victims of run-overs and other accidents. He said this embarrassed.

That’s how the old father’s saga began, each day more distressed, more sleepless. On the twentieth day, after yet another useless foray into the campus and into Padre Chico’s house, he turned to his friends from the literary circle; the same ones he had cursed out of sheer control. Maybe they knew someone who knew someone else, in the police, the Army, the SNI, wherever in that system that swallowed people up without leaving a trace. With the exception of the lawyer, they were poor people who didn’t know anyone important. The lawyer vaguely mentioned a community leader from Rio who had access to the generals. He would try to find out more.

K. began to count the length of his daughter’s absence, another precept from his youth. And not a day went by without him trying something for his daughter. He didn’t do anything else anymore. To sleep, he started taking sleeping pills. When twenty-five days had passed, he gathered his courage and went to the Forensic Medical Institute.

He spoke of his daughter’s inexplicable absence, without mentioning politics. He showed her graduation photo, solemn. Then he showed her another, different one, of her thin and with a suffering look. No, the employees did not associate that face with any of the few female corpses, all black or mixed-race. Almost all of them were homeless. To tell the truth, it must have been over a year since an unidentified white woman had arrived here.

K. left the hospital relieved; he still hoped to find her alive. But the photographs in the album of homeless and unknown people depressed him. Not even during the war in Poland had he come across such battered faces and eyes so wide with fear.

It was then that, obsessed, he began to approach customers who came to pay their installments at the store, neighbors on the avenue, and even strangers. He told them all the story of his daughter. And her little face had also disappeared, he emphasized. Most of them listened to him until the end in silence, then occasionally patted him on the hunched back and said: I’m so sorry. A few people interrupted him right from the start, claiming an appointment with the doctor, or some other excuse, as if listening would put them in danger.

On the thirtieth day after his daughter’s disappearance, K. read a news story in the Estado de S. Paulo that referred, although discreetly, to political disappearances. The archbishop had called a meeting with “relatives of political disappearances. It was written exactly like that: “relatives of political disappearances.”

K. had never entered a Catholic church, so strange was it to him because of the silent darkness of the churches and the images of saints that he glimpsed through the doorways. He had an atavistic repulsion towards Catholicism, to which he added a contempt for all religious practices, including those of his own people. In truth, it was not the people and their beliefs that he disliked, but the priests, whether priests, rabbis or bishops; he considered them hypocrites. But that afternoon, none of that mattered. An important authority, an archbishop, was going to speak about the strange disappearances.

As he entered the central hall of the Metropolitan Curia, K. felt how much his daughter’s disappearance had already changed him. He gazed with sympathy at the baroque image of the Virgin Mary in the lobby, and at other saints he did not recognize, placed in the corners. When he arrived, the meeting had already begun. There were sixty or more people in the many more chairs arranged in the hall. Four serious gentlemen who looked like lawyers were coordinating the meeting, seated in a half-moon shape facing the audience; a nun was writing in a large notebook.

A very elderly woman was speaking, perhaps in her nineties, frail, petite, with glasses on the tip of her nose and white hair; her husband was returning from exile in Uruguaiana, arrived at a prearranged meeting point on this side of the border, and disappeared completely, without a trace, as if he had evaporated or angels had lifted him to heaven. One of his sons tried to track his steps, went to all the hospitals, police stations, and bus stations in Uruguaiana, but found nothing, not a trace. His son, next to him, corroborated the story.

Then another woman spoke, in her fifties, who introduced herself as the wife of a former federal deputy. Two police officers came to her house, asking her husband to accompany them to the police station to provide some information. He was calm, because although his mandate as deputy had been revoked by the military, he led a normal life and had a law office. They had not seen him since then, for eight months. At the police station they said he had only stayed for fifteen minutes and was released. But how? How could he have disappeared like that completely? This very elegant lady was accompanied by her four children.

More reports of disappearances; everyone wanted to talk. And they wanted to listen. They wanted to understand. Perhaps from the set of cases an explanation, a logic, and above all a solution, a way to put an end to the nightmare, would emerge. A young woman of no more than twenty asked to speak on behalf of a group sitting around her, “relatives of the missing people from Araguaia,” she said. K. was hearing someone talk about Araguaia for the first time; He learned that many young men had been arrested by the Armed Forces in the middle of the Amazon rainforest and executed there.

What had brought that group to the meeting was something unusual. The Army claimed that none of this had happened, even though one of the prisoners, just one, had escaped and witnessed everything. The family members wanted to bury their dead—who they already knew were dead, more than fifty, they said, and even knew the approximate region where they had been executed—but the military insisted that there were no bodies to hand over.

A young man met his wife at Conjunto Nacional to have lunch together and the two were never seen again. As he spoke, the young man’s mother showed the neighbors photos of her son, daughter-in-law and grandson. A man stood up and said that he had come from Goiânia especially for the meeting. His two sons, one twenty years old and the other only sixteen, had disappeared. This man stuttered and seemed catatonic. He was the first to use the expression “they had disappeared.” She also brought photos of her children. After him, K. gathered up the courage and told his story. Night had already fallen, and the stories continued. They varied scenarios, details, circumstances, but all twenty-two cases recorded at that meeting had a common, astonishing characteristic: the people disappeared without a trace. It was as if they had evaporated. The same with the young people from Araguaia, although it was already known that they were dead. The nun wrote down each case. She also collected the photos brought by the relatives. K. listened to everything, astonished. Even the Nazis who reduced their victims to ashes recorded the dead. Each one had a number tattooed on their arm. Each death was recorded in a book. It is true that in the first days of the invasion there were massacres and later too. They lined up all the Jews of a village next to a ditch, shot them, threw lime on them, then earth and that was it. But the goyim of each place knew that their Jews were buried in that hole, they knew how many there were and who each one was. There was no agony of uncertainty; these were mass executions, not a sinkhole for people

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Judith Laikin Elkin (1928-2024)– Historian and Founding President of the Latin American Jewish Studies Association/Historiadora y Presidenta Fundadora de la Asociación de Estudios Judío-Latinoamericanos/Historiadora e Presidenta Fundador da Associação de Estudos Judaico-Latino-Americanos

Judith Laikin Elkin

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Judith Laikin Elkin was born in Baltimore MD in 1928; she had lived in Ann Arbor since 1980. Married for 47 years to Sol M. Elkin, who pre-deceased her. She was the mother of Alissa Ruth Leonard and the late Susannah (Stephen) Zisk. She is survived by four grandchildren: Sarah, Talia, and Abigail Leonard, and Sam Zisk. Educated in Detroit Public Schools and the Farband Folk Shule, Judith earned a BA in English from the University of Michigan (1948) and an MA in International Relations from Columbia University (1950). After raising her children, she returned to the University of Michigan to earn her Ph.D. in history (1976). Identifying a gap in historical studies, she founded the Latin American Jewish Studies Association to support research in that area and served as its president for 13 years. She was the author of numerous books and articles on this subject, including The Jews of Latin America, the foundational text for the field.
Judith was one of the few women commissioned as a United States Foreign Service Officer prior to passage of the 1964 Civil Rights Act. She served as vice consul to India, Pakistan, Burma (Myanmar), Ceylon (Sri Lanka), and Afghanistan, where she traveled extensively. A memoir of her experiences was published as Krishna Smiled: Assignment in South Asia. She later was assigned to London, England, as visa officer, where she had experiences recounted in her memoir, Walking Made My Path. She resigned her commission in order to be free to marry and found a family. Back home in Detroit, she wrote a column on foreign affairs for the Detroit Free Press and Toledo Blade. From 1989 on, she was an associate of the Frankel Center for Judaic Studies at the University of Michigan. While conducting research as an independent scholar, Judith taught history and political science at Albion College, Wayne State University, Ohio State University, and The University of Michigan. She also held administrative positions at Albion College, Great Lakes Colleges Association, and Union Steel. She was encouraged in her work by grants and fellowships from the National Endowment for the Humanities, the Fulbright Association, Memorial Foundation for Jewish Culture, American Jewish Archives, American Association of University Women, Touro National Heritage Foundation, and American Council of Learned Societies. She served as an elected member of the Albion school board, the board of the Michigan Chapter of the Fulbright Association, and the board of the Jewish Community Center of Greater Ann Arbor.  Ann Arbor News

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Judith Laikin Elkin nació en Baltimore MD en 1928; había vivido en Ann Arbor desde 1980. Casada durante 47 años con Sol M. Elkin, quien falleció antes que ella. Era la madre de Alissa Ruth Leonard y de la fallecida Susannah (Stephen) Zisk. Le sobreviven cuatro nietos: Sarah, Talia, Abigail Leonard y Sam Zisk. Educada en las Escuelas Públicas de Detroit y en Farband Folk Shule, Judith obtuvo una licenciatura en inglés de la Universidad de Michigan (1948) y una maestría en Relaciones Internacionales de la Universidad de Columbia (1950). Después de criar a sus hijos, regresó a la Universidad de Michigan para obtener su doctorado. en la historia (1976). Al identificar una brecha en los estudios históricos, fundó la Asociación de Estudios Judíos Latinoamericanos para apoyar la investigación en esa área y fue su presidenta durante 13 años. Fue autora de numerosos libros y artículos sobre este tema, incluido Los judíos de América Latina, el texto fundacional del campo. Judith fue una de las pocas mujeres comisionadas como funcionaria del Servicio Exterior de los Estados Unidos antes de la aprobación de la Ley de Derechos Civiles de 1964. Se desempeñó como vicecónsul en India, Pakistán, Birmania (Myanmar), Ceilán (Sri Lanka) y Afganistán, donde viajó mucho. Se publicó una memoria de sus experiencias como Krishna Smiled: Assignment in South Asia. Más tarde fue asignada a Londres, Inglaterra, como oficial de visas, donde contó sus experiencias en sus memorias, Walking Made My Path. Renunció a su cargo para poder casarse y fundar una familia. De regreso a Detroit, escribió una columna sobre asuntos exteriores para Detroit Free Press y Toledo Blade. A partir de 1989 fue asociada del Centro Frankel de Estudios Judaicos de la Universidad de Michigan. Mientras realizaba investigaciones como académica independiente, Judith enseñó historia y ciencias políticas en Albion College, Wayne State University, Ohio State University y The University of Michigan. También ocupó cargos administrativos en Albion College, Great Lakes Colleges Association y Union Steel. Su trabajo la alentaron las subvenciones y becas del Fondo Nacional de Humanidades, la Asociación Fulbright, la Fundación Memorial para la Cultura Judía, los Archivos Judíos Estadounidenses, la Asociación Estadounidense de Mujeres Universitarias, la Fundación del Patrimonio Nacional Touro y el Consejo Estadounidense de Sociedades Cultas. Se desempeñó como miembro electa de la junta escolar de Albion, la junta del Capítulo de Michigan de la Asociación Fulbright y la junta del Centro Comunitario Judío de Greater Ann Arbor.  Ann Arbor News

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Judith Laikin Elkin nasceu em Baltimore, MD, em 1928; morava em Ann Arbor desde 1980. Casado há 47 anos com Sol M. Elkin, que faleceu antes dela. Ela era a mãe de Alissa Ruth Leonard e da falecida Susannah (Stephen) Zisk. Ela deixa quatro netos: Sarah, Talia, Abigail Leonard e Sam Zisk. Educada nas Escolas Públicas de Detroit e no Farband Folk Shule, Judith obteve bacharelado em Inglês pela Universidade de Michigan (1948) e mestrado em Relações Internacionais pela Universidade de Columbia (1950). Depois de criar os filhos, ela voltou para a Universidade de Michigan para obter seu doutorado. na história (1976). Identificando uma lacuna nos estudos históricos, ela fundou a Associação de Estudos Judaicos Latino-Americanos para apoiar pesquisas nessa área e serviu como sua presidente por 13 anos. Ela foi autora de vários livros e artigos sobre o tema, incluindo The Jews of Latin America, o texto fundador da área. Judith foi uma das poucas mulheres comissionadas como oficial do Serviço de Relações Exteriores dos Estados Unidos antes da aprovação da Lei dos Direitos Civis de 1964. Ela serviu como vice-cônsul na Índia, Paquistão, Birmânia (Myanmar), Ceilão (Sri Lanka) e Afeganistão, onde ele viajou muito. Um livro de memórias de suas experiências foi publicado como Krishna Smiled: Assignment in South Asia. Mais tarde, ela foi designada para Londres, Inglaterra, como oficial de vistos, onde contou suas experiências em seu livro de memórias, Walking Made My Path. Ele renunciou ao cargo para poder se casar e constituir família. Retornando a Detroit, ele escreveu uma coluna sobre relações exteriores para o Detroit Free Press e o Toledo Blade. A partir de 1989, ela foi associada do Centro Frankel de Estudos Judaicos da Universidade de Michigan. Enquanto conduzia pesquisas como acadêmica independente, Judith ensinou história e ciências políticas no Albion College, na Wayne State University, na Ohio State University e na University of Michigan. Ele também ocupou cargos administrativos no Albion College, na Great Lakes Colleges Association e na Union Steel. Seu trabalho foi incentivado por doações e bolsas do National Endowment for the Humanities, da Fulbright Association, da Memorial Foundation for Jewish Culture, dos American Jewish Archives, da American Association of University Women, da Touro National Heritage Foundation e do American Council of Sociedades Cultuadas. Ela serviu como membro eleito do conselho escolar de Albion, do conselho do Capítulo de Michigan da Associação Fulbright e do conselho do Centro Comunitário Judaico da Grande Ann Arbor.  Ann Arbor News

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Books/Libros/Livros

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Judith Laikin Elkin. The Jews of Latin America. 3rd, Edition. Boulder, CO: Lynne Rienner, 2014, 296-301: 

English/Español/Português:

The Challenge of Religion

Absence of a religious core to Jewish life came to be seen as a principal reason for the accelerating rate of exogamy, which brought with it the prospect of the disappearance of Judaism from the continent. Of course, the disappearance of Judaism is not the same as disappearance of Jews physically, and Jews dif­fer as to Judaism’s enduring value. Persons “of Jewish descent” continue to live and thrive (or not) as citizens of their country of adoption, while memories of kehillah life retreat farther and farther beyond parents’ and grandparents’ horizons. Increasing numbers of Jews melt into national versions of the melting pot, while Orthodox Jews recoil from the “horror” of assimilation. A contest between very different proposed directions for Latin American Jewish life is ongoing at this time; two of several opposed religious visions are described here. The choices made will shape the way in which Jews adapt to, and are ac­cepted by, Latin American societies.

Renewal

           As leader of the newly founded Comunidad Bet El of Buenos Aires in the 1960s and 1970s, American rabbi Marshall Meyer took as his mission the renewal of Judaism and the reattachment of young secular Jews to Jewishness. Influenced by Liberation Theology-the realization of religious belief through social connection-Meyer worked to move the synagogue from the periphery or Argentine Jewish life to its center. He began by generating an atmosphere that would attract the entire family: men and women lo be incorporated into the religious service, and Hebrew prayers translated into Spanish. These innovations had been rejected when Meyer proposed them at Congregación Israelita de la República Argentina (CIRA) and were the cause of the congregational split.

          Although he himself was educated in the Conservative movement, Meyer enlisted a Moroccan rabbi to provide himself with an Orthodox anchor. (Conservatism bridges Orthodoxy and Reform, retaining essential teachings of Judaism while allowing customs that are deemed obsolete to lapse.) With his help, Meyer founded a Seminario Rabinico to begin training young men (and eventually women) to fill the need for Spanish-speaking religious personnel educated in both religious and secular modes. Unlike rabbis imported from abroad, students at the Buenos Aires seminary would also matriculate at an Argentine university, closing the gap that formerly had existed between congregations and their spiritual leaders. The seminario opened a day school for elementary through high school grades, initiated adult education courses and a teacher training program, established a library of Judaica and Hebraica, and arranged for the translation of basic religious works from Hebrew into Spanish. The seminario began the revival of moribund congregational life by legitimizing a conversion process (still controversial) that brought spouses who had not been born Jewish into the community, instead of excluding members who married non-Jews. . .

          Unlike would-be reformers of the Catholic Church, Conservative Jews had no institutional opponent in their effort to liberate Jews from a tradition they be­lieved had lost its relevance to the modem world. In 1970, the Seminario Rabinico achieved full status as a seminary for the training of rabbis and became an affiliate of the Jewish Theological Seminary of New York, the academic, cultural, and religious center for Conservative Judaism. From then on, students and faculty transitioned between the Seminario and Comunidad Bet El. By 1988, some fifty Conservative congregations were functioning in Argentina, Chile, Peru, Brazil, Colombia, and Mexico, thirty of these with Seminario-trained rabbis and embraced over on hundred thousand congregants. By 2013, Seminary had ordained ninety rabbis, including 10 women. This growth was not the result of missionary activity, but occurred when existing synagogues realized that their survival depended on attracting new congregants and that these were joining the Conservative wave. At that point, many requested the seminario to recommend a rabbi to guide the conversation to a progressive interpretation of Judaism.

         Marshall Mayer’s version of Conservative Judaism, combining religious faith and social action, filled a specific need in Argentine society. It attracted the children and grandchildren of leftist and secular Jews who had been alienated from religion because of its apparent disconnection from the problems of the day. Importantly, it provided an outlet for politically and socially aware Jews at a time when military oppression made political and social action dangerous. Meyer and the Seminario began a process from converting Judaism in Latin America from a set of rules and obligations without apparent relevance to the modern world to an ethical way of life informed by the past and applicable to contemporary life. By founding a rabbinical seminary for the training of spiritual leaders in a progressive mode, who are prepared to assume leadership roles in in their communities, Meyer also made it possible for Argentine Jews to accept an overture by the Church, should an opening occur.

Return

 The contemporary turn to ultra-Orthodoxy, viewed as a return or tshuvah originated in the 1940s as an attempt to explain the ongoing horror of the Holocaust. As interpreted by Menahem Mendel Schneerson (1902-1994), seventh rebbe of the Chabad Lubavich dynasty, Jewish are going through a “spiritual holocaust: the secularization of Jewish life in America.” This spiritual impoverishment can be reversed by a return to authentic Jewish tradition, and only that return with bring about the advent of the Messianic Age. Under this banner, Chabad and other ultra-religious sects pioneered a global mission to transform seculars, liberals, and unbelievers into Orthodox Jews (these groups have no interest in converting non-Jews to Judaism) . . .

         Orthodox emissaries are dispatched to live in areas where secularism and liberalism are believed to be decimating Jewish life. Chabad, writes Mary Topel, to awaken the spark of divinity, has transformed itself into a transnational empire with an aggressive policy of proselytization. These emissaries must keep the religious precepts themselves, setting an example of the moral life by fulfilling the commandments of halacha, including marrying and raising large families. Militants regard themselves as waging a spiritual war to awaken the spark of divinity that resides in every Jew but that has been covered over by the influence of the larger society. This militancy in the service of a righteous cause impels young missionaries to places like Mumbai, Kinshasa or São Paulo in order to locate non-observant Jews and them into a life of Jewish spirituality. The goal is the creation of new orthodox families and communities. These missions have been success in many cities across the Americas, of which São Paulo provides an example. In 1985, there were four orthodox rabbis in that city. In 2000, following the arrival of the Chabad missions, more than one hundred rabbis were active there. There were also fifteen new synagogues, three yeshivas, two religious academies for adults, facilities for kosher slaughter of meat, ritual baths, and five children’s schools, which had eclipsed the existing three secular schools. Kosher restaurants, bookstores and study centers had appeared by the 1990s, and rabbis were organizing youth activities, seminars, pizza parties, and other activities that attracted people who might not have been thinking about teshuva but who enjoyed getting together with other people like themselves. As more people connected to the hospitable Chabad Houses, Jewish spaces that had formerly been secular became Orthodox.

   The movement responded to the needs of Jews who might have made it in the material world, but who were searching for transcendence in their spiritual lives, which they could not find in the Catholic ambience. Within Jewish spaces where they felt a sense of belonging, they accepted the leadership of rabbis who gave assurance of the unchanging values of Judaism, which had guided their ancestors and still could teach one how to live in the modem world. The evolution of the Hebrew schools, which in Sao Paulo, as elsewhere, had been secular, exemplifies Chabad’s proselytizing methods. In accord with an agreement with a philanthropist who contributed the necessary funds, the schools brought Orthodox teachers onto their staffs. Parents did not object: instead of making do with volunteer or underprepared teachers, their children would now be studying Judaism from knowledgeable rabbis. Charismatic teachers gained the students’ attention and their parents’ support. But these well-regarded teachers soon refused to teach girls in the existing mixed classes; then objected to teaching the children of mixed marriages, whom they did not consider Jewish. Bat mitzvah (the coming-of-age ceremony for girls, parallel to the bar mitzvah for boys) was downgraded by assigning the girls to a separate room and not allowing them to voice their prayers aloud. Principals who objected to these changes were silenced by their board in the interest of retaining the conditional financing. Unlike the comparable situation in Israel, where attempts to impose orthodoxy on the population have met with resistance, by the year 2000, Sao Paulo Jews were on their way to accepting orthodoxy.

         Chabad was an early and enthusiastic adopter of technology. Its website carries a directory of Chabad centers worldwide (in 2012, there were eleven in Brazil, fifteen in Argentina, two in Venezuela, and one in Paraguay). Tabs on this site conveniently bring up lessons in Jewish law, sermons, kosher cookery, as well as the humorous stories that Hasidim tell to intrigue listeners and personalize religious concepts The tab marked “ask the rabbi” was deleted because it was receiving thousands of queries from non-Jews. Three groups Chabad particularly avoids: Pentecostals, people who believe they are descended from Marranos, and those who wish to convert to Judaism in order to qualify for emigration to Israel.

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El desafío de la religión

La ausencia de un núcleo religioso en la vida judía llegó a ser vista como la razón principal del ritmo acelerado de la exogamia, que trajo consigo la perspectiva de la desaparición del judaísmo del continente. Por supuesto, la desaparición del judaísmo no es lo mismo que la desaparición física de los judíos, y los judíos difieren en cuanto al valor perdurable del judaísmo. Las personas “de ascendencia judía” continúan viviendo y prosperando (o no) como ciudadanos de su país de adopción, mientras que los recuerdos de la vida en kehillah se alejan cada vez más de los horizontes de los padres y abuelos. Un número cada vez mayor de judíos se funden en versiones nacionales del crisol, mientras que los judíos ortodoxos retroceden ante el “horror” de la asimilación. En este momento está en curso una pugna entre direcciones propuestas muy diferentes para la vida judía latinoamericana. Aquí se describen dos de varias visiones religiosas opuestas. Las decisiones que se tomen determinarán la forma en que los judíos se adapten a las sociedades latinoamericanas y sean aceptados por ellas.

Renovación

           Como líder de la recién fundada Comunidad Bet El de Buenos Aires en las décadas de 1960 y 1970, el rabino estadounidense Marshall Meyer asumió como misión la renovación del judaísmo y la reinserción de los jóvenes judíos seculares al judaísmo. Influenciado por la Teología de la Liberación (la realización de la creencia religiosa a través de la conexión social), Meyer trabajó para trasladar la sinagoga de la periferia de la vida judía argentina a su centro. Comenzó por generar un ambiente que atrajera a toda la familia: hombres y mujeres incorporados al servicio religioso, y oraciones hebreas traducidas al español. Estas innovaciones habían sido rechazadas cuando Meyer las propuso en la Congregación Israelita de la República Argentina (CIRA) y fueron la causa de la división entre congregaciones.

          Aunque él mismo fue educado en el movimiento conservador, Meyer reclutó a un rabino marroquí para que le proporcionara un ancla ortodoxa. (El conservadurismo une la ortodoxia y la reforma, conservando las enseñanzas esenciales del judaísmo y al mismo tiempo permitiendo que caduquen costumbres que se consideran obsoletas). Con su ayuda, Meyer fundó un Seminario Rabínico para comenzar a capacitar a hombres jóvenes (y eventualmente a mujeres) para satisfacer la necesidad de estudiantes de habla hispana. personal religioso educado tanto en modalidad religiosa como secular. A diferencia de los rabinos importados del extranjero, los estudiantes del seminario de Buenos Aires también se matricularían en una universidad argentina, cerrando la brecha que antes existía entre las congregaciones y sus líderes espirituales. El seminario abrió una escuela diurna para los grados de primaria a secundaria, inició cursos de educación para adultos y un programa de formación de profesores, estableció una biblioteca de judaica y hebraica y organizó la traducción de obras religiosas básicas del hebreo al español. El seminario inició el resurgimiento de la moribunda vida congregacional al legitimar un proceso de conversión (aún controvertido) que incorporó a la comunidad a cónyuges que no habían nacido judíos, en lugar de excluir a los miembros que se casaron con no judíos. . .

   A diferencia de los aspirantes a reformadores de la Iglesia católica, los judíos conservadores no tenían ningún oponente institucional en su esfuerzo por liberarlos de una tradición que creían que había perdido su relevancia para el mundo moderno. En 1970, el Seminario Rabínico alcanzó el estatus pleno de seminario para la formación de rabinos y se convirtió en afiliado del Seminario Teológico Judío de Nueva York, el centro académico, cultural y religioso del judaísmo conservador. A partir de entonces, los estudiantes y profesores hicieron la transición entre el Seminario y la Comunidad Bet El. En 1988, funcionaban unas cincuenta congregaciones conservadoras en Argentina, Chile, Perú, Brasil, Colombia y México, treinta de ellas con rabinos formados en el Seminario y acogían a más de cien mil feligreses. En 2013, el Seminario había ordenado noventa rabinos, incluidas diez mujeres. Este crecimiento no fue el resultado de la actividad misionera. Pero ocurrió cuando las sinagogas existentes se dieron cuenta de que su supervivencia dependía de atraer nuevos feligreses y que éstos se estaban uniendo a la ola conservadora. En ese momento, muchos pidieron al seminario que recomendara un rabino para guiar la conversación hacia una interpretación progresista del judaísmo.

         La versión del judaísmo conservador de Marshall Mayer, que combinaba fe religiosa y acción social, satisfizo una necesidad específica de la sociedad argentina. Atrajo a los hijos y nietos de judíos izquierdistas y seculares que habían sido alienados de la religión debido a su aparente desconexión de los problemas de la época. Es importante destacar que proporcionó una salida para judíos política y socialmente conscientes en un momento en que la opresión militar hacía peligrosa la acción política y social. Meyer y el Seminario iniciaron un proceso para convertir el judaísmo en América Latina de un conjunto de reglas y obligaciones sin relevancia aparente para el mundo moderno a una forma de vida ética informada por el pasado y aplicable a la vida contemporánea. Al fundar un seminario rabínico para la formación de líderes espirituales de manera progresista, que estén preparados para asumir roles de liderazgo en sus comunidades, Meyer también hizo posible que los judíos argentinos aceptaran una propuesta de la Iglesia, en caso de que se produjera una apertura.

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O desafio da religião

A ausência de um núcleo religioso na vida judaica passou a ser vista como o principal motivo do ritmo acelerado da exogamia, que trouxe consigo a perspectiva do desaparecimento do judaísmo do continente. É claro que o desaparecimento do Judaísmo não é o mesmo que o desaparecimento físico dos Judeus, e os Judeus divergem quanto ao valor duradouro do Judaísmo. As pessoas “de ascendência judaica” continuam a viver e a prosperar (ou não) como cidadãos do seu país de adoção, enquanto as memórias da vida em kehillah se afastam cada vez mais dos horizontes dos pais e avós. Um número crescente de Judeus funde-se em versões nacionais do caldeirão cultural, enquanto os Judeus Ortodoxos recuam perante o “horror” da assimilação. Atualmente está em curso uma luta entre propostas de direções muito diferentes para a vida judaica latino-americana; Duas das várias visões religiosas opostas são descritas aqui. As decisões tomadas determinarão como os judeus se adaptarão e serão aceitos pelas sociedades latino-americanas.

Renovação

Como líder da recém-fundada Comunidade Bet El de Buenos Aires nas décadas de 1960 e 1970, o rabino americano Marshall Meyer assumiu como missão renovar o judaísmo e reintegrar jovens judeus seculares ao judaísmo. Influenciado pela Teologia da Libertação (a realização da crença religiosa através da conexão social), Meyer trabalhou para mover a sinagoga da periferia da vida judaica argentina para o seu centro. Começou criando um ambiente que atraiu toda a família: homens e mulheres incorporados ao serviço religioso e orações hebraicas traduzidas para o espanhol. Estas inovações foram rejeitadas quando Meyer as propôs na Congregação Israelita da República Argentina (CIRA) e foram a causa da divisão congregacional.

  Embora ele próprio tenha sido criado no movimento conservador, Meyer recrutou um rabino marroquino para lhe fornecer uma âncora ortodoxa. (O conservadorismo une a Ortodoxia e a Reforma, preservando os ensinamentos essenciais do Judaísmo, ao mesmo tempo que permite que os costumes considerados obsoletos expirem.) Com a ajuda deles, Meyer fundou um Seminário Rabínico para começar a treinar jovens (e eventualmente mulheres) para atender à necessidade de estudantes de língua espanhola. pessoal religioso educado nos modos religioso e secular. Ao contrário dos rabinos importados do estrangeiro, os seminaristas de Buenos Aires também se matriculariam numa universidade argentina, fechando a lacuna que existia anteriormente entre as congregações e os seus líderes espirituais. O seminário abriu uma escola diurna para o ensino fundamental até o ensino médio, iniciou cursos de educação de adultos e um programa de formação de professores, estabeleceu uma biblioteca judaica e hebraica e organizou a tradução de obras religiosas básicas do hebraico para o espanhol. O seminário iniciou o renascimento da vida congregacional moribunda ao legitimar um processo de conversão (ainda controverso) que trouxe para a comunidade cônjuges que não nasceram judeus, em vez de excluir membros que se casaram com não-judeus. . .

  Ao contrário dos pretensos reformadores da Igreja Católica, os judeus conservadores não tinham oponentes institucionais no seu esforço para os libertar de uma tradição que acreditavam ter perdido a sua relevância para o mundo moderno. Em 1970, o Seminário Rabínico alcançou o status pleno de seminário para a formação de rabinos e tornou-se afiliado do Seminário Teológico Judaico de Nova York, o centro acadêmico, cultural e religioso do Judaísmo Conservador. A partir de então, alunos e professores fizeram a transição entre o Seminário e a Comunidade Bet El. Em 1988, cerca de cinquenta congregações conservadoras funcionavam na Argentina, Chile, Peru, Brasil, Colômbia e México, trinta delas com rabinos formados no Seminário. e acolheu mais de cem mil paroquianos. Em 2013, o Seminário ordenou noventa rabinos, incluindo dez mulheres. Este crescimento não foi resultado da atividade missionária. Mas isso aconteceu quando as sinagogas existentes perceberam que a sua sobrevivência dependia da atração de novos fiéis e que estavam a aderir à onda conservadora. Na época, muitos pediram ao seminário que recomendasse um rabino para orientar a conversa em direção a uma interpretação progressista do Judaísmo.

          A versão do judaísmo conservador de Marshall Mayer, que combinava fé religiosa e ação social, atendeu a uma necessidade específica da sociedade argentina. Atraiu filhos e netos de judeus esquerdistas e seculares que haviam sido alienados da religião devido à sua aparente desconexão com as questões da época. É importante ressaltar que proporcionou uma saída para judeus política e socialmente conscientes numa época em que a opressão militar tornava perigosa a acção política e social. Meyer e o Seminário iniciaram um processo para converter o Judaísmo na América Latina de um conjunto de regras e obrigações sem relevância aparente para o mundo moderno para um modo de vida ético informado pelo passado e aplicável à vida contemporânea. Ao fundar um seminário rabínico para a formação de líderes espirituais de forma progressiva, preparados para assumir funções de liderança em suas comunidades, Meyer também possibilitou que os judeus argentinos aceitassem uma proposta da Igreja, em caso de abertura.

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Retorno

 El giro contemporáneo hacia la ultra-ortodoxia, visto como un retorno o tshuvá, se originó en la década de 1940 como un intento de explicar el horror actual del Holocausto. Según lo interpreta Menahem Mendel Schneerson (1902-1994), séptimo Rebe de la dinastí Jabad Lubavich, los judíos están atravesando un “holocausto espiritual: la secularización de la vida judía en Estados Unidos.” Este empobrecimiento espiritual puede revertirse mediante un retorno a la auténtica tradición judía, y sólo ese retorno traerá el advenimiento de la Era Mesiánica. Bajo esta bandera, Jabad y otras sectas ultra-religiosas fueron pioneras en una misión global para transformar a seculares, liberales e incrédulos en judíos ortodoxos (estos grupos no tienen ningún interés en convertir a los no judíos al judaísmo). . .

         Se envían emisarios ortodoxos a vivir en zonas donde se cree que el secularismo y el liberalismo están diezmando la vida judía. Jabad, escribe Mary Topel, para despertar la chispa de la divinidad, se ha transformado en un imperio transnacional con una agresiva política de proselitismo. Estos emisarios deben guardar los propios preceptos religiosos, dando ejemplo de vida moral cumpliendo los mandamientos de la halajá, incluido casarse y formar familias numerosas. Los militantes se consideran a sí mismos librando una guerra espiritual para despertar la chispa de la divinidad que reside en cada judío pero que ha sido cubierta por la influencia de la sociedad en general. Esta militancia al servicio de una causa justa impulsa a jóvenes misioneros a lugares como Mumbai, Kinshasa o São Paulo para ubicar a los judíos no observantes y a ellos en una vida de espiritualidad judía. El objetivo es la creación de nuevas familias y comunidades ortodoxas. Estas misiones han tenido éxito en muchas ciudades de América, de las cuales São Paulo es un ejemplo. En 1985 había cuatro rabinos ortodoxos en esa ciudad. En el año 2000, tras la llegada de las misiones de Jabad, más de cien rabinos estaban activos allí. También hubo  estaban activos allí. También había quince nuevas sinagogas, tres ieshivá, dos academias religiosas para adultos, instalaciones para el sacrificio de carne kosher, baños rituales y cinco escuelas para niños, que habían eclipsado a las tres escuelas seculares existentes. En la década de 1990 habían aparecido restaurantes, librerías y centros de estudio kosher, y los rabinos organizaban actividades para jóvenes, seminarios, fiestas con pizza y otras actividades que atraían a personas que quizá no estaban pensando en la teshuvá pero que disfrutaban de reunirse con otras personas como ellos. A medida que más personas se conectaron a las hospitalarias Casas de Jabad, los espacios judíos que antes habían sido seculares se volvieron ortodoxos.

    El movimiento respondió a las necesidades de los judíos que podrían haber triunfado en el mundo material, pero que buscaban una trascendencia en su vida espiritual que no podían encontrar en el ambiente católico. Dentro de los espacios judíos donde sintieron un sentido de pertenencia, aceptaron el liderazgo de rabinos que les daban seguridad de los valores inmutables del judaísmo, que habían guiado a sus antepasados ​​y todavía podían enseñarles a uno cómo vivir en el mundo moderno. La evolución de las escuelas hebreas, que en Sao Paulo, como en otros lugares, había sido secular, ejemplifica los métodos proselitistas de Jabad. Según un acuerdo con un filántropo que aportó los fondos necesarios, las escuelas incorporaron profesores ortodoxos a su plantilla. Los padres no pusieron objeciones: en lugar de conformarse con maestros voluntarios o mal preparados, sus hijos ahora estudiarían judaísmo con rabinos expertos. Maestros carismáticos obtuvieron ron la atención de los estudiantes y el apoyo de sus padres. Pero estos profesores bien considerados pronto se negaron a enseñar a niñas en las clases mixtas existentes; Luego se opuso a enseñar a los hijos de matrimonios mixtos, a quienes no consideraban judíos. Bat mitzvah (la ceremonia de mayoría de edad para las niñas, paralela al bar mitzvah para los niños) fue degradada al asignar a las niñas a una habitación separada y no permitirles expresar sus oraciones en voz alta. Los directores que se opusieron a estos cambios fueron silenciados por su junta directiva con el fin de conservar la condicional financiación. A diferencia de la situación comparable en Israel, donde los intentos de imponer la ortodoxia a la población han encontrado resistencia, en el año 2000 los judíos de Sao Paulo estaban en camino de aceptar la ortodoxia.

  Jabad fue uno de los primeros y entusiastas en adoptar la tecnología. Su sitio web contiene un directorio de centros de Jabad en todo el mundo (en 2012, había once en Brasil, quince en Argentina, dos en Venezuela y uno en Paraguay). Pestañas en este sitio ofrece convenientemente lecciones de ley judía, sermones, cocina kosher, así como historias humorísticas que los jasidim cuentan para intrigar a los oyentes y personalizar conceptos religiosos. La pestaña marcada “pregúntale al rabino” se eliminó porque estaba recibiendo miles de consultas de no -judíos. tres grupos. Jabad evita particularmente: los pentecostales, las personas que creen que descienden de los marranos y aquellos que desean convertirse al judaísmo para calificar para emigrar a Israel.

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O desafio de la religião

A ausência de um núcleo religioso na vida judaica passou a ser vista como o principal motivo do ritmo acelerado da exogamia, que trouxe consigo a perspectiva do desaparecimento do judaísmo do continente. É claro que o desaparecimento do Judaísmo não é o mesmo que o desaparecimento físico dos Judeus, e os Judeus divergem quanto ao valor duradouro do Judaísmo. As pessoas “de ascendência judaica” continuam a viver e a prosperar (ou não) como cidadãos do seu país de adoção, enquanto as memórias da vida em kehillah se afastam cada vez mais dos horizontes dos pais e avós. Um número crescente de Judeus funde-se em versões nacionais do caldeirão cultural, enquanto os Judeus Ortodoxos recuam perante o “horror” da assimilação. Atualmente está em curso uma luta entre propostas de direções muito diferentes para a vida judaica latino-americana, Duas das várias visões religiosas opostas são descritas aqui. As decisões tomadas determinarão como os judeus se adaptarão e serão aceitos pelas sociedades latino-americanas.

Renovação

Como líder da recém-fundada Comunidade Bet El de Buenos Aires nas décadas de 1960 e 1970, o rabino americano Marshall Meyer assumiu como missão renovar o judaísmo e reintegrar jovens judeus seculares ao judaísmo. Influenciado pela Teologia da Libertação (a realização da crença religiosa através da conexão social), Meyer trabalhou para mover a sinagoga da periferia da vida judaica argentina para o seu centro. Começou criando um ambiente que atraiu toda a família: homens e mulheres incorporados ao serviço religioso e orações hebraicas traduzidas para o espanhol. Estas inovações foram rejeitadas quando Meyer as propôs na Congregação Israelita da República Argentina (CIRA) e foram a causa da divisão congregacional.

  Embora ele próprio tenha sido criado no movimento conservador, Meyer recrutou um rabino marroquino para lhe fornecer uma âncora ortodoxa. (O conservadorismo une a Ortodoxia e a Reforma, preservando os ensinamentos essenciais do Judaísmo, ao mesmo tempo que permite que os costumes considerados obsoletos expirem.) Com a ajuda deles, Meyer fundou um Seminário Rabínico para começar a treinar jovens (e eventualmente mulheres) para atender à necessidade de estudantes de língua espanhola. pessoal religioso educado nos modos religioso e secular. Ao contrário dos rabinos importados do estrangeiro, os seminaristas de Buenos Aires também se matriculariam numa universidade argentina, fechando a lacuna que existia anteriormente entre as congregações e os seus líderes espirituais. O seminário abriu uma escola diurna para o ensino fundamental até o ensino médio, iniciou cursos de educação de adultos e um programa de formação de professores, estabeleceu uma biblioteca judaica e hebraica e organizou a tradução de obras religiosas básicas do hebraico para o espanhol. O seminário iniciou o renascimento da vida congregacional moribunda ao legitimar um processo de conversão (ainda controverso) que trouxe para a comunidade cônjuges que não nasceram judeus, em vez de excluir membros que se casaram com não-judeus. . .

 Ao contrário dos pretensos reformadores da Igreja Católica, os judeus conservadores não tinham oponentes institucionais no seu esforço para os libertar de uma tradição que acreditavam ter perdido a sua relevância para o mundo moderno. Em 1970, o Seminário Rabínico alcançou o status pleno de seminário para a formação de rabinos e tornou-se afiliado do Seminário Teológico Judaico de Nova York, o centro acadêmico, cultural e religioso do Judaísmo Conservador. A partir de então, alunos e professores fizeram a transição entre o Seminário e a Comunidade Bet El. Em 1988, cerca de cinquenta congregações conservadoras funcionavam na Argentina, Chile, Peru, Brasil, Colômbia e México, trinta delas com rabinos formados no Seminário. e acolheu mais de cem mil paroquianos. Em 2000, o Seminário ordenou noventa rabinos, incluindo dez mulheres. Este crescimento não foi resultado da atividade missionária. Mas isso aconteceu quando as sinagogas existentes perceberam que a sua sobrevivência dependia da atração de novos fiéis e que estavam a aderir à onda conservadora. Na época, muitos pediram ao seminário que recomendasse um rabino para orientar a conversa em direção a uma interpretação progressista do Judaísmo.

          A versão do judaísmo conservador de Marshall Mayer, que combinava fé religiosa e ação social, atendeu a uma necessidade específica da sociedade argentina. Atraiu filhos e netos de judeus esquerdistas e seculares que haviam sido alienados da religião devido à sua aparente desconexão com as questões da época. É importante ressaltar que proporcionou uma saída para judeus política e socialmente conscientes numa época em que a opressão militar tornava perigosa a acção política e social. Meyer e o Seminário iniciaram um processo para converter o Judaísmo na América Latina de um conjunto de regras e obrigações sem relevância aparente para o mundo moderno para um modo de vida ético informado pelo passado e aplicável à vida contemporânea. Ao fundar um seminário rabínico para a formação de líderes espirituais de forma progressiva, preparados para assumir funções de liderança em suas comunidades, Meyer também possibilitou que os judeus argentinos aceitassem uma proposta da Igreja, em caso de abertura.

Retornar

A viragem contemporânea em direcção à ultraortodoxia, vista como um regresso ou tshuva, teve origem na década de 1940 como uma tentativa de explicar o actual horror do Holocausto. Conforme interpretado por Menahem Mendel Schneerson (1902-1994), sétimo Rebe da dinastia Chabad Lubavich, os judeus estão passando por um “holocausto espiritual”: a secularização da vida judaica na América. Este empobrecimento espiritual pode ser revertido através de um regresso à autêntica tradição judaica, e só esse regresso provocará o advento da Era Messiânica. Sob esta bandeira, Chabad e outras seitas ultra-religiosas foram pioneiras numa missão global para transformar seculares, liberais e incrédulos em judeus ortodoxos (estes grupos não têm interesse em converter não-judeus ao judaísmo…

          Emissários ortodoxos são enviados para viver em áreas onde se acredita que o secularismo e o liberalismo estão dizimando a vida judaica. Chabad, escreve Mary Topel, para despertar a centelha da divindade, foi transformado num império transnacional com uma política agressiva de proselitismo. Estes emissários devem manter os seus próprios preceitos religiosos, dando um exemplo de vida moral ao cumprir os mandamentos da halacha, incluindo casar-se e constituir famílias numerosas. Os militantes consideram-se travadores de uma guerra espiritual para despertar a centelha de divindade que reside em cada judeu, mas que foi ofuscada pela influência da sociedade em geral. Esta militância a serviço de uma causa justa leva jovens missionários a lugares como Mumbai, Kinshasa ou São Paulo para colocar judeus não-observantes e eles mesmos em uma vida de espiritualidade judaica. O objetivo é a criação de novas famílias e comunidades ortodoxas. Essas missões têm tido sucesso em muitas cidades da América, das quais São Paulo é um exemplo. Em 1985 havia quatro rabinos ortodoxos naquela cidade. Em 2000, após a chegada das missões Chabad, mais de cem rabinos atuavam ali. Também estavam ativos lá. Havia também quinze novas sinagogas, três yeshivas, duas academias religiosas para adultos, instalações kosher para sacrifício de carne, banhos rituais e cinco escolas para crianças, que eclipsaram as três escolas seculares existentes. Na década de 1990, surgiram restaurantes, livrarias e centros de estudo kosher, e os rabinos organizaram atividades para jovens, seminários, festas de pizza e outras atividades que atraíram pessoas que talvez não estivessem pensando em teshuvá, mas que gostavam de se encontrar com eles. eles. À medida que mais pessoas se conectavam às hospitaleiras Casas Chabad, os espaços judaicos que antes eram seculares tornaram-se ortodoxos.

   O movimento respondeu às necessidades dos judeus que poderiam ter tido sucesso no mundo material, mas que procuravam uma transcendência nas suas vidas espirituais que não conseguiam encontrar no ambiente católico. Dentro dos espaços judaicos onde eles sentiram um sentimento de pertencimento, aceitaram a liderança dos rabinos que lhes deram garantias dos valores imutáveis ​​do Judaísmo, que guiaram seus ancestrais e ainda poderiam ensinar como viver no mundo moderno. A evolução das escolas hebraicas, que em São Paulo, como em outros lugares, tinha sido secular, exemplifica os métodos de proselitismo de Chabad. Sob um acordo com um filantropo que forneceu os fundos necessários, as escolas acrescentaram professores ortodoxos ao seu quadro de funcionários. Os pais não levantaram objecções: em vez de se contentarem com professores voluntários ou mal preparados, os seus filhos estudariam agora o Judaísmo com rabinos experientes. Professores carismáticos ganharam a atenção dos alunos e o apoio dos pais. Mas estes professores conceituados logo se recusaram a ensinar meninas nas classes mistas existentes; Ele então se opôs a ensinar filhos de casamentos mistos, que eles não consideravam judeus. O bat mitzvah (a cerimônia de maioridade para as meninas, paralela ao bar mitzvah para os meninos) foi degradado ao designar as meninas para uma sala separada e não permitir que elas fizessem suas orações em voz alta. Os administradores que se opuseram a estas mudanças foram silenciados pelo seu conselho de administração, a fim de preservar o financiamento condicional. Ao contrário da situação comparável em Israel, onde as tentativas de impor a Ortodoxia à população encontraram resistência, no ano 2000 os judeus de São Paulo estavam no caminho da aceitação da Ortodoxia.

  Chabad foi um dos primeiros e entusiasmados adotantes da tecnologia. Seu site contém um diretório de centros Chabad em todo o mundo (em 2012, havia onze no Brasil, quinze na Argentina, dois na Venezuela e um no Paraguai). As guias deste site oferecem convenientemente aulas de lei judaica, sermões, culinária kosher, bem como histórias humorísticas que os hassidim contam para intrigar os ouvintes. A aba marcada “pergunte ao rabino” foi removida porque estava recebendo milhares de perguntas de não-judeus. três grupos. Chabad evita particularmente: os pentecostais, pessoas que acreditam ser descendentes dos marranos e aqueles que desejam se converter ao judaísmo para se qualificarem para imigrar para Israel.

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Samuel Rawet ( 1929-1984) Contista judaico brasileiro/Brazilian Jewish Short-Story Writer– “O profeta”/”The Prophet” — conto de importȃncia histórica/short-story of historical importance

       

Samuel Rawet

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Aclamado como um pioneiro da moderna literatura judaico-brasileira, Samuel Rawet escreveu contos e romances que exploraram temas de alienação e deslocamento. Nascido perto de Varsóvia, na Polónia, Rawet fez do Brasil, país católico romano, o seu lar adoptivo, mas a sua escrita revela um forte sentido de alteridade dentro desta sociedade mais ampla. Rawet mudou-se para o Brasil aos sete anos. Engenheiro formado, morou no Rio de Janeiro até 1957, quando se mudou para a nova capital nacional, Brasília, para ajudar a projetar e construir sua infraestrutura. Sua vida foi isolada; o escritor morava sozinho e raramente viajava. Sua primeira coletânea de contos, Contos do Imigrante, é considerada um marco. As histórias de Rawet não apenas introduzem temas da experiência judaica no Brasil, mas também usam esses temas para desafiar a ideia comum do Brasil, ou mesmo de toda a América Latina, como uma entidade cultural única. Como observou seu tradutor inglês Nelson H. Vieira, ” Rawet” questiona o comportamento demonstrado em relação a alguns ‘outros étnicos’, que não refletem a cultura predominantemente cristã do Brasil e seus costumes tradicionais. Em outras palavras, no nível estrutural profundo, as histórias de Rawet abordam as dificuldades de conciliar as crenças e a cultura judaicas com as normas nacionalistas e culturais brasileiras.”

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Toda as ilusões perdidas, só lhe restara mesmo aquele gesto. Suspenso já o passadiço, e tendo soado o último apito, o vapor levantaria a âncora. Olhou de novo os guindastes meneando fardos, os montes de minérios. Lá embaixo correrias e fugas estranhas. Pescoçoa estirados em gritos para os que o rodeavam no parapeito do convés. Lenços. De longe o buzinar de automóveis a denunciar a vida que continuava na cidade que estava agora abandonando. Pouco lhe importavam os olhares zombeteiros de alguns. Em outra ocasião sentir-se-ia magoa­ do. Compreendera que a barba branca e o capotáo além do joelho compunham urna figura estranha para eles. Acostumara-se. Agora mesmo ririam da magra figura toda negra, exceto o rosto, a barba e as mios mais brancas ainda. Ninguém ousava, entretanto, o desafio com os olhos que impunham respeito e confiavam um certo ar majestoso ao conjunto. Relutou com os punhos trançados na remora a fuga de seu interior da serenidade que até ali o trouxera. Ao apito surdo teve consciência plena da solidei-o em que mergulhava. O retomo, única saída que encontrara, afigurava-se lhe vazio e inconsequente. Pensou, no momento de hesitação, ter agido como criança. A ideia que se fora agigantando nos últimos tempos e que culminara com a sua presença no convés tinha receio de vela esboroada no instante de dúvida O medo da solidão aterrava-o mais pela experiencia a querida no contacto diário coma morte. Em tempo ainda de em o passadio, por favor, de em!…

A figura gorda da mulher a seu lado girou ao ouvi ou ao julgar ouvir, as palavras do velho.  

       -O senhor falou comigo?

Inútil. A barreira da língua, sabia-o, não ilhe permitiria mais nada. O rosto da mulher desfigurou-se com a negativa e os olhos de súplica do velho. Com exceção o recurso mesmo seria a mímica e isso! hei acentuar a inutilidade que o dominava. S6 então percebeu que murmurara a frase, e envergonhado fechou os olhos.

    -Minha mulher, meus filhos, meu genro.

Aturdido mirava o grupo que ia abrasando e beijado, grupo estranho (mesmo o irmão e os primos, na fossem as fotografias remetidas antes ser-lhe-iam estranhos, também), e as lágrimas que então rolaram não e de ternura, mas gratidão. Os mais velhos conheceram-no. quando crianças. O próprio irmão havia trinta anos e pouco mais que um adolescente. Aqui se casara, tive filhos e filhas, e casara a filha também. Nem recolhido as molas macias do carro que o genro guiava cessaram de correr as lágrimas. As perguntas em assalto respondiam com gestos, meias-palavras, ou então com o silencio. O corpo magro, mas rijo, que apesar da idade produzira trabalho, e garantira sua vida, oscilava com as hei situações do tráfego, e a vista nenhuma vez procurou paisagem. Mas parecia concentrar-se como que respondendo a avalanche de ternura. O que! hei ia por dentro seria impossível transmitir no contacto superficial que iniciava agora. Deduziu que seus silêncios eram constrangedores. Os silêncios que se sucedi aquesto ­ rio sobre si mesmo, sobre o que mais terrível experimentara. Esquecer o acontecido, nunca. Mas como amesquinhá-lo, tirar-lhe a essência do horror ante urna mesa bem-posta, ou um chá tomado entre finas almofadas e macias poltronas? Os olhos ávidos e inquiridores que O rodeavam não teriam ouvido e visto bastante para também se horrorizarem e com ele participar dos silêncios? Um mundo só. Supunha encontrar aquém-mar 0 conforto dos que como ele haviam sofrido, mas que0 acaso pusera, marginalmente, a salvo do pior. E conscientes disso partilhariam com ele em humildade o en­contro. Vislumbrou, porém, um ligeiro engano-o apartamento ocupado pelo irmão ficava no último andar do prédio. A varanda aberta para o mar recebia a noite o choque das ondas com mais furor que de dia. Ali gostava de sentar-se (voltando da sinagoga após a prece noturna) com o sobrinho-neto no colo a balbuciarem ambas as coisas não sabidas. Os dedos da criança embarcavam-se na barba e as vezes tenteavam com forca urna ou outra mecha. Esfregava então seu nariz duro ao. arredondado e cartilaginoso e riam ambos um riso solto e sem intenções. Entretinham-se até a hora em que o irmão voltava e iam jantas.

Nas primeiras semanas houve alvoroce o e muitas casas a percorrer, muitas mesas em que comer, e em todas revoltava-o o apecto de coisa curiosa que assurgia. Com o tempo, arrefecidos os entusiasmos e a curiosidade, ficara só com o irmão. Falar mesmo só com este ou a mulher. Os outros quase não o entendiam, nem os sobrinhos, muito menos o genro, por quem principiava a não trair antipatia.

          Aí vem o “Profeta”!

Mal abrira a porta, a frase e o riso debochado de genro surpreenderam-no. Fez como se não tivesse no do o constrangimento dos outros. Atrasara-se no caminho da sinagoga e eles já o esperavam a mesa. De ré! céu, percebeu o olhar de censura do irmão e o risco do de um dos pequenos. Só Paulo (assim batizaram neto, que em realidade se chamava Pinkos) agitou as más num blá-blá como a reclamar a brincadeira perdida. Mudo, depositou o chapéu no cabide, ficando só coma preta de seda. Da lingua nada havia ainda aprendido. Mas, observador, se bem que não arriscasse, consegue por associação gravar alguma coisa. E o “profeta” que o riso moleque lhe pespegara a entrada, ia-se tornando familiar. Seu significado não o atingia. Pouco improva, no entanto. A palavra nunca andava sem um o irónico, urna ruga de riso. No banheiro (lavava as mãos recordou as inúmeras vezes em que os mesmos sons foram pronunciados a sua frente. E Iigou cenas. Do fundo boiou a lembrança de coisa análoga no templo.

O engano esbozado no primeiro dia acentuava-se. A sensação de que o mundo deles era bem outro, de que não participaram em nada do que fora (para ele) a noite horrível, ia se transformando lentamente em objeto con. ciente. Eram-lhe enfadonhos os jantares reunidos no. quais ficava a margem. Quando as crianças dormiam outros casais vinham conversar, apalermava-se com a toda palestra, as piadas concupiscentes, as cifras sem jogadas, a propósito de tudo, e, a vezes, sem nenhum.

      A guerra o despojara de todas as ilusãos anteriores e afirmara-lhe a precariedade do que antes era sólido. Só ficara intacta sua fé em Deus e na religião, tão arraiga­ da, que mesmo nos transes mais amargos conseguira expulsar. (Já o tentara, reconhecia, em vão.) Nem bem se passara um ano e tinha a sua frente numa monótona repetirão o que julgava terminado. A situação parasitária do genro despertou-lhe ódio, e, a muito custo, dormitou-o. Vira outras mãos em outros acenos. E as unhas não tratadas e os anéis, e o corpo roliço e o riso estúpido e a inutilidade concentravam a revolta que era geral. Quantas vezes (meia-noite ia longe) deixava-se esquecer na varanda com o cigarro aceso a ouvir numa fala bilíngue risadas canalhas (para ele) entre um cartear e outro.

–  Então é isso?

Os outros julgariam caduquice. Ele bem sabia que não. O monólogo fora-lhe útil quando pensava endoidar. Hoje era hábito. Quando só, descarregava a tensão urna que outra frase sem nexo senão para ele. Recordava-se que um dia (no início, logo) esborrara em meio a alguma conversa um tênue protesto, dera um sinal fraco de revolta, e talvez seu indicador cortasse o ar em acenos carregados de intenções. O mesmo na sinagoga quando a displicência da maioria tumultuara urna prece.

– Esses gordos senhores da vida e da fartura nada tem a fazer aqui – murmurara algum dia para si mesmo. Talvez daí profeta. (Descobrira, depois, o significado.)

Pensou em alterar um pouco aquela ordem e principiou a narrar o que havia negado antes. Mas agora não parecia interessar-lhes. Por condescendência (não compreendiam o que de sacrifício isso representava para ele ouviram-no de as primeiras veres e não faltaram lágrima nos olhos das mulheres. Depois, botou-lhes aborreci-me tão, enfado, pensou descobrir censuras em alguns olhar e adivinhou frases como estas: “Que quer com tudo só? Por que nos atormenta com coisas que não nos d’ rem respeito?” Havia rugas de remorso quando reco davam alguém que ilhes dizia respeito, sim. Mas era rápidas. Sumiam como um vinco em boneco de borracha. Não tardou que as manifestações se tornassem abetas, se bem que mascaradas.

      -O senhor sofre com isso. Porque insiste tanto calou. E mais que isso, emudeceu. Pouca veres Ilhe ouviram a palavra, e não repararam que se ia colocam numa situação marginal. Só Pinkos (ele assim lo chamaba) continuava a transitar sua barba, esfregar o nariz, contar histórias intermináveis com seus olhos redondo. Inutilidade.

O mar trazia lembranças tristes e lançava incógnitas. Solidão sobre solidão. Interrogava-se as veres, sobre sua capacidade de resistir a um meio que não e mais o seu. Chiados de ondas. Um dedo pequeno me grulhado em sua boca e um riso ao choque. Riso sacudi do. Poderá condenar? Não, se fosse gozo após a tormenta. Não, não poderia nem condenar a si mesmo se por qualquer motivo aderisse, apesar da idade. Mas os ou três? Cegos e surdos na insensibilidade e autossuficiência! Erguia-se então. Caminhava pelos cómodos, perscrutando no conforto um contraste que sabia de antemão não existir. Aliciava argumentos contra si mesmo inutilmente. E do fundo um gosto amargo, decepcionante. Os dias se acumulavam na rotina ele há era penosa a estado os sábados na sinagoga. O livro de orações aberto (desnecessário, de cor murmurava todas as preces) fechava os olhos as intrigas e se punha de lado, sempre de lado. No caminho admirava as cores vistosa das vitrinas, os arranha-céus se perdendo na volta do pescar o .incessante arrastar de automóveis. E nisso tudo lhe pesava a solidão, o estado de espírito que não encontrara afinidade. Soube ser recente a fortuna do irmão.

Numa pausa contara-lhe os anos de! uta e subúrbio, e triunfante, em gestos largos, concluía pela segurança atual. Mais que alaotaras sensações essa ecoou fundo. Concluiu ser impossível a afinidade, pois as experiencias eram opostas. A sua, amarga. A outra, vitoriosa. E no mesmo intervalo de tempo!? Deus, meu Deus! As noites de insônia sucederam-se. Tentou concluir que um sentimento de veja carregava-lhe o ódio. Impossível. Honesto consigo mesmo entreviu sem forcas essa conclusão. E suportou o oposto, mais difícil. As formas na penumbra do quarto (dormia com o neto) compunham cenas que não esperava rever. Madrugadas horríveis e ossadas. Rostos.de angústia e preces evolando das cinzas humanas. As feições da mulher apertando o xale no último instante, onde os olhos, onde os olhos que mudos traíram o grito animal? Risada canalha. Carteado. Cifras. Olha o “profeta” aí! E caras de gozo gargalhando do capote suspenso na cadeira. Impossível.

Gritos amontoados deram-lhe a notícia da saída. Olhou o cais. Lentamente a faixa d’água aumentava aos acenos finais. Retesou todas as fibras do corpo. Quando voltassem da estação de águas encontrariam a esta sobre a mesa. E seriam inúteis os protestos, porque tardios. Aproveitara a duas semanas de ausência. O suporte de turista (depois pensavam em tomá-lo pernente) facilitara-lhe o plano. O dinheiro que possessgotou-se a compra da passagem. Regresso. A empegada estranhou um pouco ao vê-lo sair com a mala. juntou o fato afigura excêntrica que no início! Ihle dirá um pouco de medo. Planos? Não os tinha. La a nas em busca da companhia de semelhantes, semelhe-te, sim. Talvez do fim. As energias que o gesto e agiu esgotaram-no, e a fraqueza trouxera hesitações. E te o irremediável os olhos frustrados dilataram-se na sia de travar o pranto. Miúda, já, a figuras acenando. O fundo montanhoso, azulando num céu de meio dia. Blocos verdes de ilhotas e espumas nos sulcos dos lanchãoes. (Há sempre gaivota. Mas não conseguiu lá.) Novamente os punhos cerrando e trançando, as te porás apoiadas nos brazos, e a figura negra, em for de gancho, trepidando em lágrimas.

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All illusions lost all, all he had left was that gesture. With the bridge already suspended, and the last whistle having sounded, the steamer would raise the anchor. He looked again at the cranes moving bales, the piles of ore. Down there, strange runs and escapes. His neck stretched out in yelling to those around him on the deck railing. Scarves. From afar, the honking of cars denouncing the life that continued in the city that he was now abandoning. He didn’t care much about the mocking looks of some people. Another time he would feel hurt. He understood that the white beard and the overcoat above the knee made for a strange figure for them. He got used to it. Right now, they would laugh at the thin figure, all black, except for the whiter face, beard and hands. However, no one dared the challenge the eyes that commanded respect and gave a certain majestic air to the whole. With his fists tightened and braided in remorse, he resisted escaping from his inner serenity, that had brought him there. At the dull whistle he was fully aware of the solidity he was diving into. The return, the only way out he had found, seemed empty and inconsequential. He thought, in the moment of hesitation, that he had acted like a child. The idea that had been growing in recent times and that had culminated in his presence on deck was a fear of a shattered sail in the moment of doubt. The fear of loneliness terrified him more because of his experience in daily contact with death. There’s still time to get to the walkway, please, get to it!… The fat figure of the woman at his side turned as she heard, or thought she heard, the old man’s words.

            -Did you speak to me?

            Useless. The language barrier, he knew, would not allow him anything else. The woman’s face was disfigured by the old man’s denial and pleading eyes. With the exception of the resource itself would be mime and that! I will accentuate the uselessness that dominated him. He then realized that he had mumbled the phrase, and in shame he closed his eyes.

    -My wife, my children, my son-in-law.

In the first weeks there was excitement and many houses to visit, many tables to eat at, and in all of them he was revolted by the appearance of some curious thing that appeared. Over time, as his enthusiasm and curiosity cooled, he was left alone with his brother. Talk only to this person or the woman. The others hardly understood him, not even his nephews, much less his son-in-law, for whom he began to show no antipathy.

Here comes the “Prophet”!

As soon as he opened the door, his son-in-law’s mocking laugh and statement surprised him. He acted as if he didn’t care about other people’s embarrassment. He was late on the way to the synagogue and they were already waiting for him at the table. Back up! Heaven, he noticed his brother’s look of reproach and the risk of one of the little ones. Only Paulo (that’s how they named his grandson, who was actually called Pinkos) made a fuss about it, as if to complain about the lost joke. Mute, placed his hat on the hanger, keeping only the black the silk kippah. He had not yet learned anything about language. But, as an observer, although he didn’t take any risks, he manages, by association, to record something. And the “prophet” that the kid’s laughter had spit out at him at the entrance, was becoming familiar. The kid had caught him at the entrance; it was becoming familiar. Its meaning didn’t reach him. It was hardly surprising, however. The word was never without an ironic edge, a laugh line. In the bathroom (he was washing his hands) he remembered the countless times he the same sounds were uttered in front of him. And he saw scenes. From the background floated the memory of a similar thing in the temple.

The deception outlined on the first day became more accentuated. The feeling that their world was very different, that they had not participated in anything in what had been (for him) the horrible night, slowly transforming into a conscious object. aware. Diners at dinner were boring to him, the limit of what he could take. When the children were asleep, other couples came to talk, they were amazed by all the talk, the concupiscent jokes, the numbers without plays, about everything, and, sometimes, about none.

The war had stripped him of all previous illusions and confirmed the precariousness of what was once solid. Only his faith in God and religion remained intact, so deep-rooted that even in the most bitter moments he didn’t manage to expel it. (He had already tried, he admitted, in vain.) Barely a year had passed, and he had in front of him a monotonous repeat of what he thought was finished. His son-in-law’s parasitic situation aroused hatred in him and, at great cost, put him to sleep. Turn other hands in other waves. And the untreated nails and the rings, and the plump body and the stupid laughter and uselessness concentrated the general revolt. How many times (midnight was long gone) would he let himself forget on the balcony, with a lit cigarette listening to scoundrel laughter (for him) in bilingual speech between one card game and another.

–  Then that’s it?

Others would judge it as obsolete. He knew better than that. The monologue had been useful when he was thinking about going crazy. Today it was habit. When alone, he released the tension with just another phrase, meaningless except for him. He remembered that one day (at the beginning, of course) he had blurted out a faint protest in the middle of some conversation, he had given a weak sign of revolt, and perhaps his index finger cut the air in waves full of intentions. The same in the synagogue, when the negligence of the majority had disrupted a prayer.

– These fat lords of life and plenty have nothing to do here – he had once muttered to himself. Maybe hence prophet. (I later discovered the meaning.)

He thought about changing that order a little and began to narrate what he had previously denied. But now it didn’t seem to interest them. Out of condescension (they didn’t understand what a sacrifice this represented for him), they heard it the first time they saw it and there was no shortage of tears in the women’s eyes. like these: “What do you want with everything alone? Why do you torment us with things that don’t give us any respect?” There were wrinkles of remorse when they recognized someone who concerned them, yes. But they were quick. They disappeared like a crease on a doll. It wasn’t long before the demonstrations became loud, albeit masked.

– You suffer from this. Why do you insist so much? And more than that, he was silent. Shortly after one am, they heard the word, and didn’t notice that they were putting themselves in a marginal situation. Only Pinkos (as he would call it) continued to groom his beard, rub his nose, tell endless stories with his round eyes. Uselessness.

The sea brought back sad memories and raised questions. Loneliness about loneliness. He often questioned himself about his ability to resist an environment that was no longer his own. Waves hiss. A small finger stuck in his mouth and a shocked laugh. Shaking laughter. Can you convict? No, if it was joy after the storm. No, he couldn’t even condemn himself, if for any reason he joined, despite his age. But the others? Blind and deaf in insensitivity and self-sufficiency! Then he stood up. I walked through the rooms, peering into the comfort of a contrast that I knew in advance didn’t exist. He vainly encouraged arguments against himself. And underneath, a bitter, disappointing taste. The days accumulated into a routine. and it was painful to spend Saturdays in the synagogue. The open prayer book (unnecessary, he mumbled all the prayers by heart) closed his eyes to the intrigues and set himself aside, always aside. On the way, I admired the eye-catching colors of the shop windows, the skyscrapers getting lost in the fishing lane and the incessant dragging of cars. And in all, this he was weighed down by loneliness, by a state of mind that he had not found affinity with. He learned that his brother’s fortune was recent.

During a pause, he told her the years in suburbia, and triumphantly, in broad gestures, concluded for current security. More than shouting sensations, this one echoed deep. He concluded that affinity was impossible, as the experiences were opposite. Yours, bitter. The other, victorious. And in the same time frame!? God my God! Sleepless nights followed one another. He tried to conclude that a feeling of seeing was carrying his hatred. Impossible. Being honest with himself, he saw this conclusion without force. And he endured the opposite, more difficult. The shapes in the dim light of the room (he slept with his grandson) composed scenes that he did not expect to see again. Horrible, bony mornings. Faces of anguish and prayers rising from the human ashes. The woman’s features tightening her shawl at the last moment, where the eyes, where the mute eyes betrayed the animal scream? Bastard laugh. Carded. Figures. Look at the “prophet” there! And happy faces laughing from the coat suspended on the chair. Impossible.

        Loud yelling gave him the news of his departure. He looked at the pier. Slowly the strip of water increased into the waves. It tensed every fiber in the body. When they returned from the water, they would find it on the table. And the protests would be useless, because they are too late. He had made the most of his two weeks away. The tourist support (later they thought about making it permanent) made his plan easier. The money he had was used up to buy the ticket. Return. The waitress was a little surprised when she saw him leave with the suitcase. put together. The fact appears eccentric than at the beginning! I say a I’m little scared. Plans? I didn’t have them. There you go in search of the company of others, similar to you, yes. Maybe from the end. The energies that the gesture and action had exhausted him, and the weakness had brought hesitations. And the hopelessly frustrated eyes widened in an effort to stop crying. Girl, the shapes lighting up. The mountainous background, blue in a midday sky. Green blocks of islets and foam in the wakes of the boats. (There is always a seagull. But he didn’t make it there.) Once again, his fists clenched and braided, he placed them on his arms, and the black figure, like a hook, trembled in tears.)

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Leandro Sarmatz–Escritor e editor brasileiro-judaico/Brazilian Jewish Writer and Editor– “Ariel, Quixote do Holocausto”/”Ariel, Quixote of the Holocausto”– do um conto/Excerpts from a short-Story

Leandro Sarmatz

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Porto-alegrense radicado em São Paulo há quase uma década, Leandro Sarmatz é jornalista e Mestre em Letras. Depois de já ter integrado antologias coletivas, seu primeiro livro de poesias, Logocausto, lançado em 2009, foi recebido pela crítica com elogios. Agora Leandro faz sua estréia na prosa com o livro de contos UMA FOME, uma obra madura e segura, que traz relatos em que o autor enfoca, entre outros temas, a vida de judeus durante a Segunda Guerra, assim como de seus descendentes.Neto de imigrantes judeus do leste europeu que se estabeleceram no Sul do Brasil no finalzinho da década de 20, o autor conta que a cultura judaica sempre foi uma presença importante em sua formação. A mesma cultura que impregnou autores tão diferentes entre si como Kafka e Bashevis Singer, Philip Roth e Aaron Appelfeld, que fazem parte de sua formação de leitor.Dono de “uma sabedoria artística raríssima entre escritores jovens” e de “estilo sóbrio, mas jamais de mera transparência”, como declara o escritor João Gilberto Noll no texto de orelha do livro, Leandro oscila entre o humor sutil, refinado, quase cerebral e uma indissolúvel melancolia.

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Born in Porto Alegre and living in São Paulo for almost a decade, Leandro Sarmatz is a journalist and Master in Letters. After having already integrated collective anthologies, his first poetry book, Logocausto, launched in 2009, was received by critics with praise. Now Leandro makes his debut in prose with the book of short stories UMA FOME, a mature and confident work, which brings stories in which the author focuses, among other themes, on the lives of Jews during the Second World War, as well as their descendants. Jewish immigrants from Eastern Europe who settled in southern Brazil at the end of the 1920s, the author says that Jewish culture has always been an important part of his upbringing. The same culture that permeated authors as different from each other as Kafka and Bashevis Singer, Philip Roth and Aaron Appelfeld, who form part of his reader training. of mere transparency”, as the writer João Gilberto Noll declares in the text of the ear of the book, Leandro oscillates between subtle, refined, almost cerebral humor and an indissoluble melancholy.

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Então alguém disse, ao ver que tais livros constituíamA minha dieta, que eu poderia ser

tomado por uma espécie                                 

de Dom Quixote do Holocausto       

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Morreu Zamler, que ficou conhecido—não sem alguma ironia, é custoso observar—como o “Dom Quixote do Holocausto … Deixou-se morrer. . .  

Zamler – nascido em Israel de pais brasileiros que militavam no movimento sionista – ganhou notoriedade ainda quanto era um estudante de pós-graduação nos Estados Unidos que mergulhara em toda uma bibliografia do Holocausto. Anne Frank, Primo Levi, Victor Klemperer, Aharon Appelfeld, a infinidade de diários, registros e cartas que testemunham a longa noite de vida da vida judaica na Europa de Hitler. Saiu-se com uma tese a um só tempo e enciclopédia, cobrindo um vasto escopo….  

Foi então que tudo começou. O primeiro artigo apareceu nas páginas de um velo jornal iídish em Nova York (desde os anos 70 editado em língua inglesa) …Assinado apenas como “Ariel”, seu autor dizia, em suma, que um novo Holocausto judaica estava em curso naqueles dias, e que era preciso denunciá-lo, antes que os primeiros comboios partissem em direção os campos de concentração. Houve quem tomasse o texto como uma peça de humor negro, outros enxergaram apenas mau-gosto, mas também houve quem, alarmado por tais predições, levasse a conversa de Ariel a sério. Todo Quixote tem seu próprio Sancho, e Phil Glukman, recém-saído de uma adolescência problemática em Little Odessa, logo iria se aproximar do autor da denúncia. Havia agora duas vozes a alardear a grande tragédia à vista.  

Porém o artigo, que poderia ter ficado restrito ao gueto intelectual judaico, ganhou ressonâncias quando o repórter de um grande jornal doa cidade o descobriu algumas semanas depois durante uma visita à casa de seus pais, num subúrbio elegante. Aquilo lhe pareceu um desses achados que fazem a sorte de um jornalista, catapultando-o para degraus mais altos na carreira. Quem quer que fosse, Ariel era um personagem singular.

Valia uma entrevista…   Como entrevistado, Ariel foi entrevistado, Ariel foi eloquente, inflamado e- por mais estapafúrdia que se seja a hipótese – convincente. Ele parecia realmente acreditar no que dizia, anotou o repórter, e no domingo seguinte a matéria ganhou diversas páginas do jornal. Havia ali muito da habitual comédia jornalista, que suas simplificações e atribuições errôneas, porém alguém com pouco senso de humor junto às autoridades policiais começou a monitorar os passos de Ariel…  

Não foi difícil encontrá-lo. Morava no pequeno apartamento alugado nos confins do Brooklyn….  

Como entrevistado, Ariel foi eloquente, articulado, inflamado e—por mais estapafúrdia q seja hipótese—convincente. Ele parecia realmente acreditar no que dizia, anotou o repórter, e no domingo seguinte matéria ganhou diversas páginas do jornal. Havia ali muito da habitual comédia jornalística, com suas simplificações e atribuições errôneas, porém alguém com pouco senso de humor junto às autoridades policiais começou a monitorar os passos de Ariel.  

Durante pelo menos dois anos, antes de ser emigrar para Brasil, Ariel, percorreu boa parte do território americano a denunciar o Holocausto que estava próximo. Deixou de ser uma figura algo folclórico da comunidade judaica e passou a dar palestras, oferecer palestras, oferecer testemunhos e encabeçar enormes eventos nos mais diversos lugares. Universidades do Meio-Oeste. A sede de uma milionária igreja coreana…Era imitado por atores em programas humorísticos. Convertera-se numa personalidade.

Até que foi preciso fugar. A polícia federal não o deixara em paz…

Doente, cansado de bradar pelo novo fim do povo judeu, com a moral combalida e acreditando realmente que o Brasil, que antes recebera Zweig e outros, realmente poderia ser um porto seguro, refugiu-se na casa de seus pais. Já era tarde, contudo. Tendo desistido de se cuidar, logo seu corpo iria se ressentir disso, e Ariel Zamler, “o Quixote de Holocausto”, mergulharia em um sono sem fin. Seu pesadelo havia acabado.

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Then someone said, seeing that such books constituted my diet, that I could be taken

for a type of Don Quixote

of the Holocaust.  

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Zamler died, he who had become known—not without some irony, it is difficult to observe—as the “Don Quixote of the Holocaust… He let himself die. . .  

Zamler – born in Israel to Brazilian parents who were active in the Zionist movement – ​​gained notoriety even as a graduate student in the United States who delved into an entire bibliography of the Holocaust. Anne Frank, Primo Levi, Victor Klemperer, Aharon Appelfeld, the multitude of diaries, records and letters that testify to the long night of Jewish life in Hitler’s Europe. He came out with both a thesis and an encyclopedia, covering a vast scope….

It was then that it all started. The first article appeared on the pages of a Yiddish newspaper in New York (published in English since the 1970s) … Signed only as “Ariel”, its author said, in short, that a new Jewish Holocaust was under way in those days. days, and that it was necessary to denounce it before the first convoys left for the concentration camps. There were those who took the text as a piece of black humor, others saw it as just bad taste, but there were also those who, alarmed by such predictions, took Ariel’s conversation seriously. Every Quixote has his own Sancho, and Phil Gluckman, fresh out of a troubled teen years in Little Odessa, would soon get close to the whistleblower. There were now two voices trumpeting the great tragedy in sight.

Worth an interview…

It wasn’t difficult to find him. He lived in the small, rented apartment in the wilds of Brooklyn….

But the article, which could have been confined to the Jewish intellectual ghetto, gained resonance when a reporter for a major city newspaper discovered it a few weeks later during a visit to his parents’ home in an upscale suburb. It struck him as one of those finds that make a journalist lucky, catapulting him to higher career ladders.

Whoever he was, Ariel was a singular character. As an interviewee, Ariel was eloquent, articulate, fiery, and—as far-fetched as it may be—convincing. He seemed to really believe what he was saying, noted the reporter, and the following Sunday, the article made several pages in the newspaper. There was much of the usual journalistic comedy there, with its simplifications and misattributions, but someone with little sense of humor among the police authorities began to monitor Ariel’s steps.

For at least two years, before emigrating to Brazil, Ariel traveled through much of the American territory to denounce the Holocaust that was at hand. He ceased to be something of a folk figure in the Jewish community and started to give lectures, offer lectures, offer testimonies, and head huge events in the most diverse places. Midwest Universities. The headquarters of a millionaire Korean church… He was imitated by actors in comedy programs. He had become a personality.

Until it was necessary to escape. The federal police would not leave him alone…

Sick, tired of crying about the new end of the Jewish people, with shaky morale and truly believing that Brazil, which had previously received Zweig and others, could really be a safe haven, he took refuge. if at your parents’ house. It was too late, however. Having given up on taking care of herself, soon his body would resent it, and Ariel Zamler, “the Quixote of Holocaust”, would sink into an endless sleep. Her nightmare was over.

Translation by Stephen A. Sadow

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Jacques Fux — Escritor y novelista brasileiro judaico/Brazilian-Jewish-Writer and Novelist–“No lembro”/”I Don’t Remember” Fragmento de uma novela/Section of a Novel — ״Amnésia ou no?״/ “Amnesia or not?״

Jacques Fux

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Jacques Fux é um autor brasileiro. Foi Visiting Scholar na Universidade de Harvard (2012–2014), realizou pós-doutorado na Universidade de Campinas, recebeu seu Ph.D. em literatura comparada pela UFMG e em língua, literatura e civilização francesas pela Universidade de Lille III. Possui mestrado em ciência da computação e bacharelado em matemática. Publicou quatro livros: Literatura e Matemática, premiado com o Prêmio Capes de Melhor Dissertação em Letras e Lingüística no Brasil; Antiterapias, sua primeira ficção, que recebeu o Prêmio São Paulo de Literatura; Brochadas; e Meshugá: um romance sobre a loucura.

Tradutora:

Hillary Auker se formou recentemente na Boston University com mestrado em Estudos Latino-Americanos com foco em tradução e escrita brasileira contemporânea. Ela também tem um B.A. em linguística com foco nas línguas espanhola e portuguesa, e atualmente trabalha no Departamento de Línguas Românicas da Universidade de Harvard.

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Jacques Fux is a Brazilian author. He was a visiting scholar at Harvard University (2012–2014), performed post-doctoral studies at the University of Campinas, received his Ph.D. in comparative literature from UFMG and in French language, literature, and civilization from the University of Lille III. He has a Master’s degree in computer science and a Bachelor’s degree in mathematics. He has published four books: Literatura e matemática, awarded the Capes Prize for the Best Dissertation in Letters and Linguistics in Brazil; Antiterapias, his first fiction, which received the São Paulo Prize for Literature; Brochadas; and Meshugá: um romance sobre a loucura.

Translator:

Hillary Auker recently graduated from Boston University with an M.A. in Latin American Studies with a focus in translation and contemporary Brazilian writing. She also has a B.A. in linguistics with a focus in Spanish and Portuguese languages, and is currently working in the Romance Languages Department at Harvard University. 

Por: Jacques Fux and Raquel Matsushita. As coisas de que não me lembro, sou. Aletra Editora

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Por Lee Wan Xiang, Asymptote Magazine

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As coisas de que não me lembro, sou

Não me lembro do dia em que fui para escola pela primeira vez. Não me lembro de nenhuma mordida, nenhum soco, nenhuma briga que tive com algum colega. Nem me recordo de ter sido colega de ninguém no jardim de infância. Não me lembro das brincadeiras, dos sorrisos, das corridas e saltos mirabolantes. também não me lembro das lágrimas da minha mãe quando me deixou pela primeira vez nessa escola. Não me recordo do meu desespero, do meu pranto, dos soluços e da dor de barriga de tanto chorar. Não me lembro da professora, de sua tentativa em ludibriar, transformar e recriar um mundo fora do útero dos meus pais. também não me lembro do dia em que a escola passou a ser essencial e que os amigos se tornaram fundamentais. Não lembro da profunda atenção que meus pais davam ao meu irmão, da completa ausência de tios e avós na minha criação. Não me lembro (e gostaria muito de reviver) o carinho especial da minha bisavó. O amor que ela viveu com minha mãe e que revivia comigo. também não me lembro do seu desaparecimento. de ser capaz de ressignificar amor e ausência.

Não me lembro do primeiro grito de reprovação que recebi (nem do segundo, nem do terceiro). também não me lembro de ter aprendido algo com esse grito, com esse tapa, com o dedo em riste, com o olhar sério, com a voz grossa, com a necessidade de ser educado. Não me lembro dos professores da minha infância. devem ter sido sensíveis, carinhosos e tolos. Não me lembro de colorir, de encaixar brinquedos, de jogar objetos em rebeldia, mostrando que eu tinha vontade própria, de gritar, fazer pirraça e calar quando bem entendia. Não me lembro de começar a escrever, de repetir infindavelmente as letras do meu nome, de descobrir o som distinto e paradoxal da última letra do meu sobrenome. de entender a herança pesada da minha família e da minha cultura. Não lembro de descobrir o fabuloso mundo que se desvelava com a minha alfabetização. mundo imponderável para meus avós e bisavós. Não me recordo de trazer para aula o nome e a profissão dos meus pais, avós, tios. Não me lembro de construir a árvore genealógica de minha família, de escutar sobre a origem dos meus ancestrais e dos ancestrais de meus amigos. Não me lembro de me dar conta de que as professoras não eram judias, de que o mundo não era judeu, de que tatuagens com números estranhos nos braços dos avós não eram coisas normais, comuns e cotidianas. Não me lembro de estranhar o nome Auschwitz ou de compreender que genocídios não eram coisas cotidianas e banais. Não me lembro de associar as palavras barbárie, poesia e amor.

Não me lembro de ter aprendido o alfabeto. de repetir fastidiosamente o som das vogais e das consoantes. Não me recordo de ter aprendido o estranho som da letra h e nem de ter a percepção e consciência do w. Não me lembro de sentir nenhum desejo, cobiça e volúpia pelo outro. ele ainda fazia parte de mim. Não me lembro da disputa e da competição pelo olhar da professora. Por seu amor e admiração. Não me lembro das brigas, das desilusões, das primeiras angústias que só aconteciam na escola. Não me lembro quando diferenciei pela primeira vez meninos de meninas. Não me recordo do dia em que olhei para uma menina e algo diferente se passou em mim. talvez um brilho mais intenso no meu olhar. talvez uma quentura inaugural percorrendo meu corpo.

Não me lembro da primeira vez em que cheguei em casa desiludido. Não me lembro do dia em que descobri que todos os outros alunos da escola também eram especiais, e que uns eram muito mais especiais e queridos pelas professoras que os outros. e eu não era um dos queridinhos. Não me lembro do dia em que algum amigo preteriu outro a mim. também devo ter apagado completamente a lembrança do dia em que uma menina escolheu olhar para outro e fechar os olhos para minha perfeição. Não lembro de compreender que o mundo poderia ruir um dia. Que eu podia me abalar. Que eu poderia sofrer.

Também não lembro do dia em que descobri que meus pais não eram perfeitos. Que meu pai não era herói. Que minha mãe o havia escolhido antes de me gerar. e que eu era somente o segundo, ou o terceiro. Não me lembro do dia em que reparei algum defeito nos meus pais. Não me lembro do dia em que eu percebi o cheiro deles. um cheiro que já não era meu. Não me recordo do dia em que tive vergonha dos meus pais. em que concebi as terríveis diferenças e limitações do meu irmão. e também tive vergonha e me escondi. e passei a esconder as histórias da minha casa. também não me lembro do dia em que comecei a invejar as outras famílias, fantasiadas na minha mente como normais, e que desejei estar no corpo de outro. também não sei quanto tempo isso tudo durou. e quanto tempo depois descobri que nada disso tinha sentido. Que cada um tinha que viver com suas próprias dores. e com suas próprias invenções.

Não me recordo de aprender hebraico. Não me lembro de saber que hebraico não se falava correntemente no Brasil. também não me lembro do dia em que comecei a esquecer propositalmente essa língua. Nem de quando percebi que iídiche não se falava na rua. também não me lembro do dia em que entendi que as palavras em iídiche tinham uma conotação negativa. uma conotação de dor, de saudade da diáspora da minha família e de sentir no corpo e na fala o não pertencimento a lugar algum. uma tentativa inútil de preservação cultural. de recordar tempos e épocas em que meus antepassados tinham que fugir constantemente. também não me lembro quando entendi que falar essa língua era discriminar as pessoas e o país que acolheram minha família. também não sei se eles foram acolhidos, se foram felizes, se viveram em paz. Não me lembro de conversar com eles sobre isso. Nem sei como eles me passaram os valores culturais, históricos, familiares e dolorosos do judaísmo. também não lembro da primeira vez que comi guelfite fish.

Não me recordo da paixão pelas rezas matinais. Não me lembro o porquê cantava com tanto fervor e alegria versos em hebraico (que eu não entendia nada). Não me lembro da certeza que tinha em relação à existência de deus. do deus judeu. Não sei dizer quando eu rezava acreditando que deus me ouviria. e quando eu trapaceava, e era vil e mesquinho, almejando que deus me esquecesse naquele momento. Não me lembro do dia em que deus me abandonou e nem do dia em que eu o abandonei. eternamente. Não me lembro de tê-lo matado, e nem de quando ele matou meu tio. também não sei quem o fez. tampouco entendi a dor da minha família, da minha avó, dos meus primos. também não lembro do dia que compreendi que eu e meus pais éramos mortais.

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Não me lembro mais do dia em que passei a considerar o amor como sofrimento. Não me recordo o dia em que amei a primeira menina que não me queria. em que passei a me tornar melancólico. também não lembro da certeza que tinha que era o melhor e o mais inteligente de todos. Não me lembro de me tornar estúpido, arrogante e metido. de me retrair. de ficar na minha. de blasfemar. de achar que o mundo não era bom o suficiente para mim. também não me lembro do dia em que gostei de me ver inserido no mundo goy, e que passei a detestar e amar simultaneamente o judaísmo. A detestar fazer jejum e lembrar, constantemente, das infelicidades desse meu povo. A me encantar com a possibilidade de viver em um país forte, novo, briguento. também não me lembro do dia em que tive pela primeira vez ojeriza da sinagoga e de muitos de seus membros. Não lembro mais o motivo. Não me lembro mais da aversão que tive dos seus cheiros, roupas e mesquinharias.

Não lembro mais por que me achava diferente e melhor em meio ao mundo católico. também não me lembro da razão por me considerar um estranho e pior no mundo judeu. Não me lembro por que comecei a ler. Não me lembro mais do primeiro, do segundo e do terceiro livro que li. Não me lembro das sensações que senti. Não me lembro por que me achava especial por carregar um livro nas mãos. Não me lembro de gostar de ler nenhum livro para o colégio.

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By Lee Wan Xiang, Asymptote Magazine

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I Am What I Can’t Remember

I can’t remember the very first day I went to school. I can’t remember biting, punching, or fighting with classmates. I can’t remember being anyone’s classmate at all. I can’t remember the games, the smiles, the running, the spectacular somersaults. Nor can I remember how hurt I was when my mother left me alone at school for the first time. I can’t remember my despair, my weeping, my hiccups, and my stomach aches from crying so much. I can’t remember the teacher thinking she could play the part of my parents. I also can’t remember the day school became essential and that the friends became fundamental as well. I can’t remember the considerable attention that my parents paid to my brother, or the complete absence of uncles and grandparents in my upbringing. I can’t remember (and I would like very much to relive it), my great-grandmother’s special affection. The love that she shared with my mother and that she continued with me. I also can’t remember her becoming unable to show love and affection.

I can’t remember the first time I was scolded (nor the second, nor the third). I also can’t remember having learned something from this scolding, slap, pointed finger, serious look, or stern voice about the need to behave myself. I can’t remember the teachers from my childhood, but I imagine they should have been sensitive, loving, and silly. I can’t remember coloring, playing with toys, or throwing things in protest to demonstrate that I had my own will, or shouting, or being stubborn, only quieting when I wanted to. I can’t remember beginning to write, infinitely repeating the letters of my name, discovering the distinct and paradoxical sound of the last letter of my last name. Or understanding the heavy past of my family and my culture. I can’t remember discovering the bright, new world that unfolded with literacy. An unimaginable world for my grandparents and great-grandparents. I can’t remember coming to class and sharing the names and professions of my parents, grandparents, and uncles. I can’t remember making a family tree or hearing the origin of my ancestors and my friend’s ancestors. I can’t remember realizing that my teachers weren’t Jewish, that the world wasn’t Jewish, and that tattoos with strange numbers on your grandparents’ arms weren’t a normal, common, everyday thing. I can’t remember ever finding the name “Auschwitz” peculiar, or understanding that genocides weren’t normal, common, everyday topics either. I can’t remember connecting the words savagery, poetry, and love.

I can’t remember having learned the alphabet. Or carefully repeating the sounds of the vowels and consonants. I can’t remember having learned the strange sound of the letter h or having discovered the sensation of the w. I don’t remember feeling any coveted or sensual desire for another. That wasn’t yet a part of me. I can’t remember competing for a teacher’s attention. For her love and admiration. I can’t remember the fights, disappointments, the frustrations that only happened in school. I can’t remember the first time I saw a difference between boys and girls. I can’t remember the day that I looked at a girl and noticed something change in me. Like a more intense sparkle in my eye. Like an initial heat moving through my body.

I can’t remember the first time that I came home disappointed. I can’t remember the day that I discovered that all the other students were also special, and that the professors loved some of these special students more than the others. And I wasn’t special. I can’t remember the day one friend chose someone else over me. I should have completely erased from my memory the day that a girl chose to look for someone else, ignoring my perfection. I can’t remember understanding that the world could collapse one day. That I could be upset. That I could suffer.

I also can’t remember the day I discovered my parents weren’t perfect. That my dad wasn’t a hero. That my mother had chosen my father before she chose to conceive me. That I was only her second choice, or maybe her third. I can’t remember the day that I noticed my parents’ flaws. I can’t remember the day I first perceived their scents. A scent that wasn’t quite mine. I can’t remember the day I felt ashamed of my parents. When I could conceive the terrible differences and limitation of my brother. I was ashamed of being ashamed, and hid myself. I started to hide the stories of my house. I can’t remember the day I started being jealous of other families I thought to be normal, or the day I started wanting to be someone else. I don’t know how much time it took to create these fantasies. And how much time after their inception I discovered that they were impossible, and made no sense. When I discovered that everyone had to live his own pain and his own stories.

I can’t remember learning Hebrew. I can’t remember learning that Hebrew wasn’t spoken correctly in Brazil. I also can’t remember the day that I started to forget this language deliberately. Or when I perceived that Yiddish wasn’t spoken out in the streets. I can’t remember the day that I understood Yiddish words to have a negative connotation. A connotation of pain, of longing, of the diaspora of my family and feeling like neither my language nor my body could belong to one place or another. A useless attempt at cultural preservation. Of remembering times and epochs when my ancestors had been constantly on the run. Also, I can’t remember when I understood that to speak this language was to discriminate against the people and the country that had welcomed my family. I also can’t know if they truly felt welcome, if they were happy, if they lived in peace. I can’t remember conversing with them about it. Nor do I know how they passed on to me culture, history, family values, and the pain of Judaism. I also can’t remember the first time I ate gefilte fish.

I can’t remember the passion I had for the morning prayers. I can’t remember the reason I sang the Hebrew verses (of which I understood nothing) with such fervor and happiness. I can’t remember the certainty I had regarding the existence of God. Of the Jewish God. I can’t say that when I prayed, I believed that my God could hear me. I also can’t say for certain when I deceived Him, and when I was vile and petty, longing for God to forget me in those moments. I can’t remember the day that God abandoned me nor the day that I abandoned Him. Forever. I can’t remember having killed Him, or when He killed my uncle. I don’t know who did it. I can’t remember my family’s pain—my grandparents’ or my cousins’. I can’t remember the day I understood that my parents and I were just human.

 
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I can’t remember most of the day that I began to consider love to mean suffering. I can’t remember the day I first loved the first girl that didn’t love me back. When I started to turn melancholy. I can’t remember feeling certain that I was the best and most intelligent of anyone. I don’t remember feeling stupid, arrogant, and brazen. Being a wallflower. Hiding within myself. Cursing others. Finding out that the world was not good or good enough for me. I also can’t remember the day that I liked being embedded in the goy world, and that I started hating and loving Judaism simultaneously. When I started detesting fasting and remembering, constantly, the unhappiness of my people. I was enchanted by the possibility of living in a strong, new, aggressive country. I can’t remember the day that I had, for the first time, a grudge against the synagogue and many of its members. I can’t remember why anymore. I can’t remember the aversion I had to their scents, clothes, and stinginess.

I can’t remember why I found the Catholic world to be different and better. I can’t remember the reason for considering the Jewish world strange and worse. I can’t remember why I started to read. I no longer remember the first, second, or third book that I read. I can’t remember how they made me feel. I can’t remember why I found carrying a book around in my hands so special. I can’t remember liking any of the books I read for high school.

Translation by Stephen A. Sadow
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Books by Jacques Fux

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Premio Nobel

Adina Worcman — Escultora e artista brasileira-judaica/Escultora y artista judío-brasileña/Brazilian Jewish Sculptor and Artist — “Familia”/”Family”

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Adina Worcman

O site da  internet/Website

Arte Expo

Adina Worcman, naturalizada brasileira, nasceu em Rosenheim (Alemanha), em 1948. Formou- se em Pedagogia, Língua Hebraica e Arte Educação, e desde 1975 está envolvida com as artes plásticas. Lecionou Educação Artística, Língua Hebraica e Artes Plásticas em vários ateliês-escola durante 25 anos. Sua formação inclui cursos e workshops no Liceu de Artes e Ofícios, nas Oficinas Oswald de Andrade, Mube, Pinacoteca do Estado de SP e na Escola Panamericana de Artes. Cursou escultura com os professores Antonio Santos Lopes e Carlos Garcia Aires, e pintura com Renato Pinto. Premiada no Brasil e exterior, cria troféus para várias empresas, e em 2006 recebeu o 9º lugar em escultura na 6ª Bienal de Roma. Além das Artes, Adina se dedica à escrita e faz parte de Antologias Literárias no Brasil e exterior.

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Adina Worcman, brasileña naturalizada, nació en Rosenheim (Alemania), en 1948. Se licenció en Pedagogía, Lengua Hebrea y Educación Artística, y desde 1975 se dedica a las artes plásticas. Enseñó Educación Artística, Lengua Hebrea y Artes Plásticas en varios talleres escolares durante 25 años. Su formación incluye cursos y talleres en el Liceo de Artes y Oficios, en Oswald de Andrade, Mube, Pinacoteca do Estado do SP y en la Escuela Panamericana de Artes. Estudió escultura con los profesores Antonio Santos Lopes y Carlos García Aires, y pintura con Renato Pinto. Premiada en Brasil y en el exterior, crea trofeos para varias empresas, y en 2006 obtuvo el noveno lugar en escultura en la VI Bienal de Roma. Además de las artes, Adina se dedica a la escritura y es parte de Antologías literarias en Brasil y en el exterior.

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Adina Worcman, naturalized Brazilian, was born in Rosenheim (Germany), in 1948. She graduated in Pedagogy, Hebrew Language and Art Education, and since 1975 she has been involved with the plastic arts. He taught Artistic Education, Hebrew Language and Plastic Arts in several school workshops for 25 years. His training includes courses and workshops at the Lyceum of Arts and Crafts, at the Oswald de Andrade, Mube, Pinacoteca do Estado do SP and at the Panamerican School of Arts. He studied sculpture with professors Antonio Santos Lopes and Carlos Garcia Aires, and painting with Renato Pinto. Awarded in Brazil and abroad, she creates trophies for several companies, and in 2006 she received the 9th place in sculpture at the 6th Bienal de Roma. In addition to the Arts, Adina is dedicated to writing and is part of Literary Anthologies in Brazil and abroad.

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Mezuza

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Violinista (Maestro Isaac Karabichesky)

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Intérprete de Shofar

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Familia

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Oh Calcutta

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Can Can

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 Liberdade de ser

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Dançarinas

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Maternidad

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Familia

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Familia

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Rostro

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Escultura en bronce con base de granito

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